Tuesday, September 4, 2007

Dois anos depois

Vamos nos casar em 6 meses a partir de hoje e sinto, como se o tempo não existisse para nós. Estivemos sempre juntos, cada vez que eu acreditava escondida, nesse amor do Walt Disney, cada vez que eu tentava de novo, cada vez que eu esperava, era por ele que eu fazia. E sei que estaremos sempre assim. Um pelo outro, caminhando juntos. Até que a princesa aqui fique velha e use calcinhas enormes, até que o príncipe perca os cabelos e ganhe barriga, até que o romantismo nos deixe e eu volte a ser uma amargurada senhora de 27 anos... Não importa. Até que tudo aconteça, ate que os furacões e os ventos e os maremotos venham, eu sei que é esse amor, que vai sempre me reerguer.”

Já faz quase dois anos que escrevi isso, aí em cima.
Nos casamos 6 meses depois que essa menina encantada escreveu o texto acima.
Essa menina, tonta de amor, se casou com um rapaz, um jovem, também tonto de amor.
Hoje, somos um homem e uma mulher. Hoje, 2 anos depois, sou outra.
Estou com a pele mais opaca, está aparecendo em meu rosto duas fendas ao que marcam as laterais da minha boca, e sobrem até o meu nariz. É uma marca leve que quer se firmar cada vez que volto de um sorriso e fico séria. Tenho uns 2, talvez 3 quilos a mais,e sinto que minha barriga está mais molenga, meus seios mais baixos, minhas mãos mais cheia de rugas e meu quadril, que sempre foi magro magro, agora atrapalha quando vou subir uma calça.
Ainda nem tenho 30 anos, mas, nossa, como o tempo já me fez diferente de quando eu tinha 20!
Estou mais falante, mais atrevida, um pouco menos tímida e muito, muito mais briguenta.
Lendo o texto acima, vejo que estou menos romântica, mais prática.
Vivo dias muito felizes ao lado do meu marido e sou grata, muito grata por ter ao meu lado um homem que me dedica tanto amor e tanto de seu carinho. Sou grata, infinitamente grata, por ter comigo alguém que me faz rir, gargalhar até, noite e noites, seguidas vezes em que viramos tolos palhaços... Não me arrependo nunca, não me arrependo sequer por um segundo dessa escolha e desse caminho que tomei, há tão pouco tempo atrás. Mas, embora não me arrependa, as vezes, me esqueço.
Me esqueço do romantismo, me esqueço do encanto, me esqueço de usar as calcinhas boas. Ou, pior, me lembro e ignoro. Ignoro por preguiça, ignoro por cansaço, ignoro porque há tanto há ser feito em casa, no trabalho, pra minha mãe, pro meu sobrinho, pra minha chefa... enfim.
Temos quase dois anos de casados, não é muito, mas, quando revejo o filme da cerimônia, choro de saudades daquela menina magra e leve que eu era ali, gastando tubos de dinheiro para reunir os amigos e fazer uma festa bonita.
Hoje, corro pra deixar a louça limpa, checo se as janelas estão trancadas, vejo se o condôminio chegou, quando dá, confiro a fatura do cartão.
Ah hoje... Hoje fico de mau-humor e pronto, bato a porta e, as vezes, murmuro um sonoro palavrão antes de me jogar na cama, sem vontade de arrumar nada. Hoje uso um pijama velho e feio, não tiro as meias por nada no mundo, principalmente no inverno e hoje, passo creme melado antes de dormir e sinto muito, não vai ter beijo de boa noite.
É uma armadilha. Uma armadilha que todo mundo me avisava e eu ignorava. Porque eu achava que comigo ia ser diferente. Achava que seríamos sempre como dois pombinhos apaixonados. Duas crianças saltitantes, dois amantes inebriados...
Mas não. Não somos mais assim. Não escapei. Honestamente, não acho que haja escape. Acho que a armadilha pega a todos. A rotina, o cansaço, o sobrepeso da vida, essa nuvem cinza que eu nào sei como se chama, pega a gente mesmo e, quando vemos, somos gordos e velhos que nem se lembram mais o que os trouxe até aqui.
Mas não, não cheguei longe assim e, se esse destino for me pegar, ele está me mandando avisos antes. Está piscando como um email urgente na minha caixa de entrada: “Cuidado!” Será que é preciso ter cuidado? Será que adianta ter cuidado? Como evitar se for inevitável?
Por via das dúvidas, tenho tentado. Tenho lembrado algumas vezes, o que foi que nos aproximou e o que, ainda hoje, renasce cada vez que nos vemos, dormindo juntos, rosto melecado de creme, roupa de cama espalhada, pijamas velhos sobre corpos não tão jovens... E isso, qua parece só sobrepeso, de repente, no meio da madrugada, tem outro gosto. Tem o gosto de construção, de cumplicidade, de segurança, de um conforto sem fim, ainda que a cama seja dura, ainda que esteja um frio de rachar e o edredon esteja no armário.
Isso, que pode ser a nuvem cinza, também é o calor, também é aconchego e, as vezes, pode ser a tontura... A tontura de amor que pegou uma menina e um menino, quando eles nem sabiam do que isso se tratava. A tontura de um amor que, de encanto e leveza, passou a ser solidez e força. Um amor que, sim, deixou de ser uma brisa doce. Mas hoje, é tempo firme, resiste a temporais, resiste ao chumbo pesado do dia a dia e – melhor – com um pouco de esforço, um pouco mesmo talvez uma panelada de brigadeiro, talvez um perfume novo, quem sabe uma roupa diferente, qualquer coisa boba, pode tornar o chumbo pesado do dia a dia, mais divertido também, mais leve, menos penoso e mais encantador. E não é assim que é a vida? E não é isso que vale? Um ou dois momentos especiais no dia, na semana, noites e noites gargalhando, uma dança boba na sala, ou uma madrugada que se refaz, quando é possível rever o outro e lembrar-se - com amor - o que nos fez ser hoje quem somos, e o que nos faz hoje, querer ainda mais ser outro junto desse novo homem, ou junto desse velho conhecido que, de uma forma ou de outra, é quem te faz feliz.

4 comments:

Mariana said...

Ai Ki...foi de arrepiar este texto! Olha, panelada de brigadeiro funciona viu? Tigelona de sucrilhos juntos tb...acho bonito a nuvem cinza do dia-a-dia ter gosto de paz...mas pijama novo na Renner, é caro não!...rsrs Os esforços valem sempre a pena...o e a cumplicidade vale mais que pasos saltitantes. beijo e sorte sempre

Debora Bottcher said...

Ai, moça...
É isso. Sem comentários. :)
Um beijo, bonita.

Quel said...

falar o que? vc já disse tudo!
beijos

Vivi Campinas said...

Lindo!!