Na crônica do dia
Ela morava no 2º andar e eu no 4º. Ela tinha cabelos compridos e encaracolados. Eu tinha cabelos médios e lisos. Ela era mais cheinha, e eu, magricela. Mas ela era esperta e extrovertida. Eu era mais envergonhada e tola. Ela devia ter uns 6, e eu devia ter uns 7 quando tudo aconteceu.
Ela me chamou para ir brincar lá na casa dela, e eu fui. Quando entramos no quarto da TV, já estava tudo montado. Uma cadeira, tesouras, revistas. Eu era a cliente, ela era a cabeleireira. Sentei-me na minha cadeira enquanto ela, sempre muito falante, começou a me explicar sobre os cortes da moda, o estilo, a beleza. Eu aceitava, calada. No meio da falação, notei que a tesoura na mão dela era de verdade, mas não reagi. O natural aconteceu. Ela, a cabeleireira de 6 anos de idade, começou a cortar o meu cabelo. Eu sabia, dentro de mim, que aquilo não estava certo, mas não falava nada. Assistia cair no chão os longos chumaços de meus cabelos, com uma sensação de estranheza e impotência. Ela estava tão empolgada, e agia tão depressa, que eu não conseguia me expressar. Lembro-me que estava com o dente da frente mole, quase caindo, e só o que fazia era senti-lo balançar na minha língua, bem quietinha, enquanto minha amiga se esbaldava.
O corte foi radical, mas rápido. Ela tirou todo, todo o meu cabelo. Cortou até o talo, deixou só aquilo que uma tesoura não conseguia mesmo tirar.
Quando, no final, tal qual uma profissional dedicada, ela trouxe um espelho, eu tomei um susto. Quase que me lembro da minha cara assustada diante de uma menina sem cabelos que eu vira no meu reflexo.
“Você cortou tudo? Você cortou de verdade!” Eu disse, indignada.
Ela, com certo arrependimento, entregou-me a tesoura: “Corta o meu então?”. Sentou-se confortavelmente na cadeira e esperou que eu me vingasse. Mas eu, uma tola menina boa, não tinha coragem. Queria vingar-me, sentia dentro de mim uma enorme raiva, mas não era capaz de mover as minhas mãos para arrancar-lhe os cabelos também. “Vamos, corta! Pode cortar!” ela dizia, sabendo do meu sofrimento. Eu tentei obedecer, mas foram poucos e curtos os fios que lhe tirei. Nem aparecia nada. Era uma demonstração de covardia, aqueles ralos fios que saíam na tesoura, tão leves que eu nem os notava no chão, misturados aos meus.
Foi enquanto eu lutava comigo mesma, para ser esperta e vingativa, que a campainha tocou. Ouvi a voz da minha irmã mais velha, que dizia ter vindo me buscar.
Senti um alívio de encerrar aquela tortura, e corri para a sala. A expressão de horror dela quando eu apareci na porta está cravada na minha memória até hoje: “Kika!” ela gritou. Eu tentei explicar, mas fui logo dizendo que era ela, a outra, que tinha feito isso. A menina, safa, saiu retrucando que eu também tinha cortado o dela. Nada adiantava. Minha irmã berrava, talvez até chorasse de raiva e indignação. Pegou-me pelo braço e levou-me embora, fazendo um escândalo sem tamanho.
Ainda chamou a mãe da menina, brigou com ela, enquanto eu ficava calada, sentindo um dente mole na língua...
Logo o dente caiu e, quando outro nasceu no lugar, os cabelos já estavam crescendo, como que para mostrar-me que, ainda que seja doloroso, tudo pode, de fato, crescer de novo depois de lhe ser arrancado. Nunca mais esqueci a lição.
Friday, June 26, 2009
Thursday, June 18, 2009
A mudança
Hoje, na crõnica do dia.
Talvez a humanidade se divida mesmo em dois grupos de pessoas.
E podemos separá-los em uma mudança - de casa, de cidade ou de vida.
Alguns são capazes de fazer de uma mudança, apenas uma mudança. Outros, os incapazes, fazem da mudança uma história, uma saudade, uma terapia - ou quase.
Os primeiros são os racionais. Conseguem encaixotar as coisas, limpar os armários, empacotar as roupas, separas as miudezas com a praticidade de um matemático: “Aqui, cabem mais 3 sapatos. Passa essa louça para mim, pega a etiqueta, essa cômoda cabe exatamente naquela parede, cadê a trena?”
Outros, os mais incapazes, são até mais lentos. Porque, cada vez que embalam um prato, embalam também o jantar: “Aquele, que fizemos aqui, lembra? Aquilo que a gente cozinhou juntos, aquele que queimou, aquele que rimos sem parar, aquele que estava ruim, aquele que estava bom, aquela noite que estava fria, aquela outra eu esquentou...”
São chatos, esses, os incapazes. Devem ter até alguma dificuldade de medir, calcular, compreender. Porque ali, onde cabe a cômoda, não tem só um metro. Tem aquela roupa nova, o seu sapato pisando no meu, meu paletó que enlaça o seu vestido, como era mesmo a música do Chico?
Para alguns a mudança é prática. Jogam tudo lá dentro e seguem em frente. A vida é para isso né? É para ser seguida. Caminhada que ora parece curta, ora longa demais “Vem, vamos embora, já tá tudo aqui, vem logo, o caminhão vai ser multado” É o racional chamando o incapaz. O tonto do incapaz que ficou lá dentro, achou um brinco embaixo da pia: “Meu Deus, tanto que procurei esse brinco, estava aqui então! Esse brinco que eu ganhei naquela manhã de sol, ainda na cama, quando ele fez aquele café da manhã de dia dos namorados”. Ai, essa tola irá encaixar o brinco na orelha, olhar-se mais uma vez no espelho e lembrar de cada acontecimento naquela casa já vazia, sentir-se mais uma vez uma princesa encantada em sua cabana romântica. Mas a cabana é um apartamentinho sem móveis, tão vazio e, ao mesmo tempo, tão cheio de lembranças.
Quando se muda, esse, leva consigo a nostalgia, a saudade, um pequeno pedaço de vida que viveu ali, numa casa tão cheia de histórias e vida. Pode até não ser tristeza, mas é um apego. Não, nenhum apego às roupas, aos sapatos, aos quadros. Disso, cuida o prático. Ele checa se tudo foi embalado bem, cuida para que não estraguem os móveis e olha atentamente para a quina da parede. Ele cuida do que existe e está certo. O outro, o romântico cuida do que nem existe mais. Cuida de guardar consigo os momentos melhores, as pequenas alegrias, os grandes alívios, o conforto e as conquistas celebradas ali, vividas ali, naquele pedaço de concreto, agora já vazio. O tolo tenta segurar com toda força cada instante de felicidade, cada pequena bobagem que formou esse tempo, tenta segurar a poeira, o invisível, aquilo que não se segura e nem se mede. Por isso, talvez por isso, o tolo seja o tolo. Tenta segurar entre os dedos a água, a areia que lhe escorrerá das mãos uma hora ou outra.
Enquanto o racional transfere a net, a eletropaulo e a telefônica, o incapaz procura os números para tentar transferir um bocado de emoção, uma pitada de surpresa, alguns quilos de alegria. O tolo pede o protocolo, tenta discar o nove para falar com o atendente, solicita aos céus, a Deus, ao Procon, que possa levar consigo aquilo que nunca, nunca, poderá ser guardado e nem embalado - ainda que na mais fina cristaleira.
Talvez a humanidade se divida mesmo em dois grupos de pessoas.
E podemos separá-los em uma mudança - de casa, de cidade ou de vida.
Alguns são capazes de fazer de uma mudança, apenas uma mudança. Outros, os incapazes, fazem da mudança uma história, uma saudade, uma terapia - ou quase.
Os primeiros são os racionais. Conseguem encaixotar as coisas, limpar os armários, empacotar as roupas, separas as miudezas com a praticidade de um matemático: “Aqui, cabem mais 3 sapatos. Passa essa louça para mim, pega a etiqueta, essa cômoda cabe exatamente naquela parede, cadê a trena?”
Outros, os mais incapazes, são até mais lentos. Porque, cada vez que embalam um prato, embalam também o jantar: “Aquele, que fizemos aqui, lembra? Aquilo que a gente cozinhou juntos, aquele que queimou, aquele que rimos sem parar, aquele que estava ruim, aquele que estava bom, aquela noite que estava fria, aquela outra eu esquentou...”
São chatos, esses, os incapazes. Devem ter até alguma dificuldade de medir, calcular, compreender. Porque ali, onde cabe a cômoda, não tem só um metro. Tem aquela roupa nova, o seu sapato pisando no meu, meu paletó que enlaça o seu vestido, como era mesmo a música do Chico?
Para alguns a mudança é prática. Jogam tudo lá dentro e seguem em frente. A vida é para isso né? É para ser seguida. Caminhada que ora parece curta, ora longa demais “Vem, vamos embora, já tá tudo aqui, vem logo, o caminhão vai ser multado” É o racional chamando o incapaz. O tonto do incapaz que ficou lá dentro, achou um brinco embaixo da pia: “Meu Deus, tanto que procurei esse brinco, estava aqui então! Esse brinco que eu ganhei naquela manhã de sol, ainda na cama, quando ele fez aquele café da manhã de dia dos namorados”. Ai, essa tola irá encaixar o brinco na orelha, olhar-se mais uma vez no espelho e lembrar de cada acontecimento naquela casa já vazia, sentir-se mais uma vez uma princesa encantada em sua cabana romântica. Mas a cabana é um apartamentinho sem móveis, tão vazio e, ao mesmo tempo, tão cheio de lembranças.
Quando se muda, esse, leva consigo a nostalgia, a saudade, um pequeno pedaço de vida que viveu ali, numa casa tão cheia de histórias e vida. Pode até não ser tristeza, mas é um apego. Não, nenhum apego às roupas, aos sapatos, aos quadros. Disso, cuida o prático. Ele checa se tudo foi embalado bem, cuida para que não estraguem os móveis e olha atentamente para a quina da parede. Ele cuida do que existe e está certo. O outro, o romântico cuida do que nem existe mais. Cuida de guardar consigo os momentos melhores, as pequenas alegrias, os grandes alívios, o conforto e as conquistas celebradas ali, vividas ali, naquele pedaço de concreto, agora já vazio. O tolo tenta segurar com toda força cada instante de felicidade, cada pequena bobagem que formou esse tempo, tenta segurar a poeira, o invisível, aquilo que não se segura e nem se mede. Por isso, talvez por isso, o tolo seja o tolo. Tenta segurar entre os dedos a água, a areia que lhe escorrerá das mãos uma hora ou outra.
Enquanto o racional transfere a net, a eletropaulo e a telefônica, o incapaz procura os números para tentar transferir um bocado de emoção, uma pitada de surpresa, alguns quilos de alegria. O tolo pede o protocolo, tenta discar o nove para falar com o atendente, solicita aos céus, a Deus, ao Procon, que possa levar consigo aquilo que nunca, nunca, poderá ser guardado e nem embalado - ainda que na mais fina cristaleira.
Thursday, June 11, 2009
Papel bolha
Na cônica do dia...
Acontece todo inverno. Os lábios ressecam, viram pelinhas duras e irresistíveis, tal qual papel-bolha. Quem consegue não estourar?
Eu passo inverno com a boca machucada, solta uma pelinha e sinto um misto de alegria e tristeza. Vai doer, mas vou puxar. Seguro devagar com meus dentes e, sem que ninguém note, arranco. “Ai” falo para mim mesma, para que fui fazer isso? Por estupidez, de certo. E é assim na vida, não é?
Quantas dores causamos a nós mesmos, em nome de um possível benefício?
É assim no amor. Principalmente no cruel e frio amor não correspondido.
Uma amiga de quem gosto muito vive essa dor. Sabe que não vale a pena, sabe que ele é um canalha, um cafajeste, mas dá-se sempre a chance de mais uma saída, mais uma tentada, um último telefonema. Sabe que vai doer. Talvez ele nem apareça, mas arruma-se toda e encanta-se com a imagem apaixonada no espelho. Os minutos ao lado de seu amor são doces e breves, um encanto, sempre seguido de uma dor. Ela vive um instante infinito de calma alegria quando está nos braços de seu príncipe, para, em seguida, ver o tempo bom já finito, e sofrer tal qual no inverno congelante, onde não há cobertas que cheguem. O amor não correspondido é o mais terrível dos frios, um inverno longo e gelado de onde, parece, nunca poderemos sair. Ela sofre, chora, por que fui fazer isso? Pergunta-se, diante do coração sangrando. Por que fui acreditar, por que fui me arrumar, por que gastei todo esse dinheiro com roupas, por que toda essa maquiagem, por que o perfume novo, porque a esperança, por que, por quem, por que? Ela maltrata-se e vê-se agora, estúpida diante do espelho. Burra como só uma mulher apaixonada pode ser. Burra como só uma ansiosa diante da pelinha solta no lábio...
Depois disso, sempre jura que vai evitar. Olha o telefone tocando e joga consigo própria: “Não vou atender, não vou atender”, diz firme, como se passasse manteiga de cacau na boca. Em seguida, quando ele liga de novo, já é o lábio seco, a pelinha, tentadora, muito perto dos dentes. Ela hesita: “se tocar mais uma vez, é porque é para eu atender, se tocar só mais essa vez, mais a próxima, é o destino se tocar de novo.... Alõ!” ela diz, já com o coração aos pulos. É a dor do amor. Mas, que duro é um amor de desencanto, um amor de sofrimento, um amor de mentira. Ela delicia-se com a voz dele, com os elogios, com as brincadeiras, mas sabe que, em seguida, estará sangrando arrependida.
Porque fazemos isso? Porque roemos unha, porque fumamos, porque nos entupimos de doce, porque diabos arrancando essa maldita pelinha toda vez, porque mordemos a língua, a boca, sempre naquele lugar já machucado, porque morremos de amor, sempre com aquele sonho, já tão cansado?
Talvez, porque sejamos otimistas. Mais do que qualquer animal, somos insistentemente tolos. Ainda bem que há manteiga de cacau e, ainda bem que há edredons... Cedo ou tarde, daremos valor ao que pode, em algum momento, nos curar...
Acontece todo inverno. Os lábios ressecam, viram pelinhas duras e irresistíveis, tal qual papel-bolha. Quem consegue não estourar?
Eu passo inverno com a boca machucada, solta uma pelinha e sinto um misto de alegria e tristeza. Vai doer, mas vou puxar. Seguro devagar com meus dentes e, sem que ninguém note, arranco. “Ai” falo para mim mesma, para que fui fazer isso? Por estupidez, de certo. E é assim na vida, não é?
Quantas dores causamos a nós mesmos, em nome de um possível benefício?
É assim no amor. Principalmente no cruel e frio amor não correspondido.
Uma amiga de quem gosto muito vive essa dor. Sabe que não vale a pena, sabe que ele é um canalha, um cafajeste, mas dá-se sempre a chance de mais uma saída, mais uma tentada, um último telefonema. Sabe que vai doer. Talvez ele nem apareça, mas arruma-se toda e encanta-se com a imagem apaixonada no espelho. Os minutos ao lado de seu amor são doces e breves, um encanto, sempre seguido de uma dor. Ela vive um instante infinito de calma alegria quando está nos braços de seu príncipe, para, em seguida, ver o tempo bom já finito, e sofrer tal qual no inverno congelante, onde não há cobertas que cheguem. O amor não correspondido é o mais terrível dos frios, um inverno longo e gelado de onde, parece, nunca poderemos sair. Ela sofre, chora, por que fui fazer isso? Pergunta-se, diante do coração sangrando. Por que fui acreditar, por que fui me arrumar, por que gastei todo esse dinheiro com roupas, por que toda essa maquiagem, por que o perfume novo, porque a esperança, por que, por quem, por que? Ela maltrata-se e vê-se agora, estúpida diante do espelho. Burra como só uma mulher apaixonada pode ser. Burra como só uma ansiosa diante da pelinha solta no lábio...
Depois disso, sempre jura que vai evitar. Olha o telefone tocando e joga consigo própria: “Não vou atender, não vou atender”, diz firme, como se passasse manteiga de cacau na boca. Em seguida, quando ele liga de novo, já é o lábio seco, a pelinha, tentadora, muito perto dos dentes. Ela hesita: “se tocar mais uma vez, é porque é para eu atender, se tocar só mais essa vez, mais a próxima, é o destino se tocar de novo.... Alõ!” ela diz, já com o coração aos pulos. É a dor do amor. Mas, que duro é um amor de desencanto, um amor de sofrimento, um amor de mentira. Ela delicia-se com a voz dele, com os elogios, com as brincadeiras, mas sabe que, em seguida, estará sangrando arrependida.
Porque fazemos isso? Porque roemos unha, porque fumamos, porque nos entupimos de doce, porque diabos arrancando essa maldita pelinha toda vez, porque mordemos a língua, a boca, sempre naquele lugar já machucado, porque morremos de amor, sempre com aquele sonho, já tão cansado?
Talvez, porque sejamos otimistas. Mais do que qualquer animal, somos insistentemente tolos. Ainda bem que há manteiga de cacau e, ainda bem que há edredons... Cedo ou tarde, daremos valor ao que pode, em algum momento, nos curar...
Saturday, June 6, 2009
O branco do tempo
Ele está cheio de cabelos brancos.
Não, não, a cabeça ainda é preta, mas, se olharmos bem, os fios prateados explodem aos montes, mostrando que, ao contrário do que parece, o tempo passa.
Ele odeia. Diz que vai tingir, que vai raspar, que vai cortar.
Não adianta meu bem. Nós não negamos quem somos e nem quando somos quem somos. Faz tempo que você é quem é, e o grisalho só vem avisar. Está ainda mais lindo, e mais esperto. Abandonou as gírias, aprendeu inglês, trocou de emprego. Mudou. E a cabeça muda junto.
Não, não, a cabeça ainda é preta, mas, se olharmos bem, os fios prateados explodem aos montes, mostrando que, ao contrário do que parece, o tempo passa.
Ele odeia. Diz que vai tingir, que vai raspar, que vai cortar.
Não adianta meu bem. Nós não negamos quem somos e nem quando somos quem somos. Faz tempo que você é quem é, e o grisalho só vem avisar. Está ainda mais lindo, e mais esperto. Abandonou as gírias, aprendeu inglês, trocou de emprego. Mudou. E a cabeça muda junto.
Thursday, May 28, 2009
A HEROÍNA
A mais moderna justiceira no Crônica do dia]
Era um típico sábado de verão em São Paulo.
O cenário era a praça Vilaboim, um lugar de calma e tranqüilidade dos descolados da cidade. Lá, nas mesinhas que ficam na calçada, jovens e famílias conversaram, petiscando e cervejando alegremente até que, como um típico dia de verão, o sol deu lugar à chuva e, num instante, grandes pingos caiam do céu. Foi aquela correria, todo mundo entrando nos bares, garçons levando as mesinhas, mulheres protegendo a chapinha, homens protegendo as cervejas. Nesse imbróglio, um pai foi correndo buscar o carro para a esposa e os bebês – gêmeos – que ela tentava esconder sobre a capa do carrinho.
Foi aí que o fato se deu. O homem chegou com o carro e estacionou na frente do bar, um lugar proibido, apenas para abrir o porta-malas, guardar o carrinho, ajeitar as crianças nas cadeiras pregadas no banco de trás e, por fim, abrigar a esposa que, a essa altura, já estava encharcada. No entanto, nesses rápidos segundos, uma senhora de amarelo apareceu com um bloco na mão. Sim, era a guarda do trânsito, uma CET, um amarelinho como dizemos nas bandas de cá. Ela começou a multar o carro do homem que, entre o carrinho e cadeirão tentava explicar, ele estava só buscando a família, era um minuto, estava chovendo, as crianças estavam gripadas, rapidinho, já estava acabando. Mas a senhora, estava irredutível e mantinha-se dizendo que lá era proibido e pronto, ele não poderia estacionar, nem por uns minutinhos e ela ia multar sim senhor.
Uma pequena multidão que se amontoava dentro dos bares começou a prestar atenção no assunto, alguns ousaram gritar, outros pediram paciência, a multidão estava definitivamente contra a lei e a favor da família, não importa o que a senhora dissesse. A coisa foi tomando proporções maiores, enquanto uma moça jovem que se escondia da chuva embaixo de um orelhão, observava tudo com um olhar diferente. Ela cutucou um manobrista, murmurou qualquer coisa e decidiu agir. Foi rápida como um raio. Num instante, numa fração de segundo correu em direção à senhora CET que, bem nessa hora, gesticulava os braços para cima, empunhada de seu bloco de multas maquiavélico. Não foi possível contar até três. Um, dois e pronto, a menina simplesmente arrancou o bloco da mão da senhora e continuou correndo, sumindo dentro das árvores da praça. A multidão, atônita, fez um segundo de silêncio e, antes que a dona do bloco conseguisse abaixar as mãos (já vazias) o público começou a aplaudir: “Uhu, boa, boa, é isso aí!!” gritavam, rindo, eufóricos enquanto a senhora de amarelo saiu também correndo, atrás da menina. Mas não havia mais jeito. A multidão já havia se manifestado e muitos correram juntos, no meio da chuva, confundindo a vilã e tornando-se cúmplices daquela desconhecida, cúmplices daqueles dois bebês e daquela pequena família que, a essa altura ria com gosto abrigada dentro do carro, ainda no lugar proibido.
Soube depois que a menina se escondeu em uma farmácia da praça. Parece que o farmacêutico levou a moça para aquela casinha da injeção e ela ficou lá, trancada, vendo todas aquelas multas que nunca se concretizariam, por quase uma hora.
Ainda hoje, ela continua a passear na praça e ficou famosa. Todo mundo a cumprimenta, pergunta o que houve com o tal bloco de notas e ela jura que jogou no lixo, mas, claro, no lixo reciclável do pão de açúcar ali do lado. Porque, afinal de contas, ela é uma menina, muito, muito correta e afeiçoada às boas práticas sociais. Ninguém discorda.
Era um típico sábado de verão em São Paulo.
O cenário era a praça Vilaboim, um lugar de calma e tranqüilidade dos descolados da cidade. Lá, nas mesinhas que ficam na calçada, jovens e famílias conversaram, petiscando e cervejando alegremente até que, como um típico dia de verão, o sol deu lugar à chuva e, num instante, grandes pingos caiam do céu. Foi aquela correria, todo mundo entrando nos bares, garçons levando as mesinhas, mulheres protegendo a chapinha, homens protegendo as cervejas. Nesse imbróglio, um pai foi correndo buscar o carro para a esposa e os bebês – gêmeos – que ela tentava esconder sobre a capa do carrinho.
Foi aí que o fato se deu. O homem chegou com o carro e estacionou na frente do bar, um lugar proibido, apenas para abrir o porta-malas, guardar o carrinho, ajeitar as crianças nas cadeiras pregadas no banco de trás e, por fim, abrigar a esposa que, a essa altura, já estava encharcada. No entanto, nesses rápidos segundos, uma senhora de amarelo apareceu com um bloco na mão. Sim, era a guarda do trânsito, uma CET, um amarelinho como dizemos nas bandas de cá. Ela começou a multar o carro do homem que, entre o carrinho e cadeirão tentava explicar, ele estava só buscando a família, era um minuto, estava chovendo, as crianças estavam gripadas, rapidinho, já estava acabando. Mas a senhora, estava irredutível e mantinha-se dizendo que lá era proibido e pronto, ele não poderia estacionar, nem por uns minutinhos e ela ia multar sim senhor.
Uma pequena multidão que se amontoava dentro dos bares começou a prestar atenção no assunto, alguns ousaram gritar, outros pediram paciência, a multidão estava definitivamente contra a lei e a favor da família, não importa o que a senhora dissesse. A coisa foi tomando proporções maiores, enquanto uma moça jovem que se escondia da chuva embaixo de um orelhão, observava tudo com um olhar diferente. Ela cutucou um manobrista, murmurou qualquer coisa e decidiu agir. Foi rápida como um raio. Num instante, numa fração de segundo correu em direção à senhora CET que, bem nessa hora, gesticulava os braços para cima, empunhada de seu bloco de multas maquiavélico. Não foi possível contar até três. Um, dois e pronto, a menina simplesmente arrancou o bloco da mão da senhora e continuou correndo, sumindo dentro das árvores da praça. A multidão, atônita, fez um segundo de silêncio e, antes que a dona do bloco conseguisse abaixar as mãos (já vazias) o público começou a aplaudir: “Uhu, boa, boa, é isso aí!!” gritavam, rindo, eufóricos enquanto a senhora de amarelo saiu também correndo, atrás da menina. Mas não havia mais jeito. A multidão já havia se manifestado e muitos correram juntos, no meio da chuva, confundindo a vilã e tornando-se cúmplices daquela desconhecida, cúmplices daqueles dois bebês e daquela pequena família que, a essa altura ria com gosto abrigada dentro do carro, ainda no lugar proibido.
Soube depois que a menina se escondeu em uma farmácia da praça. Parece que o farmacêutico levou a moça para aquela casinha da injeção e ela ficou lá, trancada, vendo todas aquelas multas que nunca se concretizariam, por quase uma hora.
Ainda hoje, ela continua a passear na praça e ficou famosa. Todo mundo a cumprimenta, pergunta o que houve com o tal bloco de notas e ela jura que jogou no lixo, mas, claro, no lixo reciclável do pão de açúcar ali do lado. Porque, afinal de contas, ela é uma menina, muito, muito correta e afeiçoada às boas práticas sociais. Ninguém discorda.
Saturday, May 23, 2009
Perguntas contemporâneas
Fumante ou não fumante? Carta de vinhos? Água pra acompanhar? Light ou normal? Pequeno ou grande? Gelo e limão no copo? É pra comer aqui ou pra levar? Sobremesa? Café? Tem carro no estacionamento? Posso incluir o serviço? Crédito ou débito?
Convênio ou particular? Qual convênio? De manhã ou a tarde? Com recibo ou sem recibo? Gota ou comprimidos? Tem cartão fidelidade Drogão?
Encontrou tudo o que procurava? O que faltou? Participa do programa mais? Precisa de ajuda até o carro?
Tem cartão amigo siciliano? Só isso mesmo? Não quer ver um pra você? É pra presente? É no débito?
Precisa de cartão zonazul aí amigo? Tem mais trocadinho não?
Vai passar claro ou escuro? Francesinha? Óleo ou spray? Tem um real?
Teve algum consumo do frigobar? Precisa de ajuda com as malas? Vai despachar bagagem?
Pode vir um pouquinho mais pra frente? Álcool ou gasolina? Comum ou aditivada? Pode completar? Água, óleo, quer que olhe? Ta baixo hein, vamos completar? Quer calibrar os pneus? Cheque?
Endereço comercial ou residencial? Conhece as vantagens do nosso cartão? Pode confirmar alguns dados?
Posso te ligar depois? É urgente?
Convênio ou particular? Qual convênio? De manhã ou a tarde? Com recibo ou sem recibo? Gota ou comprimidos? Tem cartão fidelidade Drogão?
Encontrou tudo o que procurava? O que faltou? Participa do programa mais? Precisa de ajuda até o carro?
Tem cartão amigo siciliano? Só isso mesmo? Não quer ver um pra você? É pra presente? É no débito?
Precisa de cartão zonazul aí amigo? Tem mais trocadinho não?
Vai passar claro ou escuro? Francesinha? Óleo ou spray? Tem um real?
Teve algum consumo do frigobar? Precisa de ajuda com as malas? Vai despachar bagagem?
Pode vir um pouquinho mais pra frente? Álcool ou gasolina? Comum ou aditivada? Pode completar? Água, óleo, quer que olhe? Ta baixo hein, vamos completar? Quer calibrar os pneus? Cheque?
Endereço comercial ou residencial? Conhece as vantagens do nosso cartão? Pode confirmar alguns dados?
Posso te ligar depois? É urgente?
Wednesday, May 20, 2009
20 de maio
Foi em 20 de maio de 2006. Era uma manhã nublada de sábado, dia de meu casamento. Por conta disso, eu estava dormindo na casa da minha mãe, mesmo já tendo saído de casa há algum tempo. Lembro-me que, assim que acordei, senti a garganta pegando e notei que um resfriado estava a caminho. Os vírus deveriam respeitar mais as noivas, não é? Foi um dia nublado e lindo. Na minha memória, aquele era um dia de sol e alegria.
Hoje, 20 de maio de 2009, acordei e - estranhamente - estava na casa da minha mãe. A primeira sensação que tive foi a garganta pegando, um resfriado alojando-se em mim. Foi então que, em uma fração de segundo, eu comemorei: "Viva, devo estar repetindo o dia do meu casamento! É isso! Eu gostei tanto daquele dia que os Deuses me atenderam e me deram o mesmo dia de novo, por isso estou aqui, nesse quarto da minha infância, com essa garganta meio ruim..." Eu já estava quase levantando da cama para encontrar toda a família na sala, alguns arranjos de flores espalhados, a caixa de bem-casados sobre a mesa, estaria tudo - tudo - lá, de novo, um dia repetido como prêmio, por qualquer bom trabalho que eu tenha feito. A vida é mesmo muito generosa comigo, foi o que eu pensei, quando, num instante toda essa alegria foi substituída por uma chuva de realidade. Em um segundo, como uma flecha, me veio a lembrança da real razão de eu estar ali. Hoje era um dia comum. Eu dormira na minha mãe porque estava adoentada e meu marido passara a semana fora de SP, à trabalho. Pronto, alegria desfeita, não havia quase ninguém na casa, nenhum docinho e a sala estava vazia e organizada. Não haveria um casamento. Eu não veria o meu marido diante do padre, não dançaríamos a primeira valsa, nem descobriríamos - encantados - os detalhes de um quarto luxuoso de hotel... Sequer nos encontraríamos hoje.
Ainda assim, não senti tristeza. Nos encontramos um dia, nos achamos e nos escolhemos um dia e, depois de novo, todos os dias que se seguiram... Sim, ainda que sem repetir os melhores dias uma porção de vezes, a vida é mesmo muito generosa comigo.
Hoje, 20 de maio de 2009, acordei e - estranhamente - estava na casa da minha mãe. A primeira sensação que tive foi a garganta pegando, um resfriado alojando-se em mim. Foi então que, em uma fração de segundo, eu comemorei: "Viva, devo estar repetindo o dia do meu casamento! É isso! Eu gostei tanto daquele dia que os Deuses me atenderam e me deram o mesmo dia de novo, por isso estou aqui, nesse quarto da minha infância, com essa garganta meio ruim..." Eu já estava quase levantando da cama para encontrar toda a família na sala, alguns arranjos de flores espalhados, a caixa de bem-casados sobre a mesa, estaria tudo - tudo - lá, de novo, um dia repetido como prêmio, por qualquer bom trabalho que eu tenha feito. A vida é mesmo muito generosa comigo, foi o que eu pensei, quando, num instante toda essa alegria foi substituída por uma chuva de realidade. Em um segundo, como uma flecha, me veio a lembrança da real razão de eu estar ali. Hoje era um dia comum. Eu dormira na minha mãe porque estava adoentada e meu marido passara a semana fora de SP, à trabalho. Pronto, alegria desfeita, não havia quase ninguém na casa, nenhum docinho e a sala estava vazia e organizada. Não haveria um casamento. Eu não veria o meu marido diante do padre, não dançaríamos a primeira valsa, nem descobriríamos - encantados - os detalhes de um quarto luxuoso de hotel... Sequer nos encontraríamos hoje.
Ainda assim, não senti tristeza. Nos encontramos um dia, nos achamos e nos escolhemos um dia e, depois de novo, todos os dias que se seguiram... Sim, ainda que sem repetir os melhores dias uma porção de vezes, a vida é mesmo muito generosa comigo.
Saturday, May 16, 2009
Do baú
Escrevi isso em 2003. E me surpreendo de ver como eu era corajosa...
12/09/2003
Medos
Eu tenho medos. Isso mesmo, no plural: medos.
Talvez, fique mais claro se eu escrever assim: MEDOS. São muitos e são grandes.
Ocupam espaços enormes dentro de mim. Espaços que deveriam estar preenchidos com
amor, estão lotados de medos.
Os medos travam os lugares para que ali, não entre nada. Os medos agem como se
houvesse dentro de mim, espaços confinados, escuros, desertos. Só as infinitas
possibilidades que o medo cria é que podem adentrar essas portas...
São milhares de medos, de todas as cores e formas, alguns, indizíveis até.
Além dos normais, os proibidos. Além dos banais, os ridículos.
Tenho medo de bichos pequenos, tenho medo de ralo entupido, tenho medo de
trovão, medo de gente muito alta e mais medo ainda de anão.
Tenho medo de lugares desconhecidos, tenho medo de altura, mas o medo maior é do chão.
Tenho medo de luz muito forte, medo de ficar gorda, medo de ficar velha, medo de
ficar sozinha, medo de ficar - para todo o sempre - acompanhada.
Tenho medo de tropeçar na frente de todo mundo, medo de gaguejar na hora da
apresentação, de cuspir o chiclete sem querer, de babar no sofá dos outros, de
chorar sem saber porquê.
Tenho medo de blecaute, medo de assalto, medo de dor-de-dente, medo de dor de
gente também.
Tenho medo de nunca entender, medo de sonhar alto. Mas tenho medo
de deixar de sonhar, de ser real.
Tenho medo de viver acordada para sempre.
Como posso ter tanto medo de morrer, se me apavoro tanto quando penso em viver?
Tenho medos estranhos... Medo de ficar maluca e medo de manter-me sempre lúcida.
Medo de frio e medo do fogo.
Os medos esdrúxulos também me acompanham. E se a minha língua crescer e, ficar dependurada para fora, enorme? E se eu achar um corpo no porta-malas, e todo mundo disser que fui em quem matei? E se tiver sido, mesmo?
Tenho medo ver um anjo no teto do quarto ou de morar um demônio debaixo da cama.
Medo de gente famosa, medo de gente bonita, medo de gente grande, em geral.
Tenho medo de polícia, medo de doença, medo de terremoto e de atentado
terrorista. Tenho medo que alguém morra, tenho medo que todo mundo morra, tenho
medo de nunca morrer, mas muito, muito, muito mais medo, de morrer um dia, ou
então de matar alguém - mas eu não esconderia o corpo no porta-malas.
Tenho medo de gostar, e medo de não ser gostada. Tremo de pavor quando penso que
talvez, posso gostar e ser igualmente gostada, para sempre.
Como será a penitência de uma paixão correspondida?
Tenho medo da solidão, medo do escuro, medo das sombras... Medo do fracasso e
medo do sucesso. Medo de ficar muito, muito, muito pobre e um medo igual de
ficar muito, muito, muito rica.
Fora o medo do telefone tocar e de não tocar. O medo da internet falhar, o medo
da tv apagar, de todas as luzes apagarem, de todos os sons se calarem... Fora o
medo que tenho de mim, e o medo que tenho do medo.
12/09/2003
Medos
Eu tenho medos. Isso mesmo, no plural: medos.
Talvez, fique mais claro se eu escrever assim: MEDOS. São muitos e são grandes.
Ocupam espaços enormes dentro de mim. Espaços que deveriam estar preenchidos com
amor, estão lotados de medos.
Os medos travam os lugares para que ali, não entre nada. Os medos agem como se
houvesse dentro de mim, espaços confinados, escuros, desertos. Só as infinitas
possibilidades que o medo cria é que podem adentrar essas portas...
São milhares de medos, de todas as cores e formas, alguns, indizíveis até.
Além dos normais, os proibidos. Além dos banais, os ridículos.
Tenho medo de bichos pequenos, tenho medo de ralo entupido, tenho medo de
trovão, medo de gente muito alta e mais medo ainda de anão.
Tenho medo de lugares desconhecidos, tenho medo de altura, mas o medo maior é do chão.
Tenho medo de luz muito forte, medo de ficar gorda, medo de ficar velha, medo de
ficar sozinha, medo de ficar - para todo o sempre - acompanhada.
Tenho medo de tropeçar na frente de todo mundo, medo de gaguejar na hora da
apresentação, de cuspir o chiclete sem querer, de babar no sofá dos outros, de
chorar sem saber porquê.
Tenho medo de blecaute, medo de assalto, medo de dor-de-dente, medo de dor de
gente também.
Tenho medo de nunca entender, medo de sonhar alto. Mas tenho medo
de deixar de sonhar, de ser real.
Tenho medo de viver acordada para sempre.
Como posso ter tanto medo de morrer, se me apavoro tanto quando penso em viver?
Tenho medos estranhos... Medo de ficar maluca e medo de manter-me sempre lúcida.
Medo de frio e medo do fogo.
Os medos esdrúxulos também me acompanham. E se a minha língua crescer e, ficar dependurada para fora, enorme? E se eu achar um corpo no porta-malas, e todo mundo disser que fui em quem matei? E se tiver sido, mesmo?
Tenho medo ver um anjo no teto do quarto ou de morar um demônio debaixo da cama.
Medo de gente famosa, medo de gente bonita, medo de gente grande, em geral.
Tenho medo de polícia, medo de doença, medo de terremoto e de atentado
terrorista. Tenho medo que alguém morra, tenho medo que todo mundo morra, tenho
medo de nunca morrer, mas muito, muito, muito mais medo, de morrer um dia, ou
então de matar alguém - mas eu não esconderia o corpo no porta-malas.
Tenho medo de gostar, e medo de não ser gostada. Tremo de pavor quando penso que
talvez, posso gostar e ser igualmente gostada, para sempre.
Como será a penitência de uma paixão correspondida?
Tenho medo da solidão, medo do escuro, medo das sombras... Medo do fracasso e
medo do sucesso. Medo de ficar muito, muito, muito pobre e um medo igual de
ficar muito, muito, muito rica.
Fora o medo do telefone tocar e de não tocar. O medo da internet falhar, o medo
da tv apagar, de todas as luzes apagarem, de todos os sons se calarem... Fora o
medo que tenho de mim, e o medo que tenho do medo.
Friday, May 15, 2009
Das irritações cotidianas >> Kika Coutinho
Da crônica do dia
Você está lá, comendo o seu pão de queijo delicioso, talvez recheado de requeijão, talvez puro, mas o momento é de absoluto prazer. Chega alguém. Um amigo, um parente, um inimigo. Você, gentilmente, oferece um pedaço. Pausa. Parem a cena um instante e avaliem, qual a pior resposta que podem receber desse visitante incômodo que veio só lhe dizer um “oi”? “Aceito, claro”, seguido de um esticar de mãos e uma babada no que sobrar do seu quitute. Pode parecer ruim, mas, o meu mais profundo pavor não é esse. O que me gela o coração, nessas horas, é se a pessoa pegar o pão de queijo e disser, quase que solidária, “Ah, você não quer mais?”. Pronto. Você terá de dizer: “Não, não, eu quero sim, te ofereci só um pedaço.” Ou, se for mais tímido e resignado, aceitará: “É, não queria mais mesmo”, e terá seu dia arrasado por perder o melhor pedaço dele.
Mas o sol nasceu para todos e, um dia, você experimentará o contrário. Saia para jantar com o marido, com um amigo, ou amiga, tanto faz. A noite está ótima, o cardápio é tentador, você fica em dúvida entre um prato ou outro, pede um, ele pede outro. Tudo corre bem, até que chega o jantar. O garçom vem, erguendo os pratos no alto, a sua boca começa a salivar quando ele desce aquele mais saboroso, mais apetitoso, hum, era bem isso que eu queria, você pensa quando - de repente - nota que esse é o do seu parceiro e, na sua frente, é colocado aquela pasta sem graça. “O que foi mesmo que eu pedi?” é a pergunta que não quer calar diante de uma noite sem conserto.
Embora tolas, são muitas, muitas, as bobagens que estragam o nosso dia. Telemarketing é clássico. Mas alguns comentários impertinentes e inevitáveis começam com a nossa ação. Você liga para o seu banco para fazer uma transferência. Depois de digitar milhares de números, o banco te identifica e, solícito, sai falando o seu saldo disponível, cheque especial e etc. Quem perguntou? Você pode até não querer saber, oras. E, falando em impertinente, quer coisa pior que vendedora que fica atrás de você na loja, o tempo inteiro, para depois concluir, sem ser chamada: “É calça social que você quer, né?”. Ainda nessa caso, você pode dizer que não e sair da loja. No entanto, há irritações diárias e inevitáveis para as quais apenas uma atitude muito drástica teria algum efeito.
Uma amiga me contou que tem uma colega de trabalho, uma menina nova e linda, que, um belo dia, resolveu deixar um cachinho de seu cabelo solto, caído na testa, como um pega-rapaz mesmo. Era para ser um dia bom, minha amiga estava entrando no escritório feliz, quando se deparou com a menina ali, sentada no seu computador, sorridente, com o cacho caído na testa. Parou, olhou e teve vontade de avisar, como se acabasse de ver uma alface no dente da colega, mas, em menos de um segundo notou que o pega-rapaz estava ali de propósito, saltando aos olhos escuros da menina que, certamente, estava orgulhosa da grande invenção do dia. Acontece que isso tornou-se um incômodo. A menina bonita ficara feia e cafona, agredira-se com os próprios cachos e não se pode ficar passivo diante disso. Minha amiga, coitada, levantou diversas vezes durante aquele dia, ensaiou um jeito de avisar a menina que aquilo não era certo, pensou mesmo em cortar a mecha como que por engano, ou como que surtada, ou fingindo que tinha TOC, ou qualquer coisa assim. Não conseguiu. Todos os dias, entra no escritório preocupada e tenta evitar o contato visual com a outra, de forma que não se sinta tão mal pelo constrangimento voluntário que a pobre menina se impôs. Ela, a minha pobre amiga, jura que o restaurante. o pão de queijo perdido ou a vendedora são fichinhas perto daquela mecha molenga e irritante, no rosto de sua vizinha de mesa...
Você está lá, comendo o seu pão de queijo delicioso, talvez recheado de requeijão, talvez puro, mas o momento é de absoluto prazer. Chega alguém. Um amigo, um parente, um inimigo. Você, gentilmente, oferece um pedaço. Pausa. Parem a cena um instante e avaliem, qual a pior resposta que podem receber desse visitante incômodo que veio só lhe dizer um “oi”? “Aceito, claro”, seguido de um esticar de mãos e uma babada no que sobrar do seu quitute. Pode parecer ruim, mas, o meu mais profundo pavor não é esse. O que me gela o coração, nessas horas, é se a pessoa pegar o pão de queijo e disser, quase que solidária, “Ah, você não quer mais?”. Pronto. Você terá de dizer: “Não, não, eu quero sim, te ofereci só um pedaço.” Ou, se for mais tímido e resignado, aceitará: “É, não queria mais mesmo”, e terá seu dia arrasado por perder o melhor pedaço dele.
Mas o sol nasceu para todos e, um dia, você experimentará o contrário. Saia para jantar com o marido, com um amigo, ou amiga, tanto faz. A noite está ótima, o cardápio é tentador, você fica em dúvida entre um prato ou outro, pede um, ele pede outro. Tudo corre bem, até que chega o jantar. O garçom vem, erguendo os pratos no alto, a sua boca começa a salivar quando ele desce aquele mais saboroso, mais apetitoso, hum, era bem isso que eu queria, você pensa quando - de repente - nota que esse é o do seu parceiro e, na sua frente, é colocado aquela pasta sem graça. “O que foi mesmo que eu pedi?” é a pergunta que não quer calar diante de uma noite sem conserto.
Embora tolas, são muitas, muitas, as bobagens que estragam o nosso dia. Telemarketing é clássico. Mas alguns comentários impertinentes e inevitáveis começam com a nossa ação. Você liga para o seu banco para fazer uma transferência. Depois de digitar milhares de números, o banco te identifica e, solícito, sai falando o seu saldo disponível, cheque especial e etc. Quem perguntou? Você pode até não querer saber, oras. E, falando em impertinente, quer coisa pior que vendedora que fica atrás de você na loja, o tempo inteiro, para depois concluir, sem ser chamada: “É calça social que você quer, né?”. Ainda nessa caso, você pode dizer que não e sair da loja. No entanto, há irritações diárias e inevitáveis para as quais apenas uma atitude muito drástica teria algum efeito.
Uma amiga me contou que tem uma colega de trabalho, uma menina nova e linda, que, um belo dia, resolveu deixar um cachinho de seu cabelo solto, caído na testa, como um pega-rapaz mesmo. Era para ser um dia bom, minha amiga estava entrando no escritório feliz, quando se deparou com a menina ali, sentada no seu computador, sorridente, com o cacho caído na testa. Parou, olhou e teve vontade de avisar, como se acabasse de ver uma alface no dente da colega, mas, em menos de um segundo notou que o pega-rapaz estava ali de propósito, saltando aos olhos escuros da menina que, certamente, estava orgulhosa da grande invenção do dia. Acontece que isso tornou-se um incômodo. A menina bonita ficara feia e cafona, agredira-se com os próprios cachos e não se pode ficar passivo diante disso. Minha amiga, coitada, levantou diversas vezes durante aquele dia, ensaiou um jeito de avisar a menina que aquilo não era certo, pensou mesmo em cortar a mecha como que por engano, ou como que surtada, ou fingindo que tinha TOC, ou qualquer coisa assim. Não conseguiu. Todos os dias, entra no escritório preocupada e tenta evitar o contato visual com a outra, de forma que não se sinta tão mal pelo constrangimento voluntário que a pobre menina se impôs. Ela, a minha pobre amiga, jura que o restaurante. o pão de queijo perdido ou a vendedora são fichinhas perto daquela mecha molenga e irritante, no rosto de sua vizinha de mesa...
Thursday, May 7, 2009
Ele me ensinou
Não foi uma crônica, mas saiu lá, na crônica do dia...
Ele ensinou a gostar de salada, eu o ensinei a não recusar a sobremesa.
Ele me ensinou a usar tênis, eu o ensinei a usar camisa pólo
Ele me ensinou a assoviar, eu o ensinei a gritar.
Ele me ensinou a ser forte, eu o ensinei a ser calmo
Ele me ensinou a correr, eu o ensinei a andar um pouco mais devagar.
Ele me ensinou a achar todos os caminhos da cidade, eu o ensinei a perder-se um pucadinho...
Ele me ensinou a fazer musculação, eu o ensinei a dormir até mais tarde.
Ele me ensinou a persistir, eu o ensinei a boa prática de, vez outra, desistir
Ele me ensinou a gostar de trabalhar, eu o ensinei a gostar de estudar.
Ele me ensinou a ser pontual, eu o ensinei a perder a hora.
Ele me ensinou a usar o excel, eu o ensinei a ler blogs.
Ele me ensinou a comer queijo trancinha, graviola, e rúcula.
Mas eu o apresentei os sorvetes Rochinhas - e sei que ele será grato por isso, até o fim dos tempos.
Eu o ensinei Fabio Jr e ele me mostrou Jack Johnson.
Ele me ensinou toda a matemática que eu sei, mas eu o ensinei um pouco do meu português.
Ele me ensinou sobre a bolsa de valores e eu sobre as bolsas de couro.
Ele me ensinou a entender o caderno de economia e eu o ensinei poesia...
Ele me ensinou a conhecer o mundo, eu apresentei-lhe a própria casa...
Ele ensinou a gostar de salada, eu o ensinei a não recusar a sobremesa.
Ele me ensinou a usar tênis, eu o ensinei a usar camisa pólo
Ele me ensinou a assoviar, eu o ensinei a gritar.
Ele me ensinou a ser forte, eu o ensinei a ser calmo
Ele me ensinou a correr, eu o ensinei a andar um pouco mais devagar.
Ele me ensinou a achar todos os caminhos da cidade, eu o ensinei a perder-se um pucadinho...
Ele me ensinou a fazer musculação, eu o ensinei a dormir até mais tarde.
Ele me ensinou a persistir, eu o ensinei a boa prática de, vez outra, desistir
Ele me ensinou a gostar de trabalhar, eu o ensinei a gostar de estudar.
Ele me ensinou a ser pontual, eu o ensinei a perder a hora.
Ele me ensinou a usar o excel, eu o ensinei a ler blogs.
Ele me ensinou a comer queijo trancinha, graviola, e rúcula.
Mas eu o apresentei os sorvetes Rochinhas - e sei que ele será grato por isso, até o fim dos tempos.
Eu o ensinei Fabio Jr e ele me mostrou Jack Johnson.
Ele me ensinou toda a matemática que eu sei, mas eu o ensinei um pouco do meu português.
Ele me ensinou sobre a bolsa de valores e eu sobre as bolsas de couro.
Ele me ensinou a entender o caderno de economia e eu o ensinei poesia...
Ele me ensinou a conhecer o mundo, eu apresentei-lhe a própria casa...
Thursday, April 30, 2009
Sunday, April 26, 2009
O milagre

Foi hoje que aconteceu. Eu fiz um milagre. Ou, talvez não tenha sido eu, mas um milagre me aconteceu. Devia ser cerca de 7 horas da manhã; eu acordei e vi que era segunda-feira. Me deu um tristeza profuuuuunda, uma preguiça enooorme, e eu comecei a pensar, com toda a força da minha mente: "Por favor seja domingo, por favor seja domingo, seja domingo, seja domingo, seja domingo, seja domingo, seja domingo, seja domingo, seja domingo, por favor, seja domingo, só dessa vez, por favor seja domingo!". E daí, pensando isso continuamente, adormeci. Quando acordei de novo, lá pelas 9, supresa: Era domingo! Fiquei encantada com o meu poder e, enquanto meu marido diz que sempre foi domingo, que eu devo ter sonhado, eu comemoro um domingo novinho que, todos nós vivemos, graças ao poder da minha mente. Não é incrível?
A propósito, porque eu não pedi pra ser sábado hein?
Monday, April 20, 2009
Na rua
O que eu mais gosto de sairmos juntos é que, inevitavelmente, ele conversa com os homens, e eu, com as mulheres.
Quando voltamos, já no caminho, é como se a saída começasse de novo. Ele contando as impressões e conversas dele, e eu as minhas.
Assim, em uma única noite, vivemos muito mais do que uma única pessoa.
Por isso que os casais saem tão pouco, entenderam?
Quando voltamos, já no caminho, é como se a saída começasse de novo. Ele contando as impressões e conversas dele, e eu as minhas.
Assim, em uma única noite, vivemos muito mais do que uma única pessoa.
Por isso que os casais saem tão pouco, entenderam?
Thursday, April 16, 2009
Crônica do dia
O blog dela me inspirou e eu escrevi no blog dele. E assim caminha a humanidade...
REMAR E BOIAR
Não fui eu que inventei a expressão. Achei no site dela, em algum momento em que ela falava sobre o desgaste de um trabalho duro, e a alegria de um dia a mercê do vento.
Acontece que nunca mais me esqueci da soma dessas duas palavras e, vira e mexe, enquanto estou remando, remando muito, imploro que o vento me ajude e deixe-me boiar por alguns segundos. Explico: Remar e boiar. Remar é trabalhar, boiar é descansar. Remar é fazer força, boiar é relaxar. Remar é enfrentar chefe, boiar é brincar com o filho. Remar é fila no supermercado, boiar é o sofá. Remar é o Jornal Nacional, boiar é TV Fama. Remar é pensar, boiar é esvaziar-se...
Há casamentos que são mais remar, outros, deliciosos, são feitos de boiar. Mas todos os relacionamentos, todos, exigem as duas atividades. Na hora de ceder, brigar, ou simplesmente aturar, somos remadores fortes. Remamos quando respiramos fundo mesmo diante da toalha molhada sobre a cama, remamos quando damos explicações longas para problemas pequenos, remamos quando disfarçamos os gastos, ou quando murchamos a barriga. Já na hora de brincar, rir e rachar uma pizza, costumamos boiar encantados. Boiamos quando nos aconchegamos no braço alheio, boiamos quando rimos de uma piada idiota, boiamos quando dançamos, sozinhos, numa pequena sala vazia...
E no trabalho, não é diferente. Normalmente trabalho é remar arduamente, mas, alguns trabalhos têm longos períodos boiando. Não é o meu caso. No meu trabalho, sinto-me remar até arder os braços. Fazer planilha no excel é remar, reportar relatórios mirabolantes é remar, dar explicações de horário é remar muito. As vezes, algumas vezes, tenho um almoço tão leve e divertido com as amigas que, mesmo no escritório dos campeões de remo, sinto-me boiar por uma curta hora. Acontece. Mas há um ou outro sortudo que vive de boiar. Sério, existe gente que ganha para boiar e, esses, devem ter os braços fracos, mas o coração aquecido. Outro dia ouvi dizer de uma moça que a profissão dela é “conversadora”. Sim, ela organiza e realiza conversas. Aquilo que a gente faz no cafezinho, correndo, é o dia-a-dia dela. Boiar levemente, sob águas mornas - inclusive.
Mas esses representam uma pequena minoria. Há também aqueles que nem trabalham, mas esforçam-se tanto em tudo o que fazem, que chegam ao fim da vida sentindo seus braços dormentes de tanto remar. Tantos que passam a vida toda remando, com o filhos, com a família, com a casa, com o trabalho, seja lá o que for trabalho. Tornam-se cansados e, nos casos mais tristes, desaprendem a boiar. Viram amargurados e mesquinhos. Se, por ventura, pegam-se boiando num almoço de domingo, quase que assustam-se com o peso leve do corpo, dentro da água. Não raro voltam a mastigar a sua alface com a mesma apatia de antes. Sim, porque comer alface, para a maior parte das pessoas, é remar. Já chocolate, hambúrguer, sorvete e macarrão, isso é boiar com sabedoria. Curtir é boiar. Preocupar-se é remar. Navegar sem destino na net, lendo blogs até perder a hora, é boiar um pucadinho. Fazer imposto de renda é remar. Achar um eletricista, um encanador, um marceneiro, é ser um mestre do remo. Quase que primeiro lugar. Eu ando estou a milhas de distância desses atletas. Mas aprendia a boiar com uma leveza sem tamanho.
Sim, porque, se remar precisa ser aprendido, boiar também. É outro aprendizado, outro formato, mas é necessário aprender, porque não é qualidade de todo mundo boiar. A felicidade, essa danada, é dom de alguns, conquista de outros, e utopia para tantos. Já o remo, ah o remo é dado a todos, em algum momento da vida.... Se você ainda não recebeu o seu, atente-se. Logo terá um remo nos braços e, quando a correnteza estiver forte, você só pode remar ou boiar. Caso contrário, é afogar-se na certa...
REMAR E BOIAR
Não fui eu que inventei a expressão. Achei no site dela, em algum momento em que ela falava sobre o desgaste de um trabalho duro, e a alegria de um dia a mercê do vento.
Acontece que nunca mais me esqueci da soma dessas duas palavras e, vira e mexe, enquanto estou remando, remando muito, imploro que o vento me ajude e deixe-me boiar por alguns segundos. Explico: Remar e boiar. Remar é trabalhar, boiar é descansar. Remar é fazer força, boiar é relaxar. Remar é enfrentar chefe, boiar é brincar com o filho. Remar é fila no supermercado, boiar é o sofá. Remar é o Jornal Nacional, boiar é TV Fama. Remar é pensar, boiar é esvaziar-se...
Há casamentos que são mais remar, outros, deliciosos, são feitos de boiar. Mas todos os relacionamentos, todos, exigem as duas atividades. Na hora de ceder, brigar, ou simplesmente aturar, somos remadores fortes. Remamos quando respiramos fundo mesmo diante da toalha molhada sobre a cama, remamos quando damos explicações longas para problemas pequenos, remamos quando disfarçamos os gastos, ou quando murchamos a barriga. Já na hora de brincar, rir e rachar uma pizza, costumamos boiar encantados. Boiamos quando nos aconchegamos no braço alheio, boiamos quando rimos de uma piada idiota, boiamos quando dançamos, sozinhos, numa pequena sala vazia...
E no trabalho, não é diferente. Normalmente trabalho é remar arduamente, mas, alguns trabalhos têm longos períodos boiando. Não é o meu caso. No meu trabalho, sinto-me remar até arder os braços. Fazer planilha no excel é remar, reportar relatórios mirabolantes é remar, dar explicações de horário é remar muito. As vezes, algumas vezes, tenho um almoço tão leve e divertido com as amigas que, mesmo no escritório dos campeões de remo, sinto-me boiar por uma curta hora. Acontece. Mas há um ou outro sortudo que vive de boiar. Sério, existe gente que ganha para boiar e, esses, devem ter os braços fracos, mas o coração aquecido. Outro dia ouvi dizer de uma moça que a profissão dela é “conversadora”. Sim, ela organiza e realiza conversas. Aquilo que a gente faz no cafezinho, correndo, é o dia-a-dia dela. Boiar levemente, sob águas mornas - inclusive.
Mas esses representam uma pequena minoria. Há também aqueles que nem trabalham, mas esforçam-se tanto em tudo o que fazem, que chegam ao fim da vida sentindo seus braços dormentes de tanto remar. Tantos que passam a vida toda remando, com o filhos, com a família, com a casa, com o trabalho, seja lá o que for trabalho. Tornam-se cansados e, nos casos mais tristes, desaprendem a boiar. Viram amargurados e mesquinhos. Se, por ventura, pegam-se boiando num almoço de domingo, quase que assustam-se com o peso leve do corpo, dentro da água. Não raro voltam a mastigar a sua alface com a mesma apatia de antes. Sim, porque comer alface, para a maior parte das pessoas, é remar. Já chocolate, hambúrguer, sorvete e macarrão, isso é boiar com sabedoria. Curtir é boiar. Preocupar-se é remar. Navegar sem destino na net, lendo blogs até perder a hora, é boiar um pucadinho. Fazer imposto de renda é remar. Achar um eletricista, um encanador, um marceneiro, é ser um mestre do remo. Quase que primeiro lugar. Eu ando estou a milhas de distância desses atletas. Mas aprendia a boiar com uma leveza sem tamanho.
Sim, porque, se remar precisa ser aprendido, boiar também. É outro aprendizado, outro formato, mas é necessário aprender, porque não é qualidade de todo mundo boiar. A felicidade, essa danada, é dom de alguns, conquista de outros, e utopia para tantos. Já o remo, ah o remo é dado a todos, em algum momento da vida.... Se você ainda não recebeu o seu, atente-se. Logo terá um remo nos braços e, quando a correnteza estiver forte, você só pode remar ou boiar. Caso contrário, é afogar-se na certa...
Thursday, April 9, 2009
O Computador >> Ana Coutinho
Querendo ser macaca, na crônica do dia. Hoje.
Eu devia ter uns 11 anos, não mais do que isso. Era década de 80 e meu cunhado, que acabara de voltar de uma viagem de trabalho à Alemanha, relatava a todos os familiares, na mesa de jantar: “Lá, todo mundo tem um computador. Sabe, um desses, pequenos??” as pessoas se entreolhavam, incrédulas: “Como assim? Computador, desses que a gente vê nos escritórios, em uma sala longe?”. Isso - Ele respondia com uma empolgação contagiante – “Isso, cada um tem uma daqueles nas suas mesas. Cada um tem um, todo mundo tem um computador, entende??”.
As pessoas ficaram impressionadas enquanto ele continuava, prevendo que, um dia, isso aconteceria no Brasil. Cada um teria o seu próprio computador, as pessoas sentariam em mesas longas e o papel iria acabar. Eu, calada, comendo ovo frito, pensava para que serviria isso. Um troço tão pesado, porque não dividir? Para mim, era a mesma coisa que cada um ter a sua televisão, imagine o transtorno disso... Mesas longas com as televisões enfileiradas, para que cada um pudesse ver o seu canal predileto, sentados em filas também, mãos baixas, olhares fixos.
Acontece que eu estava errada e ele certo. Com exceção do término do papel, as previsões dele se concretizaram muito mais rápido do que qualquer um poderia imaginar. Quando, 10 anos depois, eu entrei no mercado de trabalho, já tinha o meu próprio computador, e era apenas uma estagiária. Os chefes tinham notebooks, as máquinas incríveis que olhávamos meio de rabo de olho, porque queríamos fingir que era natural. Não era. Aliás, até hoje, não acho natural que cada um tenha o seu computador. Não acho nada, nada natural aquele escritório lotado, as mulheres fantasiadas de saltos e os homens fantasiados de gravata. Se tinha um traje obrigatório, porque não pijamas? Ou, se era pra ser fantasia, porque não e piratas e princesas? Ou, muito melhor, bruxas.
Hoje, quando assisto à vida nos escritórios, ao stress, às mentiras, às aparências, sempre penso que é ridículo nos enquadramos na raça animal. Que animal?? Que animal, por mais estúpido que seja, iria chorar escondido numa casinha apertada do banheiro? Que animal, iria lotar a cara de pó pra parecer mais jovem? Qual deles iria querer a caneta mais chique, ou iria dependurar gravata nos seus pescoços, todo santo dia, sem que fossem obrigados a isso? Eles são mais inteligentes do que nós. Nunca aceitariam esses faróis imbecis que a cidade insiste em colocar para piorar ainda mais o trânsito. Sempre que vejo um novo farol, com a típica fila de carros a espera da luz verde, desejo ser um gorila, pular sobre todos os carros da frente e, escalando o poste do farol, arrancar a luz vermelha com minhas grossas patas e babar em todo mundo que estiver abaixo... Normalmente, quando chego nessa parte do pensamento, o farol abre e ando um pucadinho. Bem pouquinho mesmo. Apenas o suficiente para desviar o pensamento e lembrar que, talvez, tenhamos até certa grandeza. Quem sabe, sejamos mesmo superiores em algumas coisas até porque, nenhum animal, nunca, suportaria buzina e coca-cola e ar-condicionado por tanto tempo, como só nós - os inteligentes - somos capazes de fazer.
Eu devia ter uns 11 anos, não mais do que isso. Era década de 80 e meu cunhado, que acabara de voltar de uma viagem de trabalho à Alemanha, relatava a todos os familiares, na mesa de jantar: “Lá, todo mundo tem um computador. Sabe, um desses, pequenos??” as pessoas se entreolhavam, incrédulas: “Como assim? Computador, desses que a gente vê nos escritórios, em uma sala longe?”. Isso - Ele respondia com uma empolgação contagiante – “Isso, cada um tem uma daqueles nas suas mesas. Cada um tem um, todo mundo tem um computador, entende??”.
As pessoas ficaram impressionadas enquanto ele continuava, prevendo que, um dia, isso aconteceria no Brasil. Cada um teria o seu próprio computador, as pessoas sentariam em mesas longas e o papel iria acabar. Eu, calada, comendo ovo frito, pensava para que serviria isso. Um troço tão pesado, porque não dividir? Para mim, era a mesma coisa que cada um ter a sua televisão, imagine o transtorno disso... Mesas longas com as televisões enfileiradas, para que cada um pudesse ver o seu canal predileto, sentados em filas também, mãos baixas, olhares fixos.
Acontece que eu estava errada e ele certo. Com exceção do término do papel, as previsões dele se concretizaram muito mais rápido do que qualquer um poderia imaginar. Quando, 10 anos depois, eu entrei no mercado de trabalho, já tinha o meu próprio computador, e era apenas uma estagiária. Os chefes tinham notebooks, as máquinas incríveis que olhávamos meio de rabo de olho, porque queríamos fingir que era natural. Não era. Aliás, até hoje, não acho natural que cada um tenha o seu computador. Não acho nada, nada natural aquele escritório lotado, as mulheres fantasiadas de saltos e os homens fantasiados de gravata. Se tinha um traje obrigatório, porque não pijamas? Ou, se era pra ser fantasia, porque não e piratas e princesas? Ou, muito melhor, bruxas.
Hoje, quando assisto à vida nos escritórios, ao stress, às mentiras, às aparências, sempre penso que é ridículo nos enquadramos na raça animal. Que animal?? Que animal, por mais estúpido que seja, iria chorar escondido numa casinha apertada do banheiro? Que animal, iria lotar a cara de pó pra parecer mais jovem? Qual deles iria querer a caneta mais chique, ou iria dependurar gravata nos seus pescoços, todo santo dia, sem que fossem obrigados a isso? Eles são mais inteligentes do que nós. Nunca aceitariam esses faróis imbecis que a cidade insiste em colocar para piorar ainda mais o trânsito. Sempre que vejo um novo farol, com a típica fila de carros a espera da luz verde, desejo ser um gorila, pular sobre todos os carros da frente e, escalando o poste do farol, arrancar a luz vermelha com minhas grossas patas e babar em todo mundo que estiver abaixo... Normalmente, quando chego nessa parte do pensamento, o farol abre e ando um pucadinho. Bem pouquinho mesmo. Apenas o suficiente para desviar o pensamento e lembrar que, talvez, tenhamos até certa grandeza. Quem sabe, sejamos mesmo superiores em algumas coisas até porque, nenhum animal, nunca, suportaria buzina e coca-cola e ar-condicionado por tanto tempo, como só nós - os inteligentes - somos capazes de fazer.
Saturday, April 4, 2009
Diferenças
Mal posso acreditar que já faz 5 anos que escrevi isso. Eu existia, há 5 anos?
14/12/2003
Tenho diferenças entre mim e mim mesma...
Meu pé esquerdo é mais esparramado que o direito,
Meu peito direito é menor do que o esquerdo,
Já entre as mãos há diferentes habilidades:
Com a esquerda eu escrevo, com a direita arremesso.
A sombrancelha direita tem mais pelo, a esquerda, porém, é mais longa.
Quando sorrio nasce uma covinha do lado esquerdo, enquanto o outro permanece inteiro e cheio.
Quando choro é só um olho que derrama lágrimas. O outro fica fingindo que chora enquanto vê o mundo claro.
Quando sinto cheiro é pelo lado direito, que o esquerdo anda sempre entupido.
Tenho diferenças entre mim e mim mesma.
Como se aqui morassem duas,
A da esquerda é mais gorda, a da direita mais seca,
Um lado com muitos pelos, outro, com muitas falhas,
Uma parte esparramada a outra espremida.
Alguém que respira, alguém que sufoca.
Ninguém sabe, ninguém nota que as duas, teimosas, crescem para lados diferentes, enxergam as coisas de forma distintas e sofrem ou alegram-se sozinhas, cada uma do seu lado, cada uma do seu jeito.
As duas fazem as diferenças que tenho de mim, comigo mesma.
Por culpa delas sou assim, contraditória. Grande e pequena, cheia e vazia.
Por culpa delas não sou nada, sou tudo, muito e pouco, céu e inferno, barulho e silêncio.
Quem, com pés diferentes, não tropeça?
Quem com mãos opostas, consegue segurar firme?
Nem eu, que conheço as duas e traço o caminho, sigo o rumo, passo a vida tentando apresentá-las uma a outra, suas metades, esperando que digam: “Olá, muito prazer, somos vizinhas, quer entrar?”
Mas não. Ora sou uma, ora outra. Ora acho isso, ora isso é uma tontice. Ora avanço, ora recuo. Não sou sempre eu. Sou eu e, do outro lado, aqui, em algum lugar, eu mesma.
14/12/2003
Tenho diferenças entre mim e mim mesma...
Meu pé esquerdo é mais esparramado que o direito,
Meu peito direito é menor do que o esquerdo,
Já entre as mãos há diferentes habilidades:
Com a esquerda eu escrevo, com a direita arremesso.
A sombrancelha direita tem mais pelo, a esquerda, porém, é mais longa.
Quando sorrio nasce uma covinha do lado esquerdo, enquanto o outro permanece inteiro e cheio.
Quando choro é só um olho que derrama lágrimas. O outro fica fingindo que chora enquanto vê o mundo claro.
Quando sinto cheiro é pelo lado direito, que o esquerdo anda sempre entupido.
Tenho diferenças entre mim e mim mesma.
Como se aqui morassem duas,
A da esquerda é mais gorda, a da direita mais seca,
Um lado com muitos pelos, outro, com muitas falhas,
Uma parte esparramada a outra espremida.
Alguém que respira, alguém que sufoca.
Ninguém sabe, ninguém nota que as duas, teimosas, crescem para lados diferentes, enxergam as coisas de forma distintas e sofrem ou alegram-se sozinhas, cada uma do seu lado, cada uma do seu jeito.
As duas fazem as diferenças que tenho de mim, comigo mesma.
Por culpa delas sou assim, contraditória. Grande e pequena, cheia e vazia.
Por culpa delas não sou nada, sou tudo, muito e pouco, céu e inferno, barulho e silêncio.
Quem, com pés diferentes, não tropeça?
Quem com mãos opostas, consegue segurar firme?
Nem eu, que conheço as duas e traço o caminho, sigo o rumo, passo a vida tentando apresentá-las uma a outra, suas metades, esperando que digam: “Olá, muito prazer, somos vizinhas, quer entrar?”
Mas não. Ora sou uma, ora outra. Ora acho isso, ora isso é uma tontice. Ora avanço, ora recuo. Não sou sempre eu. Sou eu e, do outro lado, aqui, em algum lugar, eu mesma.
Sunday, March 29, 2009
Are Baba
Essa novela das 8 tem muitas coisas engraçadas. Adoro o tal do Hatcha... Nem sei o que é, mas a Maya vive dizendo Hatcha, sussurando bem baixinho, com voz sexy, Haaatcha, ela diz como se fosse um segredo inviolável... Também adoro aquilo que é auspicioso e não auspicioso, mas, o mais engraçado é essa coisa de beijar os pés dos mais velhos. Se tivéssemos esse costume aqui no Brasil, eu, pessoalmente, sempre ficaria na dúvida. Eu tenho 31 e sou normal, mas ta cheio de quarentona que parece mais nova que eu. E aí? Eles nunca ficam na dúvida? Eu ficaria ofendidíssima se, de repente, uma quarentona sarada dessas se abaixasse pra beijar meu pé. Já pensou? Pronto, faleci!
E, quase que pior, se eu me abaixo pra beijar os pés de alguém, e a pessoa é 5 anos mais nova que eu? Como eles fazem pra saber? E será que sempre tem que fazer? até o fim da vida? Tipo, a Hebe encontra a Dercy Gonçalvez. E aí? Hebe se abaixa e pode não subir mais. Não tá certo isso.
Se bem que eu, 50 anos a menos que a Gracinha, acho que travaria no joelho de alguém e lá ficaria, fingindo que coçava o meu pé, ou que tinha um respeito tão imensurável pela pessoa, que sequer conseguiria me levantar. Pronto, danou-se, travei e ainda sou jovem. Os outros é que se abaixem se quiser. E, como diria Katylene, Hare Baba Brasil!
E, quase que pior, se eu me abaixo pra beijar os pés de alguém, e a pessoa é 5 anos mais nova que eu? Como eles fazem pra saber? E será que sempre tem que fazer? até o fim da vida? Tipo, a Hebe encontra a Dercy Gonçalvez. E aí? Hebe se abaixa e pode não subir mais. Não tá certo isso.
Se bem que eu, 50 anos a menos que a Gracinha, acho que travaria no joelho de alguém e lá ficaria, fingindo que coçava o meu pé, ou que tinha um respeito tão imensurável pela pessoa, que sequer conseguiria me levantar. Pronto, danou-se, travei e ainda sou jovem. Os outros é que se abaixem se quiser. E, como diria Katylene, Hare Baba Brasil!
Thursday, March 26, 2009
A CRISE
A pior crise de todos os tempo. Na crônica do dia.
Todo mundo fala tanto na crise, que eu sinto-me um pouco constrangida de dizer que não a conheço. Ou, talvez, ela sempre tenha vivido comigo, a danada, e por isso não a estranho.
Perguntei para o meu marido da nossa crise. Ele insiste em dizer que nunca tivemos. Mas já tivemos sim. Só eu, contabilizo duas. E sou especialista na mais grave dela, que carinhosamente chamo de crise da tosse.
Começou uma noite qualquer, uma noite normal, quando ele não conseguiu dormir: “estou com uma tossinha chata” disse, se levantando na madrugada.
Voltou em alguns minutos e eu achei que estivesse melhor, mas quando meus olhos já estavam fechados, lá vinha: “cof, cof, cof”. Eu, como uma boa esposa, sugeri um mel, me ofereci para fazer um chá, falei doce e calmamente com ele, esperando que adormecesse, mas não aconteceu. Durou horas, talvez a noite inteira, mas acabamos por adormecer, quase de manhã. Dia seguinte, fui logo perguntando:
- Ô, que tosse essa noite hein amorzão?
- Pois é. Mas já passou, viu? Não tô com nada.
Ufa. Meus ombros até relaxaram, eu dormiria, enfim.
Porém, quando a noite chegou, qual foi a minha surpresa ao notar que o homem curado, são, inteiraço, voltou a tossir. E – pior – a tosse era ainda mais alta. Levantava, voltava, tossia, virava pra um lado, pra outro, tossia mais, enquanto eu enlouquecia, tentando meditar: “Dalai Lama, Dalai Lama, Dalai Lama”. Nada funcionou. Eu só tinha duas opções, bater na cabeça dele com o abajur, ou levantar. Escolhi a segunda. Ofereci chá, mel, massagem, até dinheiro eu ofereci pra ele, mas nada – nada resolvia. Foi uma noite inteira em claro. De dia, com olheiras, esbravejei: “Pó meu, assim não dá né Lin!” Ele, resignado, disse que estava morto de cansaço, mas sentia a tosse curada. “Sei..” resmunguei sem saber o que me esperava. Comprei um xarope, por via das dúvidas. A caixa prometia alívio imediato. Imediato é que não seria, porque eu só descansaria a noite. Acontece que, ainda naquela noite, ele tossiu. E o xarope que produzia alívio imediato quase foi lançado pela janela. Alívio imediato pro bolso do fabricante né? Eu esbravejava enquanto ele tossia. A tortura continuou, noite após noite esse homem tossia, tossia, tossia. Eu não sabia mais o que fazer. Já tinha sido educada, carinhosa, sedutora, louca, já tinha gritado e saído do quarto. Houve uma noite, inclusive, que comecei a chorar. Ele tossia e eu chorava: “o que foi amor?” dizia entre um cof-cof e outro. “Nadaaaaaa” eu respondia, entre lágrimas, torturada pela privação de sonos e pensando que, meu Deus, as pessoas diziam que casamento era difícil, porque foi que eu não acreditei?! As estatísticas sempre haviam escancarado o número de divórcios e eu, no meio da madrugada, me via como mais um número, dos jornais. “Tivemos uma crise” diria aos amigos. “Todos os casais tem crises, eu sei. Mas essa, essa foi muito grave” se perguntassem se foi traição ou tóxico, eu responderia, lamentando: “Quem dera....” foi muito pior.
Em alguma madrugada qualquer, fomos até farmácia e, em pânico, imploramos algum remédio que funcionasse. Eu sei que o certo era ir ao médico, mas a gente precisava de alívio IMEDIATO entende? O farmacêutico nos entregou uma caixinha, e advertiu: “Esse remédio é muito forte, tem de ter cuidado”. Cuidado quem tinha que ter era o meu marido. Eu já havia pulado da hipótese do divórcio para a hipótese do assassinato, o que não ocorreu, graças ao remedinho maravilhoso. Foi a minha primeira noite de sono em semanas. Ele tomou o comprimidinho, e, menos de uma hora depois, capotou. Fiquei tão impressionada que cheguei a checar se ele não tinha morrido, coitado. Será que assassinei, sem nem saber? Não, ufa... Era só o começo do fim da pior crise de todos os tempos. Essa sim, não foi marolinha não...
Todo mundo fala tanto na crise, que eu sinto-me um pouco constrangida de dizer que não a conheço. Ou, talvez, ela sempre tenha vivido comigo, a danada, e por isso não a estranho.
Perguntei para o meu marido da nossa crise. Ele insiste em dizer que nunca tivemos. Mas já tivemos sim. Só eu, contabilizo duas. E sou especialista na mais grave dela, que carinhosamente chamo de crise da tosse.
Começou uma noite qualquer, uma noite normal, quando ele não conseguiu dormir: “estou com uma tossinha chata” disse, se levantando na madrugada.
Voltou em alguns minutos e eu achei que estivesse melhor, mas quando meus olhos já estavam fechados, lá vinha: “cof, cof, cof”. Eu, como uma boa esposa, sugeri um mel, me ofereci para fazer um chá, falei doce e calmamente com ele, esperando que adormecesse, mas não aconteceu. Durou horas, talvez a noite inteira, mas acabamos por adormecer, quase de manhã. Dia seguinte, fui logo perguntando:
- Ô, que tosse essa noite hein amorzão?
- Pois é. Mas já passou, viu? Não tô com nada.
Ufa. Meus ombros até relaxaram, eu dormiria, enfim.
Porém, quando a noite chegou, qual foi a minha surpresa ao notar que o homem curado, são, inteiraço, voltou a tossir. E – pior – a tosse era ainda mais alta. Levantava, voltava, tossia, virava pra um lado, pra outro, tossia mais, enquanto eu enlouquecia, tentando meditar: “Dalai Lama, Dalai Lama, Dalai Lama”. Nada funcionou. Eu só tinha duas opções, bater na cabeça dele com o abajur, ou levantar. Escolhi a segunda. Ofereci chá, mel, massagem, até dinheiro eu ofereci pra ele, mas nada – nada resolvia. Foi uma noite inteira em claro. De dia, com olheiras, esbravejei: “Pó meu, assim não dá né Lin!” Ele, resignado, disse que estava morto de cansaço, mas sentia a tosse curada. “Sei..” resmunguei sem saber o que me esperava. Comprei um xarope, por via das dúvidas. A caixa prometia alívio imediato. Imediato é que não seria, porque eu só descansaria a noite. Acontece que, ainda naquela noite, ele tossiu. E o xarope que produzia alívio imediato quase foi lançado pela janela. Alívio imediato pro bolso do fabricante né? Eu esbravejava enquanto ele tossia. A tortura continuou, noite após noite esse homem tossia, tossia, tossia. Eu não sabia mais o que fazer. Já tinha sido educada, carinhosa, sedutora, louca, já tinha gritado e saído do quarto. Houve uma noite, inclusive, que comecei a chorar. Ele tossia e eu chorava: “o que foi amor?” dizia entre um cof-cof e outro. “Nadaaaaaa” eu respondia, entre lágrimas, torturada pela privação de sonos e pensando que, meu Deus, as pessoas diziam que casamento era difícil, porque foi que eu não acreditei?! As estatísticas sempre haviam escancarado o número de divórcios e eu, no meio da madrugada, me via como mais um número, dos jornais. “Tivemos uma crise” diria aos amigos. “Todos os casais tem crises, eu sei. Mas essa, essa foi muito grave” se perguntassem se foi traição ou tóxico, eu responderia, lamentando: “Quem dera....” foi muito pior.
Em alguma madrugada qualquer, fomos até farmácia e, em pânico, imploramos algum remédio que funcionasse. Eu sei que o certo era ir ao médico, mas a gente precisava de alívio IMEDIATO entende? O farmacêutico nos entregou uma caixinha, e advertiu: “Esse remédio é muito forte, tem de ter cuidado”. Cuidado quem tinha que ter era o meu marido. Eu já havia pulado da hipótese do divórcio para a hipótese do assassinato, o que não ocorreu, graças ao remedinho maravilhoso. Foi a minha primeira noite de sono em semanas. Ele tomou o comprimidinho, e, menos de uma hora depois, capotou. Fiquei tão impressionada que cheguei a checar se ele não tinha morrido, coitado. Será que assassinei, sem nem saber? Não, ufa... Era só o começo do fim da pior crise de todos os tempos. Essa sim, não foi marolinha não...
Tuesday, March 24, 2009
Idéia
Toda vez é a mesma coisa.
Check-in, mala, correria, fila de embarque... E, toda vez, enquanto espero a minha vez de embarcar, vejo os cariocas que desembarcam por aqui, logo cedo, no começo da semana. Vêm trabalhar, claro...
Por isso, toda vez, tenho a mesma idéia mirabolante. Toda vez que os assisto, descerem cabisbaixos com suas malas e preguiças, penso em fazer-lhes a proposta mais óbvia. um dia ainda vou ter coragem.
Devo esperá-los descer, vou até o portão de desembarque e, logo que tiver um grupinho, anunciarei: "Ei! Ei pessoal! Vocês aí que estão chegando do Rio, pra trabalhar em SP...Isso, vocês mesmo!" eles me olhariam, talvez até um pouco assustados, mas eu me manteria firme e, então, faria a proposta: "Alguém, alguém de vocês quer trocar de emprego comigo??".
Pois eu duvido, duvideodó, que não tem ninguém, ninguénzinho naquela gente toda, que poderia fazer o meu trabalho no Rio, enquanto eu, alegrinha, faria o trabalho dele, lá da minha São Paulo adorada...
Um dia anda crio coragem...
Check-in, mala, correria, fila de embarque... E, toda vez, enquanto espero a minha vez de embarcar, vejo os cariocas que desembarcam por aqui, logo cedo, no começo da semana. Vêm trabalhar, claro...
Por isso, toda vez, tenho a mesma idéia mirabolante. Toda vez que os assisto, descerem cabisbaixos com suas malas e preguiças, penso em fazer-lhes a proposta mais óbvia. um dia ainda vou ter coragem.
Devo esperá-los descer, vou até o portão de desembarque e, logo que tiver um grupinho, anunciarei: "Ei! Ei pessoal! Vocês aí que estão chegando do Rio, pra trabalhar em SP...Isso, vocês mesmo!" eles me olhariam, talvez até um pouco assustados, mas eu me manteria firme e, então, faria a proposta: "Alguém, alguém de vocês quer trocar de emprego comigo??".
Pois eu duvido, duvideodó, que não tem ninguém, ninguénzinho naquela gente toda, que poderia fazer o meu trabalho no Rio, enquanto eu, alegrinha, faria o trabalho dele, lá da minha São Paulo adorada...
Um dia anda crio coragem...
Wednesday, March 18, 2009
Excursão
Tenho ido viajar, toda semana, a trabalho.
Normalmente meu vôo sai muito cedo, de modo que entro no elevador do meu prédio as 5:20 da matina.
É sempre com uma pitada de preguiça e tristeza que enfrento essas viagens. Não me dá prazer viajar nessas condições tão impositivas e desajeitadas.
Essa manhã, quando estava no táxi, bocejando e procurando a lua, lembrei-me da minha infância. As pouquíssimas vezes em que tinha de acordar tão cedo, eram alegres e festivas, porque, normalmente era um passeio da escola que me obrigava a madrugar.
Eram as excursões que mudavam a minha rotina, e faziam-me levantar cedo, com o coração cheio de inquietude e alegria. Não importava o passeio. Podia ser a um museu, ao zoológico ou à Estação Ciência, eu mal conseguia dormir de ansiedade. Apreciava cada pequeno momento daqueles dias que anteviam o passeio. A preparação do lanche especial, as recomendações em folha sulfite, um dinheirinho a mais que eu ganhava para “qualquer coisa”... Tudo tinha um gosto especial, diferente e fascinante. Eu era uma menina descobrindo o mundo e o mundo, as 5 da manhã, mesmo quando escuro, era claro pra mim.
As ruas vazias, o friozinho da manhã, cada pequeno pedaço daquele dia que amanhecia me foi cravado na memória, com um gosto absolutamente especial.
Mas essa manhã, enquanto eu estava no táxi indo ao aeroporto, não sentia nada parecido com aquela alegria e inquietação e, de repente, senti uma enorme saudade do mundo encantado da minha meninice e desejei, ainda que por um instante, ser apenas, apenas e somente isso: Uma menina indo ao zoológico...
Normalmente meu vôo sai muito cedo, de modo que entro no elevador do meu prédio as 5:20 da matina.
É sempre com uma pitada de preguiça e tristeza que enfrento essas viagens. Não me dá prazer viajar nessas condições tão impositivas e desajeitadas.
Essa manhã, quando estava no táxi, bocejando e procurando a lua, lembrei-me da minha infância. As pouquíssimas vezes em que tinha de acordar tão cedo, eram alegres e festivas, porque, normalmente era um passeio da escola que me obrigava a madrugar.
Eram as excursões que mudavam a minha rotina, e faziam-me levantar cedo, com o coração cheio de inquietude e alegria. Não importava o passeio. Podia ser a um museu, ao zoológico ou à Estação Ciência, eu mal conseguia dormir de ansiedade. Apreciava cada pequeno momento daqueles dias que anteviam o passeio. A preparação do lanche especial, as recomendações em folha sulfite, um dinheirinho a mais que eu ganhava para “qualquer coisa”... Tudo tinha um gosto especial, diferente e fascinante. Eu era uma menina descobrindo o mundo e o mundo, as 5 da manhã, mesmo quando escuro, era claro pra mim.
As ruas vazias, o friozinho da manhã, cada pequeno pedaço daquele dia que amanhecia me foi cravado na memória, com um gosto absolutamente especial.
Mas essa manhã, enquanto eu estava no táxi indo ao aeroporto, não sentia nada parecido com aquela alegria e inquietação e, de repente, senti uma enorme saudade do mundo encantado da minha meninice e desejei, ainda que por um instante, ser apenas, apenas e somente isso: Uma menina indo ao zoológico...
Saturday, March 14, 2009
O alfaiate

Mas um texto da Crônica do dia do ano passado, que esqueci de trazer pra cá. Onde eu estava com a cabeça, o ano passado?
Me deparei outro dia com a imagem acima, e tive um instante de susto. Eu sabia da história, mas nunca tinha me dado conta dela. Eu sabia que um homem, um humilde alfaiate austríaco em 1919, achou que seria capaz de voar e criou o seu próprio aparato para isso. Vestiu-se, como quem veste seu melhor terno e foi para o alto da Torre Eiffel. Subiu a torre, cheio de coragem e força, chegou ao topo, olhou para baixo, titubeou, respirou, pensou, andou um pouquinho para o lado, talvez até tenha cogitado desistir, mas, quem sabe pela multidão que o assistia lá de baixo, ou quem sabe pela própria fé, inventou de não desistir e saltou. Saltou do alto da torre Eiffel achando que iria voar. Ele acreditou, piamente, que iria pairar sobre aqueles que o assistiam, deve ter se imaginando voando, batendo os braços tal qual um pássaro, enquanto a platéia o aplaudiria.
Ah, quanta fé... Quanta coragem e — ao mesmo tempo — quanta ingenuidade. É quase uma criança o senhor alfaiate. Só a infância e a paixão nos permitem essa esperança insana de um suicídio. É um apaixonado, um homem e um menino, um humano que não se sabe humano, um humano que, ao contrario de nós mortais, se crê Deus. O alfaiate me despertou uma espécie de inveja, uma compaixão misturada com encantamento.
Quantas vezes me vi diante do abismo e desejei saltar? Quantas vezes senti que precisaria de um pouco mais de fé para enfrentar uma situação e, no entanto, recuei? Quantas vezes me paramentei de força e coragem, me preparei e desejei ardentemente um vôo baixo, nem precisava ser tão arriscado quanto o do alfaiate, mas, ao me ver humana e falível, desisti com medo do erro, do fracasso, da humilhação.
Para o alfaiate, a queda era pior do que uma humilhação. A queda era a morte. Errar não causaria apenas o desconforto e a falta de jeito que causaria a mim. Errar para o alfaiate representaria o fim das chances, das possibilidades de acertos e — inclusive — de novos erros.
Ainda assim ele saltou. Ainda assim o alfaiate se arriscou. Talvez preferisse a morte ao vexame que seria a falta de aplausos, a crítica e a crueldade alheia. Talvez... Mas não lhe foi perguntado. Ninguém tentou lhe tirar dali, ninguém lhe puxou pelo braço e disse: “Ei, meu amigo, venha cá. Vamos conversar, isso pode não dar certo...” Não... Uma multidão assistiu ao sonho desse homem. Várias pessoas, como eu, você, nossos pais, assistiam àquela tragédia em forma de poesia. É uma poesia torta, um sonho encantado e cheio de sangue, a doçura tonta do alfaiate.
Eu o invejo, sim. Todos os dias em que meus pés rateiam diante do desconhecido. Eu o invejo sempre que sinto minhas pernas bambas ao caminhar para o novo, ou quando minha voz não sai por medo de ser tola. A vida se fez tão cheia de regras e obrigações que não vejo espaço para essa esperança tão fora de propósito e irracional do alfaiate. Talvez por isso eu não consiga deixar de invejá-lo, ao menos um pouco. Porque ele deve ter sido o último tolo corajoso que já existiu. Tolo, corajoso e determinado, como eu quis ser tantas vezes, mesmo que depois me estatelasse no chão como, aliás, aconteceu com o pobre alfaiate.
Thursday, March 12, 2009
DUAS RODAS >> Ana Coutinho
Hoje, na crônica do dia. Andei sem rodinhas.
Já tinha passado da hora. Eu já era grande demais para precisar das rodinhas traseiras da bicicleta. Então, alguém – que não lembro quem – tirou as rodinhas da minha bicicleta e anunciou, para quem quisesse ouvir que, a partir de agora eu só andaria de bicicleta se fosse como gente grande – ou ao menos não tão pequena. Eu, boba como sempre, fiquei calada e abandonei a bicicleta. Abandonei porque me sabia fadada ao tombo, ao fracasso, a uma inevitável e dolorosa queda, a qual eu evitaria o quanto fosse possível. Mas, o marasmo da infância faz mesmo maravilhas...
Era um dia de sol em São Paulo quando eu passava horas sem fazer nada no térreo. Estava entregue ao ócio há tempo demais, o que me impulsionou a descer à garagem e buscar a minha bicicleta, sem nem saber bem o que eu iria fazer com ela. Não precisou muito tempo paquerando a minha magrela, para que eu resolvesse tentar. Foi num susto, um enorme e longo susto que notei: Eu conseguia andar sem as rodinhas. Ainda me lembro da emoção desmedida que tomou conta de mim. Eu mal conseguia controlar a minha respiração, andava em círculos sem parar, encantada com a minha habilidade, como se, de repente, eu estivesse falando fluentemente inglês ou – melhor – como se tivesse me sido dada enormes asas e eu pudesse, num instante, voar.
Mas eu estava sozinha e qual é a graça de conseguir voar se ninguém pode te ver? Comecei imediatamente a gritar, lá do térreo: “Mããããããããe!”. Ela não ouvia. Tentei de novo e de novo, sem sair de cima da bicicleta, sem parar de pedalar em círculos pequenos, como se parando por alguns segundos, eu pudesse perder o encantamento de saber e, talvez, não conseguisse mais repetir aquele feito incrível. Demorou um pouco para que a minha mãe aparecesse na janela acenando quando eu, imediatamente gritei com uma euforia sem tamanho: “Olha mããããe! Eu estou andando sem rodinhas, sem rodinhas mããããe!”. Ela deve ter dito qualquer coisa como parabéns, deve ter sorrido e acenado para mim, enquanto eu esforçava-me para andar e olhar para cima, equilibrar-me e exibir-me.
A alegria continuou, mesmo quando eu comecei a notar que havia algo estranho. Talvez tenham sido os círculos, talvez o fato de ter ficado olhando pra cima, talvez a conquista inédita e preciosa, mas aconteceu que eu comecei a sentir-me mal. Subi correndo e, muito depressa, comecei a vomitar. Nunca mais na vida vomitei com tanto gosto e alegria. Ainda lembro-me da empolgação, mal contendo o riso, enquanto a minha mãe dizia: “Tá vendo, foi ficar rodando, olhando pra cima, isso que dá!” e eu, sorridente, só sabia repetir abaixada no chão frio do banheiro: “Eu consegui mãe, eu consegui, você viu? Eu consegui!”
Hoje, tantos anos depois, muitas vezes sinto-me como aquela menina quando alcanço uma conquista. É bem verdade que poucas conquistas foram tão importantes quanto essa, mas ainda as pequenas, ainda as conquistas tolas do dia a dia, me dão vontade de gritar e anunciar.
Acho mesmo bem provável que passemos a vida toda tentando ter a atenção e o amor que recebemos quando criança. Talvez, independente da nossa idade, todos – absolutamente todos – queremos nos descobrir capazes e vencedores, apenas para poder gritar, com toda a força de seu pulmão: “Olha mãããããããe, eu consegui!”
Já tinha passado da hora. Eu já era grande demais para precisar das rodinhas traseiras da bicicleta. Então, alguém – que não lembro quem – tirou as rodinhas da minha bicicleta e anunciou, para quem quisesse ouvir que, a partir de agora eu só andaria de bicicleta se fosse como gente grande – ou ao menos não tão pequena. Eu, boba como sempre, fiquei calada e abandonei a bicicleta. Abandonei porque me sabia fadada ao tombo, ao fracasso, a uma inevitável e dolorosa queda, a qual eu evitaria o quanto fosse possível. Mas, o marasmo da infância faz mesmo maravilhas...
Era um dia de sol em São Paulo quando eu passava horas sem fazer nada no térreo. Estava entregue ao ócio há tempo demais, o que me impulsionou a descer à garagem e buscar a minha bicicleta, sem nem saber bem o que eu iria fazer com ela. Não precisou muito tempo paquerando a minha magrela, para que eu resolvesse tentar. Foi num susto, um enorme e longo susto que notei: Eu conseguia andar sem as rodinhas. Ainda me lembro da emoção desmedida que tomou conta de mim. Eu mal conseguia controlar a minha respiração, andava em círculos sem parar, encantada com a minha habilidade, como se, de repente, eu estivesse falando fluentemente inglês ou – melhor – como se tivesse me sido dada enormes asas e eu pudesse, num instante, voar.
Mas eu estava sozinha e qual é a graça de conseguir voar se ninguém pode te ver? Comecei imediatamente a gritar, lá do térreo: “Mããããããããe!”. Ela não ouvia. Tentei de novo e de novo, sem sair de cima da bicicleta, sem parar de pedalar em círculos pequenos, como se parando por alguns segundos, eu pudesse perder o encantamento de saber e, talvez, não conseguisse mais repetir aquele feito incrível. Demorou um pouco para que a minha mãe aparecesse na janela acenando quando eu, imediatamente gritei com uma euforia sem tamanho: “Olha mããããe! Eu estou andando sem rodinhas, sem rodinhas mããããe!”. Ela deve ter dito qualquer coisa como parabéns, deve ter sorrido e acenado para mim, enquanto eu esforçava-me para andar e olhar para cima, equilibrar-me e exibir-me.
A alegria continuou, mesmo quando eu comecei a notar que havia algo estranho. Talvez tenham sido os círculos, talvez o fato de ter ficado olhando pra cima, talvez a conquista inédita e preciosa, mas aconteceu que eu comecei a sentir-me mal. Subi correndo e, muito depressa, comecei a vomitar. Nunca mais na vida vomitei com tanto gosto e alegria. Ainda lembro-me da empolgação, mal contendo o riso, enquanto a minha mãe dizia: “Tá vendo, foi ficar rodando, olhando pra cima, isso que dá!” e eu, sorridente, só sabia repetir abaixada no chão frio do banheiro: “Eu consegui mãe, eu consegui, você viu? Eu consegui!”
Hoje, tantos anos depois, muitas vezes sinto-me como aquela menina quando alcanço uma conquista. É bem verdade que poucas conquistas foram tão importantes quanto essa, mas ainda as pequenas, ainda as conquistas tolas do dia a dia, me dão vontade de gritar e anunciar.
Acho mesmo bem provável que passemos a vida toda tentando ter a atenção e o amor que recebemos quando criança. Talvez, independente da nossa idade, todos – absolutamente todos – queremos nos descobrir capazes e vencedores, apenas para poder gritar, com toda a força de seu pulmão: “Olha mãããããããe, eu consegui!”
DUAS RODAS >> Ana Coutinho
Hoje, na crônica do dia. Andei sem rodinhas.
Já tinha passado da hora. Eu já era grande demais para precisar das rodinhas traseiras da bicicleta. Então, alguém – que não lembro quem – tirou as rodinhas da minha bicicleta e anunciou, para quem quisesse ouvir que, a partir de agora eu só andaria de bicicleta se fosse como gente grande – ou ao menos não tão pequena. Eu, boba como sempre, fiquei calada e abandonei a bicicleta. Abandonei porque me sabia fadada ao tombo, ao fracasso, a uma inevitável e dolorosa queda, a qual eu evitaria o quanto fosse possível. Mas, o marasmo da infância faz mesmo maravilhas...
Era um dia de sol em São Paulo quando eu passava horas sem fazer nada no térreo. Estava entregue ao ócio há tempo demais, o que me impulsionou a descer à garagem e buscar a minha bicicleta, sem nem saber bem o que eu iria fazer com ela. Não precisou muito tempo paquerando a minha magrela, para que eu resolvesse tentar. Foi num susto, um enorme e longo susto que notei: Eu conseguia andar sem as rodinhas. Ainda me lembro da emoção desmedida que tomou conta de mim. Eu mal conseguia controlar a minha respiração, andava em círculos sem parar, encantada com a minha habilidade, como se, de repente, eu estivesse falando fluentemente inglês ou – melhor – como se tivesse me sido dada enormes asas e eu pudesse, num instante, voar.
Mas eu estava sozinha e qual é a graça de conseguir voar se ninguém pode te ver? Comecei imediatamente a gritar, lá do térreo: “Mããããããããe!”. Ela não ouvia. Tentei de novo e de novo, sem sair de cima da bicicleta, sem parar de pedalar em círculos pequenos, como se parando por alguns segundos, eu pudesse perder o encantamento de saber e, talvez, não conseguisse mais repetir aquele feito incrível. Demorou um pouco para que a minha mãe aparecesse na janela acenando quando eu, imediatamente gritei com uma euforia sem tamanho: “Olha mããããe! Eu estou andando sem rodinhas, sem rodinhas mããããe!”. Ela deve ter dito qualquer coisa como parabéns, deve ter sorrido e acenado para mim, enquanto eu esforçava-me para andar e olhar para cima, equilibrar-me e exibir-me.
A alegria continuou, mesmo quando eu comecei a notar que havia algo estranho. Talvez tenham sido os círculos, talvez o fato de ter ficado olhando pra cima, talvez a conquista inédita e preciosa, mas aconteceu que eu comecei a sentir-me mal. Subi correndo e, muito depressa, comecei a vomitar. Nunca mais na vida vomitei com tanto gosto e alegria. Ainda lembro-me da empolgação, mal contendo o riso, enquanto a minha mãe dizia: “Tá vendo, foi ficar rodando, olhando pra cima, isso que dá!” e eu, sorridente, só sabia repetir abaixada no chão frio do banheiro: “Eu consegui mãe, eu consegui, você viu? Eu consegui!”
Hoje, tantos anos depois, muitas vezes sinto-me como aquela menina quando alcanço uma conquista. É bem verdade que poucas conquistas foram tão importantes quanto essa, mas ainda as pequenas, ainda as conquistas tolas do dia a dia, me dão vontade de gritar e anunciar.
Acho mesmo bem provável que passemos a vida toda tentando ter a atenção e o amor que recebemos quando criança. Talvez, independente da nossa idade, todos – absolutamente todos – queremos nos descobrir capazes e vencedores, apenas para poder gritar, com toda a força de seu pulmão: “Olha mãããããããe, eu consegui!”
Já tinha passado da hora. Eu já era grande demais para precisar das rodinhas traseiras da bicicleta. Então, alguém – que não lembro quem – tirou as rodinhas da minha bicicleta e anunciou, para quem quisesse ouvir que, a partir de agora eu só andaria de bicicleta se fosse como gente grande – ou ao menos não tão pequena. Eu, boba como sempre, fiquei calada e abandonei a bicicleta. Abandonei porque me sabia fadada ao tombo, ao fracasso, a uma inevitável e dolorosa queda, a qual eu evitaria o quanto fosse possível. Mas, o marasmo da infância faz mesmo maravilhas...
Era um dia de sol em São Paulo quando eu passava horas sem fazer nada no térreo. Estava entregue ao ócio há tempo demais, o que me impulsionou a descer à garagem e buscar a minha bicicleta, sem nem saber bem o que eu iria fazer com ela. Não precisou muito tempo paquerando a minha magrela, para que eu resolvesse tentar. Foi num susto, um enorme e longo susto que notei: Eu conseguia andar sem as rodinhas. Ainda me lembro da emoção desmedida que tomou conta de mim. Eu mal conseguia controlar a minha respiração, andava em círculos sem parar, encantada com a minha habilidade, como se, de repente, eu estivesse falando fluentemente inglês ou – melhor – como se tivesse me sido dada enormes asas e eu pudesse, num instante, voar.
Mas eu estava sozinha e qual é a graça de conseguir voar se ninguém pode te ver? Comecei imediatamente a gritar, lá do térreo: “Mããããããããe!”. Ela não ouvia. Tentei de novo e de novo, sem sair de cima da bicicleta, sem parar de pedalar em círculos pequenos, como se parando por alguns segundos, eu pudesse perder o encantamento de saber e, talvez, não conseguisse mais repetir aquele feito incrível. Demorou um pouco para que a minha mãe aparecesse na janela acenando quando eu, imediatamente gritei com uma euforia sem tamanho: “Olha mããããe! Eu estou andando sem rodinhas, sem rodinhas mããããe!”. Ela deve ter dito qualquer coisa como parabéns, deve ter sorrido e acenado para mim, enquanto eu esforçava-me para andar e olhar para cima, equilibrar-me e exibir-me.
A alegria continuou, mesmo quando eu comecei a notar que havia algo estranho. Talvez tenham sido os círculos, talvez o fato de ter ficado olhando pra cima, talvez a conquista inédita e preciosa, mas aconteceu que eu comecei a sentir-me mal. Subi correndo e, muito depressa, comecei a vomitar. Nunca mais na vida vomitei com tanto gosto e alegria. Ainda lembro-me da empolgação, mal contendo o riso, enquanto a minha mãe dizia: “Tá vendo, foi ficar rodando, olhando pra cima, isso que dá!” e eu, sorridente, só sabia repetir abaixada no chão frio do banheiro: “Eu consegui mãe, eu consegui, você viu? Eu consegui!”
Hoje, tantos anos depois, muitas vezes sinto-me como aquela menina quando alcanço uma conquista. É bem verdade que poucas conquistas foram tão importantes quanto essa, mas ainda as pequenas, ainda as conquistas tolas do dia a dia, me dão vontade de gritar e anunciar.
Acho mesmo bem provável que passemos a vida toda tentando ter a atenção e o amor que recebemos quando criança. Talvez, independente da nossa idade, todos – absolutamente todos – queremos nos descobrir capazes e vencedores, apenas para poder gritar, com toda a força de seu pulmão: “Olha mãããããããe, eu consegui!”
Tuesday, March 10, 2009
No Trenzinho da alegria
Uma crônica do ano passado, que ficou perdida no crônica do dia. Coitada...
No Trenzinho da alegria
O programa se chamava Bambalalão e a apresentadora, Gigi. Passava na Cultura, um canal que as crianças da minha época adoravam porque as propagandas eram muito curtas. Eu, como fã da Gigi, não consegui me conter de alegria quando a minha vizinha convidou-me para ir com ela e mais algumas crianças assistir à gravação do programa.
Ver a Gigi de perto? – ou seria Silvana? – eu pulei de alegria.
No dia, éramos umas quatro crianças no carro da vizinha que, embora vivesse num corpo de adulta, parecia uma criança como nós.
Lembro-me da musiquinha que repetia incessantemente: bambalalão, bambalalão, bambalalão, bambalalão - para por fim concluir - bambalalão é o trenzinho da alegria, que carrega todo dia dentro do seu coração. Talvez não fosse isso - hoje não tem importância - a música, naquele dia, estava cravada na minha cabeça e eu não cansava de repeti-la a todo instante.
Lá chegando fomos acomodadas no que seria a platéia, um nível abaixo do palco. Não demorou muito e elas apareceram, cantando – Eu disse elas? Eram duas?
Um mundo de crianças levantou-se e, todos juntos, cantávamos eufóricos, pulando e dançando como as apresentadoras – sim, eram duas.
Se eu fechar os olhos, quase posso ouvir meu coração disparado de emoção dentro daquele pequeno corpo, que já sabia o que era ter um ídolo. Eu, uma menina franzina, sentia-me um gigante naquele pequeno estúdio, misturada a tantas crianças com os mesmos gostos e sonhos que os meus.
No entanto, o passeio não foi só feito de alegria para mim. A coisa começou a complicar quando iniciaram as brincadeiras, que contavam com a participação das crianças. Eu, menina e tola, havia sonhado com isso nas noites anteriores. Iria participar de tais e tais jogos, ganhar um brinde e mandar um beijo pra minha mãe, pro meu pai e pra você. Ensaiei na frente do espelho e tudo. Quando chegou a primeira brincadeira, porém, fui esmagada por uma infinidade de crianças que, muito mais espertas e rápidas do que eu, correram perto do palco e gritaram: “Eu, eu, eu, escolhe eu, Gigi, escolhe eu!” O palco, um nível acima de onde estávamos, ficava infestado daquelas pequenas mãos implorando por um instante de visibilidade. Claro que eu não fui escolhida para a brincadeira. Mas uma das meninas que tinha ido comigo, minha vizinha de porta, parecia ter mais sorte. Robertinha era um ano mais nova do que eu, e muito mais esperta e desinibida. Logo na segunda brincadeira, correu para o palco e agarrou a mão de uma das apresentadoras que, num instante, levou-a para cima, onde ela apareceu triunfante sob os holofotes. Eu, lá debaixo, senti-me absolutamente infeliz, uma profunda fracassada assistindo à vencedora no pódium. Robertinha ganhou o jogo e desceu saltitante com seu presente, exibindo-se para nós. Lembro-me, ainda com dor, que sorri fingindo felicidade, enquanto abracei a minha amiga.
Mais alguns jogos aconteceram, eu corria para perto do palco, juro que tentava gritar como as outras, mas parecia invisível aos olhos das apresentadoras. As crianças que tinham ido comigo pareciam todas milagrosamente iluminadas, subindo ao palco uma a uma, enquanto eu vacilava no andar debaixo. Lá pelas tantas, a minha vizinha adulta me chamou de canto e disse, com muita firmeza: “Kika, presta atenção, você tem que agarrar no braço delas, entendeu? Igual a Robertinha, agarre e grite, eu, sou eu, eu, eu, eu, não pode ficar assim, meio sem-jeito de fazer isso, senão você não vai ser escolhida!” Ela, a minha querida amiga, tinha posto seus olhos em mim e via minha angústia.
Lá fui eu então, na próxima rodada, seguir ordens da minha adulta. Tentei gritar, tentei pegar na mão da Gigi, mas aconteceu em um instante: eu me senti ridícula, fora de propósito gritando aquilo, e tive vergonha. A voz embargou, as mãos não eram tão firmes como as dos outros e minha amiga Robertinha - que se jogou impetuosa na minha frente - foi mais uma vez escolhida. Quase que posso vê-la, hoje ainda, subindo sorridente para o palco, um pé após o outro, impulsionada pelas mãos de fada da Gigi.
O passeio para mim estava encerrado. Sentei-me longe, afastada da multidão, sentindo uma mistura de humilhação, tristeza e vergonha. Eu não era como eles. Eu era mais fraca, infinitamente menos capaz e muitíssimo mais tola. Assisti à vitória da Robertinha ali, do lado de baixo do palco, prendendo os lábios para não chorar.
Nunca me esqueço da volta do programa. Todos esfuziantes com os seus brindes, enquanto eu permanecia calada no banco de trás, sentindo - talvez pela primeira vez na minha vida - como pode ser doloroso sermos, irremediavelmente, quem somos.
No Trenzinho da alegria
O programa se chamava Bambalalão e a apresentadora, Gigi. Passava na Cultura, um canal que as crianças da minha época adoravam porque as propagandas eram muito curtas. Eu, como fã da Gigi, não consegui me conter de alegria quando a minha vizinha convidou-me para ir com ela e mais algumas crianças assistir à gravação do programa.
Ver a Gigi de perto? – ou seria Silvana? – eu pulei de alegria.
No dia, éramos umas quatro crianças no carro da vizinha que, embora vivesse num corpo de adulta, parecia uma criança como nós.
Lembro-me da musiquinha que repetia incessantemente: bambalalão, bambalalão, bambalalão, bambalalão - para por fim concluir - bambalalão é o trenzinho da alegria, que carrega todo dia dentro do seu coração. Talvez não fosse isso - hoje não tem importância - a música, naquele dia, estava cravada na minha cabeça e eu não cansava de repeti-la a todo instante.
Lá chegando fomos acomodadas no que seria a platéia, um nível abaixo do palco. Não demorou muito e elas apareceram, cantando – Eu disse elas? Eram duas?
Um mundo de crianças levantou-se e, todos juntos, cantávamos eufóricos, pulando e dançando como as apresentadoras – sim, eram duas.
Se eu fechar os olhos, quase posso ouvir meu coração disparado de emoção dentro daquele pequeno corpo, que já sabia o que era ter um ídolo. Eu, uma menina franzina, sentia-me um gigante naquele pequeno estúdio, misturada a tantas crianças com os mesmos gostos e sonhos que os meus.
No entanto, o passeio não foi só feito de alegria para mim. A coisa começou a complicar quando iniciaram as brincadeiras, que contavam com a participação das crianças. Eu, menina e tola, havia sonhado com isso nas noites anteriores. Iria participar de tais e tais jogos, ganhar um brinde e mandar um beijo pra minha mãe, pro meu pai e pra você. Ensaiei na frente do espelho e tudo. Quando chegou a primeira brincadeira, porém, fui esmagada por uma infinidade de crianças que, muito mais espertas e rápidas do que eu, correram perto do palco e gritaram: “Eu, eu, eu, escolhe eu, Gigi, escolhe eu!” O palco, um nível acima de onde estávamos, ficava infestado daquelas pequenas mãos implorando por um instante de visibilidade. Claro que eu não fui escolhida para a brincadeira. Mas uma das meninas que tinha ido comigo, minha vizinha de porta, parecia ter mais sorte. Robertinha era um ano mais nova do que eu, e muito mais esperta e desinibida. Logo na segunda brincadeira, correu para o palco e agarrou a mão de uma das apresentadoras que, num instante, levou-a para cima, onde ela apareceu triunfante sob os holofotes. Eu, lá debaixo, senti-me absolutamente infeliz, uma profunda fracassada assistindo à vencedora no pódium. Robertinha ganhou o jogo e desceu saltitante com seu presente, exibindo-se para nós. Lembro-me, ainda com dor, que sorri fingindo felicidade, enquanto abracei a minha amiga.
Mais alguns jogos aconteceram, eu corria para perto do palco, juro que tentava gritar como as outras, mas parecia invisível aos olhos das apresentadoras. As crianças que tinham ido comigo pareciam todas milagrosamente iluminadas, subindo ao palco uma a uma, enquanto eu vacilava no andar debaixo. Lá pelas tantas, a minha vizinha adulta me chamou de canto e disse, com muita firmeza: “Kika, presta atenção, você tem que agarrar no braço delas, entendeu? Igual a Robertinha, agarre e grite, eu, sou eu, eu, eu, eu, não pode ficar assim, meio sem-jeito de fazer isso, senão você não vai ser escolhida!” Ela, a minha querida amiga, tinha posto seus olhos em mim e via minha angústia.
Lá fui eu então, na próxima rodada, seguir ordens da minha adulta. Tentei gritar, tentei pegar na mão da Gigi, mas aconteceu em um instante: eu me senti ridícula, fora de propósito gritando aquilo, e tive vergonha. A voz embargou, as mãos não eram tão firmes como as dos outros e minha amiga Robertinha - que se jogou impetuosa na minha frente - foi mais uma vez escolhida. Quase que posso vê-la, hoje ainda, subindo sorridente para o palco, um pé após o outro, impulsionada pelas mãos de fada da Gigi.
O passeio para mim estava encerrado. Sentei-me longe, afastada da multidão, sentindo uma mistura de humilhação, tristeza e vergonha. Eu não era como eles. Eu era mais fraca, infinitamente menos capaz e muitíssimo mais tola. Assisti à vitória da Robertinha ali, do lado de baixo do palco, prendendo os lábios para não chorar.
Nunca me esqueço da volta do programa. Todos esfuziantes com os seus brindes, enquanto eu permanecia calada no banco de trás, sentindo - talvez pela primeira vez na minha vida - como pode ser doloroso sermos, irremediavelmente, quem somos.
Sunday, March 8, 2009
Recordar é viver
Um texto antiiiiigo, mas absolutamente atual, em mim.
Insônia
Tenho tido dificuldades de dormir.
Tento todas as técnicas, mas diariamente tenho vivido a mesma coisa. É só deitar a cabeça no travesseiro que os problemas do dia começam a passear pela minha cabeça. Eu tento me livrar, mas eles insistem e, tranquilamente nadam - como peixes - no meu pensamento, bem na hora em que teria de esvaziar tudo...
Já me ensinaram a estratégia da bolha. Vou pondo cada problema dentro de uma bolha e visualizo a tal bolha saindo pela janela do quarto, devagar e, por fim, indo embora pelo céu. As vezes tento essa, mas passo horas até por cada item dentro de diferentes bolhas. Meu marido sugeriu que eu pusesse todos os problemas de uma vez, em uma única bolha, mas é super confuso. Ele sugeriu até que eles fizessem uma fila, como se fosse um check-in pra entrar na bolha, mas nem todos os problemas ou pessoas se conhecem, e, na fila, já tive muitos problemas de discussões, gente querendo passar na frente do outro, enfim, por isso são problemas.
Acabava passando as primeiras horas da minha noite arrumando as bolhas e inserindo cada pessoa, (ou problema) dentro de cada bolha. Já inseri até um prédio inteiro numa bolha uma vez. E as pessoas, nessa noite, começaram a pular pela janela desesperadas, caindo na própria bolha, coitadas, uma confusão.
Talvez eu tenha usado a técnica de forma errada, e ela começou a perder o efeito. Resolvi, na noite passada, tentar a técnica mais universal de todas: Os carneirinhos.
Me disseram que temos que visualizar os carneirinhos pulando a cerca de diferentes formas, pra não viciar o cérebro. Fiz o teste. Imaginei uma fila enoooooorme de carneirinhos brancos, todos aguardando a sua vez de pular a cerca. Veio o primeiro: Yupi! Pulou. Veio o seguno, pulou de costas. “O próximo” eu indicava que era a vez do outro, que deu uma pirueta no ar, e caiu de mal jeito. Lembrei daquele grupo de “puladores” que vivem por aí, pulando prédios, casas, barras, não sei, vi uma reportagem esses dias no GNT, pensei neles, e em quanto eu também sou malabarista no meu dia a dia, nossa, no meu trabalho, na minha vida, lembra aquela vez que... Pronto, devem ter se passado séculos, eu tinha me esquecido das puladas, e ainda estava desperta. Voltei aos carneirinhos, eles estavam emburrados: “Pô, bem na minha vez você mudou o pensamento??” Reclamou o que, agora, era o primeiro da fila. Olhei a longa linha e eles estavam todos emburrados. Eu tinha esquecido os pobrezinhos enquanto viajava nos skatistas. Eu disse skatistas?? “Eeeeeei, voltaaa!”. Eles fizeram um coro me chamando antes que eu os deixasse de novo. Um coro da voz dos carneiros, isso não pode ser normal. “Que carneirinhos abusados!” Eu pensei calada. Resolvi que tinha que baixar a bola deles e por alguém para que eles respeitassem, senão, iam se voltar contra mim e eram uma multidão de carneiros! Instalei ali, ao lado da fila, um enorme lobo-mau. Segurando um cajado ele daria as ordens: “Ei pessoal, o negócio é o seguinte, um por vez e só quando eu chamar. Trata de fazer diferente do colega da frente, hein?! E nada de reclamações! Quem manda aqui agora sou eu!” Pronto. Agora sim ia funcionar. Eles voltaram a pular, cada um pulava de um jeito enquanto o lobo ia gritando: “Próximo, próximo, próximo”. Resolvi olhar pra onde eles iam depois de pular. Não consegui ver, mas fiquei curiosa. Tinham uns que faziam pulos excepcionais, umas piruetas, como aquela menina do pan, aquela ginasta. Isso, eles deveriam estar no Pan, esses danados. Mas pra onde iam? Será que eles voltava para o fim da fila? A fila nunca acabava, coitados! O lobo achou ruim comigo: “Ei madame, a senhora vai ficar dispersando e me deixando de lado, ou vai assistir diretinho aqui o nosso trabalho???” Tentei me concentrar, mas, de repente, pensei: “Poxa, até o lobo?” Não é possível, eu tenho que obedecer até os meus próprios monstros?? Vou exercer a hierarquia aqui, pelo menos dentro de mim, oras! Olhei bem para o lobo, para os carneiros, todos estavam virados para mim, olhos assustados. Eu os peguei com cuidado, todos de uma vez, e inseri numa bolha. Deixei todo mundo se debatendo lá, dentro da bolha, enquanto ela saia pela janela do meu quarto, devagar, até sumir no céu de São Paulo, bem quando eu adormeci.
Insônia
Tenho tido dificuldades de dormir.
Tento todas as técnicas, mas diariamente tenho vivido a mesma coisa. É só deitar a cabeça no travesseiro que os problemas do dia começam a passear pela minha cabeça. Eu tento me livrar, mas eles insistem e, tranquilamente nadam - como peixes - no meu pensamento, bem na hora em que teria de esvaziar tudo...
Já me ensinaram a estratégia da bolha. Vou pondo cada problema dentro de uma bolha e visualizo a tal bolha saindo pela janela do quarto, devagar e, por fim, indo embora pelo céu. As vezes tento essa, mas passo horas até por cada item dentro de diferentes bolhas. Meu marido sugeriu que eu pusesse todos os problemas de uma vez, em uma única bolha, mas é super confuso. Ele sugeriu até que eles fizessem uma fila, como se fosse um check-in pra entrar na bolha, mas nem todos os problemas ou pessoas se conhecem, e, na fila, já tive muitos problemas de discussões, gente querendo passar na frente do outro, enfim, por isso são problemas.
Acabava passando as primeiras horas da minha noite arrumando as bolhas e inserindo cada pessoa, (ou problema) dentro de cada bolha. Já inseri até um prédio inteiro numa bolha uma vez. E as pessoas, nessa noite, começaram a pular pela janela desesperadas, caindo na própria bolha, coitadas, uma confusão.
Talvez eu tenha usado a técnica de forma errada, e ela começou a perder o efeito. Resolvi, na noite passada, tentar a técnica mais universal de todas: Os carneirinhos.
Me disseram que temos que visualizar os carneirinhos pulando a cerca de diferentes formas, pra não viciar o cérebro. Fiz o teste. Imaginei uma fila enoooooorme de carneirinhos brancos, todos aguardando a sua vez de pular a cerca. Veio o primeiro: Yupi! Pulou. Veio o seguno, pulou de costas. “O próximo” eu indicava que era a vez do outro, que deu uma pirueta no ar, e caiu de mal jeito. Lembrei daquele grupo de “puladores” que vivem por aí, pulando prédios, casas, barras, não sei, vi uma reportagem esses dias no GNT, pensei neles, e em quanto eu também sou malabarista no meu dia a dia, nossa, no meu trabalho, na minha vida, lembra aquela vez que... Pronto, devem ter se passado séculos, eu tinha me esquecido das puladas, e ainda estava desperta. Voltei aos carneirinhos, eles estavam emburrados: “Pô, bem na minha vez você mudou o pensamento??” Reclamou o que, agora, era o primeiro da fila. Olhei a longa linha e eles estavam todos emburrados. Eu tinha esquecido os pobrezinhos enquanto viajava nos skatistas. Eu disse skatistas?? “Eeeeeei, voltaaa!”. Eles fizeram um coro me chamando antes que eu os deixasse de novo. Um coro da voz dos carneiros, isso não pode ser normal. “Que carneirinhos abusados!” Eu pensei calada. Resolvi que tinha que baixar a bola deles e por alguém para que eles respeitassem, senão, iam se voltar contra mim e eram uma multidão de carneiros! Instalei ali, ao lado da fila, um enorme lobo-mau. Segurando um cajado ele daria as ordens: “Ei pessoal, o negócio é o seguinte, um por vez e só quando eu chamar. Trata de fazer diferente do colega da frente, hein?! E nada de reclamações! Quem manda aqui agora sou eu!” Pronto. Agora sim ia funcionar. Eles voltaram a pular, cada um pulava de um jeito enquanto o lobo ia gritando: “Próximo, próximo, próximo”. Resolvi olhar pra onde eles iam depois de pular. Não consegui ver, mas fiquei curiosa. Tinham uns que faziam pulos excepcionais, umas piruetas, como aquela menina do pan, aquela ginasta. Isso, eles deveriam estar no Pan, esses danados. Mas pra onde iam? Será que eles voltava para o fim da fila? A fila nunca acabava, coitados! O lobo achou ruim comigo: “Ei madame, a senhora vai ficar dispersando e me deixando de lado, ou vai assistir diretinho aqui o nosso trabalho???” Tentei me concentrar, mas, de repente, pensei: “Poxa, até o lobo?” Não é possível, eu tenho que obedecer até os meus próprios monstros?? Vou exercer a hierarquia aqui, pelo menos dentro de mim, oras! Olhei bem para o lobo, para os carneiros, todos estavam virados para mim, olhos assustados. Eu os peguei com cuidado, todos de uma vez, e inseri numa bolha. Deixei todo mundo se debatendo lá, dentro da bolha, enquanto ela saia pela janela do meu quarto, devagar, até sumir no céu de São Paulo, bem quando eu adormeci.
Thursday, March 5, 2009
Crônica do dia
Saí na crônica do dia hoje. Imaginando o inimaginável.
Eu imagino
Então fomos viajar no carnaval. E fomos para um lugar frio. Não, não um pouco frio, muito, mas muito, muito frio. Saímos do verão brasileiro de 30 e tantos graus e descemos no inverno americano, em algo como 6 graus negativos. Passamos 7 dias lá, aquele frio horrível, o corpo chegando a doer tamanho o gelo que entra por qualquer buraquinho dos seus mil casacos e, quando eu falava com alguém no Brasil, e dizia como estava frio, a pessoa me respondia: “Eu imagino”.
A cada vez que eu ouvia esse “eu imagino”, lembrava-me de uma amiga e de uma história que aconteceu há muitos anos: Essa minha grande amiga perdeu o pai numa morte muito trágica (que morte não é trágica?). No enterro as pessoas a abraçavam, diziam que sabiam da sua dor, que sabiam do que ela estava passando, que entendiam o que era aquilo e, lá pelas tantas, ela virou pra mim e disse: “As pessoas podem até entender o que eu sinto. Mas ninguém – ninguém – sente o que eu sinto”. Isso me marcou profundamente e, desde então, nunca mais consolei alguém com palavras automáticas como: “Eu sei que você está sofrendo, posso imaginar a sua dor, etc, etc”. A verdade é que não, não podemos imaginar o quanto está frio em outro país quando derretemos nesse calor insuportável que se faz no Brasil. E eu tive vontade de dizer isso aos meus interlocutores brasileiros: “Não, você não imagina, não. Você não sabe como é sentir isso, agora, nesse instante. Ter o seu corpo inteiro congelando, o nariz rachado, os lábios todos cortados, até o relógio de seu pulso parado, tamanho o frio que se instalou aqui.” O frio não era uma perda, um sofrimento, um lamento. Mas, como minha amiga, tive vontade de dizer: “Você não sabe da minha dor.”
A verdade é que nunca sabemos. Às vezes nem mesmo a nossa dor nos é clara, quiçá a dor alheia.
Quantas vezes não menosprezamos o sentimento de alguém, não padronizamos as nossas palavras, como fazem os atendentes de telemarketing: “Eu sei, senhora. Sinto muito, senhora. Esse é o procedimento, senhora”. Não, minha amiga, eu não sei da sua dor. Eu não sei e não consigo imaginar o que você está sentindo, e, mesmo isso sendo muito pouco, a minha dedicação em te ouvir e te acolher é enorme. Seria mais simples e verdadeiro, não?
A pedra no sapato alheio, a pimenta nos olhos dos outros, é sempre um mistério para nós. E uma das coisas mais difíceis da vida é aceitar o nosso desconhecimento, as nossas misérias, a nossa falta de noção ao lidar com quem está em apuros. Por isso, admiro os psicólogos. Admiro alguém capaz de assistir ao outro chorando por meia hora seguida sem sentir-se afobado, sem dar uma desculpa, um tapinha no ombro, saindo logo dali.
Admiro quem se cala quando não tem palavras. Admiro quem assume sua impotência, suas falhas, suas covardias, talvez. Num mundo cheio de falsos heróis e grandes gurus, admiro quem se identifica como humano, simplesmente humano.
Eu imagino
Então fomos viajar no carnaval. E fomos para um lugar frio. Não, não um pouco frio, muito, mas muito, muito frio. Saímos do verão brasileiro de 30 e tantos graus e descemos no inverno americano, em algo como 6 graus negativos. Passamos 7 dias lá, aquele frio horrível, o corpo chegando a doer tamanho o gelo que entra por qualquer buraquinho dos seus mil casacos e, quando eu falava com alguém no Brasil, e dizia como estava frio, a pessoa me respondia: “Eu imagino”.
A cada vez que eu ouvia esse “eu imagino”, lembrava-me de uma amiga e de uma história que aconteceu há muitos anos: Essa minha grande amiga perdeu o pai numa morte muito trágica (que morte não é trágica?). No enterro as pessoas a abraçavam, diziam que sabiam da sua dor, que sabiam do que ela estava passando, que entendiam o que era aquilo e, lá pelas tantas, ela virou pra mim e disse: “As pessoas podem até entender o que eu sinto. Mas ninguém – ninguém – sente o que eu sinto”. Isso me marcou profundamente e, desde então, nunca mais consolei alguém com palavras automáticas como: “Eu sei que você está sofrendo, posso imaginar a sua dor, etc, etc”. A verdade é que não, não podemos imaginar o quanto está frio em outro país quando derretemos nesse calor insuportável que se faz no Brasil. E eu tive vontade de dizer isso aos meus interlocutores brasileiros: “Não, você não imagina, não. Você não sabe como é sentir isso, agora, nesse instante. Ter o seu corpo inteiro congelando, o nariz rachado, os lábios todos cortados, até o relógio de seu pulso parado, tamanho o frio que se instalou aqui.” O frio não era uma perda, um sofrimento, um lamento. Mas, como minha amiga, tive vontade de dizer: “Você não sabe da minha dor.”
A verdade é que nunca sabemos. Às vezes nem mesmo a nossa dor nos é clara, quiçá a dor alheia.
Quantas vezes não menosprezamos o sentimento de alguém, não padronizamos as nossas palavras, como fazem os atendentes de telemarketing: “Eu sei, senhora. Sinto muito, senhora. Esse é o procedimento, senhora”. Não, minha amiga, eu não sei da sua dor. Eu não sei e não consigo imaginar o que você está sentindo, e, mesmo isso sendo muito pouco, a minha dedicação em te ouvir e te acolher é enorme. Seria mais simples e verdadeiro, não?
A pedra no sapato alheio, a pimenta nos olhos dos outros, é sempre um mistério para nós. E uma das coisas mais difíceis da vida é aceitar o nosso desconhecimento, as nossas misérias, a nossa falta de noção ao lidar com quem está em apuros. Por isso, admiro os psicólogos. Admiro alguém capaz de assistir ao outro chorando por meia hora seguida sem sentir-se afobado, sem dar uma desculpa, um tapinha no ombro, saindo logo dali.
Admiro quem se cala quando não tem palavras. Admiro quem assume sua impotência, suas falhas, suas covardias, talvez. Num mundo cheio de falsos heróis e grandes gurus, admiro quem se identifica como humano, simplesmente humano.
Thursday, February 26, 2009
ÓCULOS >> Ana Coutinho
Vendo tudo. Na crônica do dia.
Desde criança eu usei óculos. Desde muito, muito pequena. Na minha lembrança mais antiga, há sempre um par de óculos em meu rosto. Ora um pequeninho, ora de gatinho, ora colorido, ora um quase invisível como dizia a minha mãe, tentando amenizar o peso de uma miopia altíssima no rosto de uma menina de 7, 8 anos.
Os óculos eram como uma extensão de mim. Eu tomava banho com eles e cheguei mesmo a dormir e acordar com os vidros diante de meus olhos. No banheiro, um dia, lembro-me que resolvi tomar banho sem óculos e, quando sai do chuveiro, não distinguia o que era uma calça jeans pendurada do toalheiro, da toalha, logo ao lado. Eu devia ter uns 6 graus na época, não lembro. Não havia tecnologia que tirasse o aspecto de fundo de garrafa dos meus óculos e, quando eu fiz 12 anos, ganhei enfim, minhas lentes de contato.
Ainda tentei resistir a elas. As pessoas me incentivavam a usar, mas eu não me incomodava de viver com aquele trambolho sobre o nariz. Era comum os amigos de meus pais dizerem: “Quando ela ficar mocinha vai querer... Deixa ela ficar mais vaidosa pra você ver”. Dito e feito. Um belo dia, resolvi aderir a elas com empolgação e não as soltava mais. Não ia sequer à portaria de óculos. Tirava as lentes para dormir, mas as esquecia em meus olhos algumas noites, era uma maravilha... Foi só quando eu fiz 20 anos que a cirurgia começou a ser popular. Eu já tinha passado dos 7 graus exigidos por lei para que o convênio cobrisse o procedimento e, portanto, depois de uma maratona de perícias, foi-me concedido esse direito.
Ainda posso sentir o cheiro do hospital quando entrei na sala de cirurgia. Eu ia fazer uma vista e, depois de alguns dias, voltaria para fazer a outra. Minha mãe esperava-me ansiosa do lado de fora, quando eu tentei convencer meu médico: “Faz as duas hoje vai?”. “As duas?” ele me respondeu, surpreso. “É, de uma vez, acaba rápido” – eu estava quase implorando quando ele topou. Disse para eu me apressar antes que mudasse de idéia e lá fomos nós. Foi tão rápido, e eu sentia-me tão imensamente feliz que não consegui notar qualquer incômodo.
Não nem preciso fechar os olhos para lembrar-me da expressão de minha mãe, quando sai andando da sala de cirurgia, toda serelepe, com dois tampões transparentes de acrílico, um em cada olho, anunciando: “Ele fez as duas, ele fez as duas!”. Sua expressão era de terror: “Meu Deus, as duas!?!?!” ela estava assustada e eu eufórica, era impossível conter o meu riso de alegria e exaltação...
A imagem que mais profundamente cravou-se em minha memória daquele dia, foi quando saíamos do hospital, juntas, ela tentava segurar a minha mão para auxiliar-me a atravessar a rua e eu respondi, com uma emoção absolutamente nova: “Não precisa mãe. Eu enxergo, eu estou vendo, estou vendo!”
Passaram-se semanas, talvez meses para que eu me adaptasse a viver sem nada sobre o meu rosto. Foram inúmeras as noites em que acordei no meio da madrugada e, notando que enxergava as horas no relógio ao lado, corria para o banheiro pensando: “Meu Deus, dormi de lente, de novo!”. A alegria de perceber-me sem lente, já diante do espelho da pia, para mim, era um susto tão bom, como se fosse um novo presente a cada noite, a cada piscada, a cada milésimo de segundo enxergando.
Foi preciso 20 anos da minha vida, para que eu enxergasse o valor de ver, simplesmente ver, ainda que embaçado, ainda que fosco, ainda que desfocado, foi ali que eu percebi como era bom abrir os olhos. Decidi nunca mais fechá-los.
Desde criança eu usei óculos. Desde muito, muito pequena. Na minha lembrança mais antiga, há sempre um par de óculos em meu rosto. Ora um pequeninho, ora de gatinho, ora colorido, ora um quase invisível como dizia a minha mãe, tentando amenizar o peso de uma miopia altíssima no rosto de uma menina de 7, 8 anos.
Os óculos eram como uma extensão de mim. Eu tomava banho com eles e cheguei mesmo a dormir e acordar com os vidros diante de meus olhos. No banheiro, um dia, lembro-me que resolvi tomar banho sem óculos e, quando sai do chuveiro, não distinguia o que era uma calça jeans pendurada do toalheiro, da toalha, logo ao lado. Eu devia ter uns 6 graus na época, não lembro. Não havia tecnologia que tirasse o aspecto de fundo de garrafa dos meus óculos e, quando eu fiz 12 anos, ganhei enfim, minhas lentes de contato.
Ainda tentei resistir a elas. As pessoas me incentivavam a usar, mas eu não me incomodava de viver com aquele trambolho sobre o nariz. Era comum os amigos de meus pais dizerem: “Quando ela ficar mocinha vai querer... Deixa ela ficar mais vaidosa pra você ver”. Dito e feito. Um belo dia, resolvi aderir a elas com empolgação e não as soltava mais. Não ia sequer à portaria de óculos. Tirava as lentes para dormir, mas as esquecia em meus olhos algumas noites, era uma maravilha... Foi só quando eu fiz 20 anos que a cirurgia começou a ser popular. Eu já tinha passado dos 7 graus exigidos por lei para que o convênio cobrisse o procedimento e, portanto, depois de uma maratona de perícias, foi-me concedido esse direito.
Ainda posso sentir o cheiro do hospital quando entrei na sala de cirurgia. Eu ia fazer uma vista e, depois de alguns dias, voltaria para fazer a outra. Minha mãe esperava-me ansiosa do lado de fora, quando eu tentei convencer meu médico: “Faz as duas hoje vai?”. “As duas?” ele me respondeu, surpreso. “É, de uma vez, acaba rápido” – eu estava quase implorando quando ele topou. Disse para eu me apressar antes que mudasse de idéia e lá fomos nós. Foi tão rápido, e eu sentia-me tão imensamente feliz que não consegui notar qualquer incômodo.
Não nem preciso fechar os olhos para lembrar-me da expressão de minha mãe, quando sai andando da sala de cirurgia, toda serelepe, com dois tampões transparentes de acrílico, um em cada olho, anunciando: “Ele fez as duas, ele fez as duas!”. Sua expressão era de terror: “Meu Deus, as duas!?!?!” ela estava assustada e eu eufórica, era impossível conter o meu riso de alegria e exaltação...
A imagem que mais profundamente cravou-se em minha memória daquele dia, foi quando saíamos do hospital, juntas, ela tentava segurar a minha mão para auxiliar-me a atravessar a rua e eu respondi, com uma emoção absolutamente nova: “Não precisa mãe. Eu enxergo, eu estou vendo, estou vendo!”
Passaram-se semanas, talvez meses para que eu me adaptasse a viver sem nada sobre o meu rosto. Foram inúmeras as noites em que acordei no meio da madrugada e, notando que enxergava as horas no relógio ao lado, corria para o banheiro pensando: “Meu Deus, dormi de lente, de novo!”. A alegria de perceber-me sem lente, já diante do espelho da pia, para mim, era um susto tão bom, como se fosse um novo presente a cada noite, a cada piscada, a cada milésimo de segundo enxergando.
Foi preciso 20 anos da minha vida, para que eu enxergasse o valor de ver, simplesmente ver, ainda que embaçado, ainda que fosco, ainda que desfocado, foi ali que eu percebi como era bom abrir os olhos. Decidi nunca mais fechá-los.
Monday, February 23, 2009
Férias
Acontece que vou viajar. A esta altura, já estou viajando. Não é incrível? Você aí, lendo isso, e eu de férias do outro lado do mundo?
Não incrível como o tempo se dá, sempre sem esquecer-se, sempre sem perder um segundo, sempre sem parar por nenhum, nenhum mínimo instante?
E o blogger? Eu descobri que posso agendar posts, portanto, vocês estão lendo como se eu tivesse escrito agora, mas não. Escrevi lá atrás, na 6a feira, quando estava no calor, correndo, pensando, correndo.
Junto com esse, estou deixando uns outros textinhos agendados pra cair aqui, nesse mesmo site, como conta-gotas, a seu tempo.
Estarei aqui sem estar... As coisas acontecerão apertadas por um botão, e isso me faz desejar que eu pudesse agendar meus dias de trabalho, minha performance, até a minha ginástica para que tudo, tudo, poudesse ser feito assim, enquanto eu estivesse vivendo, de férias, em qualquer lugar do planeta...
Não incrível como o tempo se dá, sempre sem esquecer-se, sempre sem perder um segundo, sempre sem parar por nenhum, nenhum mínimo instante?
E o blogger? Eu descobri que posso agendar posts, portanto, vocês estão lendo como se eu tivesse escrito agora, mas não. Escrevi lá atrás, na 6a feira, quando estava no calor, correndo, pensando, correndo.
Junto com esse, estou deixando uns outros textinhos agendados pra cair aqui, nesse mesmo site, como conta-gotas, a seu tempo.
Estarei aqui sem estar... As coisas acontecerão apertadas por um botão, e isso me faz desejar que eu pudesse agendar meus dias de trabalho, minha performance, até a minha ginástica para que tudo, tudo, poudesse ser feito assim, enquanto eu estivesse vivendo, de férias, em qualquer lugar do planeta...
Thursday, February 19, 2009
NO AVIÃO >> Ana Coutinho
Escrito no ar e postado da Crônica do dia
Eu estava sentada na minha poltrona, absolutamente entretida na minha leitura, quando a comissária avisou que as luzes da cabine seriam reduzidas para decolagem. Pronto, um instante depois e eu não conseguia saber o que acontecera com o personagem do romance que eu tinha em mãos. Decidi então acender a luzinha individual, essa que fica acima de nossas cabeças, no teto do avião. Acontece que, quando olhei para cima, tive uma surpresa. A minha luzinha não estava lá. Havia uma luzinha exatamente sobre as poltronas da frente e havia luzinhas na linha exata das poltronas de trás. Onde estariam as minhas? Uma rápida pesquisa me fez notar que, talvez — e apenas talvez — aquelas da frente poderiam ser as minhas, e as de trás, seriam na verdade, dos detrás dos detrás. Enfim, inclinei-me cuidadosamente para acender a luz da poltrona da frente — porque achei que poderia ser a minha — e, assim que a lampadinha iluminou tudo abaixo dela, a moça que estava sentada na poltrona correspondente remexeu-se, teve um espasmo e acordou subitamente, olhando para mim como se eu tivesse feito a coisa mais absurda do mundo. Virou-se e lançou-me um olhar assassino, sem a menor cerimônia e com tanto ódio que eu cheguei a sentir-me tranquilizada por não ser permitido embarcar com objetos cortantes. O olhar maldoso da mulher foi tão assustador que desliguei a luzinha imediatamente, e ainda fingi que estava só me espreguiçando. Cocei a cabeça, desajeitada, simulando um bocejo, e ela voltou ao seu lugar, como se acalmada pelo meu pavor. Resignada, mas não vencida, pensei que quem sabe a luzinha de trás seria a minha. Mas abaixo dela dormia um senhor de bigodes, que sempre é uma coisa que deixa a gente meio desconfortável, de maneira que não tive coragem de tentar aquela de trás e fiquei lá, meio que me inclinando, forçando a vista, mas nada. Eu tinha pego várias daquelas balas de caramelo que as aeromoças oferecem e era só o que me restava. Comê-las uma atrás da outra, ansiosa para que o tempo passasse. Observei mais uma vez a moça da frente. Ela não precisava ter sido tão rude comigo, devia ser uma chata daquelas. Senti vontade de jogar um das balas duras na cabeça dela. Eu faria discretamente, ela tomaria um susto e quando se virasse para me flagrar, eu estaria com os olhos fechados, dormindo o sono dos anjos. Pensei, bolei tudo, mas não tive coragem, sempre fui meio ruim de mira, vai que acertava, sei lá, o piloto... Pensei também em chamar a aeromoça, só que, vocês sabem, a tripulação tem obrigação de desaparecer na hora da decolagem... Ao meu redor, todos dormiam, o que aumentou a minha irritação por ser a única a sentir-se com as mãos atadas, nas luzes apagadas, e absolutamente acordada. Foi quando, de repente, mexi a única coisa que podia, que eram os meus pés, e senti que a salvação viria. Ali, enroscada nos meus pés, estava a alça da bolsa da chatonilda, a da poltrona da frente, que, pra dormir melhor, deve ter deixado seus pertences no chão, sem imaginar que eles andariam com o avião acelerando. Sem nem pensar direito, comecei a puxá-la delicadamente para mim, até tê-la completamente sob a minha visão. A bolsa era dessas sem zíper, de forma que eu podia ver o que havia dentro. Uma agenda, uma caneta, uma carteira... a luz de repente não me fazia falta, eu via tudo e logo concluí que a chata devia ter TOC, tão organizada e metódica que era. Eu desconfiara desde o início. No entanto, constatar uma doença não me afeiçoou a mulher. Ao contrário, sentia-me tão ansiosa ali que resolvi fazer algo de útil. Jogar os meus papéis de balas, aquele monte de lixo, dentro do lixo mais próximo, que estava logo ali, a bolsa organizada da neurótica. Juntei todos dentro de uma mão e pronto, larguei dentro da bolsa, muito discretamente. Também pensei em escrever um bilhete: “Eu sou a luz sobre a sua cabeça, sua tonta!” Mas não tinha tempo, tampouco habilidade. Acabei por dar uma balançadinha na Louis Vitton Standcenter dela, para que os papéis fossem bem até o fundo. Quando devolvi a bolsa ao seu lugar, empurrando-a delicadamente com os meus pés, senti uma alegria e uma excitação renovadas. Foi em um instante, quando o avião decolava, que notei como pode ser bom ter 30 anos, mas sentir-se com o vigor e a astúcia de uma criança de 8.
Eu estava sentada na minha poltrona, absolutamente entretida na minha leitura, quando a comissária avisou que as luzes da cabine seriam reduzidas para decolagem. Pronto, um instante depois e eu não conseguia saber o que acontecera com o personagem do romance que eu tinha em mãos. Decidi então acender a luzinha individual, essa que fica acima de nossas cabeças, no teto do avião. Acontece que, quando olhei para cima, tive uma surpresa. A minha luzinha não estava lá. Havia uma luzinha exatamente sobre as poltronas da frente e havia luzinhas na linha exata das poltronas de trás. Onde estariam as minhas? Uma rápida pesquisa me fez notar que, talvez — e apenas talvez — aquelas da frente poderiam ser as minhas, e as de trás, seriam na verdade, dos detrás dos detrás. Enfim, inclinei-me cuidadosamente para acender a luz da poltrona da frente — porque achei que poderia ser a minha — e, assim que a lampadinha iluminou tudo abaixo dela, a moça que estava sentada na poltrona correspondente remexeu-se, teve um espasmo e acordou subitamente, olhando para mim como se eu tivesse feito a coisa mais absurda do mundo. Virou-se e lançou-me um olhar assassino, sem a menor cerimônia e com tanto ódio que eu cheguei a sentir-me tranquilizada por não ser permitido embarcar com objetos cortantes. O olhar maldoso da mulher foi tão assustador que desliguei a luzinha imediatamente, e ainda fingi que estava só me espreguiçando. Cocei a cabeça, desajeitada, simulando um bocejo, e ela voltou ao seu lugar, como se acalmada pelo meu pavor. Resignada, mas não vencida, pensei que quem sabe a luzinha de trás seria a minha. Mas abaixo dela dormia um senhor de bigodes, que sempre é uma coisa que deixa a gente meio desconfortável, de maneira que não tive coragem de tentar aquela de trás e fiquei lá, meio que me inclinando, forçando a vista, mas nada. Eu tinha pego várias daquelas balas de caramelo que as aeromoças oferecem e era só o que me restava. Comê-las uma atrás da outra, ansiosa para que o tempo passasse. Observei mais uma vez a moça da frente. Ela não precisava ter sido tão rude comigo, devia ser uma chata daquelas. Senti vontade de jogar um das balas duras na cabeça dela. Eu faria discretamente, ela tomaria um susto e quando se virasse para me flagrar, eu estaria com os olhos fechados, dormindo o sono dos anjos. Pensei, bolei tudo, mas não tive coragem, sempre fui meio ruim de mira, vai que acertava, sei lá, o piloto... Pensei também em chamar a aeromoça, só que, vocês sabem, a tripulação tem obrigação de desaparecer na hora da decolagem... Ao meu redor, todos dormiam, o que aumentou a minha irritação por ser a única a sentir-se com as mãos atadas, nas luzes apagadas, e absolutamente acordada. Foi quando, de repente, mexi a única coisa que podia, que eram os meus pés, e senti que a salvação viria. Ali, enroscada nos meus pés, estava a alça da bolsa da chatonilda, a da poltrona da frente, que, pra dormir melhor, deve ter deixado seus pertences no chão, sem imaginar que eles andariam com o avião acelerando. Sem nem pensar direito, comecei a puxá-la delicadamente para mim, até tê-la completamente sob a minha visão. A bolsa era dessas sem zíper, de forma que eu podia ver o que havia dentro. Uma agenda, uma caneta, uma carteira... a luz de repente não me fazia falta, eu via tudo e logo concluí que a chata devia ter TOC, tão organizada e metódica que era. Eu desconfiara desde o início. No entanto, constatar uma doença não me afeiçoou a mulher. Ao contrário, sentia-me tão ansiosa ali que resolvi fazer algo de útil. Jogar os meus papéis de balas, aquele monte de lixo, dentro do lixo mais próximo, que estava logo ali, a bolsa organizada da neurótica. Juntei todos dentro de uma mão e pronto, larguei dentro da bolsa, muito discretamente. Também pensei em escrever um bilhete: “Eu sou a luz sobre a sua cabeça, sua tonta!” Mas não tinha tempo, tampouco habilidade. Acabei por dar uma balançadinha na Louis Vitton Standcenter dela, para que os papéis fossem bem até o fundo. Quando devolvi a bolsa ao seu lugar, empurrando-a delicadamente com os meus pés, senti uma alegria e uma excitação renovadas. Foi em um instante, quando o avião decolava, que notei como pode ser bom ter 30 anos, mas sentir-se com o vigor e a astúcia de uma criança de 8.
Thursday, February 12, 2009
O HOMEM E O MENINO
Diretamente do CDD.
Eu estava na manicure que era num salão, desses bem fuleiros, onde atende mulher, homem, e quem mais vier.
Já estava na segunda mão quando eles chegaram, os dois juntos. Era um homem e um menino. O homem, uns 40 anos, foi logo falando pro barbeiro: “A gente vai raspar. Passar máquina 1”. O menino, uns 15, baixou a cabeça, sem graça e permaneceu em silêncio. “Os dois?” O barbeiro perguntou, olhando para a vasta cabeleira de ambos os rapazes. “Os dois.” Respondeu o homem, convicto. “Quem primeiro?” Houve um silêncio, antes de o homem dizer para o menino: “Pode ir, vai lá”. O menino sentou na cadeira com uma expressão tão triste e conformada, que cheguei a me sentir comovida por ele. O homem batia nos ombros dele, consolando: “Cabelo cresce” dizia, sem conseguir parecer otimista. Quando começou a passar a máquina, eu jurei que o menino ia chorar. Ele coçava os olhos, calado, nenhuma palavra, tentava fingir que estava bem, estando absolutamente desolado. O homem, por sua vez, tentava dar um sorrisinho, mudar de assunto, e disfarçar o indisfarçável: A dupla estava sofrendo horrores. Eram cúmplices, companheiros, grandes amigos e, juntos, sofriam um sofrimento desconhecido pra mim.
Eu já estava com uma mão inteira feita quando comecei a sentir-me triste pelo menino. Uma espécie de pavor pelo sofrimento alheio me invadiu, e comecei a questionar-me: O que acontecia? Porque aquele menino precisava passar por aquilo, era uma maldade muito grande! Olhei-o pelo espelho e logo que o olhar dele me encontrou, eu tentei sorrir: “Nossa, está ficando bonito!” falei a mentira deslavada com uma sinceridade surpreendente, quase acredite em mim mesma. O menino, coitado, balançou a cabeça negativamente e permaneceu calado, como se qualquer palavra fosse faze-lo explodir em lágrimas. Era um silêncio ensurdecedor. O homem, já sentado na cadeira ao lado endossou as minhas palavras, parecendo imensamente agradecido: “Aí ta vendo?” Ele disse com uma empolgação fascinante. Mas a verdade é que a gente sabia. Todo mundo ali sabia que não estava bom. O menino, gordinho, ficava com a cara ainda mais redonda conforme os cabelos iam caindo, tufos enormes ao chão. Tive vontade de perguntar. Seria alguma aposta? Tentei lembrar do campeonato de futebol, se alguém tinha perdido pra alguém recentemente, se tinha tido qualquer eleição de alguma coisa que fizesse um menino apostar com seus amigos: “Se meu time perder, eu fico careca, raspo meu cabelo com máquina 1!” Ele teria dito firme, observado pelos olhos incrédulos dos amigos: “Feito!” responderam os outros meninos, sádicos. Será? Será que ele era assim, tão comprometido? Não... Aquilo estava me parecendo mais uma obrigação. Como se ele precisasse fazer. Quando o homem já estava com a capa, e o barbeiro começava então a raspar-lhe a cabeça, pensei no pior: “Ai, meu Deus, o menino tá doente, aquela doença que nem o nome a gente fala, tadinho!” Eles se olhavam, com tamanha compaixão e cumplicidade que eu deduzi que eram pai e filho assolados por uma grande tragédia. O médico teria dito: “Já raspa o cabelo de uma vez, você é homem, está calor mesmo...” O menino teria relutado até aquela manhã, quando viu o chumaço de cabelo no travesseiro. Mostrou para o pai e foram, ambos de mãos dadas aceitar – quase que resignadamente – o que a vida lhes oferecera. Eu estava quase perguntando, juro, quase, quando a minha unha acabou.
Saí do salão e entrei no carro. Fiquei lá esperando os dois saírem. Não demorou muito e eu vi as carequinhas ali, andando pela calçada. Decidi segui-los. Se eu descobrisse onde moravam, pra onde iam, se fosse a uma festa ou a um velório talvez a minha dúvida aquietasse. Acontece que, depois de dois quarteirões dirigindo devagarzinho, encostando na calçada, e até simulando uma ligação no celular pra não ser pega, meus personagens amados entraram – ainda a pé – em uma rua contra-mão. Ai meu, Deus, meu Deus, onde eu estaciono? Como eu faço pra sair daqui e ir a pé atrás deles, não tem vaga, nenhuma vaguinha, um estacionamento, nada! Foi em um segundo, e eles tinham sumido da minha vista.... Os meninos tornaram-se meus heróis mundanos. Ainda tenho esperança que eles leiam a CDD e se manifestem, para acalmar meu coração.
Mas, se nunca o fizerem, ainda assim, guardei fundo na memória a cumplicidade e a força resignada de dois amigos. Um homem e um menino, que talvez trocassem de lugar, para tornar o duro fardo da vida, um pouco –e só um pouco – mais leve....
Eu estava na manicure que era num salão, desses bem fuleiros, onde atende mulher, homem, e quem mais vier.
Já estava na segunda mão quando eles chegaram, os dois juntos. Era um homem e um menino. O homem, uns 40 anos, foi logo falando pro barbeiro: “A gente vai raspar. Passar máquina 1”. O menino, uns 15, baixou a cabeça, sem graça e permaneceu em silêncio. “Os dois?” O barbeiro perguntou, olhando para a vasta cabeleira de ambos os rapazes. “Os dois.” Respondeu o homem, convicto. “Quem primeiro?” Houve um silêncio, antes de o homem dizer para o menino: “Pode ir, vai lá”. O menino sentou na cadeira com uma expressão tão triste e conformada, que cheguei a me sentir comovida por ele. O homem batia nos ombros dele, consolando: “Cabelo cresce” dizia, sem conseguir parecer otimista. Quando começou a passar a máquina, eu jurei que o menino ia chorar. Ele coçava os olhos, calado, nenhuma palavra, tentava fingir que estava bem, estando absolutamente desolado. O homem, por sua vez, tentava dar um sorrisinho, mudar de assunto, e disfarçar o indisfarçável: A dupla estava sofrendo horrores. Eram cúmplices, companheiros, grandes amigos e, juntos, sofriam um sofrimento desconhecido pra mim.
Eu já estava com uma mão inteira feita quando comecei a sentir-me triste pelo menino. Uma espécie de pavor pelo sofrimento alheio me invadiu, e comecei a questionar-me: O que acontecia? Porque aquele menino precisava passar por aquilo, era uma maldade muito grande! Olhei-o pelo espelho e logo que o olhar dele me encontrou, eu tentei sorrir: “Nossa, está ficando bonito!” falei a mentira deslavada com uma sinceridade surpreendente, quase acredite em mim mesma. O menino, coitado, balançou a cabeça negativamente e permaneceu calado, como se qualquer palavra fosse faze-lo explodir em lágrimas. Era um silêncio ensurdecedor. O homem, já sentado na cadeira ao lado endossou as minhas palavras, parecendo imensamente agradecido: “Aí ta vendo?” Ele disse com uma empolgação fascinante. Mas a verdade é que a gente sabia. Todo mundo ali sabia que não estava bom. O menino, gordinho, ficava com a cara ainda mais redonda conforme os cabelos iam caindo, tufos enormes ao chão. Tive vontade de perguntar. Seria alguma aposta? Tentei lembrar do campeonato de futebol, se alguém tinha perdido pra alguém recentemente, se tinha tido qualquer eleição de alguma coisa que fizesse um menino apostar com seus amigos: “Se meu time perder, eu fico careca, raspo meu cabelo com máquina 1!” Ele teria dito firme, observado pelos olhos incrédulos dos amigos: “Feito!” responderam os outros meninos, sádicos. Será? Será que ele era assim, tão comprometido? Não... Aquilo estava me parecendo mais uma obrigação. Como se ele precisasse fazer. Quando o homem já estava com a capa, e o barbeiro começava então a raspar-lhe a cabeça, pensei no pior: “Ai, meu Deus, o menino tá doente, aquela doença que nem o nome a gente fala, tadinho!” Eles se olhavam, com tamanha compaixão e cumplicidade que eu deduzi que eram pai e filho assolados por uma grande tragédia. O médico teria dito: “Já raspa o cabelo de uma vez, você é homem, está calor mesmo...” O menino teria relutado até aquela manhã, quando viu o chumaço de cabelo no travesseiro. Mostrou para o pai e foram, ambos de mãos dadas aceitar – quase que resignadamente – o que a vida lhes oferecera. Eu estava quase perguntando, juro, quase, quando a minha unha acabou.
Saí do salão e entrei no carro. Fiquei lá esperando os dois saírem. Não demorou muito e eu vi as carequinhas ali, andando pela calçada. Decidi segui-los. Se eu descobrisse onde moravam, pra onde iam, se fosse a uma festa ou a um velório talvez a minha dúvida aquietasse. Acontece que, depois de dois quarteirões dirigindo devagarzinho, encostando na calçada, e até simulando uma ligação no celular pra não ser pega, meus personagens amados entraram – ainda a pé – em uma rua contra-mão. Ai meu, Deus, meu Deus, onde eu estaciono? Como eu faço pra sair daqui e ir a pé atrás deles, não tem vaga, nenhuma vaguinha, um estacionamento, nada! Foi em um segundo, e eles tinham sumido da minha vista.... Os meninos tornaram-se meus heróis mundanos. Ainda tenho esperança que eles leiam a CDD e se manifestem, para acalmar meu coração.
Mas, se nunca o fizerem, ainda assim, guardei fundo na memória a cumplicidade e a força resignada de dois amigos. Um homem e um menino, que talvez trocassem de lugar, para tornar o duro fardo da vida, um pouco –e só um pouco – mais leve....
Monday, February 9, 2009
Excel e Powerpoint
Não que tenha feito muito sucesso não, mas saiu lá no CDD e era a única idéia que me veio à cabeça. É pobre mas é limpinha tá?.
Excel e Powepoint
Sempre achei gozada essa mania clichê de dividir a humanidade em dois: Os que estacionam na primeira vaga que aparece e os que vão mais pertinho, pra tentar achar outra melhor. Os que saem do cinema rápido e os que ficam assistindo ao letreiro. Os que trocam uma senha assim que a recebem, os que permanecem com a senha estranha por pura preguiça de fazer a mudança. São muitas, muitas as formas de nos agruparmos, mas, o que acho graça mesmo, é que elas são sempre as mesmas.
Todas essas tentativas de divisão encontram as mesmas possibilidades: ou somos humanos excel, ou somos powerpoint. Explico: os que param na primeira vaga são os que saem rápido do cinema, que normalmente gostam de powerpoint. Os que trocam uma senha assim que a recebem são os mesmos que vão procurar uma vaga mais perto, e são craques em excel.
Você pode até pensar que, como não é ligado a computador, não cabe em nenhum dos dois grupos, mas isso nada mais é do que um indício de que você é uma pessoa powerpoint. Os que pensam que não gostam de tecnologia são extensão ppt.
Os bons em excel são os que falam pouco, e os powerpoints são os prolixos. É tão claro. Não? Os que nunca instalam a impressora e vivem mandando e-mails com a frase “imprimir pls” são os que também não trocam as senhas. Que, normalmente, eu arriscaria dizer, são os prolixos. Já o outro grupo, daqueles que instalam a impressora de uma vez — e a qualquer custo — são os mais calados, que preferem excel e, por isso, são os que fazem conta no computador, lado oposto daquele grupo que, ao perguntado sobre qualquer porcentagem, faz de cabeça, rabisca com caneta num papel rascunho qualquer ou, na pior das hipóteses, demora tanto a responder que o outro desiste e vai embora. Dependendo de quem perguntou. Normalmente quem faz perguntas de cálculos para os outros são os que acordam tarde, ppts puro. Os matutinos costumam fazer as contas ao invés de perguntá-las. Extensão xls (de excel) pra eles, que são os mesmos, claro, dos que fazem exercícios regularmente, ao contrário dos dorminhocos que vivem sustentando academias que sequer conhecem. Esse segundo é o grupo que deixa bilhetes a mão, ao contrário dos excels, que desaprenderam a usar lápis e papel. Em compensação, são os melhores em eletrônicos. Enquanto os powerpoints apanham de qualquer DVD, os excels são capazes de instalar um sistema de som que ecoe por toda a paulista.
Você é desses? Você pode se identificar pela comida também. Há os que vivem pra comer e os que comem pra viver. Os primeiros são os glutões, os mesmos que vivem atrasados. Powerpoints né? Os segundos, pontuais, só poderiam ser excels.
Claro, claro que há exceções. Um guloso pode até ser bom em excel, mas nunca um atrasado vai ser um que não liga muito pra doce. Pode ver.
Se você duvidar que a vida é simples assim, posso apostar que é do grupo dos excels. Deve ser de direita. Não que um excel não possa ser petista, até pode, inclusive sei de muitos PSDBistas powerpoints, o que é raro, mas há controvérsias quanto à política, porque nem mesmo os políticos sabem bem em qual grupo se encaixam. Principalmente se forem ppts.
Excel e Powepoint
Sempre achei gozada essa mania clichê de dividir a humanidade em dois: Os que estacionam na primeira vaga que aparece e os que vão mais pertinho, pra tentar achar outra melhor. Os que saem do cinema rápido e os que ficam assistindo ao letreiro. Os que trocam uma senha assim que a recebem, os que permanecem com a senha estranha por pura preguiça de fazer a mudança. São muitas, muitas as formas de nos agruparmos, mas, o que acho graça mesmo, é que elas são sempre as mesmas.
Todas essas tentativas de divisão encontram as mesmas possibilidades: ou somos humanos excel, ou somos powerpoint. Explico: os que param na primeira vaga são os que saem rápido do cinema, que normalmente gostam de powerpoint. Os que trocam uma senha assim que a recebem são os mesmos que vão procurar uma vaga mais perto, e são craques em excel.
Você pode até pensar que, como não é ligado a computador, não cabe em nenhum dos dois grupos, mas isso nada mais é do que um indício de que você é uma pessoa powerpoint. Os que pensam que não gostam de tecnologia são extensão ppt.
Os bons em excel são os que falam pouco, e os powerpoints são os prolixos. É tão claro. Não? Os que nunca instalam a impressora e vivem mandando e-mails com a frase “imprimir pls” são os que também não trocam as senhas. Que, normalmente, eu arriscaria dizer, são os prolixos. Já o outro grupo, daqueles que instalam a impressora de uma vez — e a qualquer custo — são os mais calados, que preferem excel e, por isso, são os que fazem conta no computador, lado oposto daquele grupo que, ao perguntado sobre qualquer porcentagem, faz de cabeça, rabisca com caneta num papel rascunho qualquer ou, na pior das hipóteses, demora tanto a responder que o outro desiste e vai embora. Dependendo de quem perguntou. Normalmente quem faz perguntas de cálculos para os outros são os que acordam tarde, ppts puro. Os matutinos costumam fazer as contas ao invés de perguntá-las. Extensão xls (de excel) pra eles, que são os mesmos, claro, dos que fazem exercícios regularmente, ao contrário dos dorminhocos que vivem sustentando academias que sequer conhecem. Esse segundo é o grupo que deixa bilhetes a mão, ao contrário dos excels, que desaprenderam a usar lápis e papel. Em compensação, são os melhores em eletrônicos. Enquanto os powerpoints apanham de qualquer DVD, os excels são capazes de instalar um sistema de som que ecoe por toda a paulista.
Você é desses? Você pode se identificar pela comida também. Há os que vivem pra comer e os que comem pra viver. Os primeiros são os glutões, os mesmos que vivem atrasados. Powerpoints né? Os segundos, pontuais, só poderiam ser excels.
Claro, claro que há exceções. Um guloso pode até ser bom em excel, mas nunca um atrasado vai ser um que não liga muito pra doce. Pode ver.
Se você duvidar que a vida é simples assim, posso apostar que é do grupo dos excels. Deve ser de direita. Não que um excel não possa ser petista, até pode, inclusive sei de muitos PSDBistas powerpoints, o que é raro, mas há controvérsias quanto à política, porque nem mesmo os políticos sabem bem em qual grupo se encaixam. Principalmente se forem ppts.
Friday, February 6, 2009
Carioca

Extou passando unx diax no Rio. Aqui é muito diferente, ax pessoax se vextem maix coloridax, falam maix alto e puxam o S. Opx, eles usam o “x” no lugarrr do “s”
E ox taxixtas daqui falam a beça. Eu vivo a fingirr que sou nativa, com medo de serr engambelada nox perrcurssox que faço. Araxto o “s” e puxo o “r”, como nenhum outro paulixta.
Hoje, um taxixta gordinho, contava que passou unx dias no spa. Ops, no xpa. Ele emagreceu 22 quilox em um mêx. Não é impressionante?
Disse que ele ficou tão amigo dox seux colegax de xpa, que o pessoal pedia pra ele guarrdarr ox produtox ilícitox no quarrto dele. Ele, que dix sempre terr sido bonzinho, deixava, e tinha o quarrto lotado de docex, refrigerantex e outrax delíciax... Daí aconteceu que um dia, elex tiveram uma surrpresa. “Que surrpresa??” Eu perrguntei interessadíssima nessa hixtoria tão peculiarr. Ele, malandro como todo carioca, fex suxpense para, em seguida, rexponderr: “A surrpresa era uma blitxxx!!” Ele disse assim mexmo, exagerando ainda mais no s. Ups, no x. “Uma blitx??” Eu, do lado de cá, chocada! “Ouve só!” Ele continuava, dando risada de si próprio. “Ox carax notaram que o pessoal tava engorrdando né? E aí, pô, como é que pode no xpa, que só tem alface, neguinho tá engorrdando de que?? Então foram lá, em todox ox quarrtox e fizeram uma blitxx ferrada!!” Uau! “E ai, e aíí??” – Eu extava com medo de chegarr ao meu dextino, sem saberr o final da hixtoria. “Daí, vai ouvindo, a gente tudo lá, do lado de fora, experando a blitx. Neguinho tudo apavorado né? De medo, que eu entregasse ax porrcariax delex... De repente, me chamaram lá dentro do meu quarrto....” - “Ai, sério??” Eu murrmurei, no banco de trax, até me exquecendo de fazer meu habitual sotaque carioca. “Daí”, ele rexpondeu devagarr, fazendo seu habitual suxxpense: “O médico me olhou e disse: Pode me explicarr o que que é isso aqui?? Tinha bixcoito recheado, tinha bananada, gelatina, bombom, danone, até um cachorro quente frio tinha lá dentro, que eu nem sabia...”.
“Ai meu Dexx, e o que você disse??” “Vai ouvindo.... Eu virei pro médico e disse: “doto”, isso tudo aí é meu, eu trouxe pra cá, max eu não como nada disso não. É que só de eu olharr pra essax coisax, saberr que ta aí, é como se eu me alimentasse, entendeu?” Eu fiquei bem perrplexa: “Nossa, você disse isso?? E ele, e ele??” Ao invex de me rexponderr, ele queria aprovação: “Peraí, peraí foi boa saída ou não foi??” “Foi ótima saída moço, max e ele hein?” “Ele disse assim que acreditava, max que preferiria que eu tirasse tudo de lá. Pô, max aquilo tudo me alimentava né?” – “Claro, claro” – “E eu insixti a beça, jurei que na semana seguinte ia extar tudo lá, no mexmo lugar, e o cara acreditou em mim. Bacana né??” - “Pô, bacana mexmo e na outra semana você deixou tudo igual então?” – “Ah, eu deixei, max o pessoal de lá é que não deixou. Chegou semana seguinte, quando teve outra blitx, até eu me assuxtei viu??” – “Porrrrque moço??” O taxi já tinha até chegado, max eu não descia, sem ouvirr o final “Porrque tinham comido tudo, o pessoal lá tinha comido tudo”.
“Caraca!” Eu falei antex de descerr, correndo, atrasada e, claro, carioquíssima. Da gema...
Sunday, February 1, 2009
Reprises
Todo janeiro era isso? Eu não me lembro dos outros anos, mas esse, juro, não agüentava mais ver os melhores momentos dos programas. Todo mundo saiu de férias e deixou uma ediçãozinha meia-boca dos melhores momentos do ano pra ficar passando repetidamente, como se também fossem os nossos melhores momentos que estivessem assistindo.
Mas não são.. Nós somos pessoas normais que não temos 30 dias de férias em janeiro (nem nunca), gostaríamos de assistir os programas normalmente, e que fossem novos e ricos, porque nós, senhores apresentadores, somos velhos e pobres, portanto, continuamos aqui todo santo dia enquanto vocês estão no Taiti ou na Disney com a sua família.
Seria bom se a vida fosse assim né?
Eu invejo os apresentadores de TV que podem ir tranquilamente para a Conchichina, enquanto nós ficamos aqui vendo o que eles acham que são os melhores momentos deles.
Eu adoraria fazer a mesma coisa no meu trabalho:
- Chefe, janeiro estou de férias, sabe como é, mas, olha, você poderá ter a reprise dos meus melhores momentos, fique tranqüilo.
- Como?? - ele perguntaria incrédulo.
- Isso – eu diria coma naturalidade tosca do Amaury Jr - Já separei as reprises dos meus melhores momentos de 2008 e você poderá ficar com isso. Lembra aquela reunião que me saí super bem? E aquela resposta certeira que dei pro cliente? Lembra daquela planilha que entreguei na data? Você terá acesso a todos esses bons momentos de 2008, para divertir-se com eles durante todo o mês de janeiro!.
Talvez eu não tenha um melhor momento diferente para cada dia de janeiro, mas, como na TV, eles poderiam ir se repetindo, aleatoriamente. Não seria ótimo?
Todos poderíamos ter as férias tão merecidas. Você deixaria seus filhos sem peso na consciência: Eles ficariam com as reprises. Seu marido também. Talvez ele até gostasse, um mês só com o seu melhor de 2008? É muito mais divertido do que os melhores momentos do Luciano Huck, com todo respeito.
Pena que janeiro acabou e, talvez, eu não tenha registrado os meus melhores momentos de 2008. Mas nunca é tarde. Em 2010, anotem aí, vocês passarão o mês de janeiro com os meus melhores momentos desse ano, nem que eu tenha que garimpar fundo para achá-los. Por via das dúvidas, é melhor começar a construí-los já.
Mas não são.. Nós somos pessoas normais que não temos 30 dias de férias em janeiro (nem nunca), gostaríamos de assistir os programas normalmente, e que fossem novos e ricos, porque nós, senhores apresentadores, somos velhos e pobres, portanto, continuamos aqui todo santo dia enquanto vocês estão no Taiti ou na Disney com a sua família.
Seria bom se a vida fosse assim né?
Eu invejo os apresentadores de TV que podem ir tranquilamente para a Conchichina, enquanto nós ficamos aqui vendo o que eles acham que são os melhores momentos deles.
Eu adoraria fazer a mesma coisa no meu trabalho:
- Chefe, janeiro estou de férias, sabe como é, mas, olha, você poderá ter a reprise dos meus melhores momentos, fique tranqüilo.
- Como?? - ele perguntaria incrédulo.
- Isso – eu diria coma naturalidade tosca do Amaury Jr - Já separei as reprises dos meus melhores momentos de 2008 e você poderá ficar com isso. Lembra aquela reunião que me saí super bem? E aquela resposta certeira que dei pro cliente? Lembra daquela planilha que entreguei na data? Você terá acesso a todos esses bons momentos de 2008, para divertir-se com eles durante todo o mês de janeiro!.
Talvez eu não tenha um melhor momento diferente para cada dia de janeiro, mas, como na TV, eles poderiam ir se repetindo, aleatoriamente. Não seria ótimo?
Todos poderíamos ter as férias tão merecidas. Você deixaria seus filhos sem peso na consciência: Eles ficariam com as reprises. Seu marido também. Talvez ele até gostasse, um mês só com o seu melhor de 2008? É muito mais divertido do que os melhores momentos do Luciano Huck, com todo respeito.
Pena que janeiro acabou e, talvez, eu não tenha registrado os meus melhores momentos de 2008. Mas nunca é tarde. Em 2010, anotem aí, vocês passarão o mês de janeiro com os meus melhores momentos desse ano, nem que eu tenha que garimpar fundo para achá-los. Por via das dúvidas, é melhor começar a construí-los já.
Thursday, January 29, 2009
Saturday, January 24, 2009
A favorita
Foi semana passada, quando eu estava viajando a trabalho. Era hora da Favorita. Última semana. Cheguei ao hotel, afobada bem em cima da hora, corri pra ligar a televisão e lá estava a Flora e a Donatela, num teatro, com as cortinas se abrindo para que os mocinhos assistissem à desgraça da vilã, aquela cena absolutamente impossível, acontecendo na novela. Toca o telefone, corro pra atender. Do outro lado, meu marido:
- Até parece né?
- Oi amor. Que?
- Até parece que a cortina ia abrir, todo mundo estaria aí, olhando... Ridículo... – Eu, do outro lado da linha, ri. Como ele sabia que eu já tinha chegado? Como ele sabia que eu ligara a televisão? Como ele sabia que eu entenderia, sem explicação prévia? O amor, ou melhor, a cumplicidade, tem dessas coisas. Você não sabe, mas sente-se absolutamente confortável para agir como se soubesse, e, normalmente, acerta. Você pode estar pouco longe ou muito longe, mas é como se você estivesse ali, ao lado, grudado.
Enquanto me acomodava na poltrona, ia comentando:
- Ridículo mesmo baby, onde é que já se viu, ninguém ia tossir, espirrar, chegar atrasado, nada... – ele riu. Mas calou-se em seguida, porque a Flora tinha fugido. Não falamos por um longo período, mas ele resmungava, eu murmurava, ele exclamava, eu suspirava. E assim, sem que nenhuma palavra fosse necessária, estávamos tão pertos um do outro quanto era possível. Podia ver seu rosto de exclamação, quando ele respirava dessa, ou daquela maneira.
Ficamos lá, assim. Assistindo a novela a quilômetros e quilômetros de distância, às vezes calados, às vezes comentando, rindo e esquecendo da conta telefônica – que não tardará a chocar-me. Lá pelas tantas, percebi que as palavras da Cirlene chegavam antes no meu quarto do que no dele. É porque a Globo é carioca – ele disse – e você está no Rio. Rimos de novo, enquanto eu contava a frase seguinte, um minuto antes que ele a pudesse ouvir. Eu era uma vidente, e ele meu cliente. Eu era sua amiga, e ele meu amor.
Depois, há quem diga que casamento não é bom...
- Até parece né?
- Oi amor. Que?
- Até parece que a cortina ia abrir, todo mundo estaria aí, olhando... Ridículo... – Eu, do outro lado da linha, ri. Como ele sabia que eu já tinha chegado? Como ele sabia que eu ligara a televisão? Como ele sabia que eu entenderia, sem explicação prévia? O amor, ou melhor, a cumplicidade, tem dessas coisas. Você não sabe, mas sente-se absolutamente confortável para agir como se soubesse, e, normalmente, acerta. Você pode estar pouco longe ou muito longe, mas é como se você estivesse ali, ao lado, grudado.
Enquanto me acomodava na poltrona, ia comentando:
- Ridículo mesmo baby, onde é que já se viu, ninguém ia tossir, espirrar, chegar atrasado, nada... – ele riu. Mas calou-se em seguida, porque a Flora tinha fugido. Não falamos por um longo período, mas ele resmungava, eu murmurava, ele exclamava, eu suspirava. E assim, sem que nenhuma palavra fosse necessária, estávamos tão pertos um do outro quanto era possível. Podia ver seu rosto de exclamação, quando ele respirava dessa, ou daquela maneira.
Ficamos lá, assim. Assistindo a novela a quilômetros e quilômetros de distância, às vezes calados, às vezes comentando, rindo e esquecendo da conta telefônica – que não tardará a chocar-me. Lá pelas tantas, percebi que as palavras da Cirlene chegavam antes no meu quarto do que no dele. É porque a Globo é carioca – ele disse – e você está no Rio. Rimos de novo, enquanto eu contava a frase seguinte, um minuto antes que ele a pudesse ouvir. Eu era uma vidente, e ele meu cliente. Eu era sua amiga, e ele meu amor.
Depois, há quem diga que casamento não é bom...
Thursday, January 22, 2009
Crõnica do dia
Lá, na CDD fui prolixa a beça, hoje.
Esse é pra quem é cabra macho.A manada
Mulheres são os bichos mais coletivos que existem. Muito mais do que uma manada de búfalos ou do que uma passeata de pingüins, mulheres são ótimas em bandos e nunca consigo entender os que dizem o contrário.
Pensei nisso recentemente, quando eu e uma amiga resolvemos aproveitar uma liquidação. Ouvimos dizer de um bazar, a loja que amamos estava fazendo um megabazar, num megagalpão com tudo por – no máximo – 90 reais. Não precisamos perguntar se uma queria ir, não precisamos falar sobre horários ou logística, e não houve sequer um “se”. Assim que ouvimos a notícia, não precisávamos nos olhar para saber o que fazer. Eu peguei o guia no porta-luvas e comecei a procurar a rua. O lugar era longe e demoramos a chegar. Mas isso não era nada perto do que viria a seguir. Assim que nos aproximamos, percebemos uma fila de mulheres que se amontoavam em linha reta, recostadas em um muro, em pé, na calçada. Só poderia ser ali, claro. Estacionamos, entramos na fila e lá ficamos por um longo tempo. As mulheres, todas, falavam sobre o que haveria ali, do lado de dentro. Éramos crianças no portão da Disney, cada uma tinha uma notícia diferente para alarmar: “Nossa, minha prima tá lá dentro, disse que tem uma arara só de tricots?” Meu coração gelou: “Séééério?!”, gritei. “É, é verdade, tenho uma amiga que veio ontem e disse a mesma coisa. Mas ela ficou duas horas e meia pra pagar”, respondeu outra. Duas horas e meia me soou um pouco estranho, mas estava interessada nas nossas correspondentes, do lado de dentro. “Diz que vestido de festa está de 900 por 90 reais e as calças sociais de 300 por 30”. Engoli em seco, ficando na ponta do pé pra ver se enxergava o lado de dentro. “É tudo assim”, explicava uma adolescente, “eles tiraram os zeros e mantiveram o primeiro dígito. Minha cunhada é vendedora aí, e ela que me contou.” Entre uma notícia e outra, acompanhávamos as pessoas que saíam. Todas cheias de sacolas, nos sorriam animadas, algumas até davam tchauzinho enquanto tentávamos decifrar suas sacolas, suas expressões, seu olhar de satisfação ou não, como fazemos com os que saem do cinema antes de nós. Eles conhecem o futuro, são aqueles que sabem o que vamos sentir e viver, são o que seremos em algumas horas e isso lhes dá uma posição de estranha vantagem, além de nos invadir de ansiedade e pressa. Enfim, chegou a nossa vez. Já do lado de dentro, uma nova fila para preencher o cadastro da loja. Quem já tinha cadastro tinha que ir pra fila confirmar o cadastro. Tudo bem, já tínhamos uma vista panorâmica do paraíso e isso refrescava a nossa condição. Ainda tivemos tempo de armar uma estratégia. Minha amiga me olhou e disse: “Você vai pra direita e eu pra esquerda.” Ok, respondi. “E tudo o que você gostar pega dois que eu posso querer.” Ok. "Você foca em roupa de festa e eu no dia a dia, pode ser?". Está bem, eu confirmei. “Você vai de metralhadora e eu de pistola automática, tudo bem?” Brinquei, encerrando a conversa, e correndo pra dentro do espaço.
Foi então que bateu uma decepção inicial. Espalhadas em um enorme galpão, todas as roupas que ninguém quis no último ano – que é tempo à beça pra vender o que quer que seja. Ainda assim, havia um estranho feitiço pelo qual estávamos todas alucinadas. Cada uma pegava três peças de uma vez, jogava uma de volta, corria pra arara seguinte, se impressionava com o preço e assim ia. Até que descobriam que o lugar não teria provador e, antes mesmo de fazerem uma cara triste, notavam um grupo fazendo cabaninha para uma moça. Mais adiante, uma se escondia, só de calcinha e sutiã, atrás dos vestidos de festa. E, lá no fundo, depois de atravessar todo o espaço, dezenas de mulheres nuas, se trocando aos olhos dos seguranças do lugar, e de alguns poucos maridos, que tinham ido fazer não sei o que ali. Era impressionante, mas, ao mesmo tempo, era contagioso. Eu hesitei um instante antes de tirar a blusa pra provar um tricot, mas o segurança que estava ao lado fez um sinal de positivo com a cabeça, dizendo: “Não tem problema. Estou aqui há oito horas, já me acostumei.” Olhei para as outras mulheres, de calcinha e sutiã, e disse para ele: “Mas qual o problema? É tudo biquíni, estamos todas de biquíni, não é?”. Ele riu e, antes de responder, eu complementei: “Aliás você pode não saber, mas somos todas homens. Desencane.” Ele – e elas – riram e começamos a provar as coisas. Provamos as nossas, as das outras mulheres, e as que encontramos no chão. Se o segurança tirasse o paletó, eu iria provar. Todas faziam esse ciclo. Experimentavam as que escolheram, as que as outras escolheram, as que encontravam, e até o casaco que eu tinha vestido de manhã entrou na roda uma hora, ao que eu tive que gritar: “Ei, ei, ei, esse não, esse é meu” e a mocinha ainda me respondeu: “Xi, já vi umas três experimentarem, é uma graça”. Os seguranças opinavam, riam, até indicavam uma ou outra peça, quando se sentiam mais à vontade. Passaram-se horas quando decidimos que era hora de irmos embora e resolvemos olhar a fila do caixa. Uma onda de desânimo me abateu. Não pode ser, eu pensei. Nem nos piores dias de Hopi Hari ou Playcenter – já que eu estava na minha Disney – eu tinha visto coisa igual. Nunca, nunca. A fila dava voltas e mais voltas, e as mulheres lá, com as suas sacolas lotadas de roupa no chão, recostadas sobre seus pés. Andavam dois passos carregando as sacolas, voltavam a colocá-las no chão. Algumas reviam as roupas, olhavam bem, pediam opinião a outra e as penduravam ao lado, naqueles elásticos pretos que organizavam a fila. Ainda assim, ainda com essa cena de terror, ninguém fez nenhuma pergunta. Nos dirigimos à fila, caladas, prostradas, como se não nos restasse opção.
Foi lá, nas duas horas e tanto de fila que tudo isso me veio à cabeça. Observei alguns poucos homens aterrorizados. Outros prostrados. Um assustado com a esposa que insistia em que ele subisse o zíper da blusa que ela vestira sobre a própria roupa, tornando inviável que o botão fechasse, mas ela insistia, enérgica: “Vai, amor. Sobe, pô!”. Ele tentava responder, mas não conseguia, estava até suando, o pobre, tamanha força e – talvez – pavor. Até tentou reclamar, meio que sem graça, meio que bravo, meio que bocó, enquanto tentava atender o pedido da mulher. Os homens, esses tolos, nunca seriam capazes de um movimento tão insano quanto esse. É insano, é enlouquecedor, mas é o que somos. Pensei em Hitler e em como ele foi bom para atrair multidões a fazerem coisas absurdas. Procurei-o por ali, porque éramos todas súditas de uma louca e impiedosa lei, que não sei bem o que diz, ou o que prega, mas que nos faz assim, esse movimento estranho de termos que fazer o que todo mundo ali está fazendo. É como se um inconsciente coletivo nos movesse, ou algum movimento de imitação mesmo, como sugeriu minha amiga, quando tentávamos refletir sobre o que acontecia naquele ambiente, quando tentávamos, em vão, adquirir uma gota de consciência em meio a búfalos que apenas seguem uma manada. Foi a passos de tartaruga que chegamos ao caixa, e qual não foi a nossa surpresa ao notarmos que o sapato que levávamos não tinha o seu par. Era apenas um pé, o outro era outro número e não nos serviria de nada. Ela, minha brava companheira, coitada, fez uma expressão de horror quando se deu conta. Era quase que a sua única peça aquele sapato, e não tínhamos enfrentado tudo aquilo pra morrer na praia. Foi um movimento conjunto. Imploramos pra vendedora nos dar alguns minutos e seguimos, um sapato numa mão e a outra se agitando ao tirar tudo da frente em busca do outro par. Perguntávamos sem parar se alguém vira e, em meio a esse movimento quase que autista, uma moça que limpava o lugar nos interrompeu, calmamente, mostrando o pé que precisávamos ali, na sua mão, ao lado da vassoura. Ok, não era exatamente o mesmo número. Um era 38 e o outro 39, mas minha amiga jura que tem mesmo um pé maior do que o outro e corremos pra voltar na caixa, que nos recebeu sorridente.
Quando saímos dali, horas e horas depois de entrarmos, com as mãos cheias de sacolas e os pés latejando de dor, ambas, de novo sem falarmos nada, soltamos um suspiro abafado. Eu cheguei a gritar de alívio. Dei um berro de catarse enquanto atravessava a rua. Era como se tivéssemos saído da prisão, mas quem nos condenou àquela detenção não foi ninguém senão nós mesmas. Loucas, contagiadas, inebriadas, mulheres. Não está certo, no entanto foi isso que me fez pensar que ninguém – ninguém mais – poderia mover o mundo, fazer a economia girar, gerar frutos, filhos, dinheiro, alegria, poder e pavor para todo um planeta senão nós mulheres. Ainda que tenhamos um pé maior do que o outro.
Esse é pra quem é cabra macho.A manada
Mulheres são os bichos mais coletivos que existem. Muito mais do que uma manada de búfalos ou do que uma passeata de pingüins, mulheres são ótimas em bandos e nunca consigo entender os que dizem o contrário.
Pensei nisso recentemente, quando eu e uma amiga resolvemos aproveitar uma liquidação. Ouvimos dizer de um bazar, a loja que amamos estava fazendo um megabazar, num megagalpão com tudo por – no máximo – 90 reais. Não precisamos perguntar se uma queria ir, não precisamos falar sobre horários ou logística, e não houve sequer um “se”. Assim que ouvimos a notícia, não precisávamos nos olhar para saber o que fazer. Eu peguei o guia no porta-luvas e comecei a procurar a rua. O lugar era longe e demoramos a chegar. Mas isso não era nada perto do que viria a seguir. Assim que nos aproximamos, percebemos uma fila de mulheres que se amontoavam em linha reta, recostadas em um muro, em pé, na calçada. Só poderia ser ali, claro. Estacionamos, entramos na fila e lá ficamos por um longo tempo. As mulheres, todas, falavam sobre o que haveria ali, do lado de dentro. Éramos crianças no portão da Disney, cada uma tinha uma notícia diferente para alarmar: “Nossa, minha prima tá lá dentro, disse que tem uma arara só de tricots?” Meu coração gelou: “Séééério?!”, gritei. “É, é verdade, tenho uma amiga que veio ontem e disse a mesma coisa. Mas ela ficou duas horas e meia pra pagar”, respondeu outra. Duas horas e meia me soou um pouco estranho, mas estava interessada nas nossas correspondentes, do lado de dentro. “Diz que vestido de festa está de 900 por 90 reais e as calças sociais de 300 por 30”. Engoli em seco, ficando na ponta do pé pra ver se enxergava o lado de dentro. “É tudo assim”, explicava uma adolescente, “eles tiraram os zeros e mantiveram o primeiro dígito. Minha cunhada é vendedora aí, e ela que me contou.” Entre uma notícia e outra, acompanhávamos as pessoas que saíam. Todas cheias de sacolas, nos sorriam animadas, algumas até davam tchauzinho enquanto tentávamos decifrar suas sacolas, suas expressões, seu olhar de satisfação ou não, como fazemos com os que saem do cinema antes de nós. Eles conhecem o futuro, são aqueles que sabem o que vamos sentir e viver, são o que seremos em algumas horas e isso lhes dá uma posição de estranha vantagem, além de nos invadir de ansiedade e pressa. Enfim, chegou a nossa vez. Já do lado de dentro, uma nova fila para preencher o cadastro da loja. Quem já tinha cadastro tinha que ir pra fila confirmar o cadastro. Tudo bem, já tínhamos uma vista panorâmica do paraíso e isso refrescava a nossa condição. Ainda tivemos tempo de armar uma estratégia. Minha amiga me olhou e disse: “Você vai pra direita e eu pra esquerda.” Ok, respondi. “E tudo o que você gostar pega dois que eu posso querer.” Ok. "Você foca em roupa de festa e eu no dia a dia, pode ser?". Está bem, eu confirmei. “Você vai de metralhadora e eu de pistola automática, tudo bem?” Brinquei, encerrando a conversa, e correndo pra dentro do espaço.
Foi então que bateu uma decepção inicial. Espalhadas em um enorme galpão, todas as roupas que ninguém quis no último ano – que é tempo à beça pra vender o que quer que seja. Ainda assim, havia um estranho feitiço pelo qual estávamos todas alucinadas. Cada uma pegava três peças de uma vez, jogava uma de volta, corria pra arara seguinte, se impressionava com o preço e assim ia. Até que descobriam que o lugar não teria provador e, antes mesmo de fazerem uma cara triste, notavam um grupo fazendo cabaninha para uma moça. Mais adiante, uma se escondia, só de calcinha e sutiã, atrás dos vestidos de festa. E, lá no fundo, depois de atravessar todo o espaço, dezenas de mulheres nuas, se trocando aos olhos dos seguranças do lugar, e de alguns poucos maridos, que tinham ido fazer não sei o que ali. Era impressionante, mas, ao mesmo tempo, era contagioso. Eu hesitei um instante antes de tirar a blusa pra provar um tricot, mas o segurança que estava ao lado fez um sinal de positivo com a cabeça, dizendo: “Não tem problema. Estou aqui há oito horas, já me acostumei.” Olhei para as outras mulheres, de calcinha e sutiã, e disse para ele: “Mas qual o problema? É tudo biquíni, estamos todas de biquíni, não é?”. Ele riu e, antes de responder, eu complementei: “Aliás você pode não saber, mas somos todas homens. Desencane.” Ele – e elas – riram e começamos a provar as coisas. Provamos as nossas, as das outras mulheres, e as que encontramos no chão. Se o segurança tirasse o paletó, eu iria provar. Todas faziam esse ciclo. Experimentavam as que escolheram, as que as outras escolheram, as que encontravam, e até o casaco que eu tinha vestido de manhã entrou na roda uma hora, ao que eu tive que gritar: “Ei, ei, ei, esse não, esse é meu” e a mocinha ainda me respondeu: “Xi, já vi umas três experimentarem, é uma graça”. Os seguranças opinavam, riam, até indicavam uma ou outra peça, quando se sentiam mais à vontade. Passaram-se horas quando decidimos que era hora de irmos embora e resolvemos olhar a fila do caixa. Uma onda de desânimo me abateu. Não pode ser, eu pensei. Nem nos piores dias de Hopi Hari ou Playcenter – já que eu estava na minha Disney – eu tinha visto coisa igual. Nunca, nunca. A fila dava voltas e mais voltas, e as mulheres lá, com as suas sacolas lotadas de roupa no chão, recostadas sobre seus pés. Andavam dois passos carregando as sacolas, voltavam a colocá-las no chão. Algumas reviam as roupas, olhavam bem, pediam opinião a outra e as penduravam ao lado, naqueles elásticos pretos que organizavam a fila. Ainda assim, ainda com essa cena de terror, ninguém fez nenhuma pergunta. Nos dirigimos à fila, caladas, prostradas, como se não nos restasse opção.
Foi lá, nas duas horas e tanto de fila que tudo isso me veio à cabeça. Observei alguns poucos homens aterrorizados. Outros prostrados. Um assustado com a esposa que insistia em que ele subisse o zíper da blusa que ela vestira sobre a própria roupa, tornando inviável que o botão fechasse, mas ela insistia, enérgica: “Vai, amor. Sobe, pô!”. Ele tentava responder, mas não conseguia, estava até suando, o pobre, tamanha força e – talvez – pavor. Até tentou reclamar, meio que sem graça, meio que bravo, meio que bocó, enquanto tentava atender o pedido da mulher. Os homens, esses tolos, nunca seriam capazes de um movimento tão insano quanto esse. É insano, é enlouquecedor, mas é o que somos. Pensei em Hitler e em como ele foi bom para atrair multidões a fazerem coisas absurdas. Procurei-o por ali, porque éramos todas súditas de uma louca e impiedosa lei, que não sei bem o que diz, ou o que prega, mas que nos faz assim, esse movimento estranho de termos que fazer o que todo mundo ali está fazendo. É como se um inconsciente coletivo nos movesse, ou algum movimento de imitação mesmo, como sugeriu minha amiga, quando tentávamos refletir sobre o que acontecia naquele ambiente, quando tentávamos, em vão, adquirir uma gota de consciência em meio a búfalos que apenas seguem uma manada. Foi a passos de tartaruga que chegamos ao caixa, e qual não foi a nossa surpresa ao notarmos que o sapato que levávamos não tinha o seu par. Era apenas um pé, o outro era outro número e não nos serviria de nada. Ela, minha brava companheira, coitada, fez uma expressão de horror quando se deu conta. Era quase que a sua única peça aquele sapato, e não tínhamos enfrentado tudo aquilo pra morrer na praia. Foi um movimento conjunto. Imploramos pra vendedora nos dar alguns minutos e seguimos, um sapato numa mão e a outra se agitando ao tirar tudo da frente em busca do outro par. Perguntávamos sem parar se alguém vira e, em meio a esse movimento quase que autista, uma moça que limpava o lugar nos interrompeu, calmamente, mostrando o pé que precisávamos ali, na sua mão, ao lado da vassoura. Ok, não era exatamente o mesmo número. Um era 38 e o outro 39, mas minha amiga jura que tem mesmo um pé maior do que o outro e corremos pra voltar na caixa, que nos recebeu sorridente.
Quando saímos dali, horas e horas depois de entrarmos, com as mãos cheias de sacolas e os pés latejando de dor, ambas, de novo sem falarmos nada, soltamos um suspiro abafado. Eu cheguei a gritar de alívio. Dei um berro de catarse enquanto atravessava a rua. Era como se tivéssemos saído da prisão, mas quem nos condenou àquela detenção não foi ninguém senão nós mesmas. Loucas, contagiadas, inebriadas, mulheres. Não está certo, no entanto foi isso que me fez pensar que ninguém – ninguém mais – poderia mover o mundo, fazer a economia girar, gerar frutos, filhos, dinheiro, alegria, poder e pavor para todo um planeta senão nós mulheres. Ainda que tenhamos um pé maior do que o outro.
Thursday, January 15, 2009
Monday, January 12, 2009
Tenho que
Tenho que fazer minha monografia. Tenho que fazer, tenho que fazer. Vou fazer hoje, sem falta. Hoje, vou começar agora. Sentei aqui pra isso. Vou fazer a minha monografia. Onde estava o arquivo? Não, melhor não, vou começar pesquisando no google. Nossa, nem li ainda aquele blog. Só uma lidinha rápida, não vai fazer diferença. Pronto, agora vou começar a minha monografia. Já era pra ter feito, ano passado. Todo mundo entregou, a Paula comentou comigo, acho que foi em novembro. Nossa, preciso mandar um email pra Paula, ela pode me enviar a dela e já ajuda. Também quero saber como foi de natal, perguntar do apartamento. Será que vagou? Um email só. Pronto. Vou começar a monografia, agora vou mesmo. Mas posso ver se o apartamento vagou no site da imobiliária. Será? Vamos ver... humm, não tô achando. Puxa, mas esse parece bom. Vou anotar. Esse, esse, mais esse. E aquele, cadê? Achei. Esse. Pronto, agora chega, vou começar a monografia. Sério. Só vou comer uma fruta, ai que fome. Acho que vou preparar alguma coisa. Não, não, vou começar a minha monografia, uma fruta e só. No máximo um toddy também. Isso, agora vou começar. Vamos lá, vamos lá, opa telefone. Oi Dri, que saudades! Tava fazendo a minha monografia. Não, não, posso falar, claro. Jura? Quando? Vamos, vamos sim! Sério? Hahahahahahahaha. Tá bom, um beijo, tchau.
Ok, ok, ok. Agora eu vou, vou fazer a minha monografia. Deixa ver se acho uns arquivos sobre o tema. Aqui, aqui, aqui não, nessa pasta... Olha, esse texto que não sabia onde tava! Quando escrevi isso mesmo? Ah, no natal de 2003, naquela viagem. Que saudades. Deixa ver as fotos, rapidinho. Nossa como eu tava magra. E as fotos agora, do último natal? É mesmo, tenho que baixar da máquina, peraí. É rápido. Vou baixar as fotos, nossa, como ficaram boas, acho até que vou por no orkut. Quanto tempo não entro no orkut, qual era a senha? Eba, acertei. Olha o fulano! Quem é esse ciclano que entrou na minha página? Nossa, não acredito, como será que está a irmã dele? Que linda, como ficou bonita com esse cabelo. Olha, ela tem um blog, vamos ver como é? Que legal! Ih, ela conhece aquele, que textos bons. Não, vou parar com isso e só baixar as fotos, é um minutinho e, pronto. Agora vou começar, vou mesmo, lá vamos nós. Humm, preciso de uns livros, onde estavam os livros que separei pra fazer a monografia? Nossa, olha esse da Clarice.... Ah vou ler esse conto só, que não resisto. Só esse. Ai, que lindo... Ih, tão me chamando na sala. Amor, já vou indo! Tô, tô fazendo, claro. Tô amor! Juro pô, pára de me tratar como se eu fosse criança, tô fazendo, já vou! Ai, vou fazer, vou fazer. Que? Ta falando comigo amor? Sério? A Flora?? Mas quem? O Silveirinha?? Ai, droga. Depois eu faço. É só a novela. Juro. Já volto. Sério. Só a novela, que tá acabando né? Depois eu sento aqui e faço. Uma horinha e resolvo isso. Sério. Juro. Vou.
Ok, ok, ok. Agora eu vou, vou fazer a minha monografia. Deixa ver se acho uns arquivos sobre o tema. Aqui, aqui, aqui não, nessa pasta... Olha, esse texto que não sabia onde tava! Quando escrevi isso mesmo? Ah, no natal de 2003, naquela viagem. Que saudades. Deixa ver as fotos, rapidinho. Nossa como eu tava magra. E as fotos agora, do último natal? É mesmo, tenho que baixar da máquina, peraí. É rápido. Vou baixar as fotos, nossa, como ficaram boas, acho até que vou por no orkut. Quanto tempo não entro no orkut, qual era a senha? Eba, acertei. Olha o fulano! Quem é esse ciclano que entrou na minha página? Nossa, não acredito, como será que está a irmã dele? Que linda, como ficou bonita com esse cabelo. Olha, ela tem um blog, vamos ver como é? Que legal! Ih, ela conhece aquele, que textos bons. Não, vou parar com isso e só baixar as fotos, é um minutinho e, pronto. Agora vou começar, vou mesmo, lá vamos nós. Humm, preciso de uns livros, onde estavam os livros que separei pra fazer a monografia? Nossa, olha esse da Clarice.... Ah vou ler esse conto só, que não resisto. Só esse. Ai, que lindo... Ih, tão me chamando na sala. Amor, já vou indo! Tô, tô fazendo, claro. Tô amor! Juro pô, pára de me tratar como se eu fosse criança, tô fazendo, já vou! Ai, vou fazer, vou fazer. Que? Ta falando comigo amor? Sério? A Flora?? Mas quem? O Silveirinha?? Ai, droga. Depois eu faço. É só a novela. Juro. Já volto. Sério. Só a novela, que tá acabando né? Depois eu sento aqui e faço. Uma horinha e resolvo isso. Sério. Juro. Vou.
Thursday, January 8, 2009
SAI DA FRENTE QUE ATRÁS VEM GENTE
Saiu no CDD hoje cedo. O que significa que agora, já estou ainda mais velha...
Eu estava fazendo compras de natal quando percebi. Enquanto a vendedora ia me trazendo os modelos de biquínis senti uma estranheza nela, mas não sabia ainda o que era. A menina tinha uma pele muito lisa, grandes olhos azuis e algumas sardas na bochecha bronzeada. A voz dela era muito particular, uma voz fina, bastante infantilizada e foi aí que dei conta: eu estava diante de uma criança. Tomei um susto inicialmente, mas disfarcei. Não era à toa que ela me trazia os modelos maiores, com as laterais mais larguinhas e comportadas, claro, eu era uma velha, seria uma ousadia pedir um biquíni de lacinho, nem sei porque não pedi um maiô preto de uma vez por todas. Resolvi experimentar as peças e entrei no provador, me refazendo discretamente do choque. Quantos anos aquela menina tinha? 18? 19? Meu Deus, são adultos esses que recém-nasceram, pouco antes do novo milênio que - não acabou de começar afinal?
Lembrei-me, na hora, de uma brincadeira da minha infância – no século passado – onde as crianças que vinham correndo, gritavam para as mais lerdinhas: “Sai da frente que atrás vem gente!”. Nossa, como correram esses jovens. Eu devo ter sido derrubada mais de uma vez, lerda do jeito que sou, nem sei como foi que me levantei...
O passar dessa raposa, a quem chamamos de tempo, é quase que uma piada. Uma enorme gozação. Não nos damos conta de que os anos estão se esvaindo, escorrendo por entre nossas mãos frouxas e calejadas. O tempo, ah o tempo. Que grande vilão ele se tornou.
Olhei-me no espelho luminoso do provador. Não havia dúvidas, os biquínis de lacinhos já estavam proibidos há algum tempo. As tirinhas, essas apertadas, são crimes bárbaros, como a legislação não fala nada a respeito? Olhei de relance a criança que me trazia mais um modelo, dessa vez inteiro em preto, sorridente, cheia de si. Ah, ela não sabia, coitada. Quase que senti pena da menina. Porque me vi ali, nos olhos dela. Eu também fui uma menina cheia de vida, cheia de encantos, magra e insatisfeita com tudo o que a vida me dava absolutamente de graça. Era grátis aquela pele, era grátis o corpitcho, era grátis a agilidade, eram grátis todos aqueles dias longos, horas compridas enquanto eu assistia a novela das 6, depois a das 7, pulava pra outro canal no jornal e, então, voltava para pegar a das 8. Era grátis a alegria ingênua, quase que tola, das amigas que riam sem parar por uma noite inteira, trancadas num quarto qualquer, enquanto falavam de meninos ridículos que eram príncipes aos nossos olhos de plebéias. Era grátis, tudo o que hoje me sai por um preço - muitas vezes - bastante salgado.
Hoje, custa-me manter a balança antes dos 60, custa-me correr até a esquina, custa-me subir dois lances de escada, custa-me até o prazer. Sim, o prazer, esse bicho fugaz e efêmero que já foi até um pouco inconveniente, fora de hora e propósito, agora pede-me um dia calmo, pede horas tranqüilas e a cabeça vazia, para então - talvez- dar o ar da graça.
Aquilo que era prêmio virou castigo. O sol, de grande amigo passou a ser bandido. E eu que ficava horas e horas deitada, pensando na vida e passando óleo enquanto rachava debaixo do sol do meio-dia. Óleo, vejam o pecado. Hoje, óleo é crime inafiançável. Nem sei se é permitido vender isso ainda, deve ficar na prateleira dos fuzis de guerra, claro.
A menina me observava pela fresta e arriscou palpitar: “O preto ficou lindo!” ela disse, genuína. O preto era mesmo a melhor opção. Peguei sem pestanejar e, quando disse adeus àquela jovem criança, o mundo já me parecia diferente. Não que seja triste ou penoso, ao contrário. Sei que há mais para se ver, há mais de nós mesmos por dentro das nossas roupas, e agora eu sei como o tempo, esse danado, embora nos tire os biquínis estampados de lacinhos, nos oferece os pretos acompanhados de um chapéu de palha, entre algumas outras gentilezas que essa velha raposa, ainda nos oferece se mantivermos os olhos atentos...
Eu estava fazendo compras de natal quando percebi. Enquanto a vendedora ia me trazendo os modelos de biquínis senti uma estranheza nela, mas não sabia ainda o que era. A menina tinha uma pele muito lisa, grandes olhos azuis e algumas sardas na bochecha bronzeada. A voz dela era muito particular, uma voz fina, bastante infantilizada e foi aí que dei conta: eu estava diante de uma criança. Tomei um susto inicialmente, mas disfarcei. Não era à toa que ela me trazia os modelos maiores, com as laterais mais larguinhas e comportadas, claro, eu era uma velha, seria uma ousadia pedir um biquíni de lacinho, nem sei porque não pedi um maiô preto de uma vez por todas. Resolvi experimentar as peças e entrei no provador, me refazendo discretamente do choque. Quantos anos aquela menina tinha? 18? 19? Meu Deus, são adultos esses que recém-nasceram, pouco antes do novo milênio que - não acabou de começar afinal?
Lembrei-me, na hora, de uma brincadeira da minha infância – no século passado – onde as crianças que vinham correndo, gritavam para as mais lerdinhas: “Sai da frente que atrás vem gente!”. Nossa, como correram esses jovens. Eu devo ter sido derrubada mais de uma vez, lerda do jeito que sou, nem sei como foi que me levantei...
O passar dessa raposa, a quem chamamos de tempo, é quase que uma piada. Uma enorme gozação. Não nos damos conta de que os anos estão se esvaindo, escorrendo por entre nossas mãos frouxas e calejadas. O tempo, ah o tempo. Que grande vilão ele se tornou.
Olhei-me no espelho luminoso do provador. Não havia dúvidas, os biquínis de lacinhos já estavam proibidos há algum tempo. As tirinhas, essas apertadas, são crimes bárbaros, como a legislação não fala nada a respeito? Olhei de relance a criança que me trazia mais um modelo, dessa vez inteiro em preto, sorridente, cheia de si. Ah, ela não sabia, coitada. Quase que senti pena da menina. Porque me vi ali, nos olhos dela. Eu também fui uma menina cheia de vida, cheia de encantos, magra e insatisfeita com tudo o que a vida me dava absolutamente de graça. Era grátis aquela pele, era grátis o corpitcho, era grátis a agilidade, eram grátis todos aqueles dias longos, horas compridas enquanto eu assistia a novela das 6, depois a das 7, pulava pra outro canal no jornal e, então, voltava para pegar a das 8. Era grátis a alegria ingênua, quase que tola, das amigas que riam sem parar por uma noite inteira, trancadas num quarto qualquer, enquanto falavam de meninos ridículos que eram príncipes aos nossos olhos de plebéias. Era grátis, tudo o que hoje me sai por um preço - muitas vezes - bastante salgado.
Hoje, custa-me manter a balança antes dos 60, custa-me correr até a esquina, custa-me subir dois lances de escada, custa-me até o prazer. Sim, o prazer, esse bicho fugaz e efêmero que já foi até um pouco inconveniente, fora de hora e propósito, agora pede-me um dia calmo, pede horas tranqüilas e a cabeça vazia, para então - talvez- dar o ar da graça.
Aquilo que era prêmio virou castigo. O sol, de grande amigo passou a ser bandido. E eu que ficava horas e horas deitada, pensando na vida e passando óleo enquanto rachava debaixo do sol do meio-dia. Óleo, vejam o pecado. Hoje, óleo é crime inafiançável. Nem sei se é permitido vender isso ainda, deve ficar na prateleira dos fuzis de guerra, claro.
A menina me observava pela fresta e arriscou palpitar: “O preto ficou lindo!” ela disse, genuína. O preto era mesmo a melhor opção. Peguei sem pestanejar e, quando disse adeus àquela jovem criança, o mundo já me parecia diferente. Não que seja triste ou penoso, ao contrário. Sei que há mais para se ver, há mais de nós mesmos por dentro das nossas roupas, e agora eu sei como o tempo, esse danado, embora nos tire os biquínis estampados de lacinhos, nos oferece os pretos acompanhados de um chapéu de palha, entre algumas outras gentilezas que essa velha raposa, ainda nos oferece se mantivermos os olhos atentos...
Thursday, January 1, 2009
Para viver em 2009
A primeira Crônica do dia de 2009 é minha. Não é um luxo?
Se for a primeira que você lê, então, mais sorte ainda - sorte a minha, claro (não sua).
De qualquer maneira corra, e leia, antes que o ano acabe:
Está um pouco em cima da hora, eu sei, mas é preciso fazer. Porque é preciso se comprometer, senão com os outros, comigo mesma e com aquilo que - hoje - sonho.
Sonho em passar 2009 magrinha e feliz, fazendo ginástica, bebendo água de coco e chá verde.
Também pretendo trabalhar um pouco, mas não muito, e comer bem. Sei, sei, é um pouco contraditório, mas e daí, é sonho oras.
Quero trabalhar pouco, mas quero ganhar muito, isso é importante ressaltar. Quero comprar coisas boas, mas não quero perder a noção. Não vou ceder às sandálias gladiadoras, não vou usar macacão nem enfiar um chapéu preto na caxola em nome da moda. Não. Vou ser uma dessas que até parecem comuns, usam sapatilhas, shorts, casaquinhos e tiaras, muitas tiaras estão na minha lista de 2009.
Vou correr 5 kms por dia, pelo menos. Vou assistir ao último capítulo da Favorita, mas não vou enlouquecer com big-brother. Vou dançar mais, tomar sol com protetor solar, tomar mais sol ainda - já que com protetor não queima nada.
Vou fugir do trânsito, não sei como, mas vou. Se posso ganhar muito e trabalhar pouco, pesar leve e comer pesado, porque não posso fugir do trânsito? Vou sim, claro, vou fugir total dessa peste moderna que é o trânsito.
Talvez ouvindo música... Vou descobrir novos CDs, novas bandas, vou aprender a usar Ipod, Iphone, Itudo. Vou aprender a usar o GPS, talvez até aprenda a nadar. Posso aprender a dançar também né?
Vou me agarrar muito no meu maridinho-delícia, apertar e abraçar, mas só até o primeiro minuto sem ar. Depois, solto e vou ali, comprar um pão quentinho ou um sorvete rochinha.
Vou curtir a família, os amigos, esquecer os inimigos (quem?), e curtir a mim mesma. Mas vou parar antes de cansar. Quando cansar vou ao cinema, vou assistir a todos os filmes lançados em 2009, vou assistir ao Oscar, vou viajar até Hollywood, ou não, não. Vou viajar pra outros lugares, melhores. Vou ver novas paisagens, experimentar comidas diferentes, ouvir outras línguas. Mas beijar, beijar só aquela língua velha conhecida, claro. E manter os amigos antigos, preservando o que já existe, incluindo a fauna e a flora. Não a da novela, não. Essa vou eliminar no primeiro mês, cruzes, que esteja em extinção as pessoas como Flora, eu hein? E as Donatelas também, que de chatice e burrice já basta né?
Em 2009 pretendo pegar os faróis sempre verdes, não precisar manobrar muito o carro, e não hei de errar a previsão do tempo. Não, nada de me encapotar numa manhã fria que ela há de se transformar numa tarde quente, isso já aprendi em 1993, não sei porque insisto.
Também quero me atrasar menos para os compromissos, ser uma pessoa mais pontual, manter-me honesta, devolver o que eu achar e segurar o elevador pra quem chega. Além, claro, de dar passagem no trânsito mais vezes (que trânsito? Eu não vou pegar trânsito) e de jogar o lixo sempre no lugar certo, mesmo que ele não seja nem plástico, nem papel e nem vidro. Talvez eu crie uma lata de “outros” para resolver isso.
Eu sei, não vou criar uma vacina importante, nem uma alternativa de energia para o mundo. Talvez eu não crie mesmo um Best-seller, eu sei. Se eu criar uma lata de outros, e algumas possibilidades novas, no meu pequeno grande mundo, já estará de bom tamanho – o que quer dizer PP ou P. No máximo, no máximo um M.
Se for a primeira que você lê, então, mais sorte ainda - sorte a minha, claro (não sua).
De qualquer maneira corra, e leia, antes que o ano acabe:
Está um pouco em cima da hora, eu sei, mas é preciso fazer. Porque é preciso se comprometer, senão com os outros, comigo mesma e com aquilo que - hoje - sonho.
Sonho em passar 2009 magrinha e feliz, fazendo ginástica, bebendo água de coco e chá verde.
Também pretendo trabalhar um pouco, mas não muito, e comer bem. Sei, sei, é um pouco contraditório, mas e daí, é sonho oras.
Quero trabalhar pouco, mas quero ganhar muito, isso é importante ressaltar. Quero comprar coisas boas, mas não quero perder a noção. Não vou ceder às sandálias gladiadoras, não vou usar macacão nem enfiar um chapéu preto na caxola em nome da moda. Não. Vou ser uma dessas que até parecem comuns, usam sapatilhas, shorts, casaquinhos e tiaras, muitas tiaras estão na minha lista de 2009.
Vou correr 5 kms por dia, pelo menos. Vou assistir ao último capítulo da Favorita, mas não vou enlouquecer com big-brother. Vou dançar mais, tomar sol com protetor solar, tomar mais sol ainda - já que com protetor não queima nada.
Vou fugir do trânsito, não sei como, mas vou. Se posso ganhar muito e trabalhar pouco, pesar leve e comer pesado, porque não posso fugir do trânsito? Vou sim, claro, vou fugir total dessa peste moderna que é o trânsito.
Talvez ouvindo música... Vou descobrir novos CDs, novas bandas, vou aprender a usar Ipod, Iphone, Itudo. Vou aprender a usar o GPS, talvez até aprenda a nadar. Posso aprender a dançar também né?
Vou me agarrar muito no meu maridinho-delícia, apertar e abraçar, mas só até o primeiro minuto sem ar. Depois, solto e vou ali, comprar um pão quentinho ou um sorvete rochinha.
Vou curtir a família, os amigos, esquecer os inimigos (quem?), e curtir a mim mesma. Mas vou parar antes de cansar. Quando cansar vou ao cinema, vou assistir a todos os filmes lançados em 2009, vou assistir ao Oscar, vou viajar até Hollywood, ou não, não. Vou viajar pra outros lugares, melhores. Vou ver novas paisagens, experimentar comidas diferentes, ouvir outras línguas. Mas beijar, beijar só aquela língua velha conhecida, claro. E manter os amigos antigos, preservando o que já existe, incluindo a fauna e a flora. Não a da novela, não. Essa vou eliminar no primeiro mês, cruzes, que esteja em extinção as pessoas como Flora, eu hein? E as Donatelas também, que de chatice e burrice já basta né?
Em 2009 pretendo pegar os faróis sempre verdes, não precisar manobrar muito o carro, e não hei de errar a previsão do tempo. Não, nada de me encapotar numa manhã fria que ela há de se transformar numa tarde quente, isso já aprendi em 1993, não sei porque insisto.
Também quero me atrasar menos para os compromissos, ser uma pessoa mais pontual, manter-me honesta, devolver o que eu achar e segurar o elevador pra quem chega. Além, claro, de dar passagem no trânsito mais vezes (que trânsito? Eu não vou pegar trânsito) e de jogar o lixo sempre no lugar certo, mesmo que ele não seja nem plástico, nem papel e nem vidro. Talvez eu crie uma lata de “outros” para resolver isso.
Eu sei, não vou criar uma vacina importante, nem uma alternativa de energia para o mundo. Talvez eu não crie mesmo um Best-seller, eu sei. Se eu criar uma lata de outros, e algumas possibilidades novas, no meu pequeno grande mundo, já estará de bom tamanho – o que quer dizer PP ou P. No máximo, no máximo um M.
Monday, December 29, 2008
Em suspenso
Então está tudo em suspenso. E essa é a mehor coisa desse período.
Vivemos em separado do mundo normal. Vivemos totalmente alheios às confusões e loucuras cotidianas. Não há trânsito. Não há brigas, nem mesmo horários não há.
Tenho a impressão que ninguém nem morre entre o natal e o ano-novo. Porque vivemos supendidos por fios invisíveis, que separam as obrigações e as decisões da rotina, de um tempo leve e diferente como esse. Estamos suspendidos. Daqui assisto ao restante do ano. Correria, carros, rodízio, multas, trabalho, suor, hora, hora, hora, hora...
Rio, enquanto me movimento nesse balanço em suspenso, tão raro, tão efemêro e tão curto. Logo acaba. Logo descemos de novo à terra...
Vivemos em separado do mundo normal. Vivemos totalmente alheios às confusões e loucuras cotidianas. Não há trânsito. Não há brigas, nem mesmo horários não há.
Tenho a impressão que ninguém nem morre entre o natal e o ano-novo. Porque vivemos supendidos por fios invisíveis, que separam as obrigações e as decisões da rotina, de um tempo leve e diferente como esse. Estamos suspendidos. Daqui assisto ao restante do ano. Correria, carros, rodízio, multas, trabalho, suor, hora, hora, hora, hora...
Rio, enquanto me movimento nesse balanço em suspenso, tão raro, tão efemêro e tão curto. Logo acaba. Logo descemos de novo à terra...
Antes tarde...
Da crõnica do dia:
Queridos amigos,
Pois não foi que chegou? E eu, esse ano, fui tão desatenta que nem lhes desejei o habitual feliz Natal, tão cansada que me sentia. Não justifica, eu sei, mas é o que tenho para oferecer-lhes hoje, bem hoje, o dia mais especial do ano.
De certo é alguma coisa da idade que me tornou assim, preguiçosa e desanimada. Logo eu que sempre escrevia-lhes no início de dezembro, silenciosamente, falando da minha alegria e empolgação com as luzinhas, as cores, a fraternidade, enfim.
De repente, sinto-me cansada. Cansada é pouco. Sinto-me exausta. E exausta dessa forma, não tive forças para desejar-lhes tudo aquilo que merecem.
Vocês, amigos queridos, que merecem ter tido uma linda noite de Natal sim, mas, mais do que isso, merecem ter tido lindas noites comuns, lindas noites de verão, lindas noites no inverno, aquecidos por aqueles a quem mais amam. Merecem ter um dia lindo hoje, dia de Natal, mas, mais ainda, merecem ter tido dias e dias lindos no decorrer dos anos, ao quais possam lembrar-se com prazer, e alguma saudade.
São eles, os dias comuns, que talvez tenham me tornado cansada - e quiçá amargurada.
Os dias comuns são as veias da mesmice e é disso que a vida é feita, não queridos? De mesmices. Podem apregoar por aí que mudemos o caminho todas as manhãs, escovemos os dentes com a mão oposta à de sempre, cortemos os cabelos, mudemos, mudemos e mudemos. Não adianta, amigos queridos. A vida está impregnada de rotina, de mesmice, da claridade do dia à escuridão da noite. Não conseguiremos nos livrar do “de sempre” e, portanto, não há solução diferente daquela comum também... Transformar o de sempre no melhor. Transformar a mesmice em qualquer coisa mais ou menos boa, mais ou menos saborosa, mais ou menos alegre. Não há outra solução, não há outra alternativa. Não dá pra esperamos o Natal, o ano-novo, as férias, o carnaval, ou os meus 40, 50 anos. Não dá. Porque não é de grandes marcos que a vida é feita. É de pequenezas. Sutilezas quase invisíveis às quais nunca damos bola.
É delas que falo, amigos, e é isso que desejo.
Que, nesse tempo mágico que é o final de ano, vocês possam refletir sobre os pequenos momentos de cada um. E, quem sabe, tomem decisões importantíssimas como abraçar mais a sua esposa, beijar seu namorado com mais atenção, ou elogiar mais vezes a constante delicadeza da sua mãe.
Que a gente se cobre menos e se aplauda mais. Que sejamos menos rigorosos com tudo, até com a depilação. Que possamos beber um gole de vinho ao final de um dia cansativo e que sejamos bravos e corajosos para nos dirigirmos com amor aos que amamos de fato.
Isso deve acontecer, queridos, para que sobrevivamos. Isso é necessário para que continuemos razoavelmente bem.
E eu, que ainda me sinto exausta, desejo sempre encontrar uma fagulha de força e inspiração para abrandar as marteladas diárias desse tempo que – ao menos por ora - me é tão pesado e maçante.
Também espero – talvez mais do que tudo – ainda haver tempo antes de tornar-me totalmente ranzinza, preguiçosa e rabugenta...
Um feliz Natal a quem ainda viver...
Todo meu carinho,
Kika.
Queridos amigos,
Pois não foi que chegou? E eu, esse ano, fui tão desatenta que nem lhes desejei o habitual feliz Natal, tão cansada que me sentia. Não justifica, eu sei, mas é o que tenho para oferecer-lhes hoje, bem hoje, o dia mais especial do ano.
De certo é alguma coisa da idade que me tornou assim, preguiçosa e desanimada. Logo eu que sempre escrevia-lhes no início de dezembro, silenciosamente, falando da minha alegria e empolgação com as luzinhas, as cores, a fraternidade, enfim.
De repente, sinto-me cansada. Cansada é pouco. Sinto-me exausta. E exausta dessa forma, não tive forças para desejar-lhes tudo aquilo que merecem.
Vocês, amigos queridos, que merecem ter tido uma linda noite de Natal sim, mas, mais do que isso, merecem ter tido lindas noites comuns, lindas noites de verão, lindas noites no inverno, aquecidos por aqueles a quem mais amam. Merecem ter um dia lindo hoje, dia de Natal, mas, mais ainda, merecem ter tido dias e dias lindos no decorrer dos anos, ao quais possam lembrar-se com prazer, e alguma saudade.
São eles, os dias comuns, que talvez tenham me tornado cansada - e quiçá amargurada.
Os dias comuns são as veias da mesmice e é disso que a vida é feita, não queridos? De mesmices. Podem apregoar por aí que mudemos o caminho todas as manhãs, escovemos os dentes com a mão oposta à de sempre, cortemos os cabelos, mudemos, mudemos e mudemos. Não adianta, amigos queridos. A vida está impregnada de rotina, de mesmice, da claridade do dia à escuridão da noite. Não conseguiremos nos livrar do “de sempre” e, portanto, não há solução diferente daquela comum também... Transformar o de sempre no melhor. Transformar a mesmice em qualquer coisa mais ou menos boa, mais ou menos saborosa, mais ou menos alegre. Não há outra solução, não há outra alternativa. Não dá pra esperamos o Natal, o ano-novo, as férias, o carnaval, ou os meus 40, 50 anos. Não dá. Porque não é de grandes marcos que a vida é feita. É de pequenezas. Sutilezas quase invisíveis às quais nunca damos bola.
É delas que falo, amigos, e é isso que desejo.
Que, nesse tempo mágico que é o final de ano, vocês possam refletir sobre os pequenos momentos de cada um. E, quem sabe, tomem decisões importantíssimas como abraçar mais a sua esposa, beijar seu namorado com mais atenção, ou elogiar mais vezes a constante delicadeza da sua mãe.
Que a gente se cobre menos e se aplauda mais. Que sejamos menos rigorosos com tudo, até com a depilação. Que possamos beber um gole de vinho ao final de um dia cansativo e que sejamos bravos e corajosos para nos dirigirmos com amor aos que amamos de fato.
Isso deve acontecer, queridos, para que sobrevivamos. Isso é necessário para que continuemos razoavelmente bem.
E eu, que ainda me sinto exausta, desejo sempre encontrar uma fagulha de força e inspiração para abrandar as marteladas diárias desse tempo que – ao menos por ora - me é tão pesado e maçante.
Também espero – talvez mais do que tudo – ainda haver tempo antes de tornar-me totalmente ranzinza, preguiçosa e rabugenta...
Um feliz Natal a quem ainda viver...
Todo meu carinho,
Kika.
Thursday, December 18, 2008
Friday, December 12, 2008
A gente nunca combinou

A gente nunca combinou, mas sabe que o controle remoto é dele e quem dita os canais sou eu.
A gente nunca combinou, mas sabe que quem mata o pernilongo é ele, enquanto eu permaneço deitada, espionando para onde o bicho vai.
A gente nunca combinou, mas está claro que é dele a tarefa de por o DVD no ponto, acertar as legendas, enquanto eu preparo a pipoca e pergunto de longe: “quer beber o que, amor?”
A gente nunca falou nada, nadinha a respeito, mas quem dirige é sempre ele e, nas poucas vezes que fui eu, deu uma confusão danada.
A gente nunca combinou, mas sou eu que chamo pra rezar antes de dormir, procurando a mão dele em silêncio ou murmurando baixinho: “rezar, baby?”
A gente nunca programou isso, mas ele é quem acorda antes e quem faz café, nas raras vezes em que temos café nessa casa. Também é ele quem troca as lâmpadas ou desentope qualquer coisa, que tenha entupido, independente de quem for a cupa. A gente nunca fala sobre a culpa, mesmo sem termos combinado.
É ele quem fecha as janelas antes de saírmos, é ele quem espera eu terminar de me arrumar, é ele que me apressa. Sempre sou eu que me atraso. Mas nunca combinaríamos isso, claro.
É dele a vaga na garagem e é dele o carro limpinho e arrumado. O meu é aquele que deveria ser roubado. A gente sabe, mas nunca fala.
A gente sabe que um tem que fazer chá quando o outro está com gripe, e um tem que acordar de noite se o outro acorda também e, daí, ir atrás do que saiu da cama primeiro e dizer, baixinho, sem nem abrir os olhos: “o que foi amor?”
A gente nunca disse nada sobre isso, mas quem carrega as compras é ele, e eu pego a chave pra abrir a porta. Ele guarda as coisas dos armários e eu as da geladeira. Ele joga as embalagens fora e eu vou separando as sacolinhas.
Ele tem sono depois, mas sempre dorme primeiro. Ele é o dono do ventilador, mas o cobertor é prioridade minha. Ele tem o lado direito, eu tenho o esquerdo, mas nunca ninguém combinou nada.
A gente não ensaiou, mas sabe qual é o tom do assobio que chamamos um ao outro e também reconhece cada “humm”, se é de tristeza ou dúvida. A gente sabe do que é a piscadela, do que é o silêncio, do que é a falação. A gente se reconhece e se entende, mesmo quando se desentende. A gente sabe quando o outro está sem-graça, envergonhado, culpado ou humilhado. E um sempre ajuda o que está em pior situação, mesmo com raiva. Mesmo com raiva a gente tenta se segurar, mesmo com muita raiva a gente nunca se xinga ou se humilha, mas a gente nunca combinou
Aconteceu, assim, sem nunca termos falado nada a respeito.
Ele fala pouco e eu muito, ele fica bravo no trânsito e eu acalmo, ele compra os ingressos e eu a pipoca, ele carrega a bandeja e eu a bebida, ele pede o prato tradicional e eu o diferente, ele adora o dele, mas come o meu, eu destesto o meu - por isso peço o dele. Sem nunca termos combinado.
A gente combinou que seria feliz, mas nunca combinamos como. Aconteceu, assim, sem nem vermos. Um dia, depois outro, depois outro, depois outro.
Mas nunca combinamos. Nunca, nem por uma vez sequer.
Sunday, December 7, 2008
Mágica

Eu acredito em mágica. Em milagre menos, mas em mágica eu acredito fortemente.
Quando criança achava graça nos adultos tentando decifrar os truques de David Copperfield. “Oras, mas é mágica” eu pensava dentro de mim, inocentemente, imaginando que ele tinha um poder diferente do nosso, e essa era uma resposta muito mais simples e óbvia, do que a busca por detrás dos truques e ilusões que, segundo meus adultos, os mágicos criavam.
Passou muito tempo e, hoje, quando assisto a uma mágica, ainda hesito na certeza de que há um truque por trás. Para mim, algumas coisas muito cotidianas são mágica pura. Nascer um bebê, por exemplo, é uma mágica. Há um truque, todo mundo sabe. Os médicos sabem até melhor, mas vai negar que é mágica?
E, se há uma outra mágica nesse nosso planeta, ela se chama família.
Sempre achei estranho como esse fenômeno se dava. Sempre me senti desconfortavelmente intrigada por ver-me diante de meus irmãos, pais, primos, com um sentimento muito exclusivo, muito misterioso e claro ao mesmo tempo. Um sentimento absolutamente único. A gente diz que ama alguns amigos como irmãos e pode até ser, mas, irmãos mesmo, são os seus irmãos. Tios, aqueles desconhecidos de quem nossos pais têm histórias engraçadas, são parte da nossa história, e, demoramos a perceber, eles são mais do que meros coadjuvantes.
Na minha família, não consigo distinguir os protagonistas do resto. Todos são personagens principais, todos me causam uma sensação única, uma confiança esquisita que não tem a menor explicação e –alguns – uma timidez totalmente fora de propósito, um desconforto leve, quase que cócegas, como que uma tensão inesperada, por querer causar neles certa impressão, que nem sei bem qual é. Ou melhor, eu sei. Isso chama-se cuidado. Temos cuidado com aqueles a quem amamos muito. Temos cuidado, com aqueles que depositaram sobre nós certa expectativa e queremos, talvez até mais do que possamos perceber, que essa expectativa seja superada. Queremos que a criança que fomos um dia faça jus a esse adulto o qual nos tornamos, queremos agradar, queremos impressionar, talvez, queremos ser merecedores de ter alguém que testemunha nossa cadência nessa vida, desde tanto, tanto tempo.
Nossa família é nosso espelho e, não tem jeito, queremos estar bem diante de um espelho. Arrumamos o cabelo, ajeitamos a blusa, endireitamos o tronco porque, o que queremos ver nos espelho é o que há de melhor em nós. Queremos que saibam quem nos tornamos, e que fizemos o melhor que pudemos e que, sim, somos tão espertos agora, como éramos aos 5 anos, quando eles faziam de tudo para nos agradar.
Essa mágica que é a família sempre me intrigou, mas, no último final de semana, pela primeira vez, senti-me menos sozinha nesse mistério de que somos feitos. Senti-me amparada ao ver-me uma espectadora de uma família que não era a minha, mas que me causava tanta ternura e afeto que, de repente, vi a mágica se fazendo ali, diante dos meus olhos. Assisti, como se estivesse numa poltrona de cinema, cada truque, cada passe invisível dessa mágica que se dá nas relações humanas. A família. Ah família, que mágica estranha essa que herdamos. Nós, pobres diabos, de repente, somos deuses. Nós, animais irracionais, de repente somos uma enorme nuvem de amor diante daqueles com quem temos alguma intimidade, alguma afinidade, algum convívio especial.... David Copperfield nunca faria nada melhor...
Friday, November 28, 2008
Da minha infância querida, que os anos não trazem mais
Ele foi meu primeiro amor. E se chamava Pac-Man. Era redondo, uma carinha com um bocão, tudo de que uma mulher precisa.
Ele andava em labirintos escuros, e só o que fazia era comer todas as vitaminas que visse pela frente. Tinha que ser rápido, porque o tempo era curto. Mas ele, o bonequinho bocudo, estava ficando esperto sob o meu comando. Comia tudo e quando conseguia as vitaminas especiais, uma musiquinha tocava anunciando o feito.
Mas, não, não era simples assim. Existia um monstro. Isso, um vilão, uma espécie de fantasma que ia atrás do Pac-Man pelos labirintos tentando pega-lo e, se relava nele, mesmo que de leve, pronto. O bichinho morria na hora. Era uma tristeza que passava rápido porque logo, em seguida, você usava a sua outra vida e iniciava a busca novamente.
O Pac-Man era um jogo quase que estúpido, mas, como muitos amores, irresistível.
Era uma mini-alegria urbana, um bálsamo depois da lição, um doce depois da alface. Lembro-me da satisfação da conquista, das vitaminas entrando na bocona, da musiquinha de parabéns e, invariavelmente, de algumas marcas nas minhas pequenas mãos no final do dia, por usar com tanta força e empolgação o arcaico controle do Atari.
Não sei quando foi que cansei de jogá-lo, não me lembro do dia em que aquele bichinho parou de fazer sentido para mim, mas, certamente, eu achei outras vitaminas pelo mundo e decidi embocá-las eu mesma, ainda que com uma boca bem pequena, em comparação com a dele.
Mas não é isso que fazemos? Não é assim que passamos a vida? Procurando o que nos faz bem, buscando incessantemente uma musiquinha que anuncie a nossa conquista, indo pra lá e cá enquanto driblamos os fantasmas do dia a dia?
As vezes tenho saudade mesmo, era de ter aquele monte de vidas. Todas ali, esperando se encerrarem para outra começar, novinha, em seguida e lá vamos nós, corre, corre que o fantasma vai ficando mais rápido com o passar do tempo.
Ele andava em labirintos escuros, e só o que fazia era comer todas as vitaminas que visse pela frente. Tinha que ser rápido, porque o tempo era curto. Mas ele, o bonequinho bocudo, estava ficando esperto sob o meu comando. Comia tudo e quando conseguia as vitaminas especiais, uma musiquinha tocava anunciando o feito.
Mas, não, não era simples assim. Existia um monstro. Isso, um vilão, uma espécie de fantasma que ia atrás do Pac-Man pelos labirintos tentando pega-lo e, se relava nele, mesmo que de leve, pronto. O bichinho morria na hora. Era uma tristeza que passava rápido porque logo, em seguida, você usava a sua outra vida e iniciava a busca novamente.
O Pac-Man era um jogo quase que estúpido, mas, como muitos amores, irresistível.
Era uma mini-alegria urbana, um bálsamo depois da lição, um doce depois da alface. Lembro-me da satisfação da conquista, das vitaminas entrando na bocona, da musiquinha de parabéns e, invariavelmente, de algumas marcas nas minhas pequenas mãos no final do dia, por usar com tanta força e empolgação o arcaico controle do Atari.
Não sei quando foi que cansei de jogá-lo, não me lembro do dia em que aquele bichinho parou de fazer sentido para mim, mas, certamente, eu achei outras vitaminas pelo mundo e decidi embocá-las eu mesma, ainda que com uma boca bem pequena, em comparação com a dele.
Mas não é isso que fazemos? Não é assim que passamos a vida? Procurando o que nos faz bem, buscando incessantemente uma musiquinha que anuncie a nossa conquista, indo pra lá e cá enquanto driblamos os fantasmas do dia a dia?
As vezes tenho saudade mesmo, era de ter aquele monte de vidas. Todas ali, esperando se encerrarem para outra começar, novinha, em seguida e lá vamos nós, corre, corre que o fantasma vai ficando mais rápido com o passar do tempo.
Thursday, November 27, 2008
Wednesday, November 26, 2008
Solúvel

Você já se sentiu, um dia, dissolvida numa multidão? Já chegou num lugar onde achava que seria especial e notada e, de repente, viu mais de cem igual à você ali, competindo por um lugar ao sol -seja lá o que fosse o sol-?
Você já se sentiu tão desconfortável por ser você, que até doeu a barriga? Já? Sabe como é uma pontada fina na barriga, quase que uma angústia, por uma razão idiota como essas? Por estar presa ao seu próprio corpo, às suas vergonhas, às suas covardias, às suas mesmices?
Você sabe como é ser invisível?
Pois eu sei. Foi muito recentemente que me aconteceu. Entrei em um lugar onde eu estava dissolvida. Cheguei com um pacote na mão e um sorriso no rosto, quando notei -com tristeza - que igual à mim tinham dezenas de mulheres. Iguaizinhas. Senti-me invisível e doeu. Logo eu, que sempre quis ser invisível, nunca imaginei como é incômodo conseguir isso. Como é doloroso ser um sonrisal que desaparece na água.
Essa era eu.
Cheguei mesmo a pensar em gritar, cheguei a pensar em simular um desmaio para testar se eu estava, de fato, naquele lugar, se alguém veria, se alguém notaria uma pessoa a mais ali, caída no chão frio da sala. Não tive coragem. Sou comum demais para uma extravagância dessas...
Vai que eu não fosse invisível e causasse um alarde? Ou, pior: Vai que não?
Mantive-me quieta, calada, com o meu pacote. Desapareci mesmo estando lá, como o sonrisal na água. E ninguém nunca soube que eu estive lá.
Monday, November 24, 2008
O INIMIGO
Diretamente da crônica do dia
Existe alguém aqui dentro. Logo aqui, dentro de mim, alguém que está contra mim. Não sei quem é, não sei bem o que quer, mas existe alguém aqui que está boicotando tudo. Falo baixo para não acordá-lo, ando na ponta dos pés, principalmente se estou feliz, porque ele – ou será ela? – esse ser que habita em mim, não pode ver uma idéia boa, um sorriso tonto, que logo vem atrapalhar tudo.
É o inimigo. Ah você achou que não tinha inimigos? Que caso fosse assassinada, um dia, sua vizinha de porta apareceria pesarosa no Jornal Nacional: “Nossa, mas ela não tinha inimigos...” Pois você tem, bem aí, dentro de você. E é melhor conhecê-lo do que deixá-lo assim, agindo à própria sorte. Talvez o seu tenha aparições mais sutis, pode ser que ele use pantufas e seja um gentleman, chega, sai e você nem percebe. Mas sabe quando você vai falar uma coisa numa reunião importante, e a palavra lhe some dos lábios? Ou nem precisa ser uma ocasião especial, quando você está batendo papo com um amigo e vai falar daquele filme, ai aquele, claro que você sabe, com aquela atriz, meu Deus, ai que aflição, aquele, tá na ponta da língua, aquele lá, sabe? Não. Mas sei quem foi que roubou. Foi ele, o inimigo. É um ladrão, o danado.
O inimigo chega quando você acha que está dominando. A mim ele vem sempre diante de uma tela branca. Impressionante. Eu tenho mil idéias, textos prontíssimos na mente, era só ditar para as minhas mãos e estariam prontos. Mas, bastou a tela vazia aqui, a me olhar, que o inimigo veio e roubou tudo. Fiquei de mãos — cabeça e tela — vazias. Mas eu tinha acabado de pensar uma idéia boa...
O que mais me impressiona nesse sujeito é a rapidez. Ele é tão veloz que você pode saber uma coisa num minuto e, no instante seguinte, ele terá levado de você. Mas como? Estava aqui agora mesmo? Você dirá, como se diante de uma vaga vazia onde você estacionara seu carro pela manhã. Roubaram, claro. Alguém toma a conclusão de você.
Imagino que o inimigo fique escondido, observando tudo à espreita e, quando vê que as coisas estão bem, surge com seu movimento derradeiro, tirando tudo de esquadro. Às vezes leva-se dias para entender um acontecimento. Mas é quando esse acontecimento faz sentido, é quando estamos com a pele queimada de sol, pra cima, positivos e confiantes, que ele — atrevido — aparece. Logo uma onda de desânimo nos pega, talvez até uma gripe, ou, se ele estiver num dia bom, só uma dúvida, uma pequena duvidazinha que pergunta, tal qual um pernilongo zumbindo no seu ouvido: “Sou mesmo capaz? Consigo mesmo fazer isso?”. Ah, mas você já sabia agora há pouco, por que não trancou as portas? Porque não fechou os vidros, ele entrou afinal...
Sempre se trata de algo que você já tinha. Uma palavra, uma certeza, uma blusa que você tinha planejado usar bem hoje, ou mesmo uma presilha de cabelo que some, sem explicação. Pode saber, foi ele.
Ele quer o que temos, ele quer aquilo que conquistamos — a duras penas — quanto mais difícil foi conseguir, mais o inimigo tentará levar de você. Há quem o evite, alguns mais firmes conseguem rejeitá-lo muitas vezes. Eu ainda apanho do meu inimigo. Porque, de certa forma, cuido dele. Trato-o não com raiva, mas como garoto peralta que gosta de fazer macaquices. É um saci, meu inimigo, e, talvez por isso, tão impertinente. Se eu tratasse à altura, como um inimigo sombrio e forte, talvez ele não tivesse — por exemplo — levado o final desse texto, uma frase prontinha e bem amarradinha que eu tinha aqui, agorinha, na ponta da língua... Viram? Correndo ali na esquina? Foi ele, bandido!
Existe alguém aqui dentro. Logo aqui, dentro de mim, alguém que está contra mim. Não sei quem é, não sei bem o que quer, mas existe alguém aqui que está boicotando tudo. Falo baixo para não acordá-lo, ando na ponta dos pés, principalmente se estou feliz, porque ele – ou será ela? – esse ser que habita em mim, não pode ver uma idéia boa, um sorriso tonto, que logo vem atrapalhar tudo.
É o inimigo. Ah você achou que não tinha inimigos? Que caso fosse assassinada, um dia, sua vizinha de porta apareceria pesarosa no Jornal Nacional: “Nossa, mas ela não tinha inimigos...” Pois você tem, bem aí, dentro de você. E é melhor conhecê-lo do que deixá-lo assim, agindo à própria sorte. Talvez o seu tenha aparições mais sutis, pode ser que ele use pantufas e seja um gentleman, chega, sai e você nem percebe. Mas sabe quando você vai falar uma coisa numa reunião importante, e a palavra lhe some dos lábios? Ou nem precisa ser uma ocasião especial, quando você está batendo papo com um amigo e vai falar daquele filme, ai aquele, claro que você sabe, com aquela atriz, meu Deus, ai que aflição, aquele, tá na ponta da língua, aquele lá, sabe? Não. Mas sei quem foi que roubou. Foi ele, o inimigo. É um ladrão, o danado.
O inimigo chega quando você acha que está dominando. A mim ele vem sempre diante de uma tela branca. Impressionante. Eu tenho mil idéias, textos prontíssimos na mente, era só ditar para as minhas mãos e estariam prontos. Mas, bastou a tela vazia aqui, a me olhar, que o inimigo veio e roubou tudo. Fiquei de mãos — cabeça e tela — vazias. Mas eu tinha acabado de pensar uma idéia boa...
O que mais me impressiona nesse sujeito é a rapidez. Ele é tão veloz que você pode saber uma coisa num minuto e, no instante seguinte, ele terá levado de você. Mas como? Estava aqui agora mesmo? Você dirá, como se diante de uma vaga vazia onde você estacionara seu carro pela manhã. Roubaram, claro. Alguém toma a conclusão de você.
Imagino que o inimigo fique escondido, observando tudo à espreita e, quando vê que as coisas estão bem, surge com seu movimento derradeiro, tirando tudo de esquadro. Às vezes leva-se dias para entender um acontecimento. Mas é quando esse acontecimento faz sentido, é quando estamos com a pele queimada de sol, pra cima, positivos e confiantes, que ele — atrevido — aparece. Logo uma onda de desânimo nos pega, talvez até uma gripe, ou, se ele estiver num dia bom, só uma dúvida, uma pequena duvidazinha que pergunta, tal qual um pernilongo zumbindo no seu ouvido: “Sou mesmo capaz? Consigo mesmo fazer isso?”. Ah, mas você já sabia agora há pouco, por que não trancou as portas? Porque não fechou os vidros, ele entrou afinal...
Sempre se trata de algo que você já tinha. Uma palavra, uma certeza, uma blusa que você tinha planejado usar bem hoje, ou mesmo uma presilha de cabelo que some, sem explicação. Pode saber, foi ele.
Ele quer o que temos, ele quer aquilo que conquistamos — a duras penas — quanto mais difícil foi conseguir, mais o inimigo tentará levar de você. Há quem o evite, alguns mais firmes conseguem rejeitá-lo muitas vezes. Eu ainda apanho do meu inimigo. Porque, de certa forma, cuido dele. Trato-o não com raiva, mas como garoto peralta que gosta de fazer macaquices. É um saci, meu inimigo, e, talvez por isso, tão impertinente. Se eu tratasse à altura, como um inimigo sombrio e forte, talvez ele não tivesse — por exemplo — levado o final desse texto, uma frase prontinha e bem amarradinha que eu tinha aqui, agorinha, na ponta da língua... Viram? Correndo ali na esquina? Foi ele, bandido!
Saturday, November 22, 2008
Fotossíntese

Meu plano era passar o final de semana fazendo o que as plantas fazem.
Meu plano era ser uma samambaia, um bambu ou uma mangueira, não importa.
Só por um final de semana, ficar imóvel diante do sol, como as orquídeas, as violetinhas, ou mesmo como o mato. Posso ser como o mato, não me apego à poesia, e sim ao sol.
Acho graça quando dizem de uma planta: "Ela gosta de sol?" E logo outro responde, "Claaaaro" ela adora sol." Eu, num impulso, completo que eu também, adoro sol.
Adoraria que me pusessem na varanda a tardinha, virada pro sol, como fazemos com os lírios aqui em casa. Como ninguém nunca faz isso, andei eu mesma, com as minhas próprias pernas, para uma varandinha, onde posso ficar diante do sol.
E, quando me achei um girassol, logo começou a conversa do envelhecimento precoce, da camada de não sei o que que nem existe mais, e das minhas sardas. Estou cheias de sardas, muitas, nenhum lisiantro me alcança. O sol -que nasceu para todos - é politicamente incorreto, é perigoso, um grande vilão o coitado. Coitado e coitado de nós, também que, claro, não podemos ser humanos impunemente.
Enquanto ponho minha cadeira na sombra penso que, elas sim, as tolas gérberas é que são felizes.
Wednesday, November 19, 2008
Ele vem vindo
Lá vem ele. Ali, dobrando aquela esquina, tá vendo? Não, não essa pertinho, aquela lá, depois da avenida. Viu? É, é que ele vem devagar mesmo, mas chega. Vem assim, caminhando a passos tão lentos, parece até que não sabe que a gente espera né? Nossa, e como espera. Eu mesma estou tão cansada que só queria um desses, juro. Daria meu reino por um desses, não vejo a hora. Ainda mais assim, em plena quinta-feira, já nas bandas no natal, é muito esperado. Dá vontade de acelerar né? Se ele ouvisse a gente daqui, eu até gritaria viu? Feriadooooo? Corre pô! Será que ele ouve? Ah, estou pagando o maior mico. Tá vendo esse pessoal aí do seu lado? Então, também estão esperando. Todo mundo esperando e ninguém gritou até agora. Gente paciente né? Se você for ver bem, estamos esperando desde o semestre passado. Faz séculos que não vinha um desses. E parece que é o último do ano, ouviu isso? Depois desse, só o natal. Ah, mas o natal nem se compara com esse, de agora. O natal tem festa, presente, mil afazeres. Esse não. Esse que tá vindo aí é só uma cama e um livro. Uma camiseta e, no máximo, meias nos pés. É, pena mesmo que seja tão rápido. Com esse passo que ele tá, chega só amanhã. E, você sabe né? Já deixou avisado que amanhã mesmo, anoitinha vai embrora. Ah pra você não? Pra você ele fica até domingo?? Meu Deus quanta sorte a sua, eu até que convidei, mas, sabe como é. Ele não tem assim, muita intimidade comigo, disse que vai mesmo amanhã. Tudo bem, pelo menos vem né?
Olha, olha, já dá pra ver melhor. Ele é negro, é? Uia que lindo...
Olha, olha, já dá pra ver melhor. Ele é negro, é? Uia que lindo...
Saturday, November 15, 2008
Atchim
Tuesday, November 11, 2008
Das loucuras cotidianas
Estou andando, rumo à padaria, e falando animadamente no celular com uma amiga, quando avisto um CET na esquina. Num impulso absolutamente idiota, digo rápido para a minha amiga: "Ai, pera, amarelinho!" e abaixo o celular. É somente aí que noto, enfim, que estou a pé e não há placa para ser multada. Rio sozinha, disfarço, e volto ao telefone, mudando de assunto.
Friday, November 7, 2008
Diretamento do Crõnica do dia
Saí lá, com essa aqui:
Quando etávamos distraídos
Não lembro quantos anos eu tinha, mas não era mais do que 10 ou 11. Estávamos voltando para casa, eu e meu irmão mais velho, de perua escolar, como nos era habitual. Também era comum sermos as crianças mais novas da perua, duas crianças entre adolescente grandes e exibidos. Mas isso não me incomodava, talvez eu sequer notara isso até aquela tarde de calor quando o fato se deu.
Estávamos sentados no nosso banco, no fim da perua, eu na janela e o Rafa, meu irmão, ao meu lado. As crianças maiores caminhavam e cantavam pelo corredor do ônibus enquanto eu assistia à paisagem do lado de fora. Foi através do nervosismo do meu irmão que decidi prestar atenção no que estava acontecendo. Ele fazia contas e mais contas com os dedos quando percebi que os meninos grandes estavam indo de cadeira em cadeira e, como comandantes do ônibus, perguntavam para cada criança quanto era 6 vezes 12 (ou qualquer coisa do tipo). Os pequenos, em seus lugares, erravam nervosos para alegria dos comandantes que gritavam eufóricos: “Não sabe, não sabe, vai ter que aprender, orelha de burro logo vai nascer”. Eu não lembro se as outras crianças ficavam tristes, choravam ou o quê. Mas lembro nitidamente dos olhos do meu irmão, apreensivos, que contava nos dedos quanto era 6 vezes o 12. Eu estava em silêncio, impressionada com a tensão do Rafa, quando ele me olhou e disse baixinho, mas muito firme: “Se alguém te perguntar alguma coisa, você fala 72 está bem?”. Eu, na minha ingênua distração, não entendi. “Quê, Rafa?”. “Kika, você fala 72, só isso tá? Se alguém te perguntar qualquer coisa, você fala 72 e pronto, não esquece, 72”. Então, querendo livrá-lo dessa dor, respondi que sim, que tudo bem, 72, 72, 72. Não sei o que veio em seguida. Desconfio que eles nos perguntaram e nós (eu ou o Rafa) respondemos certo, passando despercebidos pelos algozes do ônibus. Eu não tenho certeza, mas o que ficou para sempre cravado na minha memória foi a imagem do meu pequeno-grande irmão ali, tenso, contando nos dedos a resposta que nos livraria de um vexame, enquanto eu, absolutamente relaxada, notava as árvores e o tempo que passava do lado de fora do ônibus. Não sei como seria se eu estivesse sozinha. Talvez se me perguntassem, eu sequer notaria. Talvez se cantassem qualquer bobagem sobre mim, eu acharia que era o rádio ou, quem sabe, se eu estivesse sozinha hoje teria um trauma vexatório para contar, porque a verdade é que nunca, naquela idade, eu saberia quanto era 6 vezes 12 e nem nada do tipo. Mas, apesar disso, eu sabia me distrair, como sei até hoje.
Distraio-me com tanta facilidade que, dia desses, enquanto atravessava a rua sem muito cuidado, meu marido confessou que vive sempre preocupado comigo. Eu – distraída – perguntei por que, e ele respondeu, tentando ser delicado: “Ah, esse teu jeito meio tontinha...”. Eu sei o que ele quis dizer. Ele quis dizer que, depois de adultos, não há ninguém que nos salve da nossa distração. A distração é um benefício infantil, portanto deveria ser banida dos adultos, o que – definitivamente – não aconteceu comigo. Hoje não posso distrair-me, embora aconteça o tempo todo. E a vida fica perigosa quando mantemos a nossa distração infantil. Hoje, se você se distrai e esquece a bolsa na padaria, pronto, lá se foram seus documentos. Ou quando se distrai no trânsito então, lá vem um motoqueiro lembrar-te das suas obrigações. Não se pode esquecer de pagar uma conta, não nos é permitido distrair-nos com a lua cheia quando voltamos pra casa e até mesmo uma distraçãozinha básica, numa reunião importante, pode causar problemas seríssimos como já me aconteceu mais de uma vez.
Não sinto saudades da infância, em geral, mas a distração custa-nos tão caro que, por um instante, gostaria de ser criança de novo, apenas para perder-me um pouco no tempo que nos persegue, incessante, quando somos adultos e não há ninguém, ninguém que está sentado ao nosso lado na perua, fazendo as contas difíceis por mim.
Quando etávamos distraídos
Não lembro quantos anos eu tinha, mas não era mais do que 10 ou 11. Estávamos voltando para casa, eu e meu irmão mais velho, de perua escolar, como nos era habitual. Também era comum sermos as crianças mais novas da perua, duas crianças entre adolescente grandes e exibidos. Mas isso não me incomodava, talvez eu sequer notara isso até aquela tarde de calor quando o fato se deu.
Estávamos sentados no nosso banco, no fim da perua, eu na janela e o Rafa, meu irmão, ao meu lado. As crianças maiores caminhavam e cantavam pelo corredor do ônibus enquanto eu assistia à paisagem do lado de fora. Foi através do nervosismo do meu irmão que decidi prestar atenção no que estava acontecendo. Ele fazia contas e mais contas com os dedos quando percebi que os meninos grandes estavam indo de cadeira em cadeira e, como comandantes do ônibus, perguntavam para cada criança quanto era 6 vezes 12 (ou qualquer coisa do tipo). Os pequenos, em seus lugares, erravam nervosos para alegria dos comandantes que gritavam eufóricos: “Não sabe, não sabe, vai ter que aprender, orelha de burro logo vai nascer”. Eu não lembro se as outras crianças ficavam tristes, choravam ou o quê. Mas lembro nitidamente dos olhos do meu irmão, apreensivos, que contava nos dedos quanto era 6 vezes o 12. Eu estava em silêncio, impressionada com a tensão do Rafa, quando ele me olhou e disse baixinho, mas muito firme: “Se alguém te perguntar alguma coisa, você fala 72 está bem?”. Eu, na minha ingênua distração, não entendi. “Quê, Rafa?”. “Kika, você fala 72, só isso tá? Se alguém te perguntar qualquer coisa, você fala 72 e pronto, não esquece, 72”. Então, querendo livrá-lo dessa dor, respondi que sim, que tudo bem, 72, 72, 72. Não sei o que veio em seguida. Desconfio que eles nos perguntaram e nós (eu ou o Rafa) respondemos certo, passando despercebidos pelos algozes do ônibus. Eu não tenho certeza, mas o que ficou para sempre cravado na minha memória foi a imagem do meu pequeno-grande irmão ali, tenso, contando nos dedos a resposta que nos livraria de um vexame, enquanto eu, absolutamente relaxada, notava as árvores e o tempo que passava do lado de fora do ônibus. Não sei como seria se eu estivesse sozinha. Talvez se me perguntassem, eu sequer notaria. Talvez se cantassem qualquer bobagem sobre mim, eu acharia que era o rádio ou, quem sabe, se eu estivesse sozinha hoje teria um trauma vexatório para contar, porque a verdade é que nunca, naquela idade, eu saberia quanto era 6 vezes 12 e nem nada do tipo. Mas, apesar disso, eu sabia me distrair, como sei até hoje.
Distraio-me com tanta facilidade que, dia desses, enquanto atravessava a rua sem muito cuidado, meu marido confessou que vive sempre preocupado comigo. Eu – distraída – perguntei por que, e ele respondeu, tentando ser delicado: “Ah, esse teu jeito meio tontinha...”. Eu sei o que ele quis dizer. Ele quis dizer que, depois de adultos, não há ninguém que nos salve da nossa distração. A distração é um benefício infantil, portanto deveria ser banida dos adultos, o que – definitivamente – não aconteceu comigo. Hoje não posso distrair-me, embora aconteça o tempo todo. E a vida fica perigosa quando mantemos a nossa distração infantil. Hoje, se você se distrai e esquece a bolsa na padaria, pronto, lá se foram seus documentos. Ou quando se distrai no trânsito então, lá vem um motoqueiro lembrar-te das suas obrigações. Não se pode esquecer de pagar uma conta, não nos é permitido distrair-nos com a lua cheia quando voltamos pra casa e até mesmo uma distraçãozinha básica, numa reunião importante, pode causar problemas seríssimos como já me aconteceu mais de uma vez.
Não sinto saudades da infância, em geral, mas a distração custa-nos tão caro que, por um instante, gostaria de ser criança de novo, apenas para perder-me um pouco no tempo que nos persegue, incessante, quando somos adultos e não há ninguém, ninguém que está sentado ao nosso lado na perua, fazendo as contas difíceis por mim.
Saturday, November 1, 2008
O bicho

Agora ele me chama de bicho. Não sei de onde tirou isso, mas já tivemos apelidos esdrúxulos, fofos e ridículos. Casal é assim né? Pois agora a gente aceitou bicho e ficamos assim. Bichinho pra la, bichinho pra cá, te amo bicho, faz isso bicho, bicho não acredito que você esqueceu de pagar aquela conta, pô bicho! não precisava disso, e assim vai..
Daí, noite dessas, quando éramos apenas nós dois em nossa cama, ríamos das nossas bobagens e eu inventei de reclamar desse apelido novo: "Amor, pára com isso, de bicho vai. Eu não sou bicho. Se for bicho quero ser um bicho grande e bonito". E ele me veio com essa: "Não querida, você é um bichinho bem pequeninho, meu bichinho pequenino e, na verdade, você nem sabe mas é um bicho de fruta até... "
De fruta?? - Eu me indignei... "É amor, você é um bichinho da maçã, você não sabe, mas dorme toda noite na maçã". Eu, claro, caí na gargalhada. "Maçã lindo? Eu durmo na maçã??" E ele continuava, muito sério, sussurando como se me contasse um segredo: "Toda noite bicho, depois que você dorme, eu te levo até a cozinha, te ponho pertinho da sua maçã, te dou um peteleco, e você entra lá, rapidinho..." Eu ria sem parar enquanto ele ficava muito sério, contando o que fazia para me por dentro dessa minha morada secreta, a maçã. E assim ficou, sério, enquanto eu gargalhava...
Depois dessa noite a coisa de eu ser um bicho da maçã ganhou força e, quando brigamos, ele encerra dizendo, em tom ameaçador: "olha que eu te levo pra sua maçã mais cedo hoje, hein?!"
Desde então, as maçãs nunca mais foram as mesmas para mim e, se esse passou a ser o nosso segredo ridículo, mais ridículo ainda é que, agora, cada vez que vejo uma maçã tenho o instinto estúpido de olhá-la bem de perto, como se procurasse uma portinhola e, por um instante, quase que temo ser descoberta e levada lá pra dentro, dessa minha suposta morada. Juro que é por apenas um instante.
Thursday, October 30, 2008
Mulheres e suas bagunças II
A história era assim: Ela foi fazer depilação numa moça que ainda não conhecia e, logo de primeira, resolveu depilar a virilha. Pois começou dizendo que você só deve depilar a virilha com alguém, depois que já tiver experimentado depilar axila, ou meia-perna “Nunca faça a virilha numa depiladora se for o primeiro encontro de vocês” ela falou, e ainda acrescentou que era como sexo: de primeira não. Já comecei a achar tudo engraçado daí e, em seguida, ela contou que a depilação foi uma tragédia. Parece que a cera era ruim e não saia de uma vez, então ficavam uns pedaços de cera grudados nela, que a mulher ia arrancando com a unha, os pêlos não saiam, ela tava vermelha e dolorida já, mas a mulher continuava como se ela fosse uma mesa sendo encerada; sem dó nem piedade. Ela não conseguia respirar e nem falar nada, não que fosse boba não, ao contrário, ela era bem esperta e falastrona no dia a dia, mas lá, ficou com medo de a mulher ter raiva e maltratar mais ainda e, convenhamos, você pelada (ou quase) com um monte de cera grudada nos pêlos pubianos, claro que acaba aceitando o que quer que seja, fica numa posição super vulnerável mesmo, assinaria um cheque em branco se a mulher pedisse, entregaria sua senha do banco, seu marido, tudo, tudo. Então ela agüentou, coitada, mas quando a depiladora acabou de fazer aquela virilha básica, em cima, e foi fazer um pouquinho mais pra baixo, a menina gritou: “Não, não, eu não faço embaixo, aí não, por favor, nunca faço aí, odeio fazer embaixo, não gosto, não, não faço embaixo!” E a mulher parou, meio que assustada. Era mentira, claro, mas ela disse que quando pensou na dor que ia sentir com aquela cera porcaria ali, naquele lugar, só conseguiu gritar isso, disse que deixou até uma gorjeta boa pra depiladora, de tanto que era a alegria em se ver vestida, saindo daquele lugar. Fiquei morrendo de pena da menina que contou essa história, mas ri de chorar quando ouvi. E, depois, quando voltamos ao trabalho, acabamos ficando amigas. Nós que nem nos simpatizávamos muito uma com a outra, ficamos meio que simpáticas e, numa reunião, dias depois, sentamos uma de frente pra outra, ouvimos séculos da chatice do gerente mega-blaster-sênior e, daí, ele começou a fazer um monte de pergunta pra todo mundo, tava tudo um inferno e eu e a menina rebolando pra responder até que, uma hora, quando ele sugeriu qualquer coisa insuportável como trabalhar todos os finais de semana do mês (não foi isso, isso é só um exemplo) aconteceu que eu gritei: “Não! Eu não faço embaixo!”. A menina, minha recém amiga, nem me olhou, só desandou a rir tanto, mas tanto que eu não agüentei e entrei com ela na crise de riso. A reunião perdeu até o sentido. Não sei como não perdi o emprego, porque a gente só ria e, as vezes, entre as gargalhadas, repetia: “Eu, hahahaha, eu não faço embaixo, hahaha” enquanto as outras pessoas nos olhavam, atônitas, talvez pensando se merecíamos uma licença remunerada, nem sei o que eles pensavam da gente. Mas aconteceu que, assim, numa crise de loucura básica, eu e a menina que era meio chatinha, nos tornamos grandes e melhores amigas... que homem, no mundo, que seria capaz dessa proeza?
Tuesday, October 14, 2008
Bem-vindos

Eu não sabia, mas li lá que os alienígenas pousariam na terra hoje. Hoje pessoal, dia 14/10.
Pois enquanto ela acha que é um atraso completo, eu discordo e afirmo que eles disseram isso para nos confundir. E eles seriam assim tão sem noção de descer aqui bem nessa crise? Com essa coisa de banco quebrando, ação caindo, mundo ruindo os homenzinhos nem receberiam atenção. Se caíssem em Nova York, imaginem, iam passar despercebidos. Ou iam ser pegos pra trabalhar. Posso até ver os caras verdinhos em plena wall street, e alguém grita: “Pô cara, maderfuckyoyofuckfffuck” que é sempre o que os americanos dizem quando estão bravos. E ficariam brabíssimos com alienígenas chegando no meio dessa quebradeira. Capaz que mandassem o exército até Marte alegando que eles têm armas químicas. Aliás, não sei como ainda não pensaram nisso...
De qualquer forma eu não acredito que eles cheguem hoje, porque a mim é mais do que claro que eles já estão aqui, oras. Quem é que não vê? Eu mesma desconfio bem de uns 10 ou 12. Já desconfiei até de mim mesma uma época. Achei que eles tinham apagado a minha memória e criado uma memória humana em mim. A coisa ficou séria um dia, quando fiz um xixi laranja cor de fogo. Eu só podia ser um ET e alguma coisa tinha sido desprogramada dentro de mim, claro! Fiquei toda feliz, guardei segredo, mas mantive um sorriso de superioridade por quase um dia todo... Cheguei mesmo a piscar para uma senhora na rua, que parecia ser da mesma espécie que eu. Desconfiei que ela fosse minha ET mentora, mas ela não retribuiu meu gesto. Foi quando lembrei que tinha tomado Perydium e ele é que deixa o xixi assim. Fiquei frustradíssima. Sou mesmo super humana. Normal que só... Banal, até... Mas os outros? Ah não... Aqui no meu prédio moram 2 que tenho certeza que são daquelas bandas de lá; Marte, Urano, não sei. Mas daqui é que não são.
Na minha família desconfio seriamente de um. E soube de um grupo do meu trabalho que vive separado, isolado, desaparecem em momentos chaves e falam por códigos estranhos. Eu mesma os vi um dia, sentados numa muretinha onde batia um raio forte de sol e imaginei que eles estavam fazendo a fotossíntese, como as plantas. Evitei olhar muito para não dar bandeira, mas tive certeza de que esses formam um grupo de estudos, ou uma espécie de liga da justiça. Ou da injustiça, depende do ponto de vista.
De qualquer forma eles já estão aqui faz tempo. Antes até do que nós. Aposto que no meio dos dinossauros já tinha um ou outro infiltrado.
Se eles chegarem hoje, é pra disfarçar. E, nesse caso, acho que vou dar uma voltinha por aí agora mesmo, porque, caso eles apareçam, quero cumprimentá-los pelo plano e ver se tem uma vaginha no projeto deles - seja ele qual for – pra uma humana normal, normalzinha da silva. Se for permitido, conto pelo blog depois tá? Se não for, se for um projeto secreto, me liguem que pelo telefone, baixinho, conto tudo....
Thursday, October 2, 2008
Convite

Recebi um convite de casamento, um de aniversário e um de uma balada. Todos chegaram por esses dias...
Mas, ontem, chegou o convite que gostei mais. Eduardo convidou-me para escrever semanalmente aqui, nesse lugar tão especial.
Portanto, temos um encontro as quintas, começando hoje, que já cheguei lá.
Sunday, September 28, 2008
Auto-engano
Faz algum tempo já. Na verdade muito tempo.
Tínhamos vivido uma curta e tórrida história de amor, na qual eu tinha sofrido tanto, tanto, que me despedaçara em muitos pequenos cacos ao final de tudo aquilo. Talvez por isso eu tenha decidido fortemente que esqueceria esse homem e aquela história. Consegui. Demorou muito, mas ele passou e ficou na minha memória como alguns nuances, uns vultos, umas imagens esfumaçadas, esfareladas, nada de muito concreto.
Foi numa livraria, anos depois, que nos reencontramos atingidos pelo destino ou por uma incrível casualidade. Ficamos ali, naquela situação meio sem graça, de quanto tempo, como vai você, o que tem feito, tem visto fulano, sabe de sicrano, nossa, faz tempo mesmo né, e eu vim aqui hoje só pra trocar um livro, é eu tava procurando um, pois é, então tá, a gente se fala, bom te ver e, quando ele ia indo embora, nem sei bem o que me deu que o chamei pelo nome, uma última chamada, apenas pra fazer uma pergunta. Uma pergunta da qual dependeria a minha sanidade, já tão desafiada por aquele e outros amores incuráveis. O rapaz se virou, eu me aproximei e disse, simplesmente: “Eu inventei?”. Houve um instante de silêncio, ele não entendeu claro, e eu tentei me explicar: “Eu inventei tudo, ou aconteceu mesmo? Aconteceu alguma coisa entre nós, ou eu inventei?”. O moço, que me conhecia bem, sorriu e respondeu que sim. Que tinha sido verdade, ao menos que ele soubesse aconteceram várias coisas entre nós, provavelmente eu não tinha inventado não... Eu agradeci, dei um riso nervoso e respirei aliviada em seguida. Nos despedimos, mas, antes de ir embora, foi a vez dele me chamar então, para mostrar a sua estranheza e perguntar: “Sério? Você achou mesmo que poderia ter inventado tudo aquilo?” Fiquei sem graça. Dei-me conta do absurdo que tinha sido essa minha questão e me apeguei à última chance que tinha de parecer normal, mentindo que não. Disse que tinha brincado, que claro que eu sabia que tinha acontecido, imagine. O rapaz riu pela última vez e foi embora, sumindo devagar entre uma pequena multidão, enquanto eu me refazia de uma verdade dolorosa, tão dolorosa que eu tinha tentado apagá-la.
Hoje, relembrando essa história, penso que muitas são as vezes em que confundo imaginação com realidade. Tenho essa, e outras histórias que preferiria não ter vivido de fato. São acontecimentos tão inacreditavelmente lindos e dolorosos, que parecem não ser muito verossímeis na vida real. Eu passo meses, talvez anos, fazendo muita força para torná-los ainda mais improváveis, para fazê-los uma história de faz-de-conta, uma história de bonecos, uma da carochinha ou qualquer coisa assim. Uma história que, não tendo acontecido, não tem obrigações. Não precisa ser tratada em terapia, não precisa ser desculpada, entendida, ou nem mesmo encerrada. É um filme como outros tantos, é a Meg Ryan, a Julia Roberts, ou qualquer uma delas. Um acontecimento distante não tem o direito de doer, não pode estar assim tão próximo, a ponto de me atingir.
Agora, com o recipiente para histórias a serem esquecidas já lotado, me pergunto se há mesmo essa escapatória..
Somos aquilo que vivemos e estamos aprisionados a cada palavra dita, a cada gesto que arriscamos, a cada escolha mal feita? Acho que sim. Podemos escolher de novo, tentar diferente, mas o que está feito está ali, e, ainda que você empurre bem pro fundo a roupa suja, um dia, numa livraria, ela te pega de calças curtas, te dá um bofetão talvez, mas te faz enxergar que, além de doídas e equivocadas, talvez essas bobagens todas que você fez, possam te tornar alguém melhor, mais forte e menos burro. Se você acreditar que elas podem mesmo, ter acontecido, claro.
Tínhamos vivido uma curta e tórrida história de amor, na qual eu tinha sofrido tanto, tanto, que me despedaçara em muitos pequenos cacos ao final de tudo aquilo. Talvez por isso eu tenha decidido fortemente que esqueceria esse homem e aquela história. Consegui. Demorou muito, mas ele passou e ficou na minha memória como alguns nuances, uns vultos, umas imagens esfumaçadas, esfareladas, nada de muito concreto.
Foi numa livraria, anos depois, que nos reencontramos atingidos pelo destino ou por uma incrível casualidade. Ficamos ali, naquela situação meio sem graça, de quanto tempo, como vai você, o que tem feito, tem visto fulano, sabe de sicrano, nossa, faz tempo mesmo né, e eu vim aqui hoje só pra trocar um livro, é eu tava procurando um, pois é, então tá, a gente se fala, bom te ver e, quando ele ia indo embora, nem sei bem o que me deu que o chamei pelo nome, uma última chamada, apenas pra fazer uma pergunta. Uma pergunta da qual dependeria a minha sanidade, já tão desafiada por aquele e outros amores incuráveis. O rapaz se virou, eu me aproximei e disse, simplesmente: “Eu inventei?”. Houve um instante de silêncio, ele não entendeu claro, e eu tentei me explicar: “Eu inventei tudo, ou aconteceu mesmo? Aconteceu alguma coisa entre nós, ou eu inventei?”. O moço, que me conhecia bem, sorriu e respondeu que sim. Que tinha sido verdade, ao menos que ele soubesse aconteceram várias coisas entre nós, provavelmente eu não tinha inventado não... Eu agradeci, dei um riso nervoso e respirei aliviada em seguida. Nos despedimos, mas, antes de ir embora, foi a vez dele me chamar então, para mostrar a sua estranheza e perguntar: “Sério? Você achou mesmo que poderia ter inventado tudo aquilo?” Fiquei sem graça. Dei-me conta do absurdo que tinha sido essa minha questão e me apeguei à última chance que tinha de parecer normal, mentindo que não. Disse que tinha brincado, que claro que eu sabia que tinha acontecido, imagine. O rapaz riu pela última vez e foi embora, sumindo devagar entre uma pequena multidão, enquanto eu me refazia de uma verdade dolorosa, tão dolorosa que eu tinha tentado apagá-la.
Hoje, relembrando essa história, penso que muitas são as vezes em que confundo imaginação com realidade. Tenho essa, e outras histórias que preferiria não ter vivido de fato. São acontecimentos tão inacreditavelmente lindos e dolorosos, que parecem não ser muito verossímeis na vida real. Eu passo meses, talvez anos, fazendo muita força para torná-los ainda mais improváveis, para fazê-los uma história de faz-de-conta, uma história de bonecos, uma da carochinha ou qualquer coisa assim. Uma história que, não tendo acontecido, não tem obrigações. Não precisa ser tratada em terapia, não precisa ser desculpada, entendida, ou nem mesmo encerrada. É um filme como outros tantos, é a Meg Ryan, a Julia Roberts, ou qualquer uma delas. Um acontecimento distante não tem o direito de doer, não pode estar assim tão próximo, a ponto de me atingir.
Agora, com o recipiente para histórias a serem esquecidas já lotado, me pergunto se há mesmo essa escapatória..
Somos aquilo que vivemos e estamos aprisionados a cada palavra dita, a cada gesto que arriscamos, a cada escolha mal feita? Acho que sim. Podemos escolher de novo, tentar diferente, mas o que está feito está ali, e, ainda que você empurre bem pro fundo a roupa suja, um dia, numa livraria, ela te pega de calças curtas, te dá um bofetão talvez, mas te faz enxergar que, além de doídas e equivocadas, talvez essas bobagens todas que você fez, possam te tornar alguém melhor, mais forte e menos burro. Se você acreditar que elas podem mesmo, ter acontecido, claro.
Thursday, September 25, 2008
Do que eu também não entendo
Eu era uma jovem solteira, talvez de 25 anos, quando aconteceu. Estávamos no shopping, 4 amigas sentadas no confortável sofá de uma joalheria. A vendedora mostrava brincos, colares, todos lindos, caros e irresistíveis. As amigas, meio tolas, começaram a se incentivar a cometer ali uma pequena loucura, que seria comprar um dos itens em mais prestações do que caberiam nas nossas vidas, e olha que éramos todas jovens.
Uma topou a outra também, uma decidira que não e a última, uma doce menina recém casada, estava titubeado. Quando insisti, dizendo que ela trabalhava tanto e, portanto, deveria ter direito a esse mimo, ela confessou, acanhada: “É que meu marido vai me matar se eu gastar esse dinheiro todo”. Eu tive um instante de choque. Indignei-me absurdamente e, se tivesse um palanque ali eu subiria e faria uma fogueira de sutiens: “Como assim, amiga? Teu marido vai achar ruim, tá louca?! É teu dinheiro, você rala a beça no seu trabalho, não tem que dar satisfação não, que que é isso mulé, ficou boba, foi??” eu ia discursando minhas palavras lindas e idealistas, quando uma outra, mais sensata, tentou me acalmar: “Mas calma, ela é que tem que saber como é com o marido dela...”. Eu calei-me, fiz a minha comprinha, e fui-me embora indignada. Saí de lá bufando. Onde é que já se viu, obedecer a marido, dar satisfação das próprias economias, minhas amiga só poderia ter perdido o juízo de vez, claro. Eu nunca, nunquinha na vida que iria me submeter dessa maneira, preferiria a morte a ter que dar satisfação de cada colarzinho que eu comprasse, imagine só que absurdo, etc, etc, etc...
Pois voou o tempo. Eu fiz 26, 27, nem me lembro dos 28, 29 e pronto, cheguei aos 30, casei-me e desci de vez do palanque, sem nem notar.
Foi ontem, no shopping, quando comprei dois sapatos e saí da loja apreensiva, pensando como iria me explicar ao meu marido, que me lembrei da antiga joalheria e da minha pobre amiga. Eu, a independente, a fodona, a dona do meu nariz, me tornara uma delas. Não sei quando foi. Não sei se foi no dia que ele reclamou do meu cartão, ou quando eu deixei de contribuir para a nossa poupança, ou se foi quando eu comentei, por cima, do meu cheque especial. Mas em algum momento no nosso casamento, eu dei a ele o direito de reclamar das minhas compras. Eu dei a ele, de bandeja, o direito de reclamar caso eu comprasse um colarzinho ou – pior – um sapato. É um fenômeno que eu não sei explicar bem. Talvez haja um mosquito, ainda desconhecido dos cientistas, que pica as mulheres casadas e causem essa reação. As mulheres passam a esconder as compras, mentir os gastos ou diminuí-los, em nome da boa convivência no lar. E eu faço isso. Faço porque escolhi compartilhar uma vida ao lado de alguém e isso implica em compartilhar dinheiro, economia e escolhas. É difícil dosá-las, é difícil estabelecer os limites. A gente tenta aqui, erra acolá, mas segue fazendo como pode, como sabe.
Ontem, quando estacionei o carro na garagem, escolhi deixar a sacola com meus sapatos novos lá mesmo, subi de mãos vazias e beijei meu amorzinho. Quando ele entrou no banho, no entanto, como uma adúltera que vai encontrar seu amante, desci correndo pra garagem, peguei a sacola nova, subi também correndo, entrei em casa de forma sorrateira e joguei no fundo do armário, sem deixar nenhum rastro do meu crime, meus novos e lindos escarpans. Errado ou certo, eu, como todas as outras, o fiz em nome da boa convivência no lar. Até porque, isso sim é artigo de luxo, raríssimo, valioso e necessário, para sermos simplesmente felizes. Ainda que tolos, felizes.
Uma topou a outra também, uma decidira que não e a última, uma doce menina recém casada, estava titubeado. Quando insisti, dizendo que ela trabalhava tanto e, portanto, deveria ter direito a esse mimo, ela confessou, acanhada: “É que meu marido vai me matar se eu gastar esse dinheiro todo”. Eu tive um instante de choque. Indignei-me absurdamente e, se tivesse um palanque ali eu subiria e faria uma fogueira de sutiens: “Como assim, amiga? Teu marido vai achar ruim, tá louca?! É teu dinheiro, você rala a beça no seu trabalho, não tem que dar satisfação não, que que é isso mulé, ficou boba, foi??” eu ia discursando minhas palavras lindas e idealistas, quando uma outra, mais sensata, tentou me acalmar: “Mas calma, ela é que tem que saber como é com o marido dela...”. Eu calei-me, fiz a minha comprinha, e fui-me embora indignada. Saí de lá bufando. Onde é que já se viu, obedecer a marido, dar satisfação das próprias economias, minhas amiga só poderia ter perdido o juízo de vez, claro. Eu nunca, nunquinha na vida que iria me submeter dessa maneira, preferiria a morte a ter que dar satisfação de cada colarzinho que eu comprasse, imagine só que absurdo, etc, etc, etc...
Pois voou o tempo. Eu fiz 26, 27, nem me lembro dos 28, 29 e pronto, cheguei aos 30, casei-me e desci de vez do palanque, sem nem notar.
Foi ontem, no shopping, quando comprei dois sapatos e saí da loja apreensiva, pensando como iria me explicar ao meu marido, que me lembrei da antiga joalheria e da minha pobre amiga. Eu, a independente, a fodona, a dona do meu nariz, me tornara uma delas. Não sei quando foi. Não sei se foi no dia que ele reclamou do meu cartão, ou quando eu deixei de contribuir para a nossa poupança, ou se foi quando eu comentei, por cima, do meu cheque especial. Mas em algum momento no nosso casamento, eu dei a ele o direito de reclamar das minhas compras. Eu dei a ele, de bandeja, o direito de reclamar caso eu comprasse um colarzinho ou – pior – um sapato. É um fenômeno que eu não sei explicar bem. Talvez haja um mosquito, ainda desconhecido dos cientistas, que pica as mulheres casadas e causem essa reação. As mulheres passam a esconder as compras, mentir os gastos ou diminuí-los, em nome da boa convivência no lar. E eu faço isso. Faço porque escolhi compartilhar uma vida ao lado de alguém e isso implica em compartilhar dinheiro, economia e escolhas. É difícil dosá-las, é difícil estabelecer os limites. A gente tenta aqui, erra acolá, mas segue fazendo como pode, como sabe.
Ontem, quando estacionei o carro na garagem, escolhi deixar a sacola com meus sapatos novos lá mesmo, subi de mãos vazias e beijei meu amorzinho. Quando ele entrou no banho, no entanto, como uma adúltera que vai encontrar seu amante, desci correndo pra garagem, peguei a sacola nova, subi também correndo, entrei em casa de forma sorrateira e joguei no fundo do armário, sem deixar nenhum rastro do meu crime, meus novos e lindos escarpans. Errado ou certo, eu, como todas as outras, o fiz em nome da boa convivência no lar. Até porque, isso sim é artigo de luxo, raríssimo, valioso e necessário, para sermos simplesmente felizes. Ainda que tolos, felizes.
Tuesday, September 23, 2008
Bichos da luz

Foi num inverno muito, muito rigoroso que morei fora do Brasil. Lá fazia um frio terrível e nevava o tempo todo. Eu morria de saudades de casa, mas entre tudo e todos, o que eu sentia uma falta desgraçada mesmo, era do calor. Morria de saudades de usar regata, havaiana, transpirar e ter que fazer um rabo de cavalo, essas coisas. As vezes, no meio daquela branquidão toda, eu fechava meus olhos com força e tentava me imaginar em casa, em São Paulo. Olhava para os postes de luz, da rua, e os imaginava cheios de mosquitinhos, aqueles bichinhos da luz.
Pra mim, o verão é a cara dos bichinhos da luz.
Talvez por isso, dia desses quando voltava pra casa e assisti a um poste lotado de bichinhos da luz, senti um calor delicioso dentro de mim. O verão está pra chegar. E, com ele, essa figura tão frágil e efêmera que são os mosquitos da luz. Dizem que eles vivem apenas algumas horas. Não sei se é verdade, mas parece que eles nascem, sobem nas lâmpadas e, lá, é o tempo de procriar com os seus e pronto, morrer em seguida. É uma figura tola a desse inseto, mas é uma figura muito esperta também.
Normalmente nós os odiamos. Quando eles escapam para dentro de casa, sempre alguém murmura qualquer coisa como xii, tá cheio de bichinho aqui. Alguém sugere apagar a luz e, assim, interrompemos precocemente a curta vida dos pobrezinhos. Mas, nunca adianta. São umas pragas os tontos. Basta apertarmos o interruptor trazendo a luz de volta e pronto. Lá estão eles numa suruba iluminada de novo e nós, mais uma vez, tentaremos acabar com a bagunça.
Talvez matemos os bichos no auge de suas núpcias, mas não tenho muita pena. A alegria que se dá em mim, por ver os dias aquecerem-se lentamente, não me permite nem sentir pena de acabar com alguém assim, bem no meio do amor.. Frágil e intenso amor o desses pobres. Poderiam dar-nos algumas aulas, certamente...
Friday, September 19, 2008
Das bobagens do cotidiano I

Na padaria, tomando café da manhã, ela chupa, pelo canudinho, o resto do suco de mamão do copo, e encontra uma surpresa:
- Olha amor, que interessante. Tem um pedaço de mamão intacto aqui. Um quadrado.
Ele, ainda sonolento, repara e balbucia:
- É mesmo.
- Como será que ele sobrou? Como todos os outros pedaços de mamão não escaparam à lâmina do liquidificador e, bem esse, conseguiu ficar intacto.
- Desviando da lâmina, ué. – Ele responde antes de morder o pão com manteiga.
- Que danado, né? Porque ele é um quadradão, olha! Impressionante ter desviado das lâminas!
- É.
- Deveria ir para as olimpíadas esse teco de mamão. É muito mais ágil que os outros. Ou para o circo de soleil, sei lá...
- Daqui aqui esse mamão – Ele tenta garfar o mamão sobrevivente do copo dela.
- Não!!!
- Hã? – ele pergunta sem entender nada.
- Não vai comer esse pedaço não! Coitado, o mamão teve tanto trabalho pra se desviar das lâminas, não vou deixar você acabar com ele assim...
- Ele olha pra ela, indignado, balança a cabeça, chama o garçom, e pede uma pratada de mamão. Todos cortados em cubos...
Wednesday, September 3, 2008
Mulheres e suas bagunças

Eu não quis parecer esnobe. E esse foi o meu problema.
Começou quando fui à podóloga. Ela insiste em não pintar o pé. Faz tudo e não pinta. Acho esquisitíssimo isso. Me lembra um pouco sabe o que né? Que faz tudo e não beija. Onde já se viu isso? Coisa mais estranha, enfia o alicate, tira a pele, sai pus, desinflama, lixa, tira a cutícula, desencrava uns nacos enormes de unha e, na hora de pintar, que seria simples, vem com essa: “Ahhh, pintar eu não pinto não...” Como se você estivesse pedindo pra amputar o seu pé. Tudo bem, obrigada, não há de ser nada, obrigada.
Daí, dia seguinte, fui aqui na manicure do trabalho e pedi se ela poderia só pintar o meu pé. Como eu nunca pedi pra fazer o pé lá, e sempre faço a mão, achei que soaria esnobe dizer que só faço com podóloga, mas ela, a Nete, serviria para pintar, e então menti. Menti dizendo que não faço o pé, só pinto mesmo, arrematei minha mentira inocente com um sorriso tranqüilo. Ah, mas pra que? Mentiras inocentes podem ser perigosíssimas... Ela disse que tudo bem, claro, mas enquanto puxava o carrinho com os esmaltes, começou um processo de me converter, que, vou te contar, nem os mais bravos evangélicos conhecem:
- Ah, mas porque você não faz o pé? Ficaria tão bom... – Ela começou de levinho.
- Mas tá ruim? Eu mesma dou um jeito nele, as vezes. - Menti na cara dura.
- Logo se vê viu?. Ta cheio de pele – Ela debochou do meu pé feito com podóloga por uma bagatela de 50 paus... Mantive a mentira:
- Não, não pode ser, eu empurro a cutícula, tiro a pele um pouquinho.
- Não tudo bem, mas se fizesse aqui, com a gente, ficaria mais bonito, imagine, um pé bonito como o seu.... E eu sou boa em fazer pé viu? Nossa, adoro!
- É mesmo, mas não gosta de fazer mão, não?
- Gosto, mas, olha, aqui tem uma pelinha – Ela pegou o pauzinho e começou a empurrar qualquer coisa que deveria ser a cutícula –
- Então, mas nem precisa empurrar cutícula não, viu? É só pintar. Também tô meio com pressa... - Tentei interrompê-la
- Não, mas só estou empurrando aqui um pouquinho, pra melhorar. Você vai ver, já dá outra cara...
- Sei... – Eu me ajeittei na cadeira, incomodada.
- Mas você nunca fez o pé, nunquinha?
- Não, eu já fiz, claro! Só que me machucaram, minha unha é meio difícil... – Arrisquei um pedaço de verdade, dizem que só a verdade liberta.
- Ahhhh, eu sabia. Tem manicure que, olha, traumatiza a cliente! Não sabe mexer, não mexe né? Eu mesma não cutuco... Faço sem mexer. Ainda mais quando a cliente diz que não quer, pronto, não quer não quer, né não?
- Ô. – Eu comecei a pensar em fugir...
- Só um minutinho, tá? - Ela saiu e, voltou, em segundos, toda faceira segurando um alicate, um sorriso bem discreto no canto da boca.
- Nete, onde é que você vai com esse alicate?
- Não, é só uma pelinha aqui. Tem uma pontinha, chega tá entrando na pele, precisa tirar viu? Senão vai é te machucar...
- Nete, é uma pele ou uma unha? Eu não gosto que mexa na unha, sabe, eu queria mesmo que só pintasse – Eu estava decidida a fugir... Mas precisaria levar os sapatos na mão enquanto corresse...
- Não, vou te explicar, olha – ela dizia enquanto mirava o alicate pro meu dedão, ajeitando os óculos – É uma pelinha. Só um tequinho aqui...Mais um pouquinho, olha lá, aqui... Nossa, mas tem pele hein? - Eu estava me irritando e respondi, ríspida:
- Nete, eu sou inteira de pele. Sou feita de pelinha, meu corpo é todo revestido de pele, vamos deixar as peles aí vai, somos mesmo assim cheeeeeios de pele, os humanos são feitos disso, é normal....
- Tá bom, tá bom. Acabei já. – Ela largou o alicate emburrada e voltou ao pauzinho, mas agora, estava com raiva, empurrava a cutícula imaginária com força, machucando meu pé phyyyno de podóloga. Eu estava tão arrependida que achei até bonita a unha sem esmalte.
- Olha Nete, acho que vou marcar outra hora e volto com calma, é que tenho uma reunião agora... Acabei de lembrar. – Arrisquei uma saída, mas Nete sequer me respondeu. Ela estava obcecada em tirar qualquer pele do meu pé e furiosa por não poder usar a sua arma. Resolvi me calar, segurar firme no braço da poltrona em que eu me encontrava, já prostrada, refém daquela mulher, ela poderia pedir que eu latisse, que eu chorasse, ou que eu fingisse de morta, tanto faz. Eu estava com tanto medo da manicure, que tinha me tornado sua escrava. E então, assim, fui torturada por uns 15 minutos, ali, na mão da Nete. Quando ela terminou, respirou fundo e eu levantei rápido, notei que minhas mãos estavam suando e disse apenas:
- Nete querida, obrigada, a mão vai ficar pra outro dia viu? – ela me olhou, sorridente, e respondeu:
- Claro meu bem, daí fazemos o pezinho inteiro também.
Juro que vi uma faísca nos olhos dela, quando acelerei com o que sobrara de meus pés, para longe dali.
Monday, September 1, 2008
Uma barata como inquilina
Era de noite, uma terça-feira, ou talvez quarta. Eu chegara cansada, carregada de compras do super-mercado, enquanto trancava a porta. Foi instantâneo, eu apertei o interruptor e ela andou, rumo ao teto. Nos assustamos as duas. Eu com ela, ela comigo. Larguei tudo no chão, corri mais pra perto, ela andou de novo e eu corri pra longe. Esse tinha sido nosso primeiro encontro, um tanto quanto perturbador. Na mesma noite, bem tarde quando meu marido chegou, pedi que procurasse por ela e ele tentou, tirou umas caixas do lugar, olhou atrás do armário, em todas as frestas que existia, mas jurou de pé junto que não encontrou. Tudo bem amor, deixa pra lá. Nem era uma baratona, era média, daquelas marrons... Vai ver até que foi pela janela embora... Fingi que não ligava, que tinha esquecido o assunto. E até esqueci um pouco, com tanta coisa pra fazer. Mas não passaram-se dois dias, e a cena se repetiu. Eu já estava em casa há algumas horas, fui até a cozinha de pijama e pés no chão. Acendi a luz e pronto, ela correu. Estava na outra parede dessa vez, perto do fogão. Mas que malandra, eu pensei enquanto assistia a bichinha andar atrás da luva de silicone e entrar pela única fresta do armário. Olhei bem em volta, olhei o armário todo e vi que – sim – era mesmo a única fresta do armário e ela não titubeou. Ela mirou na fresta certa, não era coincidência. Meus pesadelos se confirmaram, aquela barata conhecia o percurso que fazia. Meu marido chegou logo e corri para alertá-lo:
- Amor, ela entrou naquele buraquinho ali, tá vendo? Aquele, do meio, e ela foi com um conhecimento de causa, com tanta prática, parece até que faz esse caminho todos os dias, parece que é o caminho dela pra casa, sabe? Deve fazer isso, todos os dias no final da noite. O expediente dela deve terminar junto com o meu, hoje ela bobeou um pouquinho, vai ver que parou na farmácia, ou no forno, e levou um pouquinho mais de tempo, acontece comigo as vezes, mas ela se deu mal, muito mal, porque eu cheguei bem na hora. E ela pegou aquele caminho amor, juro, como eu pego a Pacaembu, ela sabia que o caminho era aquele meu bem, ela sabe todas as linhas desses azulejos, querido, ela está dominando esse lugar! - Ele, meu doce maridinho, tentava me acalmar:
- Então, se você sabe que ela é como você, deveria ser mais compreensiva, ela pode ter tido algum problema – ele ironizou...
- Como eu?? A barata é como eu? É isso que você está me dizendo? Você está louco de dizer que a barata é como eu?
- Mas foi você quem disse!
- Amor, se você tem alguma coisa pra me dizer, pode dizer, pode me dar um feed-back, não precisa fazer essas comparações esdrúxulas, eu aceito críticas, agora, grosseria não, grosseria eu não vou aceitar, ta pensando o que?....
Ele tentava consertar, enquanto tirava uma caixa de cima do armário.
Eu, nos meus piores pesadelos, imaginava que ali estaria a casa dela, a família dela, de repente até algumas coisinhas que ela gostava de guardar. Fiquei atenta, paramos de discutir, fez-se um silêncio profundo na casa, enquanto o Bruno tentava ser delicado com o que poderia ser, afinal, o lar de alguém. Para minha surpresa não havia nada. Ele tirou outra, e outra. Pegou uma escada, ia me dando as caixas, panelas, tudo o que achava ali, mas não havia nenhum sinal da minha inquilina, nadinha. Batemos nas portas, pegamos vassouras, fizemos uma operação de guerra na casa, e nada da barata. Ele chegou a dar umas indiretas, insinuou que eu tinha tido uma alucinação, mas eu não ouvia nada, estava obcecada, só pensava na maldita barata marrom que conhecia tão bem a minha casa, mas tão bem, que conseguira achar um canto só dela, um lugar que eu mesma, eu que morava lá há tantos anos, nunca consegui achar.
A noite, antes de dormir, ainda olhei um pouco as paredes, procurei nos cantinhos na esperança de encontrá-la. Tentei até falar, baixinho mas tentei, porque pode ser que ela seja boa de ouvido, sei lá, os bichos costumam ter audição impressionante, mas, no caso das baratas, ou dessa em especial, não funcionou. Ela não apareceu e eu não mais a odiava. Talvez nem a matasse mais, eu estava admirando a maldita barata marrom. De repente, senti inveja dessa nojenta. Senti uma inveja danada porque ela foi do fogão ao armário, muito mais rápido do que eu vou da Sumaré à Pacaembu. E, o mais incrível de tudo, quando o mundo se mobilizou para localizá-la, ela se escondeu confortavelmente num buraco qualquer e, talvez, tenha até rido de nós e da nossa inabilidade com a casa que, inocentemente, julgávamos ser a nossa.
A barata, a proprietária do meu apartamento, nunca mais apareceu. Aquele foi nosso último encontro e eu nunca soube se ela se mudou, morreu, ou – o pior - continua a nos assistir, faceira, rindo de como somos tolos, enquanto nos achamos seres esperotos e racionais.
- Amor, ela entrou naquele buraquinho ali, tá vendo? Aquele, do meio, e ela foi com um conhecimento de causa, com tanta prática, parece até que faz esse caminho todos os dias, parece que é o caminho dela pra casa, sabe? Deve fazer isso, todos os dias no final da noite. O expediente dela deve terminar junto com o meu, hoje ela bobeou um pouquinho, vai ver que parou na farmácia, ou no forno, e levou um pouquinho mais de tempo, acontece comigo as vezes, mas ela se deu mal, muito mal, porque eu cheguei bem na hora. E ela pegou aquele caminho amor, juro, como eu pego a Pacaembu, ela sabia que o caminho era aquele meu bem, ela sabe todas as linhas desses azulejos, querido, ela está dominando esse lugar! - Ele, meu doce maridinho, tentava me acalmar:
- Então, se você sabe que ela é como você, deveria ser mais compreensiva, ela pode ter tido algum problema – ele ironizou...
- Como eu?? A barata é como eu? É isso que você está me dizendo? Você está louco de dizer que a barata é como eu?
- Mas foi você quem disse!
- Amor, se você tem alguma coisa pra me dizer, pode dizer, pode me dar um feed-back, não precisa fazer essas comparações esdrúxulas, eu aceito críticas, agora, grosseria não, grosseria eu não vou aceitar, ta pensando o que?....
Ele tentava consertar, enquanto tirava uma caixa de cima do armário.
Eu, nos meus piores pesadelos, imaginava que ali estaria a casa dela, a família dela, de repente até algumas coisinhas que ela gostava de guardar. Fiquei atenta, paramos de discutir, fez-se um silêncio profundo na casa, enquanto o Bruno tentava ser delicado com o que poderia ser, afinal, o lar de alguém. Para minha surpresa não havia nada. Ele tirou outra, e outra. Pegou uma escada, ia me dando as caixas, panelas, tudo o que achava ali, mas não havia nenhum sinal da minha inquilina, nadinha. Batemos nas portas, pegamos vassouras, fizemos uma operação de guerra na casa, e nada da barata. Ele chegou a dar umas indiretas, insinuou que eu tinha tido uma alucinação, mas eu não ouvia nada, estava obcecada, só pensava na maldita barata marrom que conhecia tão bem a minha casa, mas tão bem, que conseguira achar um canto só dela, um lugar que eu mesma, eu que morava lá há tantos anos, nunca consegui achar.
A noite, antes de dormir, ainda olhei um pouco as paredes, procurei nos cantinhos na esperança de encontrá-la. Tentei até falar, baixinho mas tentei, porque pode ser que ela seja boa de ouvido, sei lá, os bichos costumam ter audição impressionante, mas, no caso das baratas, ou dessa em especial, não funcionou. Ela não apareceu e eu não mais a odiava. Talvez nem a matasse mais, eu estava admirando a maldita barata marrom. De repente, senti inveja dessa nojenta. Senti uma inveja danada porque ela foi do fogão ao armário, muito mais rápido do que eu vou da Sumaré à Pacaembu. E, o mais incrível de tudo, quando o mundo se mobilizou para localizá-la, ela se escondeu confortavelmente num buraco qualquer e, talvez, tenha até rido de nós e da nossa inabilidade com a casa que, inocentemente, julgávamos ser a nossa.
A barata, a proprietária do meu apartamento, nunca mais apareceu. Aquele foi nosso último encontro e eu nunca soube se ela se mudou, morreu, ou – o pior - continua a nos assistir, faceira, rindo de como somos tolos, enquanto nos achamos seres esperotos e racionais.
Sunday, August 24, 2008
Crônica do dia
Foi pra lá, que fiz essa daqui:
As meninas da ginástica
Sempre me impressiono com essa coisa de Olimpíadas. Fico achando que se o nosso corpo permite aquilo tudo, é impossível que eu não possa dar uma cambalhota.
No entanto, esse ano, mais fortemente, tenho pensado nas meninas da ginástica olímpica. Entre todos os esportes esse me toca mais profundamente, por conta do que ele exige.
Ok, fomos feitos para ser fortes, fomos feitos para ser rápidos, fomos feitos para ser peixes até, mas não, não fomos feitos para ser equilibrados como aquelas meninas. As mocinhas, tão jovens, ficam firmes sob um fio de navalha, uma linha apenas, tão fina, tão pequena, e mantém-se de pé. Algumas tremem, outras, de forma absolutamente impressionante, conseguem ficar imóveis, intactas, frias como uma pedra de gelo, racionais como uma árvore, mudas e firmes como eu, em toda minha vida, nunca consegui ser. Nem por um instante. Talvez porque eu tenha nascido nesse país quente e borbulhante, onde ninguém fica mesmo muito parado. Inclusive elas, as ginastas brasileiras, são claramente mais emocionais, e às vezes caem. Ou dão aquela balançadinha, aquela mesmo que a gente em casa faz “ai, shhh, quase” e depois elas pairam no ar. Mas as americanas? Ou essas outras aí dos países frios? Essas nem tremem. São mansas e seguras, firmes como uma rocha, transformam-se em estátuas de cera, paralisadas, braços estendidos, corpo reto, tudo ali no seu devido lugar. Enquanto eu, do outro lado do mundo, suo por elas, caio por elas, até grito por elas.
De fato, o equilíbrio nunca foi o meu forte. Sempre pendi mais para um lado ou para o outro. Ora muito racional, escolhi que seria uma workaholic e trataria de trabalhar. Ora muito emocional achei que esse papo de ganhar dinheiro era bobagem e me joguei no amor. Já chorei por dias seguidos de dor de cotovelo e já me mantive seca, nenhuma só lágrima por longos períodos, quando decidia ser forte. E fui. Forte, fraca, calma, nervosa, mansa e doida varrida... Mas equilibrada? Nunca. Nem um só dia. Até finjo e finjo bem, mas por dentro os opostos se batem, se machucam e se vangloriam em seguida, cada parte a seu modo, cada extremo puxando a sua sardinha.
Gostaria de fazer ginástica olímpica. Gostaria de permanecer firme ainda que o espaço seja pequeno, gostaria de ser menos trêmula, menos molenga e menos emocional. Gostaria de manter-me em pé ainda que tudo estivesse desabando, gostaria de ter o controle sobre o meu corpo e a minha mente, ainda que o mundo ao meu redor estivesse em absoluto descontrole e caos.
Para mim, a imagem do controle está ali, naquelas meninas tão novas e tão fortes. De que adianta ser rápido? De que adianta ter músculos firmes, de que adianta dar o saque perfeito se, de repente, por uma bobagem qualquer você se desequilibra? De que adianta falar bem, ser coerente e calma, se quando o chão nos some dos pés nós cambaleamos e caímos, tolos, fracos, entregues à emoção, e, muitas vezes, ao desespero?
As meninas da ginástica são as minhas heroínas. Eu tento ficar paralisada em uma linha imaginária por alguns segundos, mas logo a linha desaparece e caio pro lado.
Eu tento, tenho tentado tanto seguir um caminho escolhido, trilhar pela estrada que está aqui no meu mapa, e por onde a paisagem é bonita, mas, não raro, distraio-me com um vento qualquer e perco o rumo, o prumo, o rebolado.
A Jade Barbosa nunca, nem por uma vez cairia nas armadilhas que caí. Diante do caos, do barulho e das perturbações do mundo exterior, ela centra-se nela e na sua própria força, talvez trema um pouco, mas estica as pernas, desdobra o joelho e ainda sorri, vencedora. E ainda que não ganhem medalhas, essas meninas têm a minha admiração, o meu respeito e – sim, sim - a minha enorme e descontrolada inveja.
As meninas da ginástica
Sempre me impressiono com essa coisa de Olimpíadas. Fico achando que se o nosso corpo permite aquilo tudo, é impossível que eu não possa dar uma cambalhota.
No entanto, esse ano, mais fortemente, tenho pensado nas meninas da ginástica olímpica. Entre todos os esportes esse me toca mais profundamente, por conta do que ele exige.
Ok, fomos feitos para ser fortes, fomos feitos para ser rápidos, fomos feitos para ser peixes até, mas não, não fomos feitos para ser equilibrados como aquelas meninas. As mocinhas, tão jovens, ficam firmes sob um fio de navalha, uma linha apenas, tão fina, tão pequena, e mantém-se de pé. Algumas tremem, outras, de forma absolutamente impressionante, conseguem ficar imóveis, intactas, frias como uma pedra de gelo, racionais como uma árvore, mudas e firmes como eu, em toda minha vida, nunca consegui ser. Nem por um instante. Talvez porque eu tenha nascido nesse país quente e borbulhante, onde ninguém fica mesmo muito parado. Inclusive elas, as ginastas brasileiras, são claramente mais emocionais, e às vezes caem. Ou dão aquela balançadinha, aquela mesmo que a gente em casa faz “ai, shhh, quase” e depois elas pairam no ar. Mas as americanas? Ou essas outras aí dos países frios? Essas nem tremem. São mansas e seguras, firmes como uma rocha, transformam-se em estátuas de cera, paralisadas, braços estendidos, corpo reto, tudo ali no seu devido lugar. Enquanto eu, do outro lado do mundo, suo por elas, caio por elas, até grito por elas.
De fato, o equilíbrio nunca foi o meu forte. Sempre pendi mais para um lado ou para o outro. Ora muito racional, escolhi que seria uma workaholic e trataria de trabalhar. Ora muito emocional achei que esse papo de ganhar dinheiro era bobagem e me joguei no amor. Já chorei por dias seguidos de dor de cotovelo e já me mantive seca, nenhuma só lágrima por longos períodos, quando decidia ser forte. E fui. Forte, fraca, calma, nervosa, mansa e doida varrida... Mas equilibrada? Nunca. Nem um só dia. Até finjo e finjo bem, mas por dentro os opostos se batem, se machucam e se vangloriam em seguida, cada parte a seu modo, cada extremo puxando a sua sardinha.
Gostaria de fazer ginástica olímpica. Gostaria de permanecer firme ainda que o espaço seja pequeno, gostaria de ser menos trêmula, menos molenga e menos emocional. Gostaria de manter-me em pé ainda que tudo estivesse desabando, gostaria de ter o controle sobre o meu corpo e a minha mente, ainda que o mundo ao meu redor estivesse em absoluto descontrole e caos.
Para mim, a imagem do controle está ali, naquelas meninas tão novas e tão fortes. De que adianta ser rápido? De que adianta ter músculos firmes, de que adianta dar o saque perfeito se, de repente, por uma bobagem qualquer você se desequilibra? De que adianta falar bem, ser coerente e calma, se quando o chão nos some dos pés nós cambaleamos e caímos, tolos, fracos, entregues à emoção, e, muitas vezes, ao desespero?
As meninas da ginástica são as minhas heroínas. Eu tento ficar paralisada em uma linha imaginária por alguns segundos, mas logo a linha desaparece e caio pro lado.
Eu tento, tenho tentado tanto seguir um caminho escolhido, trilhar pela estrada que está aqui no meu mapa, e por onde a paisagem é bonita, mas, não raro, distraio-me com um vento qualquer e perco o rumo, o prumo, o rebolado.
A Jade Barbosa nunca, nem por uma vez cairia nas armadilhas que caí. Diante do caos, do barulho e das perturbações do mundo exterior, ela centra-se nela e na sua própria força, talvez trema um pouco, mas estica as pernas, desdobra o joelho e ainda sorri, vencedora. E ainda que não ganhem medalhas, essas meninas têm a minha admiração, o meu respeito e – sim, sim - a minha enorme e descontrolada inveja.
Thursday, August 21, 2008
do silêncio
Passo horas nos blogs. Talvez não horas, mas tempo demais. Passo tempo demais a procurar que as palavras alheiam completem o que falta aqui. E não acho. Já procurei em Drummond, em Vinicius, em Clarice. Já procurei na Débora, na Mari, na Naty e na Juli. E até achei um pouco, mas bem pouco.
É como a sede. Nunca se mata totalmente. Você toma uma gole d’água, acha que está bem, sente a barriga inchar se tomar demais e nem consegue mais olhar a água. Mas não demora muito. Nenhum dia inteiro, para sentir sede de novo. Do que é essa minha sede que não cessa? De palavras? De entendimento? Ah, mas que tolice. Eu sei que as palavras que eu busco, as frases que preciso ouvir, o entendimento que me falta, eu sei, está bem aqui, em algum lugar enterrado dentro de mim. Mas o que fazer se há o infalável, o inexplicável, o impensável?
Nem Clarice, nem Drummond, nem os titãs, nem a ninguém. O vazio permanece, intacto, mudo, oco, escuro e seco como ninguém, nunca, conseguiria descrever.
É como a sede. Nunca se mata totalmente. Você toma uma gole d’água, acha que está bem, sente a barriga inchar se tomar demais e nem consegue mais olhar a água. Mas não demora muito. Nenhum dia inteiro, para sentir sede de novo. Do que é essa minha sede que não cessa? De palavras? De entendimento? Ah, mas que tolice. Eu sei que as palavras que eu busco, as frases que preciso ouvir, o entendimento que me falta, eu sei, está bem aqui, em algum lugar enterrado dentro de mim. Mas o que fazer se há o infalável, o inexplicável, o impensável?
Nem Clarice, nem Drummond, nem os titãs, nem a ninguém. O vazio permanece, intacto, mudo, oco, escuro e seco como ninguém, nunca, conseguiria descrever.
Sunday, July 13, 2008
Crônica do dia
Saí aqui, com essa daí:
Do futuro e do fim
Não sei se é um sinal, a idade, ou se sou algum tipo de profetiza moderna, uma escolhida, como Buda ou algo assim, fato é que me vejo o tempo todo pensando – e adivinhando - o futuro da humanidade, nossos ganhos e, principalmente, nossas perdas. É, de certo não sou nenhum Buda, talvez uma balzaquiana nostálgica e romântica, no máximo.
Adivinho, minuto a minuto, as frases que serão ditas no futuro. De repente, no meio de um dia comum a imagem me vem à mente: nós, no futuro, num tempo com menos paredes e mais medos, explicando para os nossos descendentes coisas tontas como: “Meu filho, antigamente, láááá pelos idos de 2008, existia nas ruas, telefones públicos aos quais chamávamos orelhão.” O neto olhará aterrorizado: “Como assim, vó? Era uma grande orelha?” “De certa forma”, eu responderei, velhinha: “Era um telefone que ficava no meio da rua, nas calçadas, em esquinas. Primeiro, meu bem, usávamos uma ficha telefônica, era como uma moeda que depositávamos no telefone e, assim, fazíamos a ligação. “O que é moeda, vó?” O menino me olhando com olhos curiosos.
“Não importa... Depois houve um tempo em que utilizávamos cartão, e, inserindo o cartão no telefone ele continha um valor com o qual podíamos ligar para as pessoas, entendeu?” O garoto talvez se assuste. Talvez ache excelente um telefone no meio da rua. Para que mesmo é que temos celulares se os telefones podiam estar fincados na rua? “Vó, vó, que idéia boa, vamos lançar isso de novo, um telefone na rua, ninguém mais precisará de celular!” Será difícil convencer o pequeno rebento que a idéia não é boa?
Ou, como contar às próximas gerações que em um outro tempo existiam pessoas gordas? Sim, porque com essa onda de redução de estômago, lipos e afins, é óbvio que os gordos desaparecerão. Seremos uma nação de beldades, todos magérrimos e lindos, se é que o lindo de lá ainda vai ser o lindo daqui. Talvez os que estiverem já na metade desse século que se inicia, veja em um livro antigo, ou em telas transparentes que surgirão nas ruas, em alguma enciclopédia qualquer, a imagem de um gordo. Quem sabe do Faustão ou da Claudia Gimenez, ela mesma já é uma das últimas de sua espécie. O homem do futuro tomará um susto: “O que é isso, um homem grávido?” Haverá algum de nós, para explicar que não? “Não é bem assim, as pessoas comiam coisas deliciosas e engordavam, ficavam pesadas e, muitas vezes, absolutamente felizes... Mas daí vieram as cirurgias. Ah! elas também Eliminaram do mundo a miopia... Os óculos de grau já estão em extinção, os pobres.”
Talvez seja complicado explicar que usávamos essas coisas no rosto porque nem todo mundo nascia enxergando perfeitamente. Quem sabe os óculos escuros se perpetuem para servir como exemplo de uma época longínqua. Porque as coisas hão de desaparecer...
Ou, se não formos nem tão à frente assim no tempo, hoje mesmo, já há representantes da próxima geração que não conhecem milho de pipoca, nem telefone de disco, muito menos o disco mesmo, de vinil. A propósito, os discos de vinil são para nós o que serão os Cds para os próximos. Os adolescentes de 2030 irão ouvir dizer que, um dia, houve CD. “Como assim?”, perguntarão confusos. Há de haver alguém que diga que CD era um objeto redondo e grande (sim, o pequeno de hoje é o grande de amanhã) que usávamos para ouvir música. Como eles usam o I-pod e os I-coisas que vierem a ser criados até lá e dos quais seremos absolutamente dependentes. E como seremos dependentes...
A dependência que temos hoje, do celular, será a mesma que teremos de coisas como o GPS, por exemplo. Quando formos velhos, em uma mesa de bar (esses devem ser eternos) iremos papear dizendo: “Como pode... Um dia termos vivido sem GPS?” - um dirá ao outro, entre cervejas (ou sucos orgânicos?) “Como chegávamos aos lugares, como nos encontrávamos, como saíamos de casa sem GPS?” Será um espanto que, um dia, tenham existido guias de ruas, esses azuis, que já andam meio desaparecidos por aí...
O futuro, dizem, deve ser caótico com relação aos problemas climáticos. Talvez expliquemos para os mais jovens que houve no mundo uma época em que o ano era dividido em 4 estações, ou pelo menos diremos que elas existiam de fato. “Em julho, meu bem, fazia frio no Brasil!”, diremos, velhinhos, encurvados e calorentos, lá pra 2060...
O tempo há de nos pregar muitas peças. Não teremos mais pêlos, porque eles, desde que as cavernas não foram mais habitadas, também perderam a sua função. Talvez não tenhamos mais pequenos prazeres, talvez descobriremos novos, e grandes. Se alguém me vir por aí, passando dos 100 daqui a uns 70 anos, abriremos de novo esse relato tolo, e, entre uma pílula e outra, conversaremos desse tempo de hoje que, muito velozmente, nos escapa das mãos.
Do futuro e do fim
Não sei se é um sinal, a idade, ou se sou algum tipo de profetiza moderna, uma escolhida, como Buda ou algo assim, fato é que me vejo o tempo todo pensando – e adivinhando - o futuro da humanidade, nossos ganhos e, principalmente, nossas perdas. É, de certo não sou nenhum Buda, talvez uma balzaquiana nostálgica e romântica, no máximo.
Adivinho, minuto a minuto, as frases que serão ditas no futuro. De repente, no meio de um dia comum a imagem me vem à mente: nós, no futuro, num tempo com menos paredes e mais medos, explicando para os nossos descendentes coisas tontas como: “Meu filho, antigamente, láááá pelos idos de 2008, existia nas ruas, telefones públicos aos quais chamávamos orelhão.” O neto olhará aterrorizado: “Como assim, vó? Era uma grande orelha?” “De certa forma”, eu responderei, velhinha: “Era um telefone que ficava no meio da rua, nas calçadas, em esquinas. Primeiro, meu bem, usávamos uma ficha telefônica, era como uma moeda que depositávamos no telefone e, assim, fazíamos a ligação. “O que é moeda, vó?” O menino me olhando com olhos curiosos.
“Não importa... Depois houve um tempo em que utilizávamos cartão, e, inserindo o cartão no telefone ele continha um valor com o qual podíamos ligar para as pessoas, entendeu?” O garoto talvez se assuste. Talvez ache excelente um telefone no meio da rua. Para que mesmo é que temos celulares se os telefones podiam estar fincados na rua? “Vó, vó, que idéia boa, vamos lançar isso de novo, um telefone na rua, ninguém mais precisará de celular!” Será difícil convencer o pequeno rebento que a idéia não é boa?
Ou, como contar às próximas gerações que em um outro tempo existiam pessoas gordas? Sim, porque com essa onda de redução de estômago, lipos e afins, é óbvio que os gordos desaparecerão. Seremos uma nação de beldades, todos magérrimos e lindos, se é que o lindo de lá ainda vai ser o lindo daqui. Talvez os que estiverem já na metade desse século que se inicia, veja em um livro antigo, ou em telas transparentes que surgirão nas ruas, em alguma enciclopédia qualquer, a imagem de um gordo. Quem sabe do Faustão ou da Claudia Gimenez, ela mesma já é uma das últimas de sua espécie. O homem do futuro tomará um susto: “O que é isso, um homem grávido?” Haverá algum de nós, para explicar que não? “Não é bem assim, as pessoas comiam coisas deliciosas e engordavam, ficavam pesadas e, muitas vezes, absolutamente felizes... Mas daí vieram as cirurgias. Ah! elas também Eliminaram do mundo a miopia... Os óculos de grau já estão em extinção, os pobres.”
Talvez seja complicado explicar que usávamos essas coisas no rosto porque nem todo mundo nascia enxergando perfeitamente. Quem sabe os óculos escuros se perpetuem para servir como exemplo de uma época longínqua. Porque as coisas hão de desaparecer...
Ou, se não formos nem tão à frente assim no tempo, hoje mesmo, já há representantes da próxima geração que não conhecem milho de pipoca, nem telefone de disco, muito menos o disco mesmo, de vinil. A propósito, os discos de vinil são para nós o que serão os Cds para os próximos. Os adolescentes de 2030 irão ouvir dizer que, um dia, houve CD. “Como assim?”, perguntarão confusos. Há de haver alguém que diga que CD era um objeto redondo e grande (sim, o pequeno de hoje é o grande de amanhã) que usávamos para ouvir música. Como eles usam o I-pod e os I-coisas que vierem a ser criados até lá e dos quais seremos absolutamente dependentes. E como seremos dependentes...
A dependência que temos hoje, do celular, será a mesma que teremos de coisas como o GPS, por exemplo. Quando formos velhos, em uma mesa de bar (esses devem ser eternos) iremos papear dizendo: “Como pode... Um dia termos vivido sem GPS?” - um dirá ao outro, entre cervejas (ou sucos orgânicos?) “Como chegávamos aos lugares, como nos encontrávamos, como saíamos de casa sem GPS?” Será um espanto que, um dia, tenham existido guias de ruas, esses azuis, que já andam meio desaparecidos por aí...
O futuro, dizem, deve ser caótico com relação aos problemas climáticos. Talvez expliquemos para os mais jovens que houve no mundo uma época em que o ano era dividido em 4 estações, ou pelo menos diremos que elas existiam de fato. “Em julho, meu bem, fazia frio no Brasil!”, diremos, velhinhos, encurvados e calorentos, lá pra 2060...
O tempo há de nos pregar muitas peças. Não teremos mais pêlos, porque eles, desde que as cavernas não foram mais habitadas, também perderam a sua função. Talvez não tenhamos mais pequenos prazeres, talvez descobriremos novos, e grandes. Se alguém me vir por aí, passando dos 100 daqui a uns 70 anos, abriremos de novo esse relato tolo, e, entre uma pílula e outra, conversaremos desse tempo de hoje que, muito velozmente, nos escapa das mãos.
Tuesday, July 1, 2008
Grandeza
Ele era um desses lindos-de-morrer que todo mundo se apaixona. Eu, que estava numa fase de ser diferente, não tinha me apaixonado e talvez por isso o bonitão é que estava meio caído por mim. Tínhamos saído uma vez, duas no máximo, nos conhecíamos muito pouco quando fomos juntos a um churrasco de uns amigos em comum, numa cidade perto daqui.
Ele me buscou de caminhonete, uma caminhonete enorme que eu tive até medo de não saber entrar direito, tropeçar, bater a cabeça, ou qualquer coisa assim. Aquelas vergonhas de primeiro encontro... Pegamos a estrada juntos, e chegamos lá num esquema apenas-bons-amigos que era uma mentira enorme. Não demorou muito, talvez uma hora, quando aconteceu uma bobagem que, junto a tantas outras bobagens, pode ter mudado nossa história para sempre...
O rapaz estava jogando futebol, enquanto eu comia uma picanha sentada no murinho, entre a mulherada. De repente ouvimos um grito, um urro talvez. Quando me virei vi o meu “amigo” caído no chão, pé sangrando, e uma pequena multidão ao redor dele. Foi um acidente, desses sem maiores danos. Acontece que o moço perdeu um micro pedaço do pé, porque cortou em alguma coisa da grama quando ia dar um chute. A cena era mesmo lastimável. Uma pequena tampa de pele saia do pé dele, e eu senti uma pontada no estômago que não sabia se era pela cena, ou pelo rosto dele contraído de dor... Alguém pega uma gaze, alguém pega água oxigenada, traz esparadrapo, segura aqui, calma aí, ai, sssshhhh, dá licença, e pronto, o menino estava de pé, como um saci. Ele não conseguia encostar o pé em nada, muito menos no acelerador do carro e, não teve outro jeito, eu teria de dirigir a caminhonete de volta a São Paulo... Eu, que mal conseguia entrar no tal carro, assumi o volante como se sempre estivesse tido ali. Tentei bancar a corajosa, natural, tranqüila, queria que ele pensasse que eu tinha uma daquelas, que era como dar banana pra macaco, mas não era. O menino teve de me ajudar em várias circunstâncias. E, em uma delas, alguma coisa aconteceu dentro de mim... Estávamos quase chegando a São Paulo, eu tinha de fazer uma curva à direita pra entrar na Av. Pacaembu mas ninguém me dava passagem. Eu tentava entrar, e os carros teimavam em me interromper passando velozmente pela minha direita. Enquanto eu olhava para o espelhinho, numa força danada pra entrar sem bater o carro do cara, ele me olhou e disse: “Pode ir...” Eu fiquei sem-graça e expliquei: “Mas, olha, está cheio de carros, ninguém está deixando” ao que o bonitão sorriu: “Mas você é grande, pode entrar aí, vai, segue, vai que você é grande...”
Era óbvio que ele estava falando da caminhonete. Claro, eu dirigia um quase caminhão como se dirigisse meu Palio, sem perceber que nela eu era maior, poderia entrar que os outros parariam por mim e, ao ouvi-lo dizer: “Pode ir que você é grande” fui tomada por um sentimento tão cheio de grandeza e poder, que poderia estar a pé, e os carros parariam por mim. Achei subitamente que eu era mesmo grande. Não o carro. Eu é que era grande, eu poderia seguir para onde quer que fosse, porque era grande e nada iria me impedir...
Aquele menino lindo-de-morrer, virou meu marido e, muito disso, foi por ter me feito sentir gigante quando eu me achava pequena.
Ainda hoje, quando me sinto insegura, desconfortável, ou até inferiorizada, lembro-me daquele mocinho, apenas um moleque era o meu amor naquela época, mas, tão sabiamente (ou intuitivamente?) já conduzia a companheira dele pelas mãos, incentivando, empurrando para frente, apoiando.
No nosso casamento, vira e mexe discutimos, temos as nossas diferenças, mudamos tanto, todos os dias sempre um pouco mais. No entanto, em qualquer situação, sempre que preciso, recorro àquela voz de menino, àquele rapazote firme que me dizia sorrindo: “Pode ir. Pode ir que você é grande” e, de repente, os obstáculos todos caem por terra. Não há carros que me impeçam. Não há medos que me interrompam. Eu não preciso esperar que os outros me dêem passagem, eu posso seguir adiante, no meu caminho, porque sou grande o bastante e isso aprendi em uma tarde de domingo, com um homem que tinha uma tampa de pele solta em seu pé. Ele me apoiou e eu me apaixonei. E a vida não é simples assim?
Ele me buscou de caminhonete, uma caminhonete enorme que eu tive até medo de não saber entrar direito, tropeçar, bater a cabeça, ou qualquer coisa assim. Aquelas vergonhas de primeiro encontro... Pegamos a estrada juntos, e chegamos lá num esquema apenas-bons-amigos que era uma mentira enorme. Não demorou muito, talvez uma hora, quando aconteceu uma bobagem que, junto a tantas outras bobagens, pode ter mudado nossa história para sempre...
O rapaz estava jogando futebol, enquanto eu comia uma picanha sentada no murinho, entre a mulherada. De repente ouvimos um grito, um urro talvez. Quando me virei vi o meu “amigo” caído no chão, pé sangrando, e uma pequena multidão ao redor dele. Foi um acidente, desses sem maiores danos. Acontece que o moço perdeu um micro pedaço do pé, porque cortou em alguma coisa da grama quando ia dar um chute. A cena era mesmo lastimável. Uma pequena tampa de pele saia do pé dele, e eu senti uma pontada no estômago que não sabia se era pela cena, ou pelo rosto dele contraído de dor... Alguém pega uma gaze, alguém pega água oxigenada, traz esparadrapo, segura aqui, calma aí, ai, sssshhhh, dá licença, e pronto, o menino estava de pé, como um saci. Ele não conseguia encostar o pé em nada, muito menos no acelerador do carro e, não teve outro jeito, eu teria de dirigir a caminhonete de volta a São Paulo... Eu, que mal conseguia entrar no tal carro, assumi o volante como se sempre estivesse tido ali. Tentei bancar a corajosa, natural, tranqüila, queria que ele pensasse que eu tinha uma daquelas, que era como dar banana pra macaco, mas não era. O menino teve de me ajudar em várias circunstâncias. E, em uma delas, alguma coisa aconteceu dentro de mim... Estávamos quase chegando a São Paulo, eu tinha de fazer uma curva à direita pra entrar na Av. Pacaembu mas ninguém me dava passagem. Eu tentava entrar, e os carros teimavam em me interromper passando velozmente pela minha direita. Enquanto eu olhava para o espelhinho, numa força danada pra entrar sem bater o carro do cara, ele me olhou e disse: “Pode ir...” Eu fiquei sem-graça e expliquei: “Mas, olha, está cheio de carros, ninguém está deixando” ao que o bonitão sorriu: “Mas você é grande, pode entrar aí, vai, segue, vai que você é grande...”
Era óbvio que ele estava falando da caminhonete. Claro, eu dirigia um quase caminhão como se dirigisse meu Palio, sem perceber que nela eu era maior, poderia entrar que os outros parariam por mim e, ao ouvi-lo dizer: “Pode ir que você é grande” fui tomada por um sentimento tão cheio de grandeza e poder, que poderia estar a pé, e os carros parariam por mim. Achei subitamente que eu era mesmo grande. Não o carro. Eu é que era grande, eu poderia seguir para onde quer que fosse, porque era grande e nada iria me impedir...
Aquele menino lindo-de-morrer, virou meu marido e, muito disso, foi por ter me feito sentir gigante quando eu me achava pequena.
Ainda hoje, quando me sinto insegura, desconfortável, ou até inferiorizada, lembro-me daquele mocinho, apenas um moleque era o meu amor naquela época, mas, tão sabiamente (ou intuitivamente?) já conduzia a companheira dele pelas mãos, incentivando, empurrando para frente, apoiando.
No nosso casamento, vira e mexe discutimos, temos as nossas diferenças, mudamos tanto, todos os dias sempre um pouco mais. No entanto, em qualquer situação, sempre que preciso, recorro àquela voz de menino, àquele rapazote firme que me dizia sorrindo: “Pode ir. Pode ir que você é grande” e, de repente, os obstáculos todos caem por terra. Não há carros que me impeçam. Não há medos que me interrompam. Eu não preciso esperar que os outros me dêem passagem, eu posso seguir adiante, no meu caminho, porque sou grande o bastante e isso aprendi em uma tarde de domingo, com um homem que tinha uma tampa de pele solta em seu pé. Ele me apoiou e eu me apaixonei. E a vida não é simples assim?
Saturday, June 28, 2008
Eu faço tipo.
Sou uma e faço o maior tipo de que sou outra. Às vezes mais e às vezes menos.
Fato é que quem me conhece de verdade nem consegue imaginar o tipo que eu faço e, ao contrário, quem me conhece fazendo tipo, nunca sonharia o que há por trás.
Sou ingênua e tola, mas faço o maior tipo de espertalhona. É difícil, mas eu faço.
Sou barraqueira e briguenta, mas faço tipo de elegante e comedida.
Sou água minera pura e sem gelo, mas faço um baita tipo de vinho tinto carérrimo.
Adoro crianças e bebês, mas tenho feito tipo de quem é adulta e gosta dos seus semelhantes...
Sou preguiçosa e lenta, mas faço tipo de rápida e ligeira.
Sou tênis e camiseta, mas faço tipo de salto alto e brincão.
Sou TV Fama, mas faço tipo de Jornal Nacional.
Sou falante e prolixa, mas faço um tipão de resguardada e discreta.
Sou religiosa e mística, mas faço o tipo de cientista racional.
Sou sofá com pipoca e M&M, mas faço tipo de maratonista laranjada.
Sou mau-humorada e chata, mas faço tipo de alegrinha e divertida. Ou seria o contrário?
Sou consumista e gastona, mas faço tipo de desapegada. Ou sou mesmo é desapegada é fiquei pobre fazendo tipo?
Sou séria ou faço tipo de séria? Sou tímida ou é puro tipo?
As vezes confundo o tipo com a verdade. O que finjo e o que sou se misturam, e não sei mais o que é casca e o que é essência. Onde foi parar a verdade? Quem foi que trouxe aqui esse tipo?
É quando eu vejo que não há verdade, nem tipo nem mesmo fingimento – ou quase não. O que há, na verdade, é o plural. Existe uma pequena multidão dentro de mim.
Fato é que quem me conhece de verdade nem consegue imaginar o tipo que eu faço e, ao contrário, quem me conhece fazendo tipo, nunca sonharia o que há por trás.
Sou ingênua e tola, mas faço o maior tipo de espertalhona. É difícil, mas eu faço.
Sou barraqueira e briguenta, mas faço tipo de elegante e comedida.
Sou água minera pura e sem gelo, mas faço um baita tipo de vinho tinto carérrimo.
Adoro crianças e bebês, mas tenho feito tipo de quem é adulta e gosta dos seus semelhantes...
Sou preguiçosa e lenta, mas faço tipo de rápida e ligeira.
Sou tênis e camiseta, mas faço tipo de salto alto e brincão.
Sou TV Fama, mas faço tipo de Jornal Nacional.
Sou falante e prolixa, mas faço um tipão de resguardada e discreta.
Sou religiosa e mística, mas faço o tipo de cientista racional.
Sou sofá com pipoca e M&M, mas faço tipo de maratonista laranjada.
Sou mau-humorada e chata, mas faço tipo de alegrinha e divertida. Ou seria o contrário?
Sou consumista e gastona, mas faço tipo de desapegada. Ou sou mesmo é desapegada é fiquei pobre fazendo tipo?
Sou séria ou faço tipo de séria? Sou tímida ou é puro tipo?
As vezes confundo o tipo com a verdade. O que finjo e o que sou se misturam, e não sei mais o que é casca e o que é essência. Onde foi parar a verdade? Quem foi que trouxe aqui esse tipo?
É quando eu vejo que não há verdade, nem tipo nem mesmo fingimento – ou quase não. O que há, na verdade, é o plural. Existe uma pequena multidão dentro de mim.
Saturday, May 24, 2008
Reformas
Dois textos antiiigos, foram deletdos desse blog. Foram deletados por mim mesma, nem sei porque.
Dei uma reformada neles e estou re-postando ambos (logo abaixo). Mas são os mesmos - mesmíssimos - de séculos atrás.
Preciso dar uma renovada não é?
Dei uma reformada neles e estou re-postando ambos (logo abaixo). Mas são os mesmos - mesmíssimos - de séculos atrás.
Preciso dar uma renovada não é?
Sozinha no Rio

Estava passando “O Salvador da Pátria” na época. Segundo a internet isso foi em 1989 e, portanto, eu tinha aproximadamente 10 anos quando o fato se deu.
Aconteceu que meu pai estava trabalhando no Rio de Janeiro por alguns dias, e minha mãe perguntou se eu gostaria de ir ficar com ele. Eu adorei a idéia e, adorei ainda mais, quando disseram que eu iria de avião, sozinha.
O plano era simples, minha mãe me levava ao aeroporto em São Paulo, uma aeroomoça cuidaria de mim até o Rio, onde meu pai estaria me esperando assim que o avião chegasse. Teria sido simples se meu pai fosse uma pessoa simples.
No dia anterior eu já estava ansiosa. Lembro que dormi mal, ou nem dormi e, de manhã, já estava vestindo a boneca que escolhi para levar comigo. Era uma boneca que eu chamava de Luciana. Ela tinha longos cabelos loiros, usava um chapéu branco e vestia um vestido xadrez azul, que combinava com os olhos da mesma cor. Eu invejava a beleza da Luciana e queria tê-la perto de mim, como se a boneca pudesse me passar um pouco da sua graça e estilo.
Foi então que, agarrada à Luciana, encontrei a aeromoça, que se agachou para falar comigo, e pendurou no meu pescoço um enorme crachá que devia ter meu nome, endereço, ou qualquer coisa do tipo. Me despedi da minha mãe, a moça me deu a mão e eu segui com ela pelo corredor que dava acesso à aeronave. Eu a moça e Luciana. Meu coração estava aos pulos, era um mundo novo que se abria ali, naquele corredor livre, apenas nós 3 andando por ele, como se eu pudesse viver assim, com uma desconhecida e uma boneca, o mundo era apenas nosso e eu sentia um misto de ansiedade e medo por perceber, em um instante que eu existia apesar da minha mãe, dos meus 4 irmãos, dos meus novos sobrinhos e de todo o aparato que me cercara durante meus longos 10 anos de idade.
O avião começou a subir e estava absolutamente encantada com as nuvens abaixo de meus olhos, um céu azul que se descobria para mim. O medo estava sendo substiuído por alegria.
Quando me foi servida a comida eu tive, talvez pela primeira vez, o privilégio e a obrigação da escolha. Ninguém escolheria por mim. Eu deveria decidir sozinha o que comer e, enquanto comia, abraçada a minha amiga Luciana, pensei, do alto do céu, que a solidão talvez fosse boa. As nuvens diante de mim, o oceano, toda uma cidade estava nos meus pes, quando eu notei que poderia ser sozinha, que poderia fazer minhas próprias escolhas, você pode ter apenas uma amiga, ela poder ser inanimada e, ainda assim, a vida continuava a existir e eu poderia ser dona da minha.
O avião pousou e a moça me pegou de novo pela mão, eu já não era mais uma menina assustada. Ali, andando com ela e com a Luciana eu me sentia uma adulta, uma mulher emancipada, dona do meu nariz, sentia-me tão cheia de orgulho e alegria, que não consegui me abalar quando percebi que, ao contrário do esperado, meu pai não estava me esperando no aeroporto.
A moça falou qualquer coisa para outra funcionária da compania, as duas se olharam sem graça, quando a aeromoça se agachou mais uma vez e disse sem-jeito: “Olha, seu pai ainda não chegou, mas ele não vai demorar. Você vai esperar com essa outra moça está bem? Eu consenti com a cabeça, e fui levada àquele balcão de atendimento onde as pessoas fazem check-in. Eu estava do lado de dentro do balcão, com os funcionários da Varig, quando um rapaz me indicou uma cadeira. Não era uma cadeira normal como as outras todas. Era uma cadeira alta, bem alta, ele teve que me erguer do chão para que eu pudesse sentar lá, e balançar meus pequenos pés acima de todas as cabeças dos adultos, que estavam de repente muito abaixo de mim. A cadeira, hoje eu vejo, era na verdade uma vitrine. Eu estava exposta no aeroporto, bem no alto, para que todos pudessem me ver. Eu era uma criança perdida, achada em algum lugar e precisaria ficar bem a vista para ser encontrada. Dali, do alto, notei que as pessoas me olhavam com pena. Algumas perguntaram para as atendentes qualquer coisa a meu respeito e elas explicavam que eu estava esperando meu pai. Os adultos me lançavam aquele olhar de pena e de solidariedade, sentindo-se talvez, apavorados por mim. Eu, no entanto, ainda vivia a experiência da solidão com segurança e alegria. Percebia que não deveria estar tão tranquila, mas simplesmente não conseguia deixar de estar bem, não sentia nenhum temor. Talvez eu até tenha feita uma cara de desespero, apenas para me adequar à situação, porque a verdade é que eu estava absolutamente tranquila, segura e feliz. Sabia, dentro do meu coração, que ele viria. Meu pai logo chegaria ali, me pegaria em seu colo, estaria preocupado e eu teria uma história de aventura para contar a todos os meus amigos. Mais uma vez, alguém pediu o nome completo do meu pai, e eu ouvi o som desse nome ecoar por todo aeroporto: “Senhor Dirceu Maciel, sua filha, Ana Carolina, o espera no balcào de atendimento da Varig”. A frase era repetida por muitas vezes, o que me faz pensar que fiquei um bom tempo ali, admirando a vida acontecer sob meus olhos. Eu gostava de ouvir o nome do meu pai sendo ecoado por aquele lugar, o nome que eu havia dito, o nome que, ela só soube porque eu falei. Se eu tivesse dito João da Silva, ela estaria repetindo João da Silva, e eu poderia até rir dela, que ninguém saberia que eu, eu decidira falar uma mentira ou uma verdade, não por medo, nem por receio, nem por angústia, mas porque eu sabia fazer escolhas.
Quase me senti triste, quando, enfim, assisti a careca do meu pai se aproximando ao longe. Como eu previra, ele estava apressado, talvez até preocupado, e me pegou no colo com todo carinho, enquanto se desculpava com as meninas da Varig.
Saímos do aeroporto de mãos dadas: eu, Luciana e meu pai. Quando senti a onda de calor, já na rua, ao lado dele, não soube se o calor vinha de fora ou de dentro de mim.
Foi no Rio de Janeiro que eu senti, pela primera vez na vida, que era uma mulher e que tinha, ao meu lado, um homem de verdade, desses que nos deixam esprando horas, fazem pouco caso da gente, mas, que nos amam loucamente e, por isso, sempre aparecem, apressados, esbaforidos, nos pegam no colo e nos levam pela mão, para nos mostrar que, lá fora, existe mesmo um mundo enorme aos nossos pés.
Pequenos Tiranos
As crianças tendem a se dividir em dois grupos, as muito tolas, ou as muito espertas. Eu era definitivamente da turma das tolas.
E ele? Ele era o rei dos espertos. O líder dos malandros. Era falante, firme, forte e, principalmente cruel. Cruel e vil, como só a infância nos permite ser impunemente.
Seu nome era Caio e fisicamente ele era a imagem, e o símbolo da força. Enquanto os outros meninos ainda eram magricelas e franzinos, ele já era grande, gordo, tinha cabelos cor de fogo e uma voz tão grossa e perturbadora que, a mim, soava como um trovão assustador.
Eu era uma menina feia, magra e pequena com grandes óculos fundos de garrafas, e para piorar, herdei da minha família portuguesa genes fortes de muitos pêlos. Tinha uma sobrancelha espessa e, ainda menina, nascia em mim o que hoje chamamos delicadamente de buço, mas, naquela época, como algozes de minha infância, os meninos bradavam a quatro ventos que eu tinha bigode.
Era quase que um ritual. Eu chegava à escola e ficava quieta, tentando ser invisível, tentando que não me notassem porque essa é a alegria de uma criança tímida: não ser notada. Guardava meu material, apontava o lápis vagarosamente, ajeitava meus óculos e limpava o nariz que sempre teimava em pingar. Era como uma autista nessa minha rotina, quando não via o mundo ao redor, porque acreditava que assim o mundo também não me notaria.
Mas havia sempre um momento de falha. Uma pequena escapulida, uma fração de segundo em que o mundo me chamava atenção, talvez por um papel de carta, talvez por uma música ou por uma professora, mas quanto eu o notava o mundo também me via, e, assim, baixada a cortina invisível que nos separava, estava armado o nosso conflito. Bastava que eu relaxasse e fosse notar uma troca de figurinhas, ou admirar um novo papel de carta, qualquer interação e Caio me notava. Daí por diante, iniciava o meu martírio: Como que para me punir por fazer parte do mundo ao qual eu não pertencia ele iniciava sua tortura diária, com um prazer que só os grandes torturadores devem conhecer. Começava com um sorriso cínico, apontava pra mim e falava para um amigo “Olha lá, aquela bigoduda vendo papel de carta!” Ele ria com os outros, no começo em um tom de voz baixo, logo todos se contagiavam e começavam a rir mais alto, falavam, gritavam e riam. Dos meus óculos, do meu bigode do meu aparelho, de tudo o que eu tinha e que não tinha que ter, de tudo o que eu era e não tinha que ser. Logo, o Caio se multiplicava e os risos ecoavam no pátio do recreio. As meninas costumavam se calar sem-graça, ou disfarçar o riso quando me viam atônita, gaguejando baixo entre eles, uma plebéia feia entre os grandes reis da escola.
Eu tentava desesperadamente responder, tantas vezes respondia mentalmente, mas a voz não me saia pela boca. Eu gaguejava, balbuciava qualquer coisa em voz baixa, para que ninguém entendesse mesmo o que eu dizia, mas, quem sabe assim, pensariam que eu estava revidando e que eu era brava e corajosa como em meus sonhos lindos.
Pois não era. E não fui nunca, senão diante do espelho onde eu fazia caretas enquanto gritava para o Caio imaginário que via no meu reflexo, dizia que ele era gordo e sardento, e que eu o odiava. Fora de lá eu odiava apenas, como também só as crianças podem odiar, e o amava, por admirar nele aquilo tudo que eu queria ser: forte, brava, corajosa. Eu queria que, como ele, todos se calassem enquanto eu falasse e que todos me seguissem no que eu dissesse seja lá o que fosse.
Eu queria deixar de ser tola para ser o rei dos malandros, pular o muro para a turma de lá, fazer parte dos que falavam, dos que gritavam e reinavam. Esse meu desejo cresceu apertado dentro de mim, mas eu nunca me tornei o Caio que eu gostaria de ser. Tornei-me, no entanto, forte.
O que o Caio e os outros pequenos tiranos me ensinaram, foi que, embora eu nunca fosse capaz de revidar, também não morreria nunca dessa dor. Saber que a vida continuava e que meus pêlos cresciam a revelia de um mundo supostamente justo, fez-me forte. Criou em mim estrutura de ferro e cortinas espessas para que eu me isolasse do mundo sempre que fosse preciso. Passei a ouvir os gritos apenas nos primeiros segundos, porém conforme ficavam mais altos, iam desaparecendo da minha mente como se fosse uma música que estava se encerrando. As ofensas que tanto me doeram foram ficando baixinhas, baixinhas, silenciosas, até que se tornaram mudas. Os lábios dos meninos bradavam seus xingamentos, mas eu só os via se movendo e cuspindo. Não mais os escutava, não mais os deixava penetrar em meus ouvidos.
Assim, com o Caio e seus amigos foi que aprendi a me distanciar do mundo. Ainda hoje, quando preciso, torno a voz de alguém uma melodia baixa, que aos poucos vai ficando mais e mais silenciosa, até que suma de todo e eu tenha apenas a benção de um universo mudo ao meu redor.
E ele? Ele era o rei dos espertos. O líder dos malandros. Era falante, firme, forte e, principalmente cruel. Cruel e vil, como só a infância nos permite ser impunemente.
Seu nome era Caio e fisicamente ele era a imagem, e o símbolo da força. Enquanto os outros meninos ainda eram magricelas e franzinos, ele já era grande, gordo, tinha cabelos cor de fogo e uma voz tão grossa e perturbadora que, a mim, soava como um trovão assustador.
Eu era uma menina feia, magra e pequena com grandes óculos fundos de garrafas, e para piorar, herdei da minha família portuguesa genes fortes de muitos pêlos. Tinha uma sobrancelha espessa e, ainda menina, nascia em mim o que hoje chamamos delicadamente de buço, mas, naquela época, como algozes de minha infância, os meninos bradavam a quatro ventos que eu tinha bigode.
Era quase que um ritual. Eu chegava à escola e ficava quieta, tentando ser invisível, tentando que não me notassem porque essa é a alegria de uma criança tímida: não ser notada. Guardava meu material, apontava o lápis vagarosamente, ajeitava meus óculos e limpava o nariz que sempre teimava em pingar. Era como uma autista nessa minha rotina, quando não via o mundo ao redor, porque acreditava que assim o mundo também não me notaria.
Mas havia sempre um momento de falha. Uma pequena escapulida, uma fração de segundo em que o mundo me chamava atenção, talvez por um papel de carta, talvez por uma música ou por uma professora, mas quanto eu o notava o mundo também me via, e, assim, baixada a cortina invisível que nos separava, estava armado o nosso conflito. Bastava que eu relaxasse e fosse notar uma troca de figurinhas, ou admirar um novo papel de carta, qualquer interação e Caio me notava. Daí por diante, iniciava o meu martírio: Como que para me punir por fazer parte do mundo ao qual eu não pertencia ele iniciava sua tortura diária, com um prazer que só os grandes torturadores devem conhecer. Começava com um sorriso cínico, apontava pra mim e falava para um amigo “Olha lá, aquela bigoduda vendo papel de carta!” Ele ria com os outros, no começo em um tom de voz baixo, logo todos se contagiavam e começavam a rir mais alto, falavam, gritavam e riam. Dos meus óculos, do meu bigode do meu aparelho, de tudo o que eu tinha e que não tinha que ter, de tudo o que eu era e não tinha que ser. Logo, o Caio se multiplicava e os risos ecoavam no pátio do recreio. As meninas costumavam se calar sem-graça, ou disfarçar o riso quando me viam atônita, gaguejando baixo entre eles, uma plebéia feia entre os grandes reis da escola.
Eu tentava desesperadamente responder, tantas vezes respondia mentalmente, mas a voz não me saia pela boca. Eu gaguejava, balbuciava qualquer coisa em voz baixa, para que ninguém entendesse mesmo o que eu dizia, mas, quem sabe assim, pensariam que eu estava revidando e que eu era brava e corajosa como em meus sonhos lindos.
Pois não era. E não fui nunca, senão diante do espelho onde eu fazia caretas enquanto gritava para o Caio imaginário que via no meu reflexo, dizia que ele era gordo e sardento, e que eu o odiava. Fora de lá eu odiava apenas, como também só as crianças podem odiar, e o amava, por admirar nele aquilo tudo que eu queria ser: forte, brava, corajosa. Eu queria que, como ele, todos se calassem enquanto eu falasse e que todos me seguissem no que eu dissesse seja lá o que fosse.
Eu queria deixar de ser tola para ser o rei dos malandros, pular o muro para a turma de lá, fazer parte dos que falavam, dos que gritavam e reinavam. Esse meu desejo cresceu apertado dentro de mim, mas eu nunca me tornei o Caio que eu gostaria de ser. Tornei-me, no entanto, forte.
O que o Caio e os outros pequenos tiranos me ensinaram, foi que, embora eu nunca fosse capaz de revidar, também não morreria nunca dessa dor. Saber que a vida continuava e que meus pêlos cresciam a revelia de um mundo supostamente justo, fez-me forte. Criou em mim estrutura de ferro e cortinas espessas para que eu me isolasse do mundo sempre que fosse preciso. Passei a ouvir os gritos apenas nos primeiros segundos, porém conforme ficavam mais altos, iam desaparecendo da minha mente como se fosse uma música que estava se encerrando. As ofensas que tanto me doeram foram ficando baixinhas, baixinhas, silenciosas, até que se tornaram mudas. Os lábios dos meninos bradavam seus xingamentos, mas eu só os via se movendo e cuspindo. Não mais os escutava, não mais os deixava penetrar em meus ouvidos.
Assim, com o Caio e seus amigos foi que aprendi a me distanciar do mundo. Ainda hoje, quando preciso, torno a voz de alguém uma melodia baixa, que aos poucos vai ficando mais e mais silenciosa, até que suma de todo e eu tenha apenas a benção de um universo mudo ao meu redor.
Monday, May 12, 2008
Como eu ainda não conhecia essa música?
Canção para quando você voltar
(Leoni (para Herbert Viana))
Quando o sol de cada dia entrar
Chamando por você
Querendo te acordar
Vai ter sempre alguém pra receber
Dizer pra esperar
Você já vai chegar
Alguém pra olhar a casa
E alguém que regue o seu jardim
Até você voltar
E como é normal acontecer
Se num entardecer
A dor te visitar
Vai ter sempre álguem pra socorrer
Fazer o seu jantar
Dormir no seu sofá
Enquanto a noite passa por mim
Eu rego o seu jardim
Você já vai voltar
(Leoni (para Herbert Viana))
Quando o sol de cada dia entrar
Chamando por você
Querendo te acordar
Vai ter sempre alguém pra receber
Dizer pra esperar
Você já vai chegar
Alguém pra olhar a casa
E alguém que regue o seu jardim
Até você voltar
E como é normal acontecer
Se num entardecer
A dor te visitar
Vai ter sempre álguem pra socorrer
Fazer o seu jantar
Dormir no seu sofá
Enquanto a noite passa por mim
Eu rego o seu jardim
Você já vai voltar
Sunday, May 4, 2008
Da loucura do mundo
Saí aqui com essa daí.
"O mundo está louco." Foi durante um almoço, que, de repente, meu colega de trabalho soltou essa pérola, tão comum, quase corriqueira. Ninguém deu muita bola pra ele e a conversa continou normal. Antes de dar outra garfada na salada, no entanto, ele murmurou mais uma vez: “Louco. O mundo está louco...”
Embora ninguém tenha notado a frase solta do meu conhecido, eu me ausentei daquela conversa banal por alguns segundos e me ative ao que ele dissera. O mundo está louco. Louco de pedra. Maluco, absurdo. O mundo, meus amigos, pirou. Isso me pareceu, de repente, a coisa mais sensata que ouvi nos últimos meses. A coisa mais sensata entre todas. Por um instante, me senti acolhida e compreendida por aquele colega de trabalho, cujo nome eu nem me lembro bem. Mas ele me compreendia. O mundo está louco.
Eu tentei dizer isso para o meu marido, alguns dias antes, mas ele não concordou. Estávamos no trânsito que pegamos quando voltamos do nosso trabalho e, depois de uma hora dentro do carro, quando ainda não estávamos nem na metade do caminho, eu murmurei: “Está tudo errado”. Ele não entendeu. Tentei explicar que não poderia ser certo ter uma multidão ali, aprisionada entre os carros, todos absolutamente parados, por mais de uma hora, passivos, sem que ninguém se rebelasse. Sem que ninguém saísse do carro aos berros, sem que ninguém subisse no capô, sem que ninguém, nenhum carro ao lado, estivesse se descabelando.
Meu marido achou que a louca era eu e iniciamos uma disucssão. Antes de chegarmos na metade da discussão, eu me pus a chorar... Chorei porque me senti, subitamente, incompreendida. Como poderia ser normal passar tanto da vida ali, entre os carros? Como não pedimos demissão, como não largamos tudo, como não vamos morar em uma casinha de sapê, na beira de qualquer rio? Ou então, que seja, como não vamos morar em uma árvore, na selva, como éramos antes, porque talvez fôssemos mais sentatos quando éramos gorilas?
Não, claro que não, porque isso é ser louca. A resposta estava clara, eu era louca porque eu, chorando pelas horas que perco no trânsito, sou a fora da curva, a estranha, a maluca, claro. O normal é aumentar o som, cantarolar, tavez xingar com os vidros fechados, nem sei. Nem tenho como saber, porque eu sou pirada, meus amigos. Louquinha. De pedra.
Depois aconteceu de novo, um dia desses, quando uma amiga me confidenciou que pôs botox. Na testa. Disse que é uma agulha fina, lá, direto na testa. E incha, dói, fica vermelho, roxo, nem lembro. Parei de ouvir em algum momento da conversa e refleti que minha amiga, tão querida pobrezinha, enlouquecera. Claro, só uma pessoa louca poderia se mutilar assim e, ainda por cima, pagar uma fortuna por isso. Minha amiga é jovem, linda, rica, mas é louca, a coitada. Eu não soube como dizer isso a ela, mas, em seguida, quando o restante das amigas começou a contar das plásticas, das agulhas, dos cortes, eu fiquei sem-graça e notei, mais uma vez, que eu era a louca.
Meu Deus, eu sou absolutamente louca. Sou louca de aturar a minha barriga molenga sem fazer nada contra isso. Sempre achei que barriga normal era barriga assim, meio salientezinha, como a natureza a fizera, oras. A natureza não produz barrigas chapadas, não. São os exercícios, os pesos, os remédios, as tesouras que as fazem. A natureza faz aquela barriguinha que, com o tempo, vai ficando curva, mole, barriga das loucas essa, né? Sim. Essa é a barriga das loucas, portanto, soy jo. Sou louca de comer um balde de M&M, sou louca de permitir, absolutamente passiva, que meus peitos caiam desenfreadamente. Sou louca, mais uma vez confirmei isso.
E depois ainda teve o caso da menina que os pais mataram - ou sei lá se mataram. Depois os loucos que ficam na frente do prédio deles, jogando pedras. Ah! não, louca sou eu que ainda penso que, quem sabe, os pais podem afinal não ter matado a própria filha.
E tem o padre que voou pendurado à balões, tem os políticos, tem o cara que teve filhos com a própria filha (foi isso mesmo?), tem os roubos, as mentiras, as traições, as crianças fazendo malabarismo nos sinais, meu Deus, como eu me sentia sozinha às vezes, até aquele momento. Até aquele momento em que um quase desconhecido trouxe a mim a frase que era um bálsamo. Era isso: o mundo está louco. Eu não, eu não. Eu estou livre, eu sou normal. Estou por fora, sou gordinha, enrugada, velha, estressada, mas, ai, ufa, sou normal. O mundo, esse sim, está louco. Piradão. Mundo-louco. Eu-normal.
Alguém aí me acompanha?
"O mundo está louco." Foi durante um almoço, que, de repente, meu colega de trabalho soltou essa pérola, tão comum, quase corriqueira. Ninguém deu muita bola pra ele e a conversa continou normal. Antes de dar outra garfada na salada, no entanto, ele murmurou mais uma vez: “Louco. O mundo está louco...”
Embora ninguém tenha notado a frase solta do meu conhecido, eu me ausentei daquela conversa banal por alguns segundos e me ative ao que ele dissera. O mundo está louco. Louco de pedra. Maluco, absurdo. O mundo, meus amigos, pirou. Isso me pareceu, de repente, a coisa mais sensata que ouvi nos últimos meses. A coisa mais sensata entre todas. Por um instante, me senti acolhida e compreendida por aquele colega de trabalho, cujo nome eu nem me lembro bem. Mas ele me compreendia. O mundo está louco.
Eu tentei dizer isso para o meu marido, alguns dias antes, mas ele não concordou. Estávamos no trânsito que pegamos quando voltamos do nosso trabalho e, depois de uma hora dentro do carro, quando ainda não estávamos nem na metade do caminho, eu murmurei: “Está tudo errado”. Ele não entendeu. Tentei explicar que não poderia ser certo ter uma multidão ali, aprisionada entre os carros, todos absolutamente parados, por mais de uma hora, passivos, sem que ninguém se rebelasse. Sem que ninguém saísse do carro aos berros, sem que ninguém subisse no capô, sem que ninguém, nenhum carro ao lado, estivesse se descabelando.
Meu marido achou que a louca era eu e iniciamos uma disucssão. Antes de chegarmos na metade da discussão, eu me pus a chorar... Chorei porque me senti, subitamente, incompreendida. Como poderia ser normal passar tanto da vida ali, entre os carros? Como não pedimos demissão, como não largamos tudo, como não vamos morar em uma casinha de sapê, na beira de qualquer rio? Ou então, que seja, como não vamos morar em uma árvore, na selva, como éramos antes, porque talvez fôssemos mais sentatos quando éramos gorilas?
Não, claro que não, porque isso é ser louca. A resposta estava clara, eu era louca porque eu, chorando pelas horas que perco no trânsito, sou a fora da curva, a estranha, a maluca, claro. O normal é aumentar o som, cantarolar, tavez xingar com os vidros fechados, nem sei. Nem tenho como saber, porque eu sou pirada, meus amigos. Louquinha. De pedra.
Depois aconteceu de novo, um dia desses, quando uma amiga me confidenciou que pôs botox. Na testa. Disse que é uma agulha fina, lá, direto na testa. E incha, dói, fica vermelho, roxo, nem lembro. Parei de ouvir em algum momento da conversa e refleti que minha amiga, tão querida pobrezinha, enlouquecera. Claro, só uma pessoa louca poderia se mutilar assim e, ainda por cima, pagar uma fortuna por isso. Minha amiga é jovem, linda, rica, mas é louca, a coitada. Eu não soube como dizer isso a ela, mas, em seguida, quando o restante das amigas começou a contar das plásticas, das agulhas, dos cortes, eu fiquei sem-graça e notei, mais uma vez, que eu era a louca.
Meu Deus, eu sou absolutamente louca. Sou louca de aturar a minha barriga molenga sem fazer nada contra isso. Sempre achei que barriga normal era barriga assim, meio salientezinha, como a natureza a fizera, oras. A natureza não produz barrigas chapadas, não. São os exercícios, os pesos, os remédios, as tesouras que as fazem. A natureza faz aquela barriguinha que, com o tempo, vai ficando curva, mole, barriga das loucas essa, né? Sim. Essa é a barriga das loucas, portanto, soy jo. Sou louca de comer um balde de M&M, sou louca de permitir, absolutamente passiva, que meus peitos caiam desenfreadamente. Sou louca, mais uma vez confirmei isso.
E depois ainda teve o caso da menina que os pais mataram - ou sei lá se mataram. Depois os loucos que ficam na frente do prédio deles, jogando pedras. Ah! não, louca sou eu que ainda penso que, quem sabe, os pais podem afinal não ter matado a própria filha.
E tem o padre que voou pendurado à balões, tem os políticos, tem o cara que teve filhos com a própria filha (foi isso mesmo?), tem os roubos, as mentiras, as traições, as crianças fazendo malabarismo nos sinais, meu Deus, como eu me sentia sozinha às vezes, até aquele momento. Até aquele momento em que um quase desconhecido trouxe a mim a frase que era um bálsamo. Era isso: o mundo está louco. Eu não, eu não. Eu estou livre, eu sou normal. Estou por fora, sou gordinha, enrugada, velha, estressada, mas, ai, ufa, sou normal. O mundo, esse sim, está louco. Piradão. Mundo-louco. Eu-normal.
Alguém aí me acompanha?
Saturday, April 26, 2008
Pede pra sair

Era um dia de sol, quando, há mais 4 anos, fui fazer a última entrevista para uma vaga dos sonhos, numa empresa também dos sonhos.
Lembro-me com nitidez da minha tensão, um misto de alegria e ansiedade me invadiram quando avistei o grande prédio envidraçado. Eu dirigia com pressa o meu palio vermelho e logo que achei um estacionamento, entrei. Quando fui encostar o carro, já dentro da garagem, ouvi uma pancada. O manobrista que vinha na minha direção, levou as mãos à cabeça e soltou um daqueles “viiiiixi”, que confirmou o que eu previra: a pancada era do meu carro, batendo na mureta baixa que eu não tinha notado.
Antes que ele dissesse qualquer coisa eu desci do carro e falei: “Moço, não fala nada, não quero nem ver essa batida! Arrume o carro pra mim, por favor, que eu vou ali ter uma notícia boa e já volto!”. Saí em disparada pela rua, ajeitando o cabelo, a roupa e a vida.
Não levou nenhuma hora dentro do prédio e eu voltava com um papel na mão. A proposta de emprego que eu tanto queria, um salário bom, e a empresa dos meus sonhos, tudo ali, naquela folha de papel que eu levava nas mãos, com a minha assinatura validando o stress, a ansiedade, os perrengues e os foras de uma carreira ainda curta, mas que agora, enfim, iria de fato criar asas.. Eu era o retrato de uma enorme alegria e empolgação. A batida no carro não tinha a menor importância e o manobrista, certamente, nunca viu alguém tão feliz, logo após amassar o seu carro novo.
Hoje, o sol também estava quente quando passei na frente daquele mesmo estacionamento e me dirigi ao outro, na rua ao lado, exclusivo para de funcionários no qual parei tantos e tantos dias nesses 4 anos e meio. Dessa vez, eu também carregava um papel que também continha a minha assintaura. Dessa vez eu assinava algumas frustrações, muitas conversas inúteis e, sobretudo, parágrafos e parágrafos de coragem. Dessa vez, o papel era minha carta de demissão.
Talvez pelo tempo, talvez pela luz que cegava meus olhos, mas quando desci do carro e atravessei a porta de vidro, senti um gelo no estômago. O primeiro desde que eu tomara a decisão. Respirei fundo, passei meu velho crachá na catraca e chamei o elevador.
Quando me vi ali diante do meu chefe que, curiosamente foi o mesmo que me contratou, as palavras que eu tinha decorado, todas fugiram de minha boca. Por um instante fiquei muda e assisti aos meus próprios passos ali. Naquele mesmo escritório.
Em outros dias, em outros tempos. Entrando em um projeto, saindo de um projeto, aceitando um cargo diferente, participando de uma reunião chata, prendendo os lábios para não chorar depois de um feed-back honesto, mordendo as bochchas para não sorrir depois de outro feed-back, também honesto, falando alto, para todos, que eu iria me casar, que iria viajar, que iria me mudar, que iria arrancar um dente, que iria fazer uma cirurgia, que iria comprar uma bolsa, almoçar, ou começar um regime. O que quer que tenha sido, essas lembranças invadiram a minha memória em um momento nada apropriado. Precisei concentrar-me para voltar ao momento e, fazendo força para não demonstrar tremor na voz, comecei o meu discurso.
Foi uma conversa difícil. Eu não saí sorridente e saltitante. Meu carro estava inteiro quando voltei ao estacionamento mas isso também não fazia a menor diferença.
Eu sempre digo que a vida muda mas, naquela manha ensolarada, descobri que estava errada. A vida não muda nada. Nem um tico. Somos nós que, quando queremos, mudamos. Somos nós que andamos de uma ponta a outra, mesmo se nossos pés estão calejados. Somos nós que crescemos, tentamos, acertamos e erramos, mesmo quando se sente o corpo paralisado.
Eu não sou boa nisso. Nunca me considerei uma pessoa muito corajosa. Morei mais de 20 anos no mesmo lugar e estudei toda a minha vida num único lugar também. Fazer uma rota alternativa para fugir do trânsito já é um transtorno. Não sou boa com rotas alternativas. Não sou boa em sair da rota usual, mas a vida - que fica parada por anos a fio - nos dá, todos os dias, a chance de mudar. Nos mostra estradas diferentes, caminhos diversos, uma gama enorme de possibilidades que só não vemos se fecharmos os olhos com força. Naquele dia de sol, eu troquei meu caminho. Precisei de uma dose extra de coragem, de um impulso forte para me levantar do sofá confortável no qual eu poderia passar a minha vida inteira deitada.
Foi um passo difíçil de dar. Tão difícil que, agora, as horas passadas, ainda pesa em meu coração o seu impacto.
Não sei se tomei a decisão certa. Talvez eu nunca saiba. Mas fazer uma escolha, ainda que errada, me pareceu um caminho melhor do que deixar, mais uma vez, que o tempo decidisse – sozinho - por mim.
Sunday, March 30, 2008
As não-escolhas de cada um
A vida é feita de escolhas. Dizem. E deveria ser, hipoteticamente. No entanto, dia após dia, a vida se forma por caminhos novos ao quais, as vezes, sequer notamos, muito menos escolhemos.
A vida se forma, para alguns – talvez a maioria – de não escolhas.
As escolhas que não fazemos, a atitude que não tomamos, o telefonema que não atendemos.
A vida se faz do dia-adia, do acordar e dormir, de coisas práticas como contas a pagar, problemas a resolver e esse mar de burocracias e necessidades diárias é que são as nossas escolhas, às avessas, porque não nos damos conta.
Talvez por isso, nos transformamos em algo tão diferente do previsto. Talvez por isso, quando vemos estamos em um lugar não antes programado, nada planejado, talvez, nunca nem sonhado.
Há tanto a se fazer no dia-a-dia, que quem é que tem tempo de pensar em escolhas? Precisamos renovar a carteira de motorista, fazer comida, limpar atrás do armário, consertar a televisão, trocar de celular, pedir nota fiscal, dar banho no cachorro, precisamos sempre perder uns quilos, comprar um sapato ou parar de fumar...
E é assim que formamos a nossa vida. Não porque escolhemos ser analista de crédito mas porque, um dia, alguém te deu uma ficha pra preencher e você preencheu. Não porque escolheu ser isso, mas porque não escolheu ser outra coisa. Não escolhemos ser quem somos, simplesmente precisamos fazer alguma coisa e quando não entramos para o curso de teatro é que decidimos que talvez, sejamos analista de crédito, ou caixa de banco, ou vendedora de loja, ou qualquer coisa assim.
Entramos numa faculdade que escolhemos? Não. Entramos na que deu, naquilo que ia ser mais ou menos acessível, mais ou menos bom, viável.
Conheço tanta gente que queria ser atriz, cantora, astronauta, mas, ao invés de escolherem isso não escolheram nada e, por isso, viraram donas de loja, empresárias, psicólogas... Talvez de sucesso, inclusive. Muitas vezes as não escolhas foram boas, o acaso pode ter sido generoso, e mesmo que você não tenha remado o vento pode te levar para um lugar bom. Ou não. Ou acordamos um dia, provavelmente perto dos 30 ou dos 40 e notamos que enquanto esperávamos a vida começar, ela já andou, está quase na metade e, opa, quem foi que dirigiu esse filme? Ninguém. Não houve direção, roteiro nem coreográfa. Você viveu e não teve tempo de escolher. Essas não escolhas, todas, foram a sua escolha e você não viu.
Não acontece com todo mundo. Há os que escolhem e insistem. Fazem uma força danada, escolhem seu próprio destino, batalham por ele com afinco e, normalmente, se tornam admiráveis. Mas são poucos.
Normalmente, vivemos sem escolher. Não escolhemos tentar mil vezes fazer teste na globo, não escolhemos viver de teatro, não escolhemos mandar uma carta para a nasa, não escolhemos juntar dinheiro e ir para a França. Não escolhemos o que queríamos e, dessas não-escolhas, é que se forma a nossa vida, boa ou má, pacata ou movimentada, não importa.
As suas escolhas são as suas não escolhas, e seus dias não serão ditados pelo que você sempre quis, pelos seus maiores sonhos ou anseios. A sua vida será ditada pelas coisas que deixou de fazer, pela preguiça de ir na academina, pela comodidade da sua cidadezinha, ou pela delícia que é pipoca-tv e namorado, mesmo que ele, também não seja lá essas coisas mas foi, afinal de contas, quem cruzou o seu caminho bem naquele dia, bem naquela chuva, bem numa sexta-feira....
A vida se forma, para alguns – talvez a maioria – de não escolhas.
As escolhas que não fazemos, a atitude que não tomamos, o telefonema que não atendemos.
A vida se faz do dia-adia, do acordar e dormir, de coisas práticas como contas a pagar, problemas a resolver e esse mar de burocracias e necessidades diárias é que são as nossas escolhas, às avessas, porque não nos damos conta.
Talvez por isso, nos transformamos em algo tão diferente do previsto. Talvez por isso, quando vemos estamos em um lugar não antes programado, nada planejado, talvez, nunca nem sonhado.
Há tanto a se fazer no dia-a-dia, que quem é que tem tempo de pensar em escolhas? Precisamos renovar a carteira de motorista, fazer comida, limpar atrás do armário, consertar a televisão, trocar de celular, pedir nota fiscal, dar banho no cachorro, precisamos sempre perder uns quilos, comprar um sapato ou parar de fumar...
E é assim que formamos a nossa vida. Não porque escolhemos ser analista de crédito mas porque, um dia, alguém te deu uma ficha pra preencher e você preencheu. Não porque escolheu ser isso, mas porque não escolheu ser outra coisa. Não escolhemos ser quem somos, simplesmente precisamos fazer alguma coisa e quando não entramos para o curso de teatro é que decidimos que talvez, sejamos analista de crédito, ou caixa de banco, ou vendedora de loja, ou qualquer coisa assim.
Entramos numa faculdade que escolhemos? Não. Entramos na que deu, naquilo que ia ser mais ou menos acessível, mais ou menos bom, viável.
Conheço tanta gente que queria ser atriz, cantora, astronauta, mas, ao invés de escolherem isso não escolheram nada e, por isso, viraram donas de loja, empresárias, psicólogas... Talvez de sucesso, inclusive. Muitas vezes as não escolhas foram boas, o acaso pode ter sido generoso, e mesmo que você não tenha remado o vento pode te levar para um lugar bom. Ou não. Ou acordamos um dia, provavelmente perto dos 30 ou dos 40 e notamos que enquanto esperávamos a vida começar, ela já andou, está quase na metade e, opa, quem foi que dirigiu esse filme? Ninguém. Não houve direção, roteiro nem coreográfa. Você viveu e não teve tempo de escolher. Essas não escolhas, todas, foram a sua escolha e você não viu.
Não acontece com todo mundo. Há os que escolhem e insistem. Fazem uma força danada, escolhem seu próprio destino, batalham por ele com afinco e, normalmente, se tornam admiráveis. Mas são poucos.
Normalmente, vivemos sem escolher. Não escolhemos tentar mil vezes fazer teste na globo, não escolhemos viver de teatro, não escolhemos mandar uma carta para a nasa, não escolhemos juntar dinheiro e ir para a França. Não escolhemos o que queríamos e, dessas não-escolhas, é que se forma a nossa vida, boa ou má, pacata ou movimentada, não importa.
As suas escolhas são as suas não escolhas, e seus dias não serão ditados pelo que você sempre quis, pelos seus maiores sonhos ou anseios. A sua vida será ditada pelas coisas que deixou de fazer, pela preguiça de ir na academina, pela comodidade da sua cidadezinha, ou pela delícia que é pipoca-tv e namorado, mesmo que ele, também não seja lá essas coisas mas foi, afinal de contas, quem cruzou o seu caminho bem naquele dia, bem naquela chuva, bem numa sexta-feira....
Friday, March 28, 2008
Da série cartas que eu nem lembrava mais...
21/04/2004
Querido amigo,
Hoje faz um ano que nós terminamos. Nós terminamos um com o outro mas eu, senti-me terminar comigo mesma, com meus sonhos. Senti-me ruir, desmanchar, virar pó diante do vazio que minha vida estaria se tornando.
Lembro-me, como se fosse ontem, da sensação doída que tive quando desci daquele carro. Aos prantos entrei no elevador, aos prantos fechei a porta do meu quarto e, com mais lágrimas do que meu rosto podia suportar, rezei baixinho pedindo a Deus que Ele fizesse um ano se passar, para que eu abrisse os olhos e tivesse diante de mim 21 de abril de 2004, porque achava que talvez, apenas talvez, doesse um pouco menos quando não estivesse mais ali, aquele dia, aquele sol, aquele quarto, aquele cheiro, todo aquele vazio enorme, como se eu estivesse cega e só enxergasse branco....
Ah meu bem, quanta dor caberia dentro de mim ainda, e eu não sabia.
Como foram sofridas as horas que se passaram, as semanas, os meses. Lentos, arrastados, doentes.
Por tantas vezes eu achei que o tal do um ano não passaria nunca. Parecia que não cessaria a dor, não importando se amanhecia ou se anoitecia, se era primavera ou verão. Dentro de mim, um longo inverno surgiu.
Mas hoje, nem sei bem como explicar, passou.
Hoje sinto-me respirar de novo, e vejo a vida acontecendo junto com meus dias, não sou mais mera expectadora, faço parte das escolhas e das omissões de meu tempo.
Tenho, cada dia um pouco mais, certeza da decisão que tomei, firmeza no caminho que escolhi e uma certa alegria por ter feito assim.
Parece que passou o amor, ou, sei lá, aquilo a que eu chamava de amor... passou a angústia e a saudade, aquele incômodo de dor que permeava meus dias, quando eu nunca sabia se você voltaria, ou para onde iria. Hoje, percebo que você não cabe mais nos meus planos, mesmo que eu não os conheça tão bem. Você não cabe, nunca coube, na minha rotina, no meu dia-a-dia, nas minhas bobagens e nem nas minhas grandezas. Hoje, só hoje, enxergo que éramos diferentes, e que não nos encaixaríamos. Como esses jogos de criança, o Lego ou qualquer coisa assim. Você é a peça redonda e eu o buraco quadrado. Estávamos sempre a nos quebrar, a nos forçar, a nos mutilar porque queríamos o encaixe perfeito, queríamos ser a peça certa um para o outro, e por mais que nos iludíssemos que estava acontecendo, era mentira. Não seríamos nunca. A não ser que nos abandonássemos, ou nos espatifássemos em pequenos pedaços. Aí não seríamos nós, não seria eu, a menina sonhadora, não seria você, o cara independente.
E não, não estava disposta a esse amor a qualquer custo. Até porque, olhando hoje com olhos sãos, não era tanta coisa assim que você me oferecia. Não era tão grande a recompensa.
Eu tive meus erros e meus acertos, mas arrependo-me. Não me arrependo dos erros, ao contrário, deveria ter errado mais para que acabássemos antes. Arrependo-me, querido, de ter-lhe dedicado tanto dos meus dias, do meu tempo, dos meus sonhos mais doces. Arrependo-me de ter te oferecido o meu melhor em bandeja de ouro, ainda sabendo que não receberia um copo d’água sequer...
É, os arrependimentos e as mágoas que não se esvairam de todo. Por isso sei, não passou tudo. Foi-se embora o amor e a dor, mas ficou também a estranheza. Ah essa estranheza que só sentem os ex-amantes, os amores do passado, aqueles que amaram tanto a um outro e esse outro, que antes era sonho, hoje, tem de dividir espaço na ala dos mortais, dos chatos, talvez...
É querido, eu vivo com você, a estranheza. Porque não houve quem eu amasse tanto, não tinha havido ninguém a quem eu me entregasse tanto e, apesar de saber o que te faz tremer, te cumprimento com dois beijinhos, como o estranho ao lado. Sinto-me eu a estranha diante de tamanha contradição. Hoje, sei sobre você tudo. E ao mesmo tempo, não sei nada. Dividi com você, tudo. E agora, nego um gole do refrigerante porque fico com vergonha.
Essa estranheza me acompanha cada vez que ouço aí dizer que viram você. Com o novo amor ou sem, não importa. As perguntas permanecem: Para onde foram nossas noites? Em que lugar do tempo ficou guardado nossos corpos cansados, nossos segredos trocados, nossas pernas embaraçadas, os sussurrus, as lágrimas, ah... as incontáveis lágrimas que molharam seu ombro... o que houve com elas? O que houve comigo? O que houve conosco?
A estranheza caminha comigo, lado a lado, mas não me dói...
Me ensina apenas que a vida é assim, que os momentos são sempre efêmeros e estão indo embora por entre os dedos, o tempo todo. Logo que existem, deixam de existir...
Querido amigo, hoje faz um ano que enchi meus olhos d’água, senti meu corpo tremer de medo e meu coração explodir em dor....hoje, faz um ano que tomei a decisão certa.
Sei que você mudou. Notei que seus cabelos diminuiram, seu sorriso iluminou-se um pouco mais, seu corpo emagreceu e engordou e emagreceu de novo. Ouvi dizer que você mudou de emprego, comprou uma camisa, ficou gripado, tratou o canal....
Eu também mudei. De emprego, de casa, de roupa, de blog. Engordei, arranquei 3 dentes, troquei de carro, cortei o cabelo, tive sinosite, tomei uma ou duas multas e chorei no trabalho. Mas você não soube....eu achei que saberíamos tudo um do outro. Mas não sabemos mais...
E a falta que sinto não é de notícas suas. É, as vezes, de notícias minhas, de lembranças minhas, de sonhos meus, que foram atropelados aí nesse caminho por onde andei ao seu lado.
Mas não importa agora.
Um ano se passou e meu coração se encanta de novo com a vida. Com o tanto de gente que há no mundo, com as tentativas que tive, com as cores todas que existem, e com cada dia que amanhece diante de mim...
Você teve um papel importante, e te agradeço por tê-lo feito como pôde. Mal, muitas vezes. Mas eficiente para me mostrar que deve haver um bem, em algum lugar, de algum outro jeito.
Obrigada querido, por ter sido meu primeiro amor, meu grande amigo, meu fiel amante, meu desleixado companheiro, meu carrasco, e minha cura.
O tempo faz coisas. Tem feito e tem refeito.
Me derrubou e me ergueu. Agora, de pé, sinto-me tão forte que não temo mais.
Que ele, o tempo, funcione em você assim também, sendo fogo brando e sendo incêndio, com a força e com a calma com que fez comigo.
É o que desejo, sinceramente,
Ana
Querido amigo,
Hoje faz um ano que nós terminamos. Nós terminamos um com o outro mas eu, senti-me terminar comigo mesma, com meus sonhos. Senti-me ruir, desmanchar, virar pó diante do vazio que minha vida estaria se tornando.
Lembro-me, como se fosse ontem, da sensação doída que tive quando desci daquele carro. Aos prantos entrei no elevador, aos prantos fechei a porta do meu quarto e, com mais lágrimas do que meu rosto podia suportar, rezei baixinho pedindo a Deus que Ele fizesse um ano se passar, para que eu abrisse os olhos e tivesse diante de mim 21 de abril de 2004, porque achava que talvez, apenas talvez, doesse um pouco menos quando não estivesse mais ali, aquele dia, aquele sol, aquele quarto, aquele cheiro, todo aquele vazio enorme, como se eu estivesse cega e só enxergasse branco....
Ah meu bem, quanta dor caberia dentro de mim ainda, e eu não sabia.
Como foram sofridas as horas que se passaram, as semanas, os meses. Lentos, arrastados, doentes.
Por tantas vezes eu achei que o tal do um ano não passaria nunca. Parecia que não cessaria a dor, não importando se amanhecia ou se anoitecia, se era primavera ou verão. Dentro de mim, um longo inverno surgiu.
Mas hoje, nem sei bem como explicar, passou.
Hoje sinto-me respirar de novo, e vejo a vida acontecendo junto com meus dias, não sou mais mera expectadora, faço parte das escolhas e das omissões de meu tempo.
Tenho, cada dia um pouco mais, certeza da decisão que tomei, firmeza no caminho que escolhi e uma certa alegria por ter feito assim.
Parece que passou o amor, ou, sei lá, aquilo a que eu chamava de amor... passou a angústia e a saudade, aquele incômodo de dor que permeava meus dias, quando eu nunca sabia se você voltaria, ou para onde iria. Hoje, percebo que você não cabe mais nos meus planos, mesmo que eu não os conheça tão bem. Você não cabe, nunca coube, na minha rotina, no meu dia-a-dia, nas minhas bobagens e nem nas minhas grandezas. Hoje, só hoje, enxergo que éramos diferentes, e que não nos encaixaríamos. Como esses jogos de criança, o Lego ou qualquer coisa assim. Você é a peça redonda e eu o buraco quadrado. Estávamos sempre a nos quebrar, a nos forçar, a nos mutilar porque queríamos o encaixe perfeito, queríamos ser a peça certa um para o outro, e por mais que nos iludíssemos que estava acontecendo, era mentira. Não seríamos nunca. A não ser que nos abandonássemos, ou nos espatifássemos em pequenos pedaços. Aí não seríamos nós, não seria eu, a menina sonhadora, não seria você, o cara independente.
E não, não estava disposta a esse amor a qualquer custo. Até porque, olhando hoje com olhos sãos, não era tanta coisa assim que você me oferecia. Não era tão grande a recompensa.
Eu tive meus erros e meus acertos, mas arrependo-me. Não me arrependo dos erros, ao contrário, deveria ter errado mais para que acabássemos antes. Arrependo-me, querido, de ter-lhe dedicado tanto dos meus dias, do meu tempo, dos meus sonhos mais doces. Arrependo-me de ter te oferecido o meu melhor em bandeja de ouro, ainda sabendo que não receberia um copo d’água sequer...
É, os arrependimentos e as mágoas que não se esvairam de todo. Por isso sei, não passou tudo. Foi-se embora o amor e a dor, mas ficou também a estranheza. Ah essa estranheza que só sentem os ex-amantes, os amores do passado, aqueles que amaram tanto a um outro e esse outro, que antes era sonho, hoje, tem de dividir espaço na ala dos mortais, dos chatos, talvez...
É querido, eu vivo com você, a estranheza. Porque não houve quem eu amasse tanto, não tinha havido ninguém a quem eu me entregasse tanto e, apesar de saber o que te faz tremer, te cumprimento com dois beijinhos, como o estranho ao lado. Sinto-me eu a estranha diante de tamanha contradição. Hoje, sei sobre você tudo. E ao mesmo tempo, não sei nada. Dividi com você, tudo. E agora, nego um gole do refrigerante porque fico com vergonha.
Essa estranheza me acompanha cada vez que ouço aí dizer que viram você. Com o novo amor ou sem, não importa. As perguntas permanecem: Para onde foram nossas noites? Em que lugar do tempo ficou guardado nossos corpos cansados, nossos segredos trocados, nossas pernas embaraçadas, os sussurrus, as lágrimas, ah... as incontáveis lágrimas que molharam seu ombro... o que houve com elas? O que houve comigo? O que houve conosco?
A estranheza caminha comigo, lado a lado, mas não me dói...
Me ensina apenas que a vida é assim, que os momentos são sempre efêmeros e estão indo embora por entre os dedos, o tempo todo. Logo que existem, deixam de existir...
Querido amigo, hoje faz um ano que enchi meus olhos d’água, senti meu corpo tremer de medo e meu coração explodir em dor....hoje, faz um ano que tomei a decisão certa.
Sei que você mudou. Notei que seus cabelos diminuiram, seu sorriso iluminou-se um pouco mais, seu corpo emagreceu e engordou e emagreceu de novo. Ouvi dizer que você mudou de emprego, comprou uma camisa, ficou gripado, tratou o canal....
Eu também mudei. De emprego, de casa, de roupa, de blog. Engordei, arranquei 3 dentes, troquei de carro, cortei o cabelo, tive sinosite, tomei uma ou duas multas e chorei no trabalho. Mas você não soube....eu achei que saberíamos tudo um do outro. Mas não sabemos mais...
E a falta que sinto não é de notícas suas. É, as vezes, de notícias minhas, de lembranças minhas, de sonhos meus, que foram atropelados aí nesse caminho por onde andei ao seu lado.
Mas não importa agora.
Um ano se passou e meu coração se encanta de novo com a vida. Com o tanto de gente que há no mundo, com as tentativas que tive, com as cores todas que existem, e com cada dia que amanhece diante de mim...
Você teve um papel importante, e te agradeço por tê-lo feito como pôde. Mal, muitas vezes. Mas eficiente para me mostrar que deve haver um bem, em algum lugar, de algum outro jeito.
Obrigada querido, por ter sido meu primeiro amor, meu grande amigo, meu fiel amante, meu desleixado companheiro, meu carrasco, e minha cura.
O tempo faz coisas. Tem feito e tem refeito.
Me derrubou e me ergueu. Agora, de pé, sinto-me tão forte que não temo mais.
Que ele, o tempo, funcione em você assim também, sendo fogo brando e sendo incêndio, com a força e com a calma com que fez comigo.
É o que desejo, sinceramente,
Ana
Friday, March 14, 2008
Queridas amigas
Quando eu estava pra casar, há 2 anos atrás, escrevi essa carta para as minhas amigas. Hoje, por alguma razão, ela caiu em mim, de novo. E achei absolutamente atual...
Meninas,
Então é isso, vou casar.
Cada vez que penso nisso, me gela a barriga. Muitas vezes me surpreendo, tomo um susto enquanto bebo um toddy ou no meio do trânsito pelo simples pensamento: “eu vou casar”.
É um misto de felicidade e espanto, pela alegria de ter encontrado um amor de paz e por tudo o que já passei antes, quando isso parecia tão distante de mim.
Penso, surpreendida, no quanto já chorei e sofri por trastes imprestáveis a quem eu dediquei o meu amor. Muitas vezes lembro, com emoção, o quanto praguejei porque o amor não tinha vindo pra mim, porque eu não nascera pra amar, porque eu seria sempre uma solitária chorosa, como as heroínas dos filmes de amor, antes do fim, claro.
Que ridículo me soa isso, hoje. Inúmeras vezes fui ridícula e tola, porque não confiava um pouco mais na vida, um pouco mais em Deus, nenhum um pouquinho mais em mim mesma.
Quando penso nisso me vem sempre à cabeça uma amiga. Uma de vocês, que está lendo isso agora. Uma entre tantas que a vida me deu, como um dos melhores presentes que eu poderia receber.
Você, minha amiga que brincava comigo quando criança, que encostava no verde quando falávamos alguma coisa juntas, que fazia xixi na calça de tanto rir, por qualquer coisa sem graça que alguém dizia, que torrava no sol falando bobagens e rindo alto.
Você, minha amiga querida, que me emprestou roupa quando eu me sentia horrorosa, que me ensinou a me depilar, ou você minha amiga querida que, quando eu precisei, comprou água oxigenada pra deixar meus pêlos dos braços loiros... Que homem teria tanta sorte? Por isso eles são peludos e desajeitados desse jeito....
Ah, e a minha amiga que chorou comigo quando perdeu uma namorado mega traste, e que riu disso depois. Ou as amigas da faculdade... Aquela amiga que me passou cola, que pediu para o professor me dar 0,5 ponto, com tamanha força, como se fosse pra ela própria. Aquela amiga que me emprestava o material, que punha meu nome no trabalho mesmo que eu não tivesse feito nada, simplesmente porque era uma amiga. Quem não teve essas amigas? A amiga com quem eu planejava fazer uma dupla sertaneja, ou abrir um consultório, ou uma escola, e nada deu certo... A amiga com quem eu nunca planejei nada e que me indicou no trabalho dela, e com quem eu pude trabalhar junto, falar mal do chefe junto, chegar atrasada junto, ou conseguir que ela batesse o cartão pra mim, porque eu nunca conseguia chegar no horário...
E as amigas da internet. Aquela que ninguém me apresentou, que a vida me trouxe por meio de uma máquina fria, talvez porque eu tenha feito algo bom, em algum tempo da minha existência. Eu conheci primeiro os escritos dela e me vi a pessoa mais sortuda do mundo por tê-la minha amiga querida e sábia, a melhor conselheira entre todas.
As amigas da igreja, que todo mundo acha nerd e carola, mas elas, como eu, nem ligam e me ensinam a ser uma pessoa mais justa, melhor, e mais feliz.
As amigas que me foram leais, aquelas com as quais eu não fui sempre leal, as amigas que eu magoei, as que me magoaram, mas que depois passou.
Eu me emociono quando penso na sorte que tive, de ter essas amigas...
As grandes amigas de infância e as novas, de trabalho. Ah, as minhas amigas de trabalho. A minha amiga que me ajudava no excel, ficava até mais tarde pra me ensinar a fazer o meu trabalho e deixava o dela pra depois. Aquela que era chefe, mas que foi sempre tão compreensiva e amiga, que deixou de ser chefe e permaneceu sempre assim, uma grande amiga. Aquela que aturou o meu mau-humor, as minhas TPMs, aquela com quem eu perdia a hora no almoço e aquela que fazia um cachorro quente ao meio dia de quarta feira, ser o programa mais divertido da semana...
Que mulher não tem aquela amiga?
Aquela, mais que querida, que te maquiou o rosto pra você ficar linda, aquela que enxugou mil lágrimas suas e que teve paciência de Jó pra escutar você falar sobre o mesmo assunto, por dias e dias a fio, sem reclamar... A amiga que te atende de madrugada, que te acalma, que te acolhe.
A amiga que te arruma aquele buscopan que você tanto precisa, a que empresta o celular quando você está sem crédito, a amiga que te empresta o ombro e a força dela, quando você se sente cansada e fraca.
E tem a amiga do bom papo, que vai no cinema com você, depois janta no shopping, depois faz compras, depois, quando vai embora, você vê que não falou tudo o que precisava e dá mais uma ligadinha pra ela... Aquela com quem, horas filosofando sobre a vida, nunca bastam...
As amigas que nos indicam um médico, uma vidente, uma psicóloga, uma outra amiga, ou aquela lojinha super boa e barata do outro lado da cidade.
As que dividiram com você seus momentos mais especiais, as que casaram e as que me contaram, radiantes ou não, que estavam grávidas. As amigas que compartilharam suas conquistas e suas tristezas, as que contaram detalhes de uma vida de casada, ou de uma gravidez que só uma amiga conta, sem nenhuma vergonha.
Porque as amigas não costumam ter vergonha umas das outras. Mesmo que eu passe séculos sem falar com uma amiga, porque sou muito desleixada tantas vezes, mesmo assim, quando reencontro uma de vocês, sinto apenas alegria, e nunca medo ou vergonha.
Sim, eu não tenho vergonha de vocês minhas amigas. Não tenho vergonha nenhuma de dizer quando tenho medo, quando não sei qual a capital de um país óbvio, quando não consigo multiplicar uma conta simples, quando começo a tremer de nervoso, ou quando minhas bochechas ficam vermelhas porque estou com raiva. Não tenho vergonha nenhuma de cantar Fabio Junior no último volume, ou de perguntar quem matou a Bia Falcão, ou de dizer que votei naquele Big Brother. Nem por um segundo tento me esconder de vocês. Porque com as minhas amigas não tenho vergonha de ser quem eu sou, mesmo que isso soe ridículo para os desconhecidos.
Vocês, minhas amigas, me fizeram ser hoje quem eu sou. Me ajudaram a ter coragem de assumir esse compromisso, de me casar, vocês me deram as dúvidas e as certezas que me trouxeram até aqui.
Por isso, sou imensamente grata a cada uma de vocês. E imensamente feliz de tê-las ao meu lado nesse momento.
Porque, quando tocar a música da noiva e for a minha vez de entrar, se minha mão estiver tremendo e o buquê não parar quieto, eu vou procurar vocês com os olhos. Porque sempre que eu tive nervosa ou simplesmente com vontade de chorar, vocês minhas amigas estiveram ao alcance dos meus olhos, e eu quero muito que isso permaneça sempre.
Quero que sejamos amigas até a velhice. Que vocês tenham maridos legais que sejam amigos do meu marido, e filhos lindos que paquerem as minhas filhas, enfim... Ou, se nada disso acontecer, que vocês continuem simplesmente sendo vocês. Porque isso é o que eu preciso, que minhas amigas sejam sempre, essas amigas que vocês tem sido, todos os dias, até hoje.
Um beijo, com todo meu carinho,
Kika
Meninas,
Então é isso, vou casar.
Cada vez que penso nisso, me gela a barriga. Muitas vezes me surpreendo, tomo um susto enquanto bebo um toddy ou no meio do trânsito pelo simples pensamento: “eu vou casar”.
É um misto de felicidade e espanto, pela alegria de ter encontrado um amor de paz e por tudo o que já passei antes, quando isso parecia tão distante de mim.
Penso, surpreendida, no quanto já chorei e sofri por trastes imprestáveis a quem eu dediquei o meu amor. Muitas vezes lembro, com emoção, o quanto praguejei porque o amor não tinha vindo pra mim, porque eu não nascera pra amar, porque eu seria sempre uma solitária chorosa, como as heroínas dos filmes de amor, antes do fim, claro.
Que ridículo me soa isso, hoje. Inúmeras vezes fui ridícula e tola, porque não confiava um pouco mais na vida, um pouco mais em Deus, nenhum um pouquinho mais em mim mesma.
Quando penso nisso me vem sempre à cabeça uma amiga. Uma de vocês, que está lendo isso agora. Uma entre tantas que a vida me deu, como um dos melhores presentes que eu poderia receber.
Você, minha amiga que brincava comigo quando criança, que encostava no verde quando falávamos alguma coisa juntas, que fazia xixi na calça de tanto rir, por qualquer coisa sem graça que alguém dizia, que torrava no sol falando bobagens e rindo alto.
Você, minha amiga querida, que me emprestou roupa quando eu me sentia horrorosa, que me ensinou a me depilar, ou você minha amiga querida que, quando eu precisei, comprou água oxigenada pra deixar meus pêlos dos braços loiros... Que homem teria tanta sorte? Por isso eles são peludos e desajeitados desse jeito....
Ah, e a minha amiga que chorou comigo quando perdeu uma namorado mega traste, e que riu disso depois. Ou as amigas da faculdade... Aquela amiga que me passou cola, que pediu para o professor me dar 0,5 ponto, com tamanha força, como se fosse pra ela própria. Aquela amiga que me emprestava o material, que punha meu nome no trabalho mesmo que eu não tivesse feito nada, simplesmente porque era uma amiga. Quem não teve essas amigas? A amiga com quem eu planejava fazer uma dupla sertaneja, ou abrir um consultório, ou uma escola, e nada deu certo... A amiga com quem eu nunca planejei nada e que me indicou no trabalho dela, e com quem eu pude trabalhar junto, falar mal do chefe junto, chegar atrasada junto, ou conseguir que ela batesse o cartão pra mim, porque eu nunca conseguia chegar no horário...
E as amigas da internet. Aquela que ninguém me apresentou, que a vida me trouxe por meio de uma máquina fria, talvez porque eu tenha feito algo bom, em algum tempo da minha existência. Eu conheci primeiro os escritos dela e me vi a pessoa mais sortuda do mundo por tê-la minha amiga querida e sábia, a melhor conselheira entre todas.
As amigas da igreja, que todo mundo acha nerd e carola, mas elas, como eu, nem ligam e me ensinam a ser uma pessoa mais justa, melhor, e mais feliz.
As amigas que me foram leais, aquelas com as quais eu não fui sempre leal, as amigas que eu magoei, as que me magoaram, mas que depois passou.
Eu me emociono quando penso na sorte que tive, de ter essas amigas...
As grandes amigas de infância e as novas, de trabalho. Ah, as minhas amigas de trabalho. A minha amiga que me ajudava no excel, ficava até mais tarde pra me ensinar a fazer o meu trabalho e deixava o dela pra depois. Aquela que era chefe, mas que foi sempre tão compreensiva e amiga, que deixou de ser chefe e permaneceu sempre assim, uma grande amiga. Aquela que aturou o meu mau-humor, as minhas TPMs, aquela com quem eu perdia a hora no almoço e aquela que fazia um cachorro quente ao meio dia de quarta feira, ser o programa mais divertido da semana...
Que mulher não tem aquela amiga?
Aquela, mais que querida, que te maquiou o rosto pra você ficar linda, aquela que enxugou mil lágrimas suas e que teve paciência de Jó pra escutar você falar sobre o mesmo assunto, por dias e dias a fio, sem reclamar... A amiga que te atende de madrugada, que te acalma, que te acolhe.
A amiga que te arruma aquele buscopan que você tanto precisa, a que empresta o celular quando você está sem crédito, a amiga que te empresta o ombro e a força dela, quando você se sente cansada e fraca.
E tem a amiga do bom papo, que vai no cinema com você, depois janta no shopping, depois faz compras, depois, quando vai embora, você vê que não falou tudo o que precisava e dá mais uma ligadinha pra ela... Aquela com quem, horas filosofando sobre a vida, nunca bastam...
As amigas que nos indicam um médico, uma vidente, uma psicóloga, uma outra amiga, ou aquela lojinha super boa e barata do outro lado da cidade.
As que dividiram com você seus momentos mais especiais, as que casaram e as que me contaram, radiantes ou não, que estavam grávidas. As amigas que compartilharam suas conquistas e suas tristezas, as que contaram detalhes de uma vida de casada, ou de uma gravidez que só uma amiga conta, sem nenhuma vergonha.
Porque as amigas não costumam ter vergonha umas das outras. Mesmo que eu passe séculos sem falar com uma amiga, porque sou muito desleixada tantas vezes, mesmo assim, quando reencontro uma de vocês, sinto apenas alegria, e nunca medo ou vergonha.
Sim, eu não tenho vergonha de vocês minhas amigas. Não tenho vergonha nenhuma de dizer quando tenho medo, quando não sei qual a capital de um país óbvio, quando não consigo multiplicar uma conta simples, quando começo a tremer de nervoso, ou quando minhas bochechas ficam vermelhas porque estou com raiva. Não tenho vergonha nenhuma de cantar Fabio Junior no último volume, ou de perguntar quem matou a Bia Falcão, ou de dizer que votei naquele Big Brother. Nem por um segundo tento me esconder de vocês. Porque com as minhas amigas não tenho vergonha de ser quem eu sou, mesmo que isso soe ridículo para os desconhecidos.
Vocês, minhas amigas, me fizeram ser hoje quem eu sou. Me ajudaram a ter coragem de assumir esse compromisso, de me casar, vocês me deram as dúvidas e as certezas que me trouxeram até aqui.
Por isso, sou imensamente grata a cada uma de vocês. E imensamente feliz de tê-las ao meu lado nesse momento.
Porque, quando tocar a música da noiva e for a minha vez de entrar, se minha mão estiver tremendo e o buquê não parar quieto, eu vou procurar vocês com os olhos. Porque sempre que eu tive nervosa ou simplesmente com vontade de chorar, vocês minhas amigas estiveram ao alcance dos meus olhos, e eu quero muito que isso permaneça sempre.
Quero que sejamos amigas até a velhice. Que vocês tenham maridos legais que sejam amigos do meu marido, e filhos lindos que paquerem as minhas filhas, enfim... Ou, se nada disso acontecer, que vocês continuem simplesmente sendo vocês. Porque isso é o que eu preciso, que minhas amigas sejam sempre, essas amigas que vocês tem sido, todos os dias, até hoje.
Um beijo, com todo meu carinho,
Kika
Sunday, February 24, 2008
Crônica do dia
Olha eu aqui de novo:
Sentir falta X Sentir saudades
Sentir falta, ao contrário do que dizem por aí, é diferente, muitíssmo diferente, de sentir saudades.
Ah, sentir saudades... Sentir saudades é grandioso. Dor enorme que rasga por dentro dias seguidos, horas intermináveis, tempo infinito.
Sentir falta não. Sentir falta é pontual. Sentir falta é dor fina, dor de beliscão com unha, dor de anestesia de dentista. Sentir falta é mais específico. Sente-se falta do carinho antes de dormir, da implicância com o controle remoto, sente-se falta do jeito boboca que ele tinha de andar, se balançando todo. Sentir falta é mais egoísta, quase que material. Sentir falta do café dele, da bagunça dele, dos discos dele, do chinelo dele, sempre ali, jogado displicentemente na beira da cama. Sentir falta da camiseta velha dele que você podia usar... Ai que falta faz essa camiseta... Sentir falta é pequeno, mas não menos doloroso.
Ou não dói uma unha encravada? Ou não dói um bife que a manicure tira? Ah dói... e como.
Talvez até mais que a dor da saudade. A dor da saudade é grande. É infecção generalizada. É uma gripe daquelas, uma dengue hemorrágica, uma pneumonia.
A saudade não te deixa respirar. Não te permite trabalhar, te faz faltar o ar. É dor das grandes que te derruba de tal forma que, de repente, por mais que esteja sol, faz um frio de rachar na sua casa e você pode jurar que nunca - nunca - sairá de novo de dentro do seu edredon, porque suas forças acabaram ali, naquele instante, e não há mais nenhum fiapo de vontade, sequer para amarar um tênis. Isso é saudades. Saudades não é sempre de uma coisa específica. Pode até ser, mas normalmente saudades e plural. Saudades é dos dois. Saudades é de você mesma, com os olhos brilhando. Saudades do frio na barriga, saudades do começo, saudades da praia, saudades daquela festa ridícula, saudades dos foras que vocês davam juntos, dos preparativos para aquela viagem, saudades daquela viagem e da alegria de estar lá. Da expectativa de ir pra lá, da ansiedade, da enorme felicidade e graça, que só vocês conheceram... Saudades de coisas efêmeras, saudades de fumaça que não se pega, não se toca e, talvez, nem tenha acontecido de fato. Por isso, saudade pode ser inventada, falta não. Saudade é contínua, falta é curta. Saudade é pó, falta é pedra. Saudade é soco no estômago, falta é puxão de cabelo.
Falta é daquilo que não está ali, e que deveria estar. É a dor da cozinha intocada, da luz apagada, do controle remoto só seu. A falta está na rotina, nas pequenas coisas concretas do dia a dia. Ela é pontual, mas pode aparecer todos os dias. E todos os dias você sentirá a dor fina da picada de uma abelha quando notar, por exemplo, que o banheiro está arrumadíssimo e a pia ficou grande para os seus poucos perfumes. Lá está a dor da falta vindo de repente, tal qual um ladrão que te furta a bolsa...
Ela vem e, como uma unha encravada, não te impede de trabalhar, de viver, até de se divertir. Mas avisa que está lá, latejando dentro do sapato bonito.
Você pode até ter se curado das saudades, mas, talvez, um dia, quando o chuveiro queimar, você vai sentir uma falta enorme dele, e de todas as soluções simples que ele tinha para problemas tão complexos como esse...
Talvez uma se cure antes da outra, talvez nenhuma das duas tenha cura. Ambas, no entanto, te trazem a sensação da angústia. Ambas acontecem apenas quando o objeto da saudade ou da falta, parece estar ali, na beirada da sua vida. Ambas te fazem esticar o braço com força, com toda a sua força, o máximo que pode, para alcançar aquilo que já não está mais ali, que é sombra, é marca d`água de powerpoint, e é por isso que dói.
Talvez essas duas dores só sumam de fato, quando ele sair da beirada. Quando o desenhho do rosto dele não for mais tão nítido na sua memória, quando o som da voz dele não for mais tão claro em teus ouvidos. A saudade e a falta, de formas diferentes, com dores distintas, clamam por aquilo que mais se teme. A única solução possível é a mais temida, e serve para as duas: O esquecimento.
Sentir falta X Sentir saudades
Sentir falta, ao contrário do que dizem por aí, é diferente, muitíssmo diferente, de sentir saudades.
Ah, sentir saudades... Sentir saudades é grandioso. Dor enorme que rasga por dentro dias seguidos, horas intermináveis, tempo infinito.
Sentir falta não. Sentir falta é pontual. Sentir falta é dor fina, dor de beliscão com unha, dor de anestesia de dentista. Sentir falta é mais específico. Sente-se falta do carinho antes de dormir, da implicância com o controle remoto, sente-se falta do jeito boboca que ele tinha de andar, se balançando todo. Sentir falta é mais egoísta, quase que material. Sentir falta do café dele, da bagunça dele, dos discos dele, do chinelo dele, sempre ali, jogado displicentemente na beira da cama. Sentir falta da camiseta velha dele que você podia usar... Ai que falta faz essa camiseta... Sentir falta é pequeno, mas não menos doloroso.
Ou não dói uma unha encravada? Ou não dói um bife que a manicure tira? Ah dói... e como.
Talvez até mais que a dor da saudade. A dor da saudade é grande. É infecção generalizada. É uma gripe daquelas, uma dengue hemorrágica, uma pneumonia.
A saudade não te deixa respirar. Não te permite trabalhar, te faz faltar o ar. É dor das grandes que te derruba de tal forma que, de repente, por mais que esteja sol, faz um frio de rachar na sua casa e você pode jurar que nunca - nunca - sairá de novo de dentro do seu edredon, porque suas forças acabaram ali, naquele instante, e não há mais nenhum fiapo de vontade, sequer para amarar um tênis. Isso é saudades. Saudades não é sempre de uma coisa específica. Pode até ser, mas normalmente saudades e plural. Saudades é dos dois. Saudades é de você mesma, com os olhos brilhando. Saudades do frio na barriga, saudades do começo, saudades da praia, saudades daquela festa ridícula, saudades dos foras que vocês davam juntos, dos preparativos para aquela viagem, saudades daquela viagem e da alegria de estar lá. Da expectativa de ir pra lá, da ansiedade, da enorme felicidade e graça, que só vocês conheceram... Saudades de coisas efêmeras, saudades de fumaça que não se pega, não se toca e, talvez, nem tenha acontecido de fato. Por isso, saudade pode ser inventada, falta não. Saudade é contínua, falta é curta. Saudade é pó, falta é pedra. Saudade é soco no estômago, falta é puxão de cabelo.
Falta é daquilo que não está ali, e que deveria estar. É a dor da cozinha intocada, da luz apagada, do controle remoto só seu. A falta está na rotina, nas pequenas coisas concretas do dia a dia. Ela é pontual, mas pode aparecer todos os dias. E todos os dias você sentirá a dor fina da picada de uma abelha quando notar, por exemplo, que o banheiro está arrumadíssimo e a pia ficou grande para os seus poucos perfumes. Lá está a dor da falta vindo de repente, tal qual um ladrão que te furta a bolsa...
Ela vem e, como uma unha encravada, não te impede de trabalhar, de viver, até de se divertir. Mas avisa que está lá, latejando dentro do sapato bonito.
Você pode até ter se curado das saudades, mas, talvez, um dia, quando o chuveiro queimar, você vai sentir uma falta enorme dele, e de todas as soluções simples que ele tinha para problemas tão complexos como esse...
Talvez uma se cure antes da outra, talvez nenhuma das duas tenha cura. Ambas, no entanto, te trazem a sensação da angústia. Ambas acontecem apenas quando o objeto da saudade ou da falta, parece estar ali, na beirada da sua vida. Ambas te fazem esticar o braço com força, com toda a sua força, o máximo que pode, para alcançar aquilo que já não está mais ali, que é sombra, é marca d`água de powerpoint, e é por isso que dói.
Talvez essas duas dores só sumam de fato, quando ele sair da beirada. Quando o desenhho do rosto dele não for mais tão nítido na sua memória, quando o som da voz dele não for mais tão claro em teus ouvidos. A saudade e a falta, de formas diferentes, com dores distintas, clamam por aquilo que mais se teme. A única solução possível é a mais temida, e serve para as duas: O esquecimento.
Wednesday, February 20, 2008
Recebamos a crise
Foi numa noite, há alguns meses atrás. Acordei no meio da madrugada, e, rolando na cama, repassei meu dia seguinte. Pensei no que iria fazer, no que tenho feito, pensei no que queria de fato fazer e notei que pouco tinha a ver com as atividades que faria ao nascer do sol. Achei triste, lembrei dos meus sonhos de infância, olhei pra mim mesma por um instante e, de repente, sem nenhuma explicação prévia, me pus a chorar. Antes que eu me assustasse comigo mesma, percebi: Era ela, a crise dos 30 que estava instalada.
Ah, a crise. Eu devo ter passado pela crise da adolescência e talvez alguma outra, mas acho que a crise dos 30 é a primeira que você nota, é a primeira que você tem consciência e recebe, não de braços abertos, eu diria, mas recebe e enxerga de longe, a olhos nus a tal crise. Recebe no corpo que de repente, um dia, você nota que está diferente. Algo caindo, outra coisa espalhando, algumas linhas novas, uma bochecha diferente. É ela. A crise. É um jeito de ela telefonar dizendo que vem. Daí depois, - ou antes, dependendo da pessoa - tem a crise reflexiva. Há quem tenha menos a reflexiva e mais a física, ou vice-versa. Eu, sofro das duas. A reflexiva vem assim, no meio da noite, sorrateira, ou depois de um dia de trabalho quando você não continua digitando tudo como sempre e, ao invés disso, entre uma tecla e outra, você para e, num instante, faz a pergunta que desencadeará todas as outras: Pra que estou fazendo isso? É simples, bobo, em uma outra fase, você responderia que está fazendo isso porque é o seu trabalho e pronto. Mas agora, com a crise aí, a coisa não é mais tão simples. Agora você se mantém perguntando: “Pra que estou aqui, ralando de trabalhar, se está esse baita sol lá fora?”ou, “pra que estou aqui, preocupada com as calorias dessa geléia, se mesmo que eu beba só água por anos a fio, meu corpo insiste em não voltar atrás, por pura birra? E, a partir daí, a coisa só piora. Você nota que não fez exatamente o que queria fazer, não foi exatamente como queria ser e não se sente nada, nada, como esperava se sentir. Não, não é nem um surto depressivo, porque não é tão grave assim e isso é que torna o problema ainda mais grave. O fato de ele não ser grave o suficiente. Você não pode chamar os paramédicos, não pode pedir demissão, não pode se separar, ou se casar, ou não pode se descolar de você mesma, por alguns segundos que seja, não, não pode. Tem de continuar aí, vivendo. Fazendo o que você não sabe bem porque foi fazer, sendo quem você não tem bem certeza de ser, e vivendo como se pode. Ai, que chatice. A crise dos 30 é isso, uma chatice, porque não temos mais o ímpeto adolescente de mudar tudo e, ao mesmo tempo, não temos ainda a comodice da velhice de acharmos que tudo bem estar assim.
Ficamos, portanto, um pouco paralisadas, com muita preguiça de tudo, até da própria preguiça... Um pouco confusas, sem sabermos se mini-saia ainda rola, se corretivo passou a ser obrigatório pra todo mundo, se botox é mesmo o fim da picada, se pessoas de 20 anos estão de fato lotando todos os espaços vazios do mundo e como é que ninguém notou que a Madonna forjou a certidão de nascimento dela, e, agora, vai aparecer dizendo que está prestes a completar 50 anos... Sei... Além da Luiza Brunet, é claro, que quer acabar com a gente... Como ela consegue ser ela mesma, aliás? De certo ela é uma chata. As mais chatas nem tem crise, nem sabem o valor de uma boa crise, bem no meio da vida.
É..quem sabe ela não seja um presente. Quem sabe a crise não seja exclusividade das mulheres mais pensantes, as que se observam, as que observam o mundo e se alimentam dele ? Deve haver, junto com a crise, um ou outro presente. Deve haver junto com esse corpo novo que se desenha em mim, uma ou outra virtude que desabroche nova aqui, tinindo, direta do forno pra construir então, quem eu serei, não só aos 30, mas aos 40, aos 50... E daí, quando inventarem a crise dos 100, estarei mais esperta, mais viva e perspicaz, com alguma virtude, quem sabe duas, novinhas em folha, tinindo, saindo quentinhas do forno das crises, que – dizem – há certas vantagens em envelhecer...
Ah, a crise. Eu devo ter passado pela crise da adolescência e talvez alguma outra, mas acho que a crise dos 30 é a primeira que você nota, é a primeira que você tem consciência e recebe, não de braços abertos, eu diria, mas recebe e enxerga de longe, a olhos nus a tal crise. Recebe no corpo que de repente, um dia, você nota que está diferente. Algo caindo, outra coisa espalhando, algumas linhas novas, uma bochecha diferente. É ela. A crise. É um jeito de ela telefonar dizendo que vem. Daí depois, - ou antes, dependendo da pessoa - tem a crise reflexiva. Há quem tenha menos a reflexiva e mais a física, ou vice-versa. Eu, sofro das duas. A reflexiva vem assim, no meio da noite, sorrateira, ou depois de um dia de trabalho quando você não continua digitando tudo como sempre e, ao invés disso, entre uma tecla e outra, você para e, num instante, faz a pergunta que desencadeará todas as outras: Pra que estou fazendo isso? É simples, bobo, em uma outra fase, você responderia que está fazendo isso porque é o seu trabalho e pronto. Mas agora, com a crise aí, a coisa não é mais tão simples. Agora você se mantém perguntando: “Pra que estou aqui, ralando de trabalhar, se está esse baita sol lá fora?”ou, “pra que estou aqui, preocupada com as calorias dessa geléia, se mesmo que eu beba só água por anos a fio, meu corpo insiste em não voltar atrás, por pura birra? E, a partir daí, a coisa só piora. Você nota que não fez exatamente o que queria fazer, não foi exatamente como queria ser e não se sente nada, nada, como esperava se sentir. Não, não é nem um surto depressivo, porque não é tão grave assim e isso é que torna o problema ainda mais grave. O fato de ele não ser grave o suficiente. Você não pode chamar os paramédicos, não pode pedir demissão, não pode se separar, ou se casar, ou não pode se descolar de você mesma, por alguns segundos que seja, não, não pode. Tem de continuar aí, vivendo. Fazendo o que você não sabe bem porque foi fazer, sendo quem você não tem bem certeza de ser, e vivendo como se pode. Ai, que chatice. A crise dos 30 é isso, uma chatice, porque não temos mais o ímpeto adolescente de mudar tudo e, ao mesmo tempo, não temos ainda a comodice da velhice de acharmos que tudo bem estar assim.
Ficamos, portanto, um pouco paralisadas, com muita preguiça de tudo, até da própria preguiça... Um pouco confusas, sem sabermos se mini-saia ainda rola, se corretivo passou a ser obrigatório pra todo mundo, se botox é mesmo o fim da picada, se pessoas de 20 anos estão de fato lotando todos os espaços vazios do mundo e como é que ninguém notou que a Madonna forjou a certidão de nascimento dela, e, agora, vai aparecer dizendo que está prestes a completar 50 anos... Sei... Além da Luiza Brunet, é claro, que quer acabar com a gente... Como ela consegue ser ela mesma, aliás? De certo ela é uma chata. As mais chatas nem tem crise, nem sabem o valor de uma boa crise, bem no meio da vida.
É..quem sabe ela não seja um presente. Quem sabe a crise não seja exclusividade das mulheres mais pensantes, as que se observam, as que observam o mundo e se alimentam dele ? Deve haver, junto com a crise, um ou outro presente. Deve haver junto com esse corpo novo que se desenha em mim, uma ou outra virtude que desabroche nova aqui, tinindo, direta do forno pra construir então, quem eu serei, não só aos 30, mas aos 40, aos 50... E daí, quando inventarem a crise dos 100, estarei mais esperta, mais viva e perspicaz, com alguma virtude, quem sabe duas, novinhas em folha, tinindo, saindo quentinhas do forno das crises, que – dizem – há certas vantagens em envelhecer...
Monday, February 11, 2008
Crônica do dia
Saí aqui, com essa daí:
Lugar de Paz
Todo mundo tem um lugar de conforto. Eu só não chamo de zona de conforto para não dar a impressão errônea de algo pejorativo, de um comodismo fracassado como um sofá fundo e confortável de onde ninguém consegue mais se levantar e permanece numa vida parada e covarde, a espera de qualquer milagre do mundo para que se saia dela.
Não. O lugar ao qual me refiro já é o milagre. O lugar que quero dizer, é esse instante de paz que nada espera, que nada precisa, que só deseja se perpeturar ali, naquela mesma casa antiga, naquele chão frio, naquela piscina gelada...
O lugar de conforto que todos temos é um espaço físico, num tempo determinado e, principalmente, com pessoas a quem amamos tanto que lá, apenas lá, podemos ser quem somos e nem uma grama a mais ou a menos.
Não se trata de uma onda de alegria, de uma empolgação súbita, mas sim de uma serenidade, daquela sensão única de tranquilidade e paz que só conseguimos ter algumas poucas vezes, quando podemos parar por segundos, porque não há outro lugar para alcançar, não há outra linha de chegada e nem há mais caminho que valha ser percorrido; o que se busca está ali, enfim, diante de você, e te causa um preenchimento tão completo e único, que tudo o que se pode desejar é que o tempo seja interrompido ali, naquele pequeno instante de paz.
Pode ser com os seus pais na mesa pequena da cozinha, comendo aquela velha macarronada cheia de molho de tomate. Pode ser entre seu marido e seu bebê na cama grande de casal que, ao invés de enorme templo da perdição, tornou-se um pedaço sagrado dos seus melhores finais de semana entre todos.
O seu lugar de paz pode ser num colchão velho, ou deitada num beliche, apertada ao seu marido enquanto sabe que do outro lado da parede estão seus pais, talvez seus irmãos, sobrinhos ou filhos... Um lugar onde tudo o que importa no mundo está reunido sob o mesmo teto e, por isso, se dá o milagre de ter o peito tão cheio de amor, que é como se transbordasse dentro de você um enxurrada de conforto e serenidade, que chega a doer os espaços - antes vazios - que você guarda por dentro...
O lugar de conforto é precioso por ser nosso lugar de paz, por permitir que nos despojemos das máscaras e então, lá, não é preciso murchar a barriga e seus ombros não estão contraídos, o riso é solto ao invés da sua habitual tensão, e você sabe que, se precisar de um socorro, de uma palavra, de um olhar qualquer de ternura, ele estará ali, a um esticar das mãos, a um passo de nossos pobres pés, normalmente calejados de andar sobre as pedras duras de um mundo pouquíssimo confortável.
O lugar de conforto é aconchegante, morno e calmo, e ali, naquele espaço seguro que pode estar sujo e ter a geladeira vazia, é que você sente que pode dançar, talvez cantar em voz alta, ou simplesmente ficar o dia todo calada, observando a fartura de um tempo sem lacunas.
O lugar de conforto é onde todos são iguais; os que estão ali, embaixo do teto firme da casa antiga são os seus, conhecem até os seus dedos dos pés, sabem-se cheios de amor e dividem o seu amor com os outros. Amam-te apesar de seus fracassos, amam-te apesar de suas covardias, amam-te apesar da sua timidez, dos seus quilos a mais, das espinhas que nascem na sua testa, das suas vergonhas, das suas mais pobres humilhações e das suas mais nobres virtudes...
Amam-te ainda que você não fale inglês, não saiba as principais capitais do mundo ou ainda que você fuja diante de um grito forte que o mundo, longe desse lugar de conforto, tenha ecoado em seus ouvidos. Amam-te não só apesar de tudo isso, mas por tudo isso também. Porque sua fraquezas mais dolorosas não os afastam, mas os aproximam. E suas virtudes mais nobres não os repelem, mas os orgulha.
Amam-te porque propiciam a você calor e segurança, e sentem-se assim ao seu lado, acalentados e protegidos como se você, que não é capaz de cuidar de uma só planta, fosse capaz de garantir ao outro fartura de paz e saciedade de alegria, sem mover sequer um dedo. Amam-te porque se sentem amados, e a vida, simples assim, sem nenhum luxo e nehuma riqueza, torna-se a maior dádiva e o presente mais precioso entre todos, quando você encontra, numa noite qualquer, entre confetes e serpentinas, o seu lugar de paz.
Lugar de Paz
Todo mundo tem um lugar de conforto. Eu só não chamo de zona de conforto para não dar a impressão errônea de algo pejorativo, de um comodismo fracassado como um sofá fundo e confortável de onde ninguém consegue mais se levantar e permanece numa vida parada e covarde, a espera de qualquer milagre do mundo para que se saia dela.
Não. O lugar ao qual me refiro já é o milagre. O lugar que quero dizer, é esse instante de paz que nada espera, que nada precisa, que só deseja se perpeturar ali, naquela mesma casa antiga, naquele chão frio, naquela piscina gelada...
O lugar de conforto que todos temos é um espaço físico, num tempo determinado e, principalmente, com pessoas a quem amamos tanto que lá, apenas lá, podemos ser quem somos e nem uma grama a mais ou a menos.
Não se trata de uma onda de alegria, de uma empolgação súbita, mas sim de uma serenidade, daquela sensão única de tranquilidade e paz que só conseguimos ter algumas poucas vezes, quando podemos parar por segundos, porque não há outro lugar para alcançar, não há outra linha de chegada e nem há mais caminho que valha ser percorrido; o que se busca está ali, enfim, diante de você, e te causa um preenchimento tão completo e único, que tudo o que se pode desejar é que o tempo seja interrompido ali, naquele pequeno instante de paz.
Pode ser com os seus pais na mesa pequena da cozinha, comendo aquela velha macarronada cheia de molho de tomate. Pode ser entre seu marido e seu bebê na cama grande de casal que, ao invés de enorme templo da perdição, tornou-se um pedaço sagrado dos seus melhores finais de semana entre todos.
O seu lugar de paz pode ser num colchão velho, ou deitada num beliche, apertada ao seu marido enquanto sabe que do outro lado da parede estão seus pais, talvez seus irmãos, sobrinhos ou filhos... Um lugar onde tudo o que importa no mundo está reunido sob o mesmo teto e, por isso, se dá o milagre de ter o peito tão cheio de amor, que é como se transbordasse dentro de você um enxurrada de conforto e serenidade, que chega a doer os espaços - antes vazios - que você guarda por dentro...
O lugar de conforto é precioso por ser nosso lugar de paz, por permitir que nos despojemos das máscaras e então, lá, não é preciso murchar a barriga e seus ombros não estão contraídos, o riso é solto ao invés da sua habitual tensão, e você sabe que, se precisar de um socorro, de uma palavra, de um olhar qualquer de ternura, ele estará ali, a um esticar das mãos, a um passo de nossos pobres pés, normalmente calejados de andar sobre as pedras duras de um mundo pouquíssimo confortável.
O lugar de conforto é aconchegante, morno e calmo, e ali, naquele espaço seguro que pode estar sujo e ter a geladeira vazia, é que você sente que pode dançar, talvez cantar em voz alta, ou simplesmente ficar o dia todo calada, observando a fartura de um tempo sem lacunas.
O lugar de conforto é onde todos são iguais; os que estão ali, embaixo do teto firme da casa antiga são os seus, conhecem até os seus dedos dos pés, sabem-se cheios de amor e dividem o seu amor com os outros. Amam-te apesar de seus fracassos, amam-te apesar de suas covardias, amam-te apesar da sua timidez, dos seus quilos a mais, das espinhas que nascem na sua testa, das suas vergonhas, das suas mais pobres humilhações e das suas mais nobres virtudes...
Amam-te ainda que você não fale inglês, não saiba as principais capitais do mundo ou ainda que você fuja diante de um grito forte que o mundo, longe desse lugar de conforto, tenha ecoado em seus ouvidos. Amam-te não só apesar de tudo isso, mas por tudo isso também. Porque sua fraquezas mais dolorosas não os afastam, mas os aproximam. E suas virtudes mais nobres não os repelem, mas os orgulha.
Amam-te porque propiciam a você calor e segurança, e sentem-se assim ao seu lado, acalentados e protegidos como se você, que não é capaz de cuidar de uma só planta, fosse capaz de garantir ao outro fartura de paz e saciedade de alegria, sem mover sequer um dedo. Amam-te porque se sentem amados, e a vida, simples assim, sem nenhum luxo e nehuma riqueza, torna-se a maior dádiva e o presente mais precioso entre todos, quando você encontra, numa noite qualquer, entre confetes e serpentinas, o seu lugar de paz.
Sunday, January 27, 2008
O gelo que nos move
Eu devia ter uns 10, 11 talvez até 12 anos quando um dia, de presente, uma tia me deu uma bolsa.
Sim, uma bolsa dessas de meninas, uma bolsinha pequena, coloridinha, para usar a tiracolo. Olhei o presente e lembro de não tê-lo compreendido bem. Por um instante pensei que fora um engano. Para que aquilo me serviria? Por que eu não ganhara uma boneca, como sempre? Por que não me deram um Lego, uma fita de vídeo game, o que queriam me dizer com aquela bolsa? Eu não tinha carteira, não tinha dinheiro, nem mesmo um batom faria sentido pra mim, então, aquela bolsa ali me pareceu totalmente fora de propósito, embora eu não soubesse explicar isso muito bem. Fiz portanto, o que minha mãe mandou e disse obrigada à tia simpática.
Daí em diante as coisas pareceram mudar com uma velociadade estonteante. Não demorou muito e alguém me deu um brilhinho para os lábios. Mais algum tempo e minha mãe pediu que a manicure pintasse as minhas unhas. Eu, menina, nunca tinha sido lá um poço de vaidade e não estava percebendo o que o mundo já notara: Eu crescia e me transformava numa mulher.
Para mim o processo foi demorado, eu certamente tive um atraso em relação as outras meninas da minha idade. No elevador, as senhorinhas simpáticas já me diziam que eu estava uma moça e eu não entendia bem a o que elas se referiam. Seria ao meu cabelo? À minha altura, àquela sainha florida que a tia Neide fez? Nunca sabia e saia andando serelepe, sentando sem modos e correndo feito um moleque.
Recebi inúmeras dicas, avisos, alertas, de que o tempo estava passando mas eu demorei a notar.
Foi numa noite, numa festinha boba num salão de festas quase vazio, com uma brincadeira de beijo, abraço, aperto de mão e um tal passeio no bosque. Eu me coloquei numa fila de poucas meninas, fechei meus olhos e estendi a minha mão, quando senti um dedo frio encostar no meu dedo quente, e soube que precisava escolher uma das opções. Ali, naquela fração de segundo, antes que eu dissesse qualquer coisa, senti pela primeira vez um gelo estranho na minha barriga. Quando o gelo veio, estranhamente eu comecei a suar e talvez por isso tenha dito rápido em voz alta: Passeio no bosque, passeio no bosque!
Foi essa noite que, inesperadamente, uma onda de emoção me invadiu e eu soube (sem saber que sabia) que nunca mais estaria livre dessa onda de emoção. Desse dia em diante a vida mudaria de fato e as bolsas, os esmaltes, os batons, fariam parte da minha realidade de tal forma que eu não mais viveria sem essas pequenas futilidades.
As previsões não seriam mais tão simples, os dias não seriam mais tão longos, o tempo viria ágil, veloz e levaria num grande tufão o que restava de uma infância longa e ingênua.
A vida então, começaria de fato. Sim porque a vida não começa exatamente quando somos pequenos bebês, mas um pouco mais tarde com a grande descoberta que se dá, ali, pela adolescência. É lá, depois de uma bolsa, de um esmalte ou de um brilhinho, que passamos a enteder o mundo de outra forma, com outras cores...
Depois desses pequenos símbolos que o mundo nos oferta, não nos livramos mais. Em seguida você começa a passar perfume, nota que uma calça deixa sua pequena barriga mais ou menos saliente, pede pra fazer a sobrancelha, pra depilar os pêlos ainda finos da axila, percebe que um lápis de olho te deixa com o rosto mais vivo, começa a querer determinada sandália, bota, e descobre que o secador da sua mãe é muito fraco e que você precisa de uma escova daquelas grandes, quanto maior melhor.
Pronto, você ficou refém. Você se tornou uma pequena mulher e descobriu a maior entre todas as descobertas, o maior entre todos os poderes: O da conquista. Não sabe ainda que sabe tudo isso, mas já arrisca tentar conquistar o menino da 6ª B e, assim, já sabe que pode conquistar o mundo.
O que você fará daí por diante, vai ser repetir o que eu fiz na noite do salão de festas. Você vai ser movida pelo gelo na barriga. Primeiro o gelo se dá por um menino, depois por um homem feito e, um dia, você percebe que sente um gelo na barriga quando pensa naquele projeto esquecido, e aí parte para sua próxima consquista.
É isso, será sempre isso que faremos na vida, conquistamos. Diferentemente dos homens, não conquistamos porque queremos riquezas e reconhecimento, conquistamos pelo enorme prazer de conquistar. Consquistamos porque é o que sabemos fazer melhor e, quando você ganhou uma bolsa de alça longa, pra usar atravessado, era isso que a sua mãe queria te dizer. Que você, dali pra frente, conquistaria não só a ela e ao seu pai. Conquistaria um namorado, um amante, um emprego, um chefe, uma chefa, conquistaria um dia ao seu próprio filho e o levaria também pelos caminhos encantados da sedução e da conquista.
Eu recebi o sinal junto com a bolsa, mas foi um pouco depois, em um inocente passeio no bosque que eu ultrapassei as fronteiras da minha família, e vi, ainda de forma nebulosa, que a escolha melhor seria sempre um passeio. No bosque, na rua, no centro ou em qualquer lugar de um mundo que só precisava agora, enfim, ser conquistado.
Ah, a infância era boa, mas, embora eu temesse, passei a acreditar que – talvez - o melhor ainda estava por vir...
Sim, uma bolsa dessas de meninas, uma bolsinha pequena, coloridinha, para usar a tiracolo. Olhei o presente e lembro de não tê-lo compreendido bem. Por um instante pensei que fora um engano. Para que aquilo me serviria? Por que eu não ganhara uma boneca, como sempre? Por que não me deram um Lego, uma fita de vídeo game, o que queriam me dizer com aquela bolsa? Eu não tinha carteira, não tinha dinheiro, nem mesmo um batom faria sentido pra mim, então, aquela bolsa ali me pareceu totalmente fora de propósito, embora eu não soubesse explicar isso muito bem. Fiz portanto, o que minha mãe mandou e disse obrigada à tia simpática.
Daí em diante as coisas pareceram mudar com uma velociadade estonteante. Não demorou muito e alguém me deu um brilhinho para os lábios. Mais algum tempo e minha mãe pediu que a manicure pintasse as minhas unhas. Eu, menina, nunca tinha sido lá um poço de vaidade e não estava percebendo o que o mundo já notara: Eu crescia e me transformava numa mulher.
Para mim o processo foi demorado, eu certamente tive um atraso em relação as outras meninas da minha idade. No elevador, as senhorinhas simpáticas já me diziam que eu estava uma moça e eu não entendia bem a o que elas se referiam. Seria ao meu cabelo? À minha altura, àquela sainha florida que a tia Neide fez? Nunca sabia e saia andando serelepe, sentando sem modos e correndo feito um moleque.
Recebi inúmeras dicas, avisos, alertas, de que o tempo estava passando mas eu demorei a notar.
Foi numa noite, numa festinha boba num salão de festas quase vazio, com uma brincadeira de beijo, abraço, aperto de mão e um tal passeio no bosque. Eu me coloquei numa fila de poucas meninas, fechei meus olhos e estendi a minha mão, quando senti um dedo frio encostar no meu dedo quente, e soube que precisava escolher uma das opções. Ali, naquela fração de segundo, antes que eu dissesse qualquer coisa, senti pela primeira vez um gelo estranho na minha barriga. Quando o gelo veio, estranhamente eu comecei a suar e talvez por isso tenha dito rápido em voz alta: Passeio no bosque, passeio no bosque!
Foi essa noite que, inesperadamente, uma onda de emoção me invadiu e eu soube (sem saber que sabia) que nunca mais estaria livre dessa onda de emoção. Desse dia em diante a vida mudaria de fato e as bolsas, os esmaltes, os batons, fariam parte da minha realidade de tal forma que eu não mais viveria sem essas pequenas futilidades.
As previsões não seriam mais tão simples, os dias não seriam mais tão longos, o tempo viria ágil, veloz e levaria num grande tufão o que restava de uma infância longa e ingênua.
A vida então, começaria de fato. Sim porque a vida não começa exatamente quando somos pequenos bebês, mas um pouco mais tarde com a grande descoberta que se dá, ali, pela adolescência. É lá, depois de uma bolsa, de um esmalte ou de um brilhinho, que passamos a enteder o mundo de outra forma, com outras cores...
Depois desses pequenos símbolos que o mundo nos oferta, não nos livramos mais. Em seguida você começa a passar perfume, nota que uma calça deixa sua pequena barriga mais ou menos saliente, pede pra fazer a sobrancelha, pra depilar os pêlos ainda finos da axila, percebe que um lápis de olho te deixa com o rosto mais vivo, começa a querer determinada sandália, bota, e descobre que o secador da sua mãe é muito fraco e que você precisa de uma escova daquelas grandes, quanto maior melhor.
Pronto, você ficou refém. Você se tornou uma pequena mulher e descobriu a maior entre todas as descobertas, o maior entre todos os poderes: O da conquista. Não sabe ainda que sabe tudo isso, mas já arrisca tentar conquistar o menino da 6ª B e, assim, já sabe que pode conquistar o mundo.
O que você fará daí por diante, vai ser repetir o que eu fiz na noite do salão de festas. Você vai ser movida pelo gelo na barriga. Primeiro o gelo se dá por um menino, depois por um homem feito e, um dia, você percebe que sente um gelo na barriga quando pensa naquele projeto esquecido, e aí parte para sua próxima consquista.
É isso, será sempre isso que faremos na vida, conquistamos. Diferentemente dos homens, não conquistamos porque queremos riquezas e reconhecimento, conquistamos pelo enorme prazer de conquistar. Consquistamos porque é o que sabemos fazer melhor e, quando você ganhou uma bolsa de alça longa, pra usar atravessado, era isso que a sua mãe queria te dizer. Que você, dali pra frente, conquistaria não só a ela e ao seu pai. Conquistaria um namorado, um amante, um emprego, um chefe, uma chefa, conquistaria um dia ao seu próprio filho e o levaria também pelos caminhos encantados da sedução e da conquista.
Eu recebi o sinal junto com a bolsa, mas foi um pouco depois, em um inocente passeio no bosque que eu ultrapassei as fronteiras da minha família, e vi, ainda de forma nebulosa, que a escolha melhor seria sempre um passeio. No bosque, na rua, no centro ou em qualquer lugar de um mundo que só precisava agora, enfim, ser conquistado.
Ah, a infância era boa, mas, embora eu temesse, passei a acreditar que – talvez - o melhor ainda estava por vir...
Presentes

Dois avisos importantes: Um, não é bem um aviso é um agradecimento. Ganhei um presente aqui, desse mundo da bloglândia (ou será blogosfera?) dessa menina, e estou super honrada. Obrigada viu menina?
E o segundo, mas não menos importante, é que tem um novo, e ótimo, blog na praça. Nào deixe de visitá-la.
Wednesday, January 16, 2008
Balbúrdia noturna
Quando eu era criança acreditava – e acreditava piamente – que os brinquedos, todos, acordavam quando eu ia dormir. As vezes, se demorava a dormir chegava a ficar com pena dos brinquedos que, coitados, estavam ansiosos para se verem sozinhos e a dona, aquela fedelha, não pregava logo os olhos. Fedelha não, que eu era uma mãe pra esses brinquedos. Quase que literalmente falando.
Pois hoje, que cresci, tenho pensado que as minhas insônias não atrapalham ninguém. Visto que não há brinquedos nessa casa, ninguém precisa muito que eu durma, e estar acordada ou não, é absolutamente indiferente para todos os objetos da casa. Para a mesinha de centro, para os porta-retratos, para os talheres na gaveta, para os clips, para o grampeador, o cesto de lixo, todos eles objetos mortos, sem vida, nada se esforça para que eu durma e, de repente, me dei conta que isso pode ser um indício de que a coisa está ficando braba.
Enquanto eu rolo de um lado para o outro, penso bobagens intermináveis, pra ver se elas me consomem mais energia, eu me cansaria mais e conseguiria dormir. Fico desejando ter brinquedos porque eles torceriam pelo meu sono.
Ao meu lado dorme um homem vivo que, sim, se interessa fortemente pelo meu sono, mas normalmente, ele se interessa enquanto dorme o que é absolutamente compreensível, já que qualquer pessoa viva quer dormir em algum momento do dia e, fora ele, não há nada que possa ter vida nessa casa. Tem uma orquídea na sala mas morreu. Os sapatos não acordariam, nem as saias, todas emboladas no guarda-roupa, se tivessem vida eu as teria matado sufocadas. Foi quando, num instante, lembrei do computador... opa, o computador. Lá dentro mora vida, claro! É lá, lá mesmo que eles torcem para que o expediente se encerre e possam estar livres, tirar a carcaça de megabytes e enfim se movimentar, requebrar o quadril, espreguiçar, balançar o esqueleto, como dizem por aí. Tudo bem, tudo bem, não vou falar das pastas, dos sites, dos arquivos... Eles talvez não, mas temos o MSN! O MSN, claro! Aqueles bonequinhos idiotas, todos estáticos, sem braços nem pernas, apenas cabeça e tronco. Todos eles, os bonequinhos panacas talvez sejam mais espertos do que possamos pensar e acordem a noite, agora mesmo que eu estou aqui, tentando dormir, com a casa silenciosa, eles podem estar fazendo a maior festa, gritando, tocando pandero, se livrando daqueles únicos ruídos secos de pe-pen, pum, tum, no máximo um trrrrr quando a gente clica em “chamar a atenção” não é isso? A idéia me despertou ainda mais. Os bonequinhos, que só vemos verdinhos ou cinzas, devem vestir cores diferentes, usar neon, brilhos, até acessórios talvez, quando enfim a tela fica negra para nós. É aí, nesse instante de alegria que temos ao final do dia, que eles se aliviam. Ufa, diz o primeiro mais ansioso, estava nervoso aqui, como ela trabalhou hoje... E eu ando engordando, tive que ficar o dia inteiro murchando a barriga pra não dar bandeira, não aguentava mais... Logo outra se acende, de laranja: Ai é mesmo, também dei uma engordadinha e os padrões estão muito antigos, não conseguimos mais mantê-los. O 38 virou 40, que virou 42, que virou 44, onde andará o manequim 46? Assim não dá! E outros vão se colorindo, se pintando, chamam os bonequinhos dos amigos, acordam os que ficam abandonados durante o dia, esses pobres que nem online ficam, os que estão bloqueados, coitados, tem que passar o dia com uma placa na cara, isso não está certo, o cara fica meio estranho, meio tonto, a noite pra compensar têm de ir a forra...
A idéia me animou. Quem sabe eles, quem sabe os bonequinhos do MSN me salvariam da solidão de mais uma noite em claro? Arquitetei um plano, com cuidado. Eu ligaria o computador quase sem abrí-lo, para que eles não notassem. Quem sabe um mais desavisado ainda estivesse andando pela tela, distraído, ou então aqueles dois, os amantes, poderiam tentar se esconder atrás de um ícone do desktop, mas eu moveria todos, mudaria tudo e, um, pelo menos um deles, eu conseguiria pegar.
Cheguei a levantar, mas, numa fração de segundo, antes de ficar de pé, lembrei dos meus brinquedos. Eu tentei isso tantas vezes. Acordei, menina esperta, ligeira que eu era e, mais de uma dezena de vezes fui ao quarto de brinquedos, sorrateiramente, quando abria a porta, ágil, veloz, certa de que dessa vez não passaria, pronto, eles tinha se calado, se ajeitado e eu nunca, nem por uma vez sequer, consegui flagrá-los em um momento de balbúrdia. Se eles que eram de plástico, de madeira, velhos e bocós eu nunca peguei, pensei sentada na cama do meu quarto escuro, imagine esses do MSN, que são muito mais modernos, versão 7.0, eles é que eu não vou conseguir pegar mesmo, concluí enquanto deitava de novo, virando pro lado e bocejando pela primeira vez na noite. Talvez pensar bobagens gaste mesmo mais energia do que o normal, foi meu último pensamento antes de adormecer...
Pois hoje, que cresci, tenho pensado que as minhas insônias não atrapalham ninguém. Visto que não há brinquedos nessa casa, ninguém precisa muito que eu durma, e estar acordada ou não, é absolutamente indiferente para todos os objetos da casa. Para a mesinha de centro, para os porta-retratos, para os talheres na gaveta, para os clips, para o grampeador, o cesto de lixo, todos eles objetos mortos, sem vida, nada se esforça para que eu durma e, de repente, me dei conta que isso pode ser um indício de que a coisa está ficando braba.
Enquanto eu rolo de um lado para o outro, penso bobagens intermináveis, pra ver se elas me consomem mais energia, eu me cansaria mais e conseguiria dormir. Fico desejando ter brinquedos porque eles torceriam pelo meu sono.
Ao meu lado dorme um homem vivo que, sim, se interessa fortemente pelo meu sono, mas normalmente, ele se interessa enquanto dorme o que é absolutamente compreensível, já que qualquer pessoa viva quer dormir em algum momento do dia e, fora ele, não há nada que possa ter vida nessa casa. Tem uma orquídea na sala mas morreu. Os sapatos não acordariam, nem as saias, todas emboladas no guarda-roupa, se tivessem vida eu as teria matado sufocadas. Foi quando, num instante, lembrei do computador... opa, o computador. Lá dentro mora vida, claro! É lá, lá mesmo que eles torcem para que o expediente se encerre e possam estar livres, tirar a carcaça de megabytes e enfim se movimentar, requebrar o quadril, espreguiçar, balançar o esqueleto, como dizem por aí. Tudo bem, tudo bem, não vou falar das pastas, dos sites, dos arquivos... Eles talvez não, mas temos o MSN! O MSN, claro! Aqueles bonequinhos idiotas, todos estáticos, sem braços nem pernas, apenas cabeça e tronco. Todos eles, os bonequinhos panacas talvez sejam mais espertos do que possamos pensar e acordem a noite, agora mesmo que eu estou aqui, tentando dormir, com a casa silenciosa, eles podem estar fazendo a maior festa, gritando, tocando pandero, se livrando daqueles únicos ruídos secos de pe-pen, pum, tum, no máximo um trrrrr quando a gente clica em “chamar a atenção” não é isso? A idéia me despertou ainda mais. Os bonequinhos, que só vemos verdinhos ou cinzas, devem vestir cores diferentes, usar neon, brilhos, até acessórios talvez, quando enfim a tela fica negra para nós. É aí, nesse instante de alegria que temos ao final do dia, que eles se aliviam. Ufa, diz o primeiro mais ansioso, estava nervoso aqui, como ela trabalhou hoje... E eu ando engordando, tive que ficar o dia inteiro murchando a barriga pra não dar bandeira, não aguentava mais... Logo outra se acende, de laranja: Ai é mesmo, também dei uma engordadinha e os padrões estão muito antigos, não conseguimos mais mantê-los. O 38 virou 40, que virou 42, que virou 44, onde andará o manequim 46? Assim não dá! E outros vão se colorindo, se pintando, chamam os bonequinhos dos amigos, acordam os que ficam abandonados durante o dia, esses pobres que nem online ficam, os que estão bloqueados, coitados, tem que passar o dia com uma placa na cara, isso não está certo, o cara fica meio estranho, meio tonto, a noite pra compensar têm de ir a forra...
A idéia me animou. Quem sabe eles, quem sabe os bonequinhos do MSN me salvariam da solidão de mais uma noite em claro? Arquitetei um plano, com cuidado. Eu ligaria o computador quase sem abrí-lo, para que eles não notassem. Quem sabe um mais desavisado ainda estivesse andando pela tela, distraído, ou então aqueles dois, os amantes, poderiam tentar se esconder atrás de um ícone do desktop, mas eu moveria todos, mudaria tudo e, um, pelo menos um deles, eu conseguiria pegar.
Cheguei a levantar, mas, numa fração de segundo, antes de ficar de pé, lembrei dos meus brinquedos. Eu tentei isso tantas vezes. Acordei, menina esperta, ligeira que eu era e, mais de uma dezena de vezes fui ao quarto de brinquedos, sorrateiramente, quando abria a porta, ágil, veloz, certa de que dessa vez não passaria, pronto, eles tinha se calado, se ajeitado e eu nunca, nem por uma vez sequer, consegui flagrá-los em um momento de balbúrdia. Se eles que eram de plástico, de madeira, velhos e bocós eu nunca peguei, pensei sentada na cama do meu quarto escuro, imagine esses do MSN, que são muito mais modernos, versão 7.0, eles é que eu não vou conseguir pegar mesmo, concluí enquanto deitava de novo, virando pro lado e bocejando pela primeira vez na noite. Talvez pensar bobagens gaste mesmo mais energia do que o normal, foi meu último pensamento antes de adormecer...
Tuesday, January 15, 2008
Purpurina e hipóteses

Quando eu era criança, queria ser professora. Depois, adolescente, quis ser astronauta e, já grande, quando entrei na faculdade de Psicologia, decidi que um dia seria psicóloga da NASA e, claro, teria de viajar para o espaço as vezes, em caso de um astronauta muito, muito bom ter questionamentos seríssimos e não abrir mão de sua sessão semanal nos 40 dias dele no espaço o que, obviamente, me obrigaria a acompanhá-lo até a lua e me tornaria um pouco astronauta sem que eu tivesse que mudar de faculdade.
Acontece que não deu muito certo isso e eu me tornei consultora de RH. Embora alguns clientes já tenham me proporcionado viagens inter-galácticas, (com maior frequência até, do que se eu tivesse de fato trabalhando na NASA), as vezes penso se foi a decisão mais acertada. Essas vezes são, na realidade, todas as vezes em que vejo alguém com profissão diferente da minha exercê-la com certo gosto e paixão.
O caso começou a piorar na época do Pan. Eu assistia pela TV aquelas meninas ginastas correndo, saltando a barra como se fossem plumas dançando no ar e, hipnotizada, dizia para mim mesma: Taí. Eu poderia ser uma ginasta. Eu, que nunca consegui dar um estrela, não ouso arriscar uma cambalhota, e fui incapaz até de fazer jazz, acreditava, olhando para as meninas, que eu seria melhor do que elas. Me imaginava sorridente, de coque no cabelo, um pouco de purpurina no rosto, correndo, dançando no ar e pousando lindamente no colchonete azul, braços esticados, sorriso branco, os aplausos ecoando no estádio. Talvez eu precisasse emagrecer um pouco, mas já sei fazer coques lindos e sou boa com purpurina também. Em que outra profissão eu teria de passar purpurina no canto dos olhos? Nenhuma! E eu levo tanto jeito com essa coisa de brilhos que achei que só poderia ser um sinal, estava aí a minha vida. Essa fase durou todo o pan, que eu assistia da minha cama, com um balde de M&M ao lado, uma ou outra bolinha caindo debaixo do travesseiro, sujando tudo, nada parecido com a graça e leveza das ginastas voadorar que pairavam no ar.
Mas quando acabou o Pa e eu fui visitar uma amiga na maternidade, outro fato se deu. Quando a enfermeira entrou no quarto, empurrando a caminha de acrílico com uma mini-pessoa lá dentro, tudo ficou claro! Olhei pra enfermeira e me veio a resposta: Quero ser pediatra! Claro, porque enfermeira não tem vantagem nenhuma, se é pra ser peão continuo consultora, mas já que vou mudar vou ser chefe de enfermeira, isso sim faz muito mais sentido. Eu sempre levei jeito com criança, sou paciente, gosto de branco, pronto. Tudo resolvido. Até que uma amiga me pede dicas para uma festa de casamento e, nossa, como eu nunca pensei nisso antes, sou ótima com dicas de casamento, daria uma excelente organizadora de festas de casamento, claro! Não preciso fazer outra faculdade, a minha está de bom tamanho, e só vou saber de noivas, vestidos, alegrias, risos, docinhos, forminhas, flores, fotos, penteados, convites, véus, unhas, purpurina (de novo), o que mais podia querer?
Mas a vida me chamou de volta com um e-mail aborrecido sobre uma planilha no excel e então me dei conta que talvez não possa ser mais do que sou hoje, mesmo sabendo que o que sou, não é lá grande coisa. Na hipótese tudo fica tão fácil e encantador. Imaginei, de rèpente que, talvez, alguém me assista e ache que é fácil ser eu, que gostaria de estar no meu lugar, que seria uma ótima consultora, até melhor do que eu, o que nem é tão difícil assim... Fato é que, diante do tempo que me resta, vou desistir de ser todas as outras profissões e pegar o que elas ttem de melhor. Amanhã mesmo vou vestir uma calça branca, sapatilha, e, no canto dos olhos, purpurina. Quem sabe arremato com um coque e assim, de uma forma ou de outra, chego na lua e pronto. Resolvo o problema. De lá, depois, penso no que vou fazer.
Thursday, January 10, 2008
Impressão*

Somos todas, sem execeção, esquecidas. Algumas mais, outras menos. Esquecemos as chaves, a necessaire, a pasta de dente, o pijama então, nem se fala. Esquecemos nomes de grandes amigos que encontraremos um dia no shopping e, perplexos, faremos um discurso interno regado a “como-é-que-não-lembro-essa-agora?”. Mas não lembraremos, enfim. Porque somos todos cabeças de vento para algumas coisas. Uns mais, outros menos, mas somos em geral esquecidos... No entanto, a nós mulheres ficou reservado um tipo de lembrança, que, incrivelmente, parece nunca ser apagada.
Alguns momentos, normalmente momentos tolos, quase que bocós, ficam como que prensados em algum lugar muito doce, muito terno dentro de nós, de forma que esse lugar abriga as lembranças mais antigas e, surpreendentemente, inesquecíveis. São lembranças de um tempo livre, feliz e leve. Pode ser a lembrança de um doce da sua infância, ou de um percurso que você fazia a pé quando tinha 18 anos e 50 quilos, pode ser a lembrança de uma noite de verão junto ao grande amor, sobre velozes bicicletas, ou sobre um colchão jogado numa sala imunda. Ah as lembranças de amor. Somos fragéis, quase tolas diante do amor. Ele nos apossa, nos guarda e, mesmo anos depois, mesmo diante de um novo – e melhor - amor, aquele, do passado, aquele naquela casa sem móveis, te persegue. É um incômodo e um conforto. Um conforto porque, na lembrança, na memória afetiva nos vemos de novo livres, felizes, merecedoras de uma alegria tão leve e tola que nunca a saberíamos se não tivéssemos um dia a tido... E é um incômodo porque é o passado. É o tempo acenando para nós. São nossos planos, todos realizados, que nos dizem irônicos que era lá, era no colchão imundo na sala vazia, que você era feliz...
Que traiçoeira pode ser a memória, não? Em um dia você não acha o celular, no outro, não tira da cabeça um verão de 1997. E por que? Por que o amor imprime, como que uma tatuagem em nós. Mais, ele marca como que com uma prensa de brasa, nossa memória afetiva. E lá, nos vemos de novo jovens. Nos vemos de novo lindas, leves, inocentes, livres e felizes, como não imaginávamos ser.
E quando a lembrança nos surge, faceira, sentimos falta, não do outro, mas sentimos uma enorme falta de nós mesmas. Da nossa gigantesca capacidade de sermos felizes com pouco, com quase nada. Quanta falta sentimos de sermos quem fomos um dia. Quanta falta sentimos de sermos alegres em meio ao caos, de sermos tolas e ingenuamente felizes. Porque o que está nessa memória, o que ficou prensado lá nessa lembrança, não é nunca coisa que se pega, que se conta, que se mede.
Na sua lembrança mais doída tem risos, piadas sem-graça, brincadeiras infantis... Na sua memória afetiva tem a segurança e a alegria de ser o que se é, sem ser nada. Nada, você era nada. Não era jornalista, não era psicóloga, nem médica, nem engenheira. Não era doutora, não era dona, não era nada. Era uma menina entregue à alguém. Era uma menina absolutamente corajosa, alguém que teve a força e a coragem de viver um instante de amor num colchão sujo, numa sala vazia, numa bicicleta velha, numa escadaria escura, onde quer que seja, onde quer que você tenha sido, por alguns momentos, uma enorme tola. Uma pessoa, enfim, que ri até doer a barriga. Uma pessoa que se basta com o nada, porque esse nada, esse pouco que se tem, de repente, era mesmo tudo.
*Texto inspirado nessa coluna
A gente muda
Talvez seja a idade, talvez seja o tempo. Talvez seja o aquecimento global, o marido, os amigos, os inimigos, não sei. Fato é que, ano após ano, dia após dia, nós mudamos.
Há os que defendem que não. Não mudamos, somos os mesmo por toda uma vida, mudamos pouco, superficialmente, quase nada, dizem outros.
Eu, contrariando até mesmo alguns nomes da minha própria formação, defendo fortemente que podemos sim mudar. E mudamos. Não só quando queremos mas, muitas vezes, quando não queremos também.
Eu era um tonta, uma completa idiota, e hoje sou mais ou menos esperta. Em alguns pontos, até bem esperta.
Eu era uma menina solitária, desolada e, algumas vezes triste. Fui contra o casamento, abominei e amaldiçoei o amor, achei brega, cafonérrimo se casar e formar família, achar que é possível um amor durar para sempre, e depois brigar e se separar e em seguida morrer de saudades e voltar.
E hoje.. Veja bem... Já cheguei na parte do casar, estou montando uma família e, sim, há tempos já acho que o amor pode durar para sempre.
Eu odiava pimenta e hoje sou praticamente uma engolidora de fogo. Odiava M&M de amendoim que é hoje, o meu preferido. Adorava brincar com crianças por horas, dias se fosse preciso e hoje, ainda que goste muito, talvez não dure tantos dias.
A gente cresce. Abandona uma menina inocente e se tora uma mulher safa. Deixa de ser um pivete e se torna um homem. Eu assisto, todos os dias, essa construção de um homem novo se dar no homem que vive comigo. Ele era um pivete, um moleque que só falava gírias e apertava a mão mole... Hoje, esse rapaz é um adulto que se expressa bem, fala palavras que complicam que as ouve, e é capaz de quebrar os dedos de alguém quando os cumprimenta com um seguro aperto de mãos.
A gente muda. A gente muda pra melhor se formos espertos e mudamos pra pior quando somos meio lentos. Deixamos de ser tão rígidos, deixamos de ser tão falantes, deixamos de ser tão tímidos, deixamos de ser tão preconceituosos e, ao mesmo tempo, podemos nos tornar mais medrosos, mais fracos, mais acomodados...
A vida é mesmo assim e, se não mudarmos por bem, acontecerá de sofrermos mudanças tão bruptas, nos sentirmos tão desamparados e tão absolutamente perplexos com as rasteiras que a vida nos pregará que, sim, seremos novos no outro dia. Talvez mais tristes e mais austeros. Talvez mais chatos e mais ranzinzas mas, de uma forma ou de outra, o mundo nos chamará à mudança pra mostrar enfim, que quem manda aqui, definitivamente, não somos nós.
Há os que defendem que não. Não mudamos, somos os mesmo por toda uma vida, mudamos pouco, superficialmente, quase nada, dizem outros.
Eu, contrariando até mesmo alguns nomes da minha própria formação, defendo fortemente que podemos sim mudar. E mudamos. Não só quando queremos mas, muitas vezes, quando não queremos também.
Eu era um tonta, uma completa idiota, e hoje sou mais ou menos esperta. Em alguns pontos, até bem esperta.
Eu era uma menina solitária, desolada e, algumas vezes triste. Fui contra o casamento, abominei e amaldiçoei o amor, achei brega, cafonérrimo se casar e formar família, achar que é possível um amor durar para sempre, e depois brigar e se separar e em seguida morrer de saudades e voltar.
E hoje.. Veja bem... Já cheguei na parte do casar, estou montando uma família e, sim, há tempos já acho que o amor pode durar para sempre.
Eu odiava pimenta e hoje sou praticamente uma engolidora de fogo. Odiava M&M de amendoim que é hoje, o meu preferido. Adorava brincar com crianças por horas, dias se fosse preciso e hoje, ainda que goste muito, talvez não dure tantos dias.
A gente cresce. Abandona uma menina inocente e se tora uma mulher safa. Deixa de ser um pivete e se torna um homem. Eu assisto, todos os dias, essa construção de um homem novo se dar no homem que vive comigo. Ele era um pivete, um moleque que só falava gírias e apertava a mão mole... Hoje, esse rapaz é um adulto que se expressa bem, fala palavras que complicam que as ouve, e é capaz de quebrar os dedos de alguém quando os cumprimenta com um seguro aperto de mãos.
A gente muda. A gente muda pra melhor se formos espertos e mudamos pra pior quando somos meio lentos. Deixamos de ser tão rígidos, deixamos de ser tão falantes, deixamos de ser tão tímidos, deixamos de ser tão preconceituosos e, ao mesmo tempo, podemos nos tornar mais medrosos, mais fracos, mais acomodados...
A vida é mesmo assim e, se não mudarmos por bem, acontecerá de sofrermos mudanças tão bruptas, nos sentirmos tão desamparados e tão absolutamente perplexos com as rasteiras que a vida nos pregará que, sim, seremos novos no outro dia. Talvez mais tristes e mais austeros. Talvez mais chatos e mais ranzinzas mas, de uma forma ou de outra, o mundo nos chamará à mudança pra mostrar enfim, que quem manda aqui, definitivamente, não somos nós.
Tuesday, January 8, 2008
Voltei
Voltei.
Mas na verdade, não de todo. Voltei com todo o meu corpo, inteiro, todos os dedos, todas as roupas, nenhuma mala perdida, tudo, tudo aqui.
Mas, olhe bem. Respire fundo. Não está exatamente tudo aqui...
Algo falta, algo que urge, algo que deveria estar aqui, mas não veio.
Um pouco da minha inspiração. Um teco das minhas promessas, um punhado da minha magreza...
Voltei, mas não voltei eu.
Voltei outra. Sento-me diante do papel em branco e ele me ofusca, me cega de modo que meus pensamentos não se montam o suficiente para escrever em paz.
Voltei, mas meus planos todos, minhas promessas enormes, essas, ficaram em qualquer lugar. Explodiram com os fogos, caíram sobre algum lago congelado, perderam-se entre a neve que caiu fina, fazendo doer até os ossos...
Ah os planos... como ficam bem no papel. Que lindos são quando os escrevemos, num papelzinho qualquer, como ítens de afazeres simples, sem saber que eles, esses planos grandiosos, ficam melhor ali, no papel em branco, do que em qualquer esquina da vida real...
Voltei. Mas minha inspiração, ainda não. Vou ligar pra Varig, ver se mandaram pro lugar errado, ver se estava etiquetada, dar meu endereço e, enfim, mandar entregar..
Voltei. Mas, calma, alguns pedaços ainda estão por vir...
Mas na verdade, não de todo. Voltei com todo o meu corpo, inteiro, todos os dedos, todas as roupas, nenhuma mala perdida, tudo, tudo aqui.
Mas, olhe bem. Respire fundo. Não está exatamente tudo aqui...
Algo falta, algo que urge, algo que deveria estar aqui, mas não veio.
Um pouco da minha inspiração. Um teco das minhas promessas, um punhado da minha magreza...
Voltei, mas não voltei eu.
Voltei outra. Sento-me diante do papel em branco e ele me ofusca, me cega de modo que meus pensamentos não se montam o suficiente para escrever em paz.
Voltei, mas meus planos todos, minhas promessas enormes, essas, ficaram em qualquer lugar. Explodiram com os fogos, caíram sobre algum lago congelado, perderam-se entre a neve que caiu fina, fazendo doer até os ossos...
Ah os planos... como ficam bem no papel. Que lindos são quando os escrevemos, num papelzinho qualquer, como ítens de afazeres simples, sem saber que eles, esses planos grandiosos, ficam melhor ali, no papel em branco, do que em qualquer esquina da vida real...
Voltei. Mas minha inspiração, ainda não. Vou ligar pra Varig, ver se mandaram pro lugar errado, ver se estava etiquetada, dar meu endereço e, enfim, mandar entregar..
Voltei. Mas, calma, alguns pedaços ainda estão por vir...
Friday, December 21, 2007
Recesso
Persista
Ouvi ontem na TV. Um jovem ator agradecia um ator experiente, por ter-lhe dado o melhor conselho que ele recebera em toda a vida. O conselho era, basicamente, persista.
Sim, persista. O ator consagrado, dono do conselho, era Tom Hanks que, de fato, devia saber o que falava.
O conselho, bobinho e facinho, serviu para mim. Serve para você, para uma amiga sua, para todos nós. A partir do momento em que nascemos, do primeiro instante até morrermos, é isso tudo o que precisamos faze: Persistir.
Um mini-bebê que acaba de nascer persiste para aprender a se alimentar no seio da mãe. Ou persiste para aprender a chupar uma mamadeira. Mais tarde, persistimos na escola, persistimos para entender as letras e o mundo, que ainda se descortina devagar diante de nós. Quando por fim achamos que conhecemos algo da vida, ela - a vida - nos dará um amor bandido, e aí a persistência, que já era enorme, ganha elasticidade e chega a tamanhos antes desconhecidos. Persistimos pelo primeiro amor. Desistimos dele, não porque deixamos de persistir. Desistimos desse amor porque persistimos por nós mesmos, pela nossa sobrevivência, pela vida que, ainda na adolescência, só mostra uma fresta do grande quando que está por vir.
Persistimos na profissão. Desistimos da profissão, porque persistimos também na nossa sobrevivência. Persistimos para ganhar o nosso sustento e persistimos sempre, até quando desistimos. Porque a desistência, por si só, não existe. Cada vez que desistimos de algo ou de alguém, é porque existe por trás uma persistência, uma teimosia por qualquer tesouro encantado que, esse sim, merece a nossa força e nossa dedicação.
Você se casa, e vive dias de absoluta persistência. Persistir num casamento é tarefa árdua, mas é lição obrigatória, não tem como faltar na aula. Uns persistem mais, outros menos. Mas é preciso persistir para se manter casado. Dia e noite, é preciso persistir sem cessar para manter vivo o que nos liga, o que nos emociona, o que nos atrai. Ah, mas e os que desistem? E os desertores, que abandonam a caminhada, deixam de persistir? Não, talvez sejam eles os que mais persistam. E persistem num sonho, numa crença, numa centelha de luz que se acende a cada noite insone, a cada vazio, a cada pequeno silêncio na mesa de jantar. É em nome dessa centelha de luz, que eles decidem persistir nos seus sonhos e crenças, e aí então, por isso, desistem. Sim, até quando desistimos, estamos persistindo...
E quando você tem filhos, faz o que? Persiste! Noites a fio vendo as crianças dormir, medindo febre, buscando na balada. O que é isso senão persistência?
Talvez por isso, em alguns momentos, a vida pareça por demais pesada. Mesmo com saúde, com alguém ao lado, com pão e leite na mesa, mesmo assim é preciso persistir. Persistir em algo e desistir de outra coisa. Escolher e persistir na escolha é aprendizado de toda uma vida, ensinamento que temos desde muito crianças mas que não nos damos conta.
E quem não queria simplesmente parar de persistir? Não necessáriamente desistir mas ficar ali, estagnada entre a persistência e a desistência. Por um segundo, por uma fração de tempo, nos descolaríamos da vida e descansaríamos um pouco. Mas não. Não é possível. Ou você persiste e puxa o ar ou persiste e solta o ar, assim é a vida.
Depois envelhece e envelhecer é a coroação da persistência. Manter o passo quando as pernas não têm mais agilidade e quando a memória não é mais confiável, é uma persistência desmedida, maior do que toda aquela, já tão gasta no decorrer de uma vida longa.
Um dia, no entanto, deixa-se de persistir. Sim, um minuto, quem sabe um segundo ou menos, e, nesse pequeno instante, em que de fato não persistimos em nada, a vida começa a acabar. Desistimos em nome de nada, desistimos por desistir, sem que haja por trás o tal tesouro encantado. Os olhos, talvez, fiquem embaçados para ver o baú reluzente, sonhar um sonho novo, tentar mais uma tentativa. As mãos não podem esticar nem se quer alguns centímetros, nada mais a buscar, nada mais a fazer, nada, absolutamente nada pelo que persistir... Aí então começamos a morrer e, talvez (eu não tenho certeza, mas talvez) essa desistência precise de certa força. Talvez seja preciso persistir na desistência porque, sim, é preciso persistir – e muito – para morrer.
Sim, persista. O ator consagrado, dono do conselho, era Tom Hanks que, de fato, devia saber o que falava.
O conselho, bobinho e facinho, serviu para mim. Serve para você, para uma amiga sua, para todos nós. A partir do momento em que nascemos, do primeiro instante até morrermos, é isso tudo o que precisamos faze: Persistir.
Um mini-bebê que acaba de nascer persiste para aprender a se alimentar no seio da mãe. Ou persiste para aprender a chupar uma mamadeira. Mais tarde, persistimos na escola, persistimos para entender as letras e o mundo, que ainda se descortina devagar diante de nós. Quando por fim achamos que conhecemos algo da vida, ela - a vida - nos dará um amor bandido, e aí a persistência, que já era enorme, ganha elasticidade e chega a tamanhos antes desconhecidos. Persistimos pelo primeiro amor. Desistimos dele, não porque deixamos de persistir. Desistimos desse amor porque persistimos por nós mesmos, pela nossa sobrevivência, pela vida que, ainda na adolescência, só mostra uma fresta do grande quando que está por vir.
Persistimos na profissão. Desistimos da profissão, porque persistimos também na nossa sobrevivência. Persistimos para ganhar o nosso sustento e persistimos sempre, até quando desistimos. Porque a desistência, por si só, não existe. Cada vez que desistimos de algo ou de alguém, é porque existe por trás uma persistência, uma teimosia por qualquer tesouro encantado que, esse sim, merece a nossa força e nossa dedicação.
Você se casa, e vive dias de absoluta persistência. Persistir num casamento é tarefa árdua, mas é lição obrigatória, não tem como faltar na aula. Uns persistem mais, outros menos. Mas é preciso persistir para se manter casado. Dia e noite, é preciso persistir sem cessar para manter vivo o que nos liga, o que nos emociona, o que nos atrai. Ah, mas e os que desistem? E os desertores, que abandonam a caminhada, deixam de persistir? Não, talvez sejam eles os que mais persistam. E persistem num sonho, numa crença, numa centelha de luz que se acende a cada noite insone, a cada vazio, a cada pequeno silêncio na mesa de jantar. É em nome dessa centelha de luz, que eles decidem persistir nos seus sonhos e crenças, e aí então, por isso, desistem. Sim, até quando desistimos, estamos persistindo...
E quando você tem filhos, faz o que? Persiste! Noites a fio vendo as crianças dormir, medindo febre, buscando na balada. O que é isso senão persistência?
Talvez por isso, em alguns momentos, a vida pareça por demais pesada. Mesmo com saúde, com alguém ao lado, com pão e leite na mesa, mesmo assim é preciso persistir. Persistir em algo e desistir de outra coisa. Escolher e persistir na escolha é aprendizado de toda uma vida, ensinamento que temos desde muito crianças mas que não nos damos conta.
E quem não queria simplesmente parar de persistir? Não necessáriamente desistir mas ficar ali, estagnada entre a persistência e a desistência. Por um segundo, por uma fração de tempo, nos descolaríamos da vida e descansaríamos um pouco. Mas não. Não é possível. Ou você persiste e puxa o ar ou persiste e solta o ar, assim é a vida.
Depois envelhece e envelhecer é a coroação da persistência. Manter o passo quando as pernas não têm mais agilidade e quando a memória não é mais confiável, é uma persistência desmedida, maior do que toda aquela, já tão gasta no decorrer de uma vida longa.
Um dia, no entanto, deixa-se de persistir. Sim, um minuto, quem sabe um segundo ou menos, e, nesse pequeno instante, em que de fato não persistimos em nada, a vida começa a acabar. Desistimos em nome de nada, desistimos por desistir, sem que haja por trás o tal tesouro encantado. Os olhos, talvez, fiquem embaçados para ver o baú reluzente, sonhar um sonho novo, tentar mais uma tentativa. As mãos não podem esticar nem se quer alguns centímetros, nada mais a buscar, nada mais a fazer, nada, absolutamente nada pelo que persistir... Aí então começamos a morrer e, talvez (eu não tenho certeza, mas talvez) essa desistência precise de certa força. Talvez seja preciso persistir na desistência porque, sim, é preciso persistir – e muito – para morrer.
Tuesday, December 18, 2007
Jogar ou falar
Uma noite dessas, conversava com essa amiga no MSN, como se tomássemos café com bolo de fubá. E ela me inspirou o texto abaixo.
Jogar ou falar
Então é isso mesmo. Queimamos sutiãs, ralamos, ganhamos até bem. Temos atitude, tomamos a frente das situações chegamos neles, nelas, em quem quer que seja e rimos disso tudo e de nós mesmas. Somos as mulheres, essas da novíssima geração.
Engordamos, emagrecemos, exigimos, aplaudimos a Dove, a Preta Gil, a Grazi e todo mundo que achamos bacana ou que nos tire do sufoco de sermos escravas de qualquer estereótipo insano. Também nos detonamos e, principalmente, nos ajudamos, quando queremos de fato. Somos nós, super, mega, master, incríveis: As mulheres do século 21!
Sim, somos mesmo. Eu bem que acredito nisso. No entanto, de repente, um dia, você mulher mega-super-master-hiper, vai se ver numa encruzilhada. Vai acordar, talvez no meio da madrugada, sem saber como agir com seu marido, com seu namorado, com seu caso. Vai se perguntar – olha que absurdo – se deve ser honesta. Será? Será que eu devo dizer o que estou sentindo? Será que devo falar que não está bom assim, que queria mais assado, que está até bom, mas... não, não devo falar. Está bom assim, a vida é assim mesmo, não vou falar é nada ele já é legal, pronto, tá bom...
Pois é. Você, mulher moderna, que tem ao seu lado um homem também moderno, e são ambos esclarecidos e sabidos, não sabem ainda se relacionar.
Talvez não saberemos nunca. Será? Será possível isso? Será que sempre teremos um preço a pagar?
Porque é isso, é assim que funciona. Se você for honesta, abrir seu coração, dependendo do assunto, pode assustar o rapaz. Ou pode dar a idéia de que o esteja pressionando. Mesmo que - juroportudoqueémaissagrado - não esteja. Então, pensa em formas de falar.
Arquiteta planos incríveis, trabalha com as palavras na sua mente, como se elas fossem fios de tear, e, assim, constrói uma rede perfeita de frases, reticências, gritos, sussuros e atitudes que, combinados, demostrarão a ele o que você de fato quer dizer. E, daí, sem que você se dê conta, está jogando. Sim, está jogando como a mais primitiva das mulheres. Está jogando, como jogavam as cortesãs de antigamente, ou como as matriarcas recentes, essas que, ao invés de serem adultas, responsáveis e corajosas, fingiam prazeres, ou fingiam alegrias, se necessário fingiriam tristezas... Fraudavam a verdade, se martirizavam para uma mentira, porque essa mentirinha, essa omissão, poderia ser o que era necessário para a vida a dois.
E não somos assim ainda? Porque há um preço. Há um preço e um risco para a honestidade e há um preço e um risco para o jogo. Fale, abra seu coração, seja verdadeira com ele, eu digo para as minhas amigas. Mas – e sempre há o mas - saiba do risco. Saiba que ele pode achar que, então, se você quer mesmo isso, não é “pra casar”, ou é uma louca ciumenta, ou é casamenteira de primeira. Saiba que, apesar de ser um homem moderno, ele ainda não sabe bem como age um e, quando tenta, logo se esquiva como um bicho diante do outro.
Então, tenha jogo de cintura. Jogue devagar. Insinue, demonstre, fale sem dizer, diga sem falar, tateie, avance e recue. Sempre nessa ordem. E saiba que, nesse caos, obviamente, pode ser que a mensagem não chegue ao destinatário. Principalmente se ele, apesar de moderníssimo, não estiver tão apto a ouvi-la. Ai, ninguém merece né?
A vida prega mesmo essas peças. Crescemos, evoluimos, mas, de repente, num domingo a noite você percebe que, talvez, não tenha saído do lugar.
Resta o tempo, o aprendizado e, principalmente, o bom-humor para sobreviver a uma modernidade, por vezes tão arcaica como a nossa...
Jogar ou falar
Então é isso mesmo. Queimamos sutiãs, ralamos, ganhamos até bem. Temos atitude, tomamos a frente das situações chegamos neles, nelas, em quem quer que seja e rimos disso tudo e de nós mesmas. Somos as mulheres, essas da novíssima geração.
Engordamos, emagrecemos, exigimos, aplaudimos a Dove, a Preta Gil, a Grazi e todo mundo que achamos bacana ou que nos tire do sufoco de sermos escravas de qualquer estereótipo insano. Também nos detonamos e, principalmente, nos ajudamos, quando queremos de fato. Somos nós, super, mega, master, incríveis: As mulheres do século 21!
Sim, somos mesmo. Eu bem que acredito nisso. No entanto, de repente, um dia, você mulher mega-super-master-hiper, vai se ver numa encruzilhada. Vai acordar, talvez no meio da madrugada, sem saber como agir com seu marido, com seu namorado, com seu caso. Vai se perguntar – olha que absurdo – se deve ser honesta. Será? Será que eu devo dizer o que estou sentindo? Será que devo falar que não está bom assim, que queria mais assado, que está até bom, mas... não, não devo falar. Está bom assim, a vida é assim mesmo, não vou falar é nada ele já é legal, pronto, tá bom...
Pois é. Você, mulher moderna, que tem ao seu lado um homem também moderno, e são ambos esclarecidos e sabidos, não sabem ainda se relacionar.
Talvez não saberemos nunca. Será? Será possível isso? Será que sempre teremos um preço a pagar?
Porque é isso, é assim que funciona. Se você for honesta, abrir seu coração, dependendo do assunto, pode assustar o rapaz. Ou pode dar a idéia de que o esteja pressionando. Mesmo que - juroportudoqueémaissagrado - não esteja. Então, pensa em formas de falar.
Arquiteta planos incríveis, trabalha com as palavras na sua mente, como se elas fossem fios de tear, e, assim, constrói uma rede perfeita de frases, reticências, gritos, sussuros e atitudes que, combinados, demostrarão a ele o que você de fato quer dizer. E, daí, sem que você se dê conta, está jogando. Sim, está jogando como a mais primitiva das mulheres. Está jogando, como jogavam as cortesãs de antigamente, ou como as matriarcas recentes, essas que, ao invés de serem adultas, responsáveis e corajosas, fingiam prazeres, ou fingiam alegrias, se necessário fingiriam tristezas... Fraudavam a verdade, se martirizavam para uma mentira, porque essa mentirinha, essa omissão, poderia ser o que era necessário para a vida a dois.
E não somos assim ainda? Porque há um preço. Há um preço e um risco para a honestidade e há um preço e um risco para o jogo. Fale, abra seu coração, seja verdadeira com ele, eu digo para as minhas amigas. Mas – e sempre há o mas - saiba do risco. Saiba que ele pode achar que, então, se você quer mesmo isso, não é “pra casar”, ou é uma louca ciumenta, ou é casamenteira de primeira. Saiba que, apesar de ser um homem moderno, ele ainda não sabe bem como age um e, quando tenta, logo se esquiva como um bicho diante do outro.
Então, tenha jogo de cintura. Jogue devagar. Insinue, demonstre, fale sem dizer, diga sem falar, tateie, avance e recue. Sempre nessa ordem. E saiba que, nesse caos, obviamente, pode ser que a mensagem não chegue ao destinatário. Principalmente se ele, apesar de moderníssimo, não estiver tão apto a ouvi-la. Ai, ninguém merece né?
A vida prega mesmo essas peças. Crescemos, evoluimos, mas, de repente, num domingo a noite você percebe que, talvez, não tenha saído do lugar.
Resta o tempo, o aprendizado e, principalmente, o bom-humor para sobreviver a uma modernidade, por vezes tão arcaica como a nossa...
Wednesday, December 12, 2007
Tuesday, November 6, 2007
Crônica do dia
Saí aqui, com essa daí:
Recall
A embalagem do sorvete foi produzida errada, falaram que não continha glúten, mas continha. Os brinquedos tinham peças que não tinham que ter. Os carros sempre têm qualquer coisa imprevista também e, daí, tratam de corrigir. Em todos esses casos e outros mais, utiliza-se o recall.
Chamam os compradores dos produtos que, provavelmente, não previam esse trabalho, mas, de certa forma, ficam gratos por terem a chance de corrigir o que já deveria ter vindo certo e não veio. E daí lá vão eles procurar a empresa responsável, levar seu produto, receber um tratamento mais ou menos e sair com o produto correto, novo - ou não - mas perfeito, como eles gostariam que fosse desde o início.
Fiquei pensado que, embora chato, o mecanismo é imprescindível. E, infelizmente, é natural também. Porque as coisas não saem sempre como planejadas. Os bancos dos carros, por mais rigorosamente que sejam checados, acabam saindo das suas fábricas com um defeitinho que ninguém percebeu antes. E vamos condenar as fábricas? Como, se fazemos isso o tempo todo?
Os relacionamentos estão cheios de erros que passam sem que sejam notados por uma das partes. Você pode ter tentado absurdamente, insistentemente, fez todas as checagens necessárias, usou sua voz mais doce e seu melhor sorriso, mas não deu certo. Passam-se meses, talvez décadas, e você percebe que pode ter pesado um pouco no ciúme. Talvez tenha sido muito exigente, talvez tenha sido muito melosa, talvez tenha reparado demais na sua própria doçura e esquecido as necessidades do rapaz, talvez... E aí, dá vontade de fazer um recall.
Anunciar em um jornal: “Você, que conviveu comigo entre 1998 e 2001, experimentou o mais doce dos meus sorrisos, aguentou lágrimas infindáveis e tentou arduamente, mas, no final, desistiu. Você que ficou me esperando na noite de sábado mais fria e chuvosa de junho, quando eu não consegui sair do trabalho. Cheque se minhas cartas têm data de um inverno de 1999 e, caso positivo, favor comparecer no endereço blablabla, com a documentação necessária para efetuarmos um recall.”
Pronto. A pessoa bateria na sua casa com as cartas em punho, e você falaria que era imatura demais, boboca demais, não sabia valorizar ou entender um amor de verdade, você se desculparia, mostraria que agora é adulta, sabe inclusive cozinhar um bom macarrão e ofereceria ali, aos dois, uma nova chance, um recall da relação, já sem os destemperos e defeitos antes inevitáveis. Ah, que bom seria...
E o contrário. E se ele, aquele panaca, te chamasse para um recall? Você poderia ler o anúncio no jornal, espantar-se e dizer, quase sem respirar: “Sou eu! É ele!” e, antes de dormir, pensar se iria no recall ou, de repente, deixaria o panaca esperando - afinal, quem mandou perder o timing?
O recall deveria servir também para o mundo profissional. Sabe aquele emprego? Aquele que você adorava, mas que fez aquela bobagem ou deixou de ter aquela idéia brilhante tão habitualmente sua? Pois bem. Ligue para a Globo e anúncie em um comercial do Fantástico, com letras garrafais: “A psicóloga Maria da Silva vem por meio dessa anunciar a todas as empresas nas quais trabalhou entre 1994 e 1999, tanto como estagiária, quanto como funcionária efetiva, que as mesmas devem comparecer a partir da próxima semana para um recall de atualização de conhecimento. A psicóloga pede desculpas pelo incômodo, mas faz esse comunicado visando garantir a qualidade de seus trabalho e a satisfação dos que acreditaram nela, ainda um pouquinho antes da hora ideal”. Já imaginou? Eles te ligando pra uma outra chance?
Quem não precisa de uma chance a mais na vida? Tantos erros, tantas peças que precisávamos ter ajustado melhor, mas não vimos. Deixamos passar e liberamos os brinquedos com peças pequeninas...
Isso sem falar na tristeza imposta pela mais dura lei da vida. Quem perdeu o pai ou a mãe no auge da adolescência, quando ele/ela pareciam grandes tolos antiquados e ignorantes e, agora, com o tempo passado, muitas rugas no rosto, a força se esvaindo, gostaria de fazer um recall? Chamar aqui, por uma vez mais, o seu parente mais amado e dizer a ele o que não foi dito. Fazer um recall desse amor, explicar que você não o odiava, que agora você vê o quanto ele foi sábio e brilhante, o quanto você é grata por tê-lo tido como pai/irmão/marido e aquilo tudo que você tinha dito não era bem assim, você simplesmente não sabia o tamanho certo das coisas, você simplesmente era tola e estava com a vista tapada, hoje, deixa eu te dizer, hoje eu sei o quanto você foi o homem mais genial desse mundo e, olha só que coisa, você foi meu...
Ah, o recall. A gente entra com o velho e sai com o novo. Eu queria até fazer um recall de mim mesma. Chamar quem eu fui quando criança, quando adolescente, e mudar o que era ruim. O que eu fiz de ruim comigo mesma. Chamaria a menina e diria que não precisava tê-la maltratado tanto, que não era de todo feia, que não era a mais burra da classe, que, apesar de ter o nariz sempre entupido era uma menina boa e esperta, que poderia ter sido mais doce e desinibida, mesmo usando aqueles óculos ridículos...
Ah, que bom seria... Se pudéssemos acertar essas contas de um passado errado. Se fôssemos assim, uma montadora que errou numa fabricação. Certamente elas também agradeceriam, já que o odiado recall deixaria de ser vilão para ser a chance. E se a Volks e a Kibon precisam, como não iríamos precisar, não é?
Recall
A embalagem do sorvete foi produzida errada, falaram que não continha glúten, mas continha. Os brinquedos tinham peças que não tinham que ter. Os carros sempre têm qualquer coisa imprevista também e, daí, tratam de corrigir. Em todos esses casos e outros mais, utiliza-se o recall.
Chamam os compradores dos produtos que, provavelmente, não previam esse trabalho, mas, de certa forma, ficam gratos por terem a chance de corrigir o que já deveria ter vindo certo e não veio. E daí lá vão eles procurar a empresa responsável, levar seu produto, receber um tratamento mais ou menos e sair com o produto correto, novo - ou não - mas perfeito, como eles gostariam que fosse desde o início.
Fiquei pensado que, embora chato, o mecanismo é imprescindível. E, infelizmente, é natural também. Porque as coisas não saem sempre como planejadas. Os bancos dos carros, por mais rigorosamente que sejam checados, acabam saindo das suas fábricas com um defeitinho que ninguém percebeu antes. E vamos condenar as fábricas? Como, se fazemos isso o tempo todo?
Os relacionamentos estão cheios de erros que passam sem que sejam notados por uma das partes. Você pode ter tentado absurdamente, insistentemente, fez todas as checagens necessárias, usou sua voz mais doce e seu melhor sorriso, mas não deu certo. Passam-se meses, talvez décadas, e você percebe que pode ter pesado um pouco no ciúme. Talvez tenha sido muito exigente, talvez tenha sido muito melosa, talvez tenha reparado demais na sua própria doçura e esquecido as necessidades do rapaz, talvez... E aí, dá vontade de fazer um recall.
Anunciar em um jornal: “Você, que conviveu comigo entre 1998 e 2001, experimentou o mais doce dos meus sorrisos, aguentou lágrimas infindáveis e tentou arduamente, mas, no final, desistiu. Você que ficou me esperando na noite de sábado mais fria e chuvosa de junho, quando eu não consegui sair do trabalho. Cheque se minhas cartas têm data de um inverno de 1999 e, caso positivo, favor comparecer no endereço blablabla, com a documentação necessária para efetuarmos um recall.”
Pronto. A pessoa bateria na sua casa com as cartas em punho, e você falaria que era imatura demais, boboca demais, não sabia valorizar ou entender um amor de verdade, você se desculparia, mostraria que agora é adulta, sabe inclusive cozinhar um bom macarrão e ofereceria ali, aos dois, uma nova chance, um recall da relação, já sem os destemperos e defeitos antes inevitáveis. Ah, que bom seria...
E o contrário. E se ele, aquele panaca, te chamasse para um recall? Você poderia ler o anúncio no jornal, espantar-se e dizer, quase sem respirar: “Sou eu! É ele!” e, antes de dormir, pensar se iria no recall ou, de repente, deixaria o panaca esperando - afinal, quem mandou perder o timing?
O recall deveria servir também para o mundo profissional. Sabe aquele emprego? Aquele que você adorava, mas que fez aquela bobagem ou deixou de ter aquela idéia brilhante tão habitualmente sua? Pois bem. Ligue para a Globo e anúncie em um comercial do Fantástico, com letras garrafais: “A psicóloga Maria da Silva vem por meio dessa anunciar a todas as empresas nas quais trabalhou entre 1994 e 1999, tanto como estagiária, quanto como funcionária efetiva, que as mesmas devem comparecer a partir da próxima semana para um recall de atualização de conhecimento. A psicóloga pede desculpas pelo incômodo, mas faz esse comunicado visando garantir a qualidade de seus trabalho e a satisfação dos que acreditaram nela, ainda um pouquinho antes da hora ideal”. Já imaginou? Eles te ligando pra uma outra chance?
Quem não precisa de uma chance a mais na vida? Tantos erros, tantas peças que precisávamos ter ajustado melhor, mas não vimos. Deixamos passar e liberamos os brinquedos com peças pequeninas...
Isso sem falar na tristeza imposta pela mais dura lei da vida. Quem perdeu o pai ou a mãe no auge da adolescência, quando ele/ela pareciam grandes tolos antiquados e ignorantes e, agora, com o tempo passado, muitas rugas no rosto, a força se esvaindo, gostaria de fazer um recall? Chamar aqui, por uma vez mais, o seu parente mais amado e dizer a ele o que não foi dito. Fazer um recall desse amor, explicar que você não o odiava, que agora você vê o quanto ele foi sábio e brilhante, o quanto você é grata por tê-lo tido como pai/irmão/marido e aquilo tudo que você tinha dito não era bem assim, você simplesmente não sabia o tamanho certo das coisas, você simplesmente era tola e estava com a vista tapada, hoje, deixa eu te dizer, hoje eu sei o quanto você foi o homem mais genial desse mundo e, olha só que coisa, você foi meu...
Ah, o recall. A gente entra com o velho e sai com o novo. Eu queria até fazer um recall de mim mesma. Chamar quem eu fui quando criança, quando adolescente, e mudar o que era ruim. O que eu fiz de ruim comigo mesma. Chamaria a menina e diria que não precisava tê-la maltratado tanto, que não era de todo feia, que não era a mais burra da classe, que, apesar de ter o nariz sempre entupido era uma menina boa e esperta, que poderia ter sido mais doce e desinibida, mesmo usando aqueles óculos ridículos...
Ah, que bom seria... Se pudéssemos acertar essas contas de um passado errado. Se fôssemos assim, uma montadora que errou numa fabricação. Certamente elas também agradeceriam, já que o odiado recall deixaria de ser vilão para ser a chance. E se a Volks e a Kibon precisam, como não iríamos precisar, não é?
Wednesday, October 31, 2007
O pernilongo e nós
As minhas noites insones têm sido grandes descobertas. Tenho apreciado com outros olhos coisas abolutamente ridículas como, por exemplo, os pernilongos.
Quem, no mundo, não odeia os pernilongos? Lembro-me que, há tempos atrás, falando dos animais chatos, o pernilongo foi alvo do meu maior aborrecimento: “Se eu pudesse exterminar da terra, apenas uma espécie entre todas, escolheria, sem sombra de dúvidas, que os pernilongos desaparecessem.” Falei isso em uma discussão acirrada sobre os insetos e outros tipos de bichos, num almoço qualquer do ano passado... Mas hoje, hoje não.
Hoje, depois que me deito, demoro pelo menos 1 hora para dormir. Isso nos dias bons. Esse período fico pensando na vida, enrolando, desenrolando, enfim. As vezes tento falar com o meu marido, que dorme ao lado, sem que nada – exceto eu - o perturbe.
As vezes falo qualquer coisa como: “A entrevista da Marília Gabriela foi ótima, você deveria ter visto”. E ele, sem nem saber o que eu disse, resmunga algo que não tem nada a ver como: “Brigado”. Daí gosto de fazer alguns testes. Falo, por exemplo: “Eu te amo tanto seu narigudo!” E ele reponde: “Desculpa”. As vezes também, ele reaje com um “amém”. Acho engraçado, esse “amém” tão fora de contexto... E, quando eu fico muito insistente, ele vira para o lado falando, muitas vezes, todas as palavras juntas: “Desculpa, brigado, amém”. Eu rio sozinha, admirando a noite silenciosa, minha cama quentinha, meu bem falando bobagens que nem sabe, ali, ao meu lado... Até, que, de repente, ele aparece: zzzzzzzzzzzz. Pronto, eu não espero nenhum minuto. Sacudo o Bruno, falando alto: “Amor, amor, acorda, tem pernilongo”. Ele resmunga alguma coisa, mas vai devagar tirando o cobertor das pernas, e, ainda de olhos fechados, levanta. Acende a luz e vai dizendo com a testa franzida: “Tem certeza?” - “Tenho claro, ele me picou, falou no meu ouvido! Ele está aqui, juro!”
E ele vai desfranzindo a testa, abrindo os olhos, as mãos na cintura, olhando ao redor. Sacode o cobertor, fecha o armário, bate atrrás do criado-mudo. Eu fico ali, deitada, quieta, observando. Fico querendo tanto achar o pernilongo, só pra gritar: “Achei!!”. Que prazer é maior do que quando você acha aquilo que procura? Ah, é tão delicioso encher o peito, apontar para o que todo mundo está procurando e gritar, sozinha: “Achei!!”.
Mas aí, é de repente que percebo, ele ganhou o prazer que eu queria. Em voz baixa, mas já com um brilho nos olhos, ele diz: “Achei!”. E daí que começa a melhor parte. Obstinado, ele fica na ponta dos pés, ergue os braços, bate palmas no ar, sobe na cama, bate nas pareces, até em mim, as vezes ele bate, tentando pegar o maldito, e nada. As vezes ele xinga: “Filho da puta!”, outras ele murmura: “Quase...” “Putz”... E eu fico deitada, dentro do cobertor, as vezes sento e assisto, as vezes ajudo: “Ele foi atrás da TV!” e ele corre pra achá-lo. Ficamos assim por um tempo, uma diversão ridícula que pra ele é um aborrecimento enorme, ganhou outro gosto nessas minhas noites insones. Não demora muito quando noto, ele vai ficando mais devagar, olha para um ponto fixo e se aproxima em câmera lenta. É chegada a hora, um milésimo de segundo e: PÁ!
“Aha!!”ele me olha, com um novo olhar, feliz, mostrando a mão com o bicho morto: “Matei!” Diz ele, como se dissesse: “Venci!”. É um “matei”, com orgulho, com uma alegria nova, desconhecida, uma prazer probido, uma vingança, há tempos esperada.
Sai do quarto, lava a mão e volta, adormece em 5 segundos.
Eu, permaneço acordada, refletindo sobre o efeito terapêutico do pernilongo e, vez ou outra, torcendo para o ruído incômodo do inseto voltar a agir e nos tornar, mais uma vez, crianças tolas, uma equipe de dois amigos, que trabalham juntos, apaixonadamente, numa missão especial, enquanto o mundo todo, dorme em São Paulo...
Quem, no mundo, não odeia os pernilongos? Lembro-me que, há tempos atrás, falando dos animais chatos, o pernilongo foi alvo do meu maior aborrecimento: “Se eu pudesse exterminar da terra, apenas uma espécie entre todas, escolheria, sem sombra de dúvidas, que os pernilongos desaparecessem.” Falei isso em uma discussão acirrada sobre os insetos e outros tipos de bichos, num almoço qualquer do ano passado... Mas hoje, hoje não.
Hoje, depois que me deito, demoro pelo menos 1 hora para dormir. Isso nos dias bons. Esse período fico pensando na vida, enrolando, desenrolando, enfim. As vezes tento falar com o meu marido, que dorme ao lado, sem que nada – exceto eu - o perturbe.
As vezes falo qualquer coisa como: “A entrevista da Marília Gabriela foi ótima, você deveria ter visto”. E ele, sem nem saber o que eu disse, resmunga algo que não tem nada a ver como: “Brigado”. Daí gosto de fazer alguns testes. Falo, por exemplo: “Eu te amo tanto seu narigudo!” E ele reponde: “Desculpa”. As vezes também, ele reaje com um “amém”. Acho engraçado, esse “amém” tão fora de contexto... E, quando eu fico muito insistente, ele vira para o lado falando, muitas vezes, todas as palavras juntas: “Desculpa, brigado, amém”. Eu rio sozinha, admirando a noite silenciosa, minha cama quentinha, meu bem falando bobagens que nem sabe, ali, ao meu lado... Até, que, de repente, ele aparece: zzzzzzzzzzzz. Pronto, eu não espero nenhum minuto. Sacudo o Bruno, falando alto: “Amor, amor, acorda, tem pernilongo”. Ele resmunga alguma coisa, mas vai devagar tirando o cobertor das pernas, e, ainda de olhos fechados, levanta. Acende a luz e vai dizendo com a testa franzida: “Tem certeza?” - “Tenho claro, ele me picou, falou no meu ouvido! Ele está aqui, juro!”
E ele vai desfranzindo a testa, abrindo os olhos, as mãos na cintura, olhando ao redor. Sacode o cobertor, fecha o armário, bate atrrás do criado-mudo. Eu fico ali, deitada, quieta, observando. Fico querendo tanto achar o pernilongo, só pra gritar: “Achei!!”. Que prazer é maior do que quando você acha aquilo que procura? Ah, é tão delicioso encher o peito, apontar para o que todo mundo está procurando e gritar, sozinha: “Achei!!”.
Mas aí, é de repente que percebo, ele ganhou o prazer que eu queria. Em voz baixa, mas já com um brilho nos olhos, ele diz: “Achei!”. E daí que começa a melhor parte. Obstinado, ele fica na ponta dos pés, ergue os braços, bate palmas no ar, sobe na cama, bate nas pareces, até em mim, as vezes ele bate, tentando pegar o maldito, e nada. As vezes ele xinga: “Filho da puta!”, outras ele murmura: “Quase...” “Putz”... E eu fico deitada, dentro do cobertor, as vezes sento e assisto, as vezes ajudo: “Ele foi atrás da TV!” e ele corre pra achá-lo. Ficamos assim por um tempo, uma diversão ridícula que pra ele é um aborrecimento enorme, ganhou outro gosto nessas minhas noites insones. Não demora muito quando noto, ele vai ficando mais devagar, olha para um ponto fixo e se aproxima em câmera lenta. É chegada a hora, um milésimo de segundo e: PÁ!
“Aha!!”ele me olha, com um novo olhar, feliz, mostrando a mão com o bicho morto: “Matei!” Diz ele, como se dissesse: “Venci!”. É um “matei”, com orgulho, com uma alegria nova, desconhecida, uma prazer probido, uma vingança, há tempos esperada.
Sai do quarto, lava a mão e volta, adormece em 5 segundos.
Eu, permaneço acordada, refletindo sobre o efeito terapêutico do pernilongo e, vez ou outra, torcendo para o ruído incômodo do inseto voltar a agir e nos tornar, mais uma vez, crianças tolas, uma equipe de dois amigos, que trabalham juntos, apaixonadamente, numa missão especial, enquanto o mundo todo, dorme em São Paulo...
Thursday, October 18, 2007
Produzido na insônia

Tenho tido dificuldades de dormir.
Tento todas as técnicas, mas diariamente tenho vivido a mesma coisa. É só deitar a cabeça no travesseiro que os problemas do dia começam a passear pela minha cabeça. Eu tento me livrar, mas eles insistem e, tranquilamente nadam - como peixes - no meu pensamento, bem na hora em que teria de esvaziar tudo...
Já me ensinaram a estratégia da bolha. Vou pondo cada problema dentro de uma bolha e visualizo a tal bolha saindo pela janela do quarto, devagar e, por fim, indo embora pelo céu. As vezes tento essa, mas passo horas até por cada item dentro de uma bolha. Meu marido sugeriu que eu pusesse todos os problemas de uma vez, em uma única bolha, mas é super confuso. Ele sugeriu até que eles fizessem uma fila, como se fosse um check-in pra entrar na bolha, mas nem todos os problemas ou pessoas se conhecem, e, na fila, já tive muitos problemas de discussões, gente querendo passar na frente do outro, enfim.
Acabava passando as primeiras horas da minha noite arrumando as bolhas e inserindo cada pessoa, (ou problema) dentro de cada bolha. Já inseri até um prédio inteiro numa bolha uma vez. e as pessoas, começaram a pular pela janela desesperadas, caindo na própria bolha, coitadas, uma confusão.
Talvez eu tenha usado a técnica de forma errada e ela começou a perder o efeito. Resolvi, na noite passada, tentar a técnica mais universal de todas: Os carneirinhos.
Me disseram que temos que visualizar os carneirinhos pulando a cerca de diferentes formas, pra não viciar o cérebro. Fiz o teste. Imaginei uma fila enoooooorme de carneirinhos brancos, todos aguardando a sua vez de pular a cerca. Veio o primeiro: Yupi! Pulou. Veio o seguno, pulou de costas. “O próximo” eu indicava que era a vez do outro, que deu uma pirueta no ar, e caiu de mal jeito. Lembrei daquele grupo de “puladores” que vivem por aí, pulando prédios, casas, barras, não sei, vi uma reportagem esses dias no GNT, pensei neles, e em quanto eu também sou malabarista no meu dia a dia, nossa, no meu trabalho, na minha vida, lembra aquela vez que... Pronto, devem ter se passado séculos, eu tinha me esquecido das puladas, e ainda estava desperta. Voltei aos carneirinhos, eles estavam emburrados: “Pô, bem na minha vez você mudou o pensamento??” Reclamou o que, agora, era o primeiro da fila. Olhei a longa linha e eles estavam todos emburrados. Eu tinha esquecido os pobrezinhos enquanto viajava nos skatistas. Eu disse skatistas?? “Eeeeeei, voltaaa!”. Eles fizeram um coro me chamando antes que eu os deixasse de novo. Um coro da voz dos carneiros, isso não pode ser normal. “Que carneirinhos abusados!” Eu pensei calada. Resolvi que tinha que baixar a bola deles e por alguém para que eles respeitassem, senão, iam se voltar contra mim e eram uma multidão de carneiros! Instalei ali, ao lado da fila, um enorme lobo-mau. Segurando um cajado ele, agora, daria as ordens: “Ei pessoal, o negócio é o seguinte, um por vez e só quando eu chamar. Trata de fazer diferente do colega da frente, hein?! E nada de reclamações! Quem manda aqui agora sou eu!” Pronto. Agora sim ia funcionar. Eles voltaram a pular, cada um pulava de um jeito enquanto o lobo ia gritando: “Próximo, próximo, próximo”. Resolvi olhar pra onde eles iam. depois de pular. Não consegui ver, mas fiquei curiosa. Tinham uns que faziam pulos excepcionais, umas piruetas, como aquela menina do pan, aquela ginasta. Isso, eles deveriam estar no Pan, esses danados. Mas pra onde iam? Será que eles voltava para o fim da fila? A fila nunca acabava, coitados! O lobo achou ruim comigo: “Ei madame, a senhora vai ficar dispersando e me deixando de lado, ou vai assistir diretinho aqui o nosso trabalho???” Tentei me concentrar, mas, de repente, pensei: “Poxa, até o lobo?” Não é possível, eu tenho que obedecer até os meus próprios monstros?? Vou exercer a hierarquia aqui, pelo menos dentro de mim, oras! Olhei bem para o lobo, para os carneiros, todos me estavam virado para mim, olhos assustados. Eu os peguei com cuidado, todos de uma vez, e inseri numa bolha. Deixei todo mundo se debatendo lá, dentro da bolha, enquanto ela saia pela janela do meu quarto, devagar, até sumir no céu de São Paulo...
Saturday, October 13, 2007
A tal da doce rotina
Eu não sabia exatamente porque tinha escolhido esse título, para esse blog.
Ontem, me perguntaram isso e eu não sabia exatamente o que dizer.
Talvez por isso, tenha pensado no assunto o dia todo hoje.
O que é mesmo isso, de rotina? E - mais difícil ainda - quando é que ela se dá?
Lembrei-me subitamente da minha sogra, que, no dia do meu casamento, ao abraçar-me, entre lágrimas, ela me disse: "Cuide do seu casamento. Nunca deixe o seu casamento cair na rotina, nunca..." Ela podia ter dito tanta coisa. Podia ter dito felicidades, podia ter dito pra nos respeitarmos, pra que eu fosse paciente, podia ter dito tantas outras coisas, mas o que ela mencionou, foi a rotina. E ela, que já teve um casamento desfeito, certamente sabia o que falava...
Mas eu ainda não compreendo. Não compreendo porque as pessoas insistem em fugir da rotina, se ela é inevitável. Porque as pessoas armam tantos planos, tais quais bandidos pra roubar um banco, mas apenas para afastar seus casamentos da rotina. E, ainda assim, pelo que vejo, não conseguem. A rotina está aí e nos arrebata sem que possamos nos dar conta. Eu não sei em dia ela começa... Em que ponto ela começou pra você? Quando você deixou de se arrumar antes de dormir. Que dia foi que você achou que rímel depois é tão chato de tirar que seu marido nem notava e foi jantar com ele sem maquiagem? Quando foi que você usou o listerine bebendo direto da boca, sem por no copinho, e nem se importou que ela viu? Ou quando foi que ela falou que estava gorda pela primeira vez e você não disse nada?Quando? Quando deixamos de ser apenas gentis e educados e doces, para sermos verdadeiros? Quando deixamos de ser vaidosas para sermos preguiçosas?
E eu me pergunto também... Será que foi naquele dia, em que eu pus as meias por cima da calça do pijama, pela primeira vez? Será que foi no dia em que eu que eu cheguei da festa suada e cansada, e, mesmo assim, mesmo sabendo que precisava de um banho, caí morta na cama, e achei que ele nem ia se imncomodar? Ou será que foi naquele noite em que eu dormi com o creme de pepino no rosto? Mas o creme de pepino deixa a pele ótima no dia seguinte... E eu forrei o travesseiro com uma toalha. Será que foi isso?
Talvez eu nunca saiba. Talvez ninguém saiba. Mas ela vem e é invitável. Pior, é irreversível. Se você já se acostumou a dormir com o seu pijama furado e, sei lá, hipoglos no rosto, vai ser difícil deixar esse hábito de forma definitiva. Pode ser que você diminua. Que você faça isso menos vezes. Pode ser. Mas vai ser dificílimo usar aquele pijaminha lindo e descômodo, ainda mais nos dias frios...
A rotina é como um vírus. Um vírus da gripe, que, cedo ou tarde, te pega. O ponto, então, não é eliminá-lo, até porque é impossível... O ponto chave é aprender lidar com a rotina. Aprender a conviver com ela e - mais - aprender a gostar dela.
E porque não? Porque não rir do seu cabelo desgranhado todas as manhãs? Porque não tirar de vez as meias do seu marido, todas as noites. E rir disso. E, apesar de odiar, ver a delícia que é ter o seu amor ali, se sentindo seguro com você. Tão seguro a ponto de não tirar as meias pretas, nem mesmo quando está só de cueca...
Porque não amar tê-lo em casa todas as noites, seguidas noites tê-lo ao seu lado. Porque não adorar ter alguém quem faça mel e limão quando você está resfriado? Porque não amar cada passo previsível que ela vai dar e você sabe, até melhor do que ela, cada um deles? Porque não valorizar quando ele pergunta "que?" pra uma frase sua que ele já entendeu, mas quer ganhar tempo porque não sabe o que dizer?
É tolo e bobo, como tudo o que se torna repetitivo. Mas porque não ser doce e terno, justamente porque permanece? Porque vocês podiam ter desistido já... Ah, quantas vezes você pensou em desistir? Mas vocês insistiram... E, apesar das meias, dos cremes, apesar até das piores coisas - que só vocês dois conhecem - , vocês permaneceram e, vira e mexe, ele te faz rir como fazia quando vocês eram adolescentes. Vira e mexe, ele te incentiva, como se você ainda tivesse 22 anos. Vira e mexe, você se sente com 22 anos. É raro, mas ele te faz sentir assim, e você não troca esse sentimento por nenhum homem jovem lindo e sem meias... Até porque, não demoraria muito, esse homem se tornaria velho e vestiria as meias pretas. Ou pior, iria dormir com creme de pepino no rosto... Vai saber...
Ontem, me perguntaram isso e eu não sabia exatamente o que dizer.
Talvez por isso, tenha pensado no assunto o dia todo hoje.
O que é mesmo isso, de rotina? E - mais difícil ainda - quando é que ela se dá?
Lembrei-me subitamente da minha sogra, que, no dia do meu casamento, ao abraçar-me, entre lágrimas, ela me disse: "Cuide do seu casamento. Nunca deixe o seu casamento cair na rotina, nunca..." Ela podia ter dito tanta coisa. Podia ter dito felicidades, podia ter dito pra nos respeitarmos, pra que eu fosse paciente, podia ter dito tantas outras coisas, mas o que ela mencionou, foi a rotina. E ela, que já teve um casamento desfeito, certamente sabia o que falava...
Mas eu ainda não compreendo. Não compreendo porque as pessoas insistem em fugir da rotina, se ela é inevitável. Porque as pessoas armam tantos planos, tais quais bandidos pra roubar um banco, mas apenas para afastar seus casamentos da rotina. E, ainda assim, pelo que vejo, não conseguem. A rotina está aí e nos arrebata sem que possamos nos dar conta. Eu não sei em dia ela começa... Em que ponto ela começou pra você? Quando você deixou de se arrumar antes de dormir. Que dia foi que você achou que rímel depois é tão chato de tirar que seu marido nem notava e foi jantar com ele sem maquiagem? Quando foi que você usou o listerine bebendo direto da boca, sem por no copinho, e nem se importou que ela viu? Ou quando foi que ela falou que estava gorda pela primeira vez e você não disse nada?Quando? Quando deixamos de ser apenas gentis e educados e doces, para sermos verdadeiros? Quando deixamos de ser vaidosas para sermos preguiçosas?
E eu me pergunto também... Será que foi naquele dia, em que eu pus as meias por cima da calça do pijama, pela primeira vez? Será que foi no dia em que eu que eu cheguei da festa suada e cansada, e, mesmo assim, mesmo sabendo que precisava de um banho, caí morta na cama, e achei que ele nem ia se imncomodar? Ou será que foi naquele noite em que eu dormi com o creme de pepino no rosto? Mas o creme de pepino deixa a pele ótima no dia seguinte... E eu forrei o travesseiro com uma toalha. Será que foi isso?
Talvez eu nunca saiba. Talvez ninguém saiba. Mas ela vem e é invitável. Pior, é irreversível. Se você já se acostumou a dormir com o seu pijama furado e, sei lá, hipoglos no rosto, vai ser difícil deixar esse hábito de forma definitiva. Pode ser que você diminua. Que você faça isso menos vezes. Pode ser. Mas vai ser dificílimo usar aquele pijaminha lindo e descômodo, ainda mais nos dias frios...
A rotina é como um vírus. Um vírus da gripe, que, cedo ou tarde, te pega. O ponto, então, não é eliminá-lo, até porque é impossível... O ponto chave é aprender lidar com a rotina. Aprender a conviver com ela e - mais - aprender a gostar dela.
E porque não? Porque não rir do seu cabelo desgranhado todas as manhãs? Porque não tirar de vez as meias do seu marido, todas as noites. E rir disso. E, apesar de odiar, ver a delícia que é ter o seu amor ali, se sentindo seguro com você. Tão seguro a ponto de não tirar as meias pretas, nem mesmo quando está só de cueca...
Porque não amar tê-lo em casa todas as noites, seguidas noites tê-lo ao seu lado. Porque não adorar ter alguém quem faça mel e limão quando você está resfriado? Porque não amar cada passo previsível que ela vai dar e você sabe, até melhor do que ela, cada um deles? Porque não valorizar quando ele pergunta "que?" pra uma frase sua que ele já entendeu, mas quer ganhar tempo porque não sabe o que dizer?
É tolo e bobo, como tudo o que se torna repetitivo. Mas porque não ser doce e terno, justamente porque permanece? Porque vocês podiam ter desistido já... Ah, quantas vezes você pensou em desistir? Mas vocês insistiram... E, apesar das meias, dos cremes, apesar até das piores coisas - que só vocês dois conhecem - , vocês permaneceram e, vira e mexe, ele te faz rir como fazia quando vocês eram adolescentes. Vira e mexe, ele te incentiva, como se você ainda tivesse 22 anos. Vira e mexe, você se sente com 22 anos. É raro, mas ele te faz sentir assim, e você não troca esse sentimento por nenhum homem jovem lindo e sem meias... Até porque, não demoraria muito, esse homem se tornaria velho e vestiria as meias pretas. Ou pior, iria dormir com creme de pepino no rosto... Vai saber...
Monday, October 8, 2007
As duas listras
Mudei o título, mas foi com essa aí que saí aqui
Sábado, 6 de Outubro de 2007
As duas listras [Ana Coutinho]
Ela chegou na minha casa nervosa. Estava soridente, mas era claro que estava tensa. Com ela chegaram o marido, a amiga e o marido da amiga. Vi que ela queria falar comigo, arrumei uma desculpa pra chamá-la para o quarto, mas os homens vieram junto para ver o quadro novo que nem era tão novo, mas foi o que eu pude inventar.
Ficamos os três casais lá, no quarto, ela sorrindo, muda, tensa, disfarçando uma emoção indisfarçável. Sugeri que eles pegassem uma bebida e eles entenderam, saíram e ficamos enfim a sós, as três mulheres, querendo saber o segredo que tanto afligia minha amiga.
Ela não falou nada; nos olhou firme, um olhar que era misto de alívio e de susto. Alívio porque éramos três mulheres sozinhas, amigas que se conhecem e se querem bem. Susto, ainda não sabíamos o porquê.
Ela agarrou a bolsa, e, de lá, tirou um embrulhinho em papel sulfite. Foi desembrulhando o papel rápido, as mão tremiam, ela ria e seus olhos brilhavam. Quando terminou de desembrulhar o que parecia ser um tesouro milagroso, lá estava o objeto, simples, barato até. Ali, sob o olhar de três amigas, um teste de farmácia. Chamava-se Baby check, e tinha as tais duas listras que significava positivo.
Mas calma, não eram mesmo duas listras e essa era a razão da agonia da minha linda amiga. Era uma listra bem forte, dizendo que o teste tinha sido feito com sucesso, e uma outra, a que indicaria uma gravidez, mas que estava bem fraquinha, rosadinha de leve, quase que uma “marca d`água de power point”.
“E aí gente? Essa linha estranha? Estou meio grávida?” - ela perguntou ansiosa.
Eu, que nunca fiquei grávida, não sabia o que dizer. Assistia ali, uma amiga tão querida que tinha os lhos marejados, as mãos trêmulas, diante da possibilidade mágica: o filho que ela tanto desejava, talvez estivesse a caminho...
Foi quando, num piscar de olhos, a outra amiga sentenciou: “Ihh, tá grávida mesmo! Parabéns lindona!”.
Elas se abraçaram, olhos cheios d`água:
- Tem certeza? O seu foi assim? – ela ainda não conseguia acreditar.
- Foi!! Tô falando; se dá outra linha é gravidez, não importa se é fraquinha. Se não está grávida, não aparece outra linha, não... Pode saber, vc está gravidíssima!
Pronto. A mais experiente das três falou, estava dito. Tínhamos um bebê a caminho. Abracei a minha amiga querida, meio sem jeito, ainda olhando o teste, desejando felicidades. Sentamos as três na cama de casal, e ficamos falando mil coisas. E agora? E o sexo – menino? menina? E se for gêmeos? De quanto tempo está? Como vai chamar? Que faculdade vai fazer?
Rimos. Rimos as três meninas tontas, já casadas, mulheres feitas, que se emocionavam com o que há de mais natural no mundo, uma mulher grávida.
Quando fomos para a sala, em silêncio, assisti a minha amiga grávida sentar-se ao lado do marido. Pegou a mão dele, apertou forte, tentava conter o riso, mas não conseguia. O homem a olhou sério: “Tá tudo bem, amor?” Ela fez que sim com a cabeça e ele não entendeu.
Ainda não sabia. Só saberia à noite, quando ela, então, faria uma surpresa, dessas de propaganda de TV. Ali, com sapatinhos de tricot nas mãos, ele comemoraria pelo que nós três já vibrávamos. Ali, ele saberia o que nós, meninas, sabíamos desde sempre: que não há emoção maior do que realizar um sonho como esse. Uma bobagem pra tanta gente que, para nós, é sempre um milagre sem tamanho.
Me emocionei subitamente. Me emocionei pensando que logo seríamos mais. Éramos três casais e um bebê, e, logo, seríamos três casais e dois bebês. E logo o bebê seria uma criança, e depois, um adolescente. E nós, que éramos duas amigas desde sempre, agora seríamos duas amigas e uma pequena criança. Nós, que mal conseguimos escolher entre dois vestidos, logo teríamos que escolher como educar uma pessoa. Que nome essa pessoa vai ter por toda a vida. Que comida vai gostar, que valores vai exercer, que palavras vai aprender, com que olhares essa nova pessoa vai olhar o novo mundo que se abrirá sobre ela? A gente não sabe. A gente não sabe como esse pequeno milagre, tão corriqueiro, tão banal, nos escolhe.
E assim, num sábado frio qualquer, duas listras aparecem num exame. E a vida, sempre tão atribulada, às vezes tão repetitiva, torna-se, subitamente, preenchida de um encantamento único. Um susto, uma alegria, um pavor talvez, mas, acima de tudo, um doce encantamento.
Sábado, 6 de Outubro de 2007
As duas listras [Ana Coutinho]
Ela chegou na minha casa nervosa. Estava soridente, mas era claro que estava tensa. Com ela chegaram o marido, a amiga e o marido da amiga. Vi que ela queria falar comigo, arrumei uma desculpa pra chamá-la para o quarto, mas os homens vieram junto para ver o quadro novo que nem era tão novo, mas foi o que eu pude inventar.
Ficamos os três casais lá, no quarto, ela sorrindo, muda, tensa, disfarçando uma emoção indisfarçável. Sugeri que eles pegassem uma bebida e eles entenderam, saíram e ficamos enfim a sós, as três mulheres, querendo saber o segredo que tanto afligia minha amiga.
Ela não falou nada; nos olhou firme, um olhar que era misto de alívio e de susto. Alívio porque éramos três mulheres sozinhas, amigas que se conhecem e se querem bem. Susto, ainda não sabíamos o porquê.
Ela agarrou a bolsa, e, de lá, tirou um embrulhinho em papel sulfite. Foi desembrulhando o papel rápido, as mão tremiam, ela ria e seus olhos brilhavam. Quando terminou de desembrulhar o que parecia ser um tesouro milagroso, lá estava o objeto, simples, barato até. Ali, sob o olhar de três amigas, um teste de farmácia. Chamava-se Baby check, e tinha as tais duas listras que significava positivo.
Mas calma, não eram mesmo duas listras e essa era a razão da agonia da minha linda amiga. Era uma listra bem forte, dizendo que o teste tinha sido feito com sucesso, e uma outra, a que indicaria uma gravidez, mas que estava bem fraquinha, rosadinha de leve, quase que uma “marca d`água de power point”.
“E aí gente? Essa linha estranha? Estou meio grávida?” - ela perguntou ansiosa.
Eu, que nunca fiquei grávida, não sabia o que dizer. Assistia ali, uma amiga tão querida que tinha os lhos marejados, as mãos trêmulas, diante da possibilidade mágica: o filho que ela tanto desejava, talvez estivesse a caminho...
Foi quando, num piscar de olhos, a outra amiga sentenciou: “Ihh, tá grávida mesmo! Parabéns lindona!”.
Elas se abraçaram, olhos cheios d`água:
- Tem certeza? O seu foi assim? – ela ainda não conseguia acreditar.
- Foi!! Tô falando; se dá outra linha é gravidez, não importa se é fraquinha. Se não está grávida, não aparece outra linha, não... Pode saber, vc está gravidíssima!
Pronto. A mais experiente das três falou, estava dito. Tínhamos um bebê a caminho. Abracei a minha amiga querida, meio sem jeito, ainda olhando o teste, desejando felicidades. Sentamos as três na cama de casal, e ficamos falando mil coisas. E agora? E o sexo – menino? menina? E se for gêmeos? De quanto tempo está? Como vai chamar? Que faculdade vai fazer?
Rimos. Rimos as três meninas tontas, já casadas, mulheres feitas, que se emocionavam com o que há de mais natural no mundo, uma mulher grávida.
Quando fomos para a sala, em silêncio, assisti a minha amiga grávida sentar-se ao lado do marido. Pegou a mão dele, apertou forte, tentava conter o riso, mas não conseguia. O homem a olhou sério: “Tá tudo bem, amor?” Ela fez que sim com a cabeça e ele não entendeu.
Ainda não sabia. Só saberia à noite, quando ela, então, faria uma surpresa, dessas de propaganda de TV. Ali, com sapatinhos de tricot nas mãos, ele comemoraria pelo que nós três já vibrávamos. Ali, ele saberia o que nós, meninas, sabíamos desde sempre: que não há emoção maior do que realizar um sonho como esse. Uma bobagem pra tanta gente que, para nós, é sempre um milagre sem tamanho.
Me emocionei subitamente. Me emocionei pensando que logo seríamos mais. Éramos três casais e um bebê, e, logo, seríamos três casais e dois bebês. E logo o bebê seria uma criança, e depois, um adolescente. E nós, que éramos duas amigas desde sempre, agora seríamos duas amigas e uma pequena criança. Nós, que mal conseguimos escolher entre dois vestidos, logo teríamos que escolher como educar uma pessoa. Que nome essa pessoa vai ter por toda a vida. Que comida vai gostar, que valores vai exercer, que palavras vai aprender, com que olhares essa nova pessoa vai olhar o novo mundo que se abrirá sobre ela? A gente não sabe. A gente não sabe como esse pequeno milagre, tão corriqueiro, tão banal, nos escolhe.
E assim, num sábado frio qualquer, duas listras aparecem num exame. E a vida, sempre tão atribulada, às vezes tão repetitiva, torna-se, subitamente, preenchida de um encantamento único. Um susto, uma alegria, um pavor talvez, mas, acima de tudo, um doce encantamento.
Sunday, September 23, 2007
Reiniciando a máquina
Quem já fez um trabalho no word, ou no powerpoint, ou onde quer que seja, e nunca viu a máquina travar, de repente, sem antes ter se lembrado de salvar?
Quem não estava lá, talvez no vigésimo slide, caprichando nos detalhes, orgulhoso do trabalho feito e, de repente, a máquina trava. A primeira sensação é aquela de “não acredito”. A gente tenta mexer o mouse e nada, a flechinha estática na tela, traiçoeira, quase tirânica na sua passividade engessada. Tentamos algumas alternativas. CTRL + ALT + DEL, e vem a confirmação: “O programa não está respondendo”. Pronto, a tragédia está feita. “Perdi tudo” você exclama diante da máquina, também estático, como se ela fosse mesmo, tudo. E não se pode condenar, porque naquele instante, o seu trabalho é tudo sim. Principalmente se já for de noite e o material precisar ser entregue na manhã do dia seguinte. Ou na mesma noite ainda, enfim, casos inacreditáveis já foram registrados sobre esse assunto.
E o pior, é que não é só na tela do computador, que o seu trabalho trava, muitas vezes. O pior, é que mesmo quem nunca fez um ppt e nem sabe do que um powerpoint é capaz, também já viu alguma coisa na sua vida ser assim, travada, e sentiu a angústia que sente os que “perderam tudo”.
Ah, perder tudo... Perder tudo acontece muito e é sempre tão terrível.
Pode não ser um documento do office, mas se você está empenhado em uma relação, por exemplo, fique atenta. Ela pode não ter sido salva. Ela normalmente não está a salva, e de repente, por alguma razão desconhecida, a relação parece travar. A pessoa ali, diante de você, o que foi construído, tudo parece ser perdido, ir por água abaixo, não importa o que você faça, “o programa não está respondendo”. O que fazer? O que fazer quando tudo a ser feito é dar um “end now” e assistir o computador se desligar, assistir o outro ir embora, assistir o telefone ficar mudo, a cama ficar enorme, os sábados ficarem todos, irremediávelmente cinzentos?
Há quem se recuse a acreditar. E, ao invés de terminar mesmo o programa, fica ali, assistindo o computador travado por minutos, horas talvez. Há quem nunca termine aquilo que já está terminado e há quem passe a vida com aquele que já não está respondendo.... Passam a vida assim, mudos, engessados, a flechinha do mouse interrompida e, ao fundo, o esboço de um trabalho tão bem feito, tão cuidadosamente pensado e executado. Mas não funciona mais.
Ah, se fôssemos todos fortes e corajosos. Se fôssemos todos capazes de dar um “end now” e desligar a máquina, ver o fruto dos seus dias e noites ir embora mesmo, e deixar-se sentir a angústia e a tristeza do que não tem mais volta... Sim, porque é isso que fica. A angústia.
A angústia de desligar tudo, sabendo que não se pode fazer mais nada. É uma fatalidade. Está tudo ali, bem na sua frente paralisado, as apresentações coloridas, com a flechinha que não se move. É, é preciso reiniciar a máquina. É preciso terminar, apertar o botão de desligar. virar para trás e sair andando. Ir almoçar, ir para casa, ir tomar um banho, ir amarrar o tênis. Sabendo que o que vc fez se perdeu, que é preciso tempo para constuir de novo, e que dá trabalho, tanto trabalho que talvez você não queira mais reconstruir nada, nunca mais, nem cachorro você quer ter....
Só que, sinto muito, é preciso. Porque o “tudo” que a gente perde, nunca é tudo mesmo. O que trava é ali, aquela história. Há tantas outras, que continuam. Tantos materiais, tantos chamados, tantos trabalhos que ainda esperam a sua (boa) vontade pra serem feitos.
E não se sabe o que vai ser. A gente não consegue salvar os charts que construímos. Temos que arriscar, incrementar, colorir, redesenhar, sem saber se amanha não vai travar.... E pode ser que trave no primeiro slide, e pode ser que a gente consiga fazer até o 38º , e aí e qdo vc se prepara para entrar no 39º , vem qualquer coisa desconhecida e perversa e pronto, trava o micro.
Não importa o quanto foi perdido. Importa mesmo, é que a máquina vai ligar de novo, e um novo trabalho pode ser feito. Importa mesmo que a gente levanta, toma um café, liga tudo e volta. Ainda que seja noite adentro, sempre dá pra reconstruir o que foi perdido.
Quem não estava lá, talvez no vigésimo slide, caprichando nos detalhes, orgulhoso do trabalho feito e, de repente, a máquina trava. A primeira sensação é aquela de “não acredito”. A gente tenta mexer o mouse e nada, a flechinha estática na tela, traiçoeira, quase tirânica na sua passividade engessada. Tentamos algumas alternativas. CTRL + ALT + DEL, e vem a confirmação: “O programa não está respondendo”. Pronto, a tragédia está feita. “Perdi tudo” você exclama diante da máquina, também estático, como se ela fosse mesmo, tudo. E não se pode condenar, porque naquele instante, o seu trabalho é tudo sim. Principalmente se já for de noite e o material precisar ser entregue na manhã do dia seguinte. Ou na mesma noite ainda, enfim, casos inacreditáveis já foram registrados sobre esse assunto.
E o pior, é que não é só na tela do computador, que o seu trabalho trava, muitas vezes. O pior, é que mesmo quem nunca fez um ppt e nem sabe do que um powerpoint é capaz, também já viu alguma coisa na sua vida ser assim, travada, e sentiu a angústia que sente os que “perderam tudo”.
Ah, perder tudo... Perder tudo acontece muito e é sempre tão terrível.
Pode não ser um documento do office, mas se você está empenhado em uma relação, por exemplo, fique atenta. Ela pode não ter sido salva. Ela normalmente não está a salva, e de repente, por alguma razão desconhecida, a relação parece travar. A pessoa ali, diante de você, o que foi construído, tudo parece ser perdido, ir por água abaixo, não importa o que você faça, “o programa não está respondendo”. O que fazer? O que fazer quando tudo a ser feito é dar um “end now” e assistir o computador se desligar, assistir o outro ir embora, assistir o telefone ficar mudo, a cama ficar enorme, os sábados ficarem todos, irremediávelmente cinzentos?
Há quem se recuse a acreditar. E, ao invés de terminar mesmo o programa, fica ali, assistindo o computador travado por minutos, horas talvez. Há quem nunca termine aquilo que já está terminado e há quem passe a vida com aquele que já não está respondendo.... Passam a vida assim, mudos, engessados, a flechinha do mouse interrompida e, ao fundo, o esboço de um trabalho tão bem feito, tão cuidadosamente pensado e executado. Mas não funciona mais.
Ah, se fôssemos todos fortes e corajosos. Se fôssemos todos capazes de dar um “end now” e desligar a máquina, ver o fruto dos seus dias e noites ir embora mesmo, e deixar-se sentir a angústia e a tristeza do que não tem mais volta... Sim, porque é isso que fica. A angústia.
A angústia de desligar tudo, sabendo que não se pode fazer mais nada. É uma fatalidade. Está tudo ali, bem na sua frente paralisado, as apresentações coloridas, com a flechinha que não se move. É, é preciso reiniciar a máquina. É preciso terminar, apertar o botão de desligar. virar para trás e sair andando. Ir almoçar, ir para casa, ir tomar um banho, ir amarrar o tênis. Sabendo que o que vc fez se perdeu, que é preciso tempo para constuir de novo, e que dá trabalho, tanto trabalho que talvez você não queira mais reconstruir nada, nunca mais, nem cachorro você quer ter....
Só que, sinto muito, é preciso. Porque o “tudo” que a gente perde, nunca é tudo mesmo. O que trava é ali, aquela história. Há tantas outras, que continuam. Tantos materiais, tantos chamados, tantos trabalhos que ainda esperam a sua (boa) vontade pra serem feitos.
E não se sabe o que vai ser. A gente não consegue salvar os charts que construímos. Temos que arriscar, incrementar, colorir, redesenhar, sem saber se amanha não vai travar.... E pode ser que trave no primeiro slide, e pode ser que a gente consiga fazer até o 38º , e aí e qdo vc se prepara para entrar no 39º , vem qualquer coisa desconhecida e perversa e pronto, trava o micro.
Não importa o quanto foi perdido. Importa mesmo, é que a máquina vai ligar de novo, e um novo trabalho pode ser feito. Importa mesmo que a gente levanta, toma um café, liga tudo e volta. Ainda que seja noite adentro, sempre dá pra reconstruir o que foi perdido.
Thursday, September 20, 2007
Das Vantagens de Ser Bobo - Clarice Lispector
O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
Tuesday, September 4, 2007
Dois anos depois
“Vamos nos casar em 6 meses a partir de hoje e sinto, como se o tempo não existisse para nós. Estivemos sempre juntos, cada vez que eu acreditava escondida, nesse amor do Walt Disney, cada vez que eu tentava de novo, cada vez que eu esperava, era por ele que eu fazia. E sei que estaremos sempre assim. Um pelo outro, caminhando juntos. Até que a princesa aqui fique velha e use calcinhas enormes, até que o príncipe perca os cabelos e ganhe barriga, até que o romantismo nos deixe e eu volte a ser uma amargurada senhora de 27 anos... Não importa. Até que tudo aconteça, ate que os furacões e os ventos e os maremotos venham, eu sei que é esse amor, que vai sempre me reerguer.”
Já faz quase dois anos que escrevi isso, aí em cima.
Nos casamos 6 meses depois que essa menina encantada escreveu o texto acima.
Essa menina, tonta de amor, se casou com um rapaz, um jovem, também tonto de amor.
Hoje, somos um homem e uma mulher. Hoje, 2 anos depois, sou outra.
Estou com a pele mais opaca, está aparecendo em meu rosto duas fendas ao que marcam as laterais da minha boca, e sobrem até o meu nariz. É uma marca leve que quer se firmar cada vez que volto de um sorriso e fico séria. Tenho uns 2, talvez 3 quilos a mais,e sinto que minha barriga está mais molenga, meus seios mais baixos, minhas mãos mais cheia de rugas e meu quadril, que sempre foi magro magro, agora atrapalha quando vou subir uma calça.
Ainda nem tenho 30 anos, mas, nossa, como o tempo já me fez diferente de quando eu tinha 20!
Estou mais falante, mais atrevida, um pouco menos tímida e muito, muito mais briguenta.
Lendo o texto acima, vejo que estou menos romântica, mais prática.
Vivo dias muito felizes ao lado do meu marido e sou grata, muito grata por ter ao meu lado um homem que me dedica tanto amor e tanto de seu carinho. Sou grata, infinitamente grata, por ter comigo alguém que me faz rir, gargalhar até, noite e noites, seguidas vezes em que viramos tolos palhaços... Não me arrependo nunca, não me arrependo sequer por um segundo dessa escolha e desse caminho que tomei, há tão pouco tempo atrás. Mas, embora não me arrependa, as vezes, me esqueço.
Me esqueço do romantismo, me esqueço do encanto, me esqueço de usar as calcinhas boas. Ou, pior, me lembro e ignoro. Ignoro por preguiça, ignoro por cansaço, ignoro porque há tanto há ser feito em casa, no trabalho, pra minha mãe, pro meu sobrinho, pra minha chefa... enfim.
Temos quase dois anos de casados, não é muito, mas, quando revejo o filme da cerimônia, choro de saudades daquela menina magra e leve que eu era ali, gastando tubos de dinheiro para reunir os amigos e fazer uma festa bonita.
Hoje, corro pra deixar a louça limpa, checo se as janelas estão trancadas, vejo se o condôminio chegou, quando dá, confiro a fatura do cartão.
Ah hoje... Hoje fico de mau-humor e pronto, bato a porta e, as vezes, murmuro um sonoro palavrão antes de me jogar na cama, sem vontade de arrumar nada. Hoje uso um pijama velho e feio, não tiro as meias por nada no mundo, principalmente no inverno e hoje, passo creme melado antes de dormir e sinto muito, não vai ter beijo de boa noite.
É uma armadilha. Uma armadilha que todo mundo me avisava e eu ignorava. Porque eu achava que comigo ia ser diferente. Achava que seríamos sempre como dois pombinhos apaixonados. Duas crianças saltitantes, dois amantes inebriados...
Mas não. Não somos mais assim. Não escapei. Honestamente, não acho que haja escape. Acho que a armadilha pega a todos. A rotina, o cansaço, o sobrepeso da vida, essa nuvem cinza que eu nào sei como se chama, pega a gente mesmo e, quando vemos, somos gordos e velhos que nem se lembram mais o que os trouxe até aqui.
Mas não, não cheguei longe assim e, se esse destino for me pegar, ele está me mandando avisos antes. Está piscando como um email urgente na minha caixa de entrada: “Cuidado!” Será que é preciso ter cuidado? Será que adianta ter cuidado? Como evitar se for inevitável?
Por via das dúvidas, tenho tentado. Tenho lembrado algumas vezes, o que foi que nos aproximou e o que, ainda hoje, renasce cada vez que nos vemos, dormindo juntos, rosto melecado de creme, roupa de cama espalhada, pijamas velhos sobre corpos não tão jovens... E isso, qua parece só sobrepeso, de repente, no meio da madrugada, tem outro gosto. Tem o gosto de construção, de cumplicidade, de segurança, de um conforto sem fim, ainda que a cama seja dura, ainda que esteja um frio de rachar e o edredon esteja no armário.
Isso, que pode ser a nuvem cinza, também é o calor, também é aconchego e, as vezes, pode ser a tontura... A tontura de amor que pegou uma menina e um menino, quando eles nem sabiam do que isso se tratava. A tontura de um amor que, de encanto e leveza, passou a ser solidez e força. Um amor que, sim, deixou de ser uma brisa doce. Mas hoje, é tempo firme, resiste a temporais, resiste ao chumbo pesado do dia a dia e – melhor – com um pouco de esforço, um pouco mesmo talvez uma panelada de brigadeiro, talvez um perfume novo, quem sabe uma roupa diferente, qualquer coisa boba, pode tornar o chumbo pesado do dia a dia, mais divertido também, mais leve, menos penoso e mais encantador. E não é assim que é a vida? E não é isso que vale? Um ou dois momentos especiais no dia, na semana, noites e noites gargalhando, uma dança boba na sala, ou uma madrugada que se refaz, quando é possível rever o outro e lembrar-se - com amor - o que nos fez ser hoje quem somos, e o que nos faz hoje, querer ainda mais ser outro junto desse novo homem, ou junto desse velho conhecido que, de uma forma ou de outra, é quem te faz feliz.
“Vamos nos casar em 6 meses a partir de hoje e sinto, como se o tempo não existisse para nós. Estivemos sempre juntos, cada vez que eu acreditava escondida, nesse amor do Walt Disney, cada vez que eu tentava de novo, cada vez que eu esperava, era por ele que eu fazia. E sei que estaremos sempre assim. Um pelo outro, caminhando juntos. Até que a princesa aqui fique velha e use calcinhas enormes, até que o príncipe perca os cabelos e ganhe barriga, até que o romantismo nos deixe e eu volte a ser uma amargurada senhora de 27 anos... Não importa. Até que tudo aconteça, ate que os furacões e os ventos e os maremotos venham, eu sei que é esse amor, que vai sempre me reerguer.”
Já faz quase dois anos que escrevi isso, aí em cima.
Nos casamos 6 meses depois que essa menina encantada escreveu o texto acima.
Essa menina, tonta de amor, se casou com um rapaz, um jovem, também tonto de amor.
Hoje, somos um homem e uma mulher. Hoje, 2 anos depois, sou outra.
Estou com a pele mais opaca, está aparecendo em meu rosto duas fendas ao que marcam as laterais da minha boca, e sobrem até o meu nariz. É uma marca leve que quer se firmar cada vez que volto de um sorriso e fico séria. Tenho uns 2, talvez 3 quilos a mais,e sinto que minha barriga está mais molenga, meus seios mais baixos, minhas mãos mais cheia de rugas e meu quadril, que sempre foi magro magro, agora atrapalha quando vou subir uma calça.
Ainda nem tenho 30 anos, mas, nossa, como o tempo já me fez diferente de quando eu tinha 20!
Estou mais falante, mais atrevida, um pouco menos tímida e muito, muito mais briguenta.
Lendo o texto acima, vejo que estou menos romântica, mais prática.
Vivo dias muito felizes ao lado do meu marido e sou grata, muito grata por ter ao meu lado um homem que me dedica tanto amor e tanto de seu carinho. Sou grata, infinitamente grata, por ter comigo alguém que me faz rir, gargalhar até, noite e noites, seguidas vezes em que viramos tolos palhaços... Não me arrependo nunca, não me arrependo sequer por um segundo dessa escolha e desse caminho que tomei, há tão pouco tempo atrás. Mas, embora não me arrependa, as vezes, me esqueço.
Me esqueço do romantismo, me esqueço do encanto, me esqueço de usar as calcinhas boas. Ou, pior, me lembro e ignoro. Ignoro por preguiça, ignoro por cansaço, ignoro porque há tanto há ser feito em casa, no trabalho, pra minha mãe, pro meu sobrinho, pra minha chefa... enfim.
Temos quase dois anos de casados, não é muito, mas, quando revejo o filme da cerimônia, choro de saudades daquela menina magra e leve que eu era ali, gastando tubos de dinheiro para reunir os amigos e fazer uma festa bonita.
Hoje, corro pra deixar a louça limpa, checo se as janelas estão trancadas, vejo se o condôminio chegou, quando dá, confiro a fatura do cartão.
Ah hoje... Hoje fico de mau-humor e pronto, bato a porta e, as vezes, murmuro um sonoro palavrão antes de me jogar na cama, sem vontade de arrumar nada. Hoje uso um pijama velho e feio, não tiro as meias por nada no mundo, principalmente no inverno e hoje, passo creme melado antes de dormir e sinto muito, não vai ter beijo de boa noite.
É uma armadilha. Uma armadilha que todo mundo me avisava e eu ignorava. Porque eu achava que comigo ia ser diferente. Achava que seríamos sempre como dois pombinhos apaixonados. Duas crianças saltitantes, dois amantes inebriados...
Mas não. Não somos mais assim. Não escapei. Honestamente, não acho que haja escape. Acho que a armadilha pega a todos. A rotina, o cansaço, o sobrepeso da vida, essa nuvem cinza que eu nào sei como se chama, pega a gente mesmo e, quando vemos, somos gordos e velhos que nem se lembram mais o que os trouxe até aqui.
Mas não, não cheguei longe assim e, se esse destino for me pegar, ele está me mandando avisos antes. Está piscando como um email urgente na minha caixa de entrada: “Cuidado!” Será que é preciso ter cuidado? Será que adianta ter cuidado? Como evitar se for inevitável?
Por via das dúvidas, tenho tentado. Tenho lembrado algumas vezes, o que foi que nos aproximou e o que, ainda hoje, renasce cada vez que nos vemos, dormindo juntos, rosto melecado de creme, roupa de cama espalhada, pijamas velhos sobre corpos não tão jovens... E isso, qua parece só sobrepeso, de repente, no meio da madrugada, tem outro gosto. Tem o gosto de construção, de cumplicidade, de segurança, de um conforto sem fim, ainda que a cama seja dura, ainda que esteja um frio de rachar e o edredon esteja no armário.
Isso, que pode ser a nuvem cinza, também é o calor, também é aconchego e, as vezes, pode ser a tontura... A tontura de amor que pegou uma menina e um menino, quando eles nem sabiam do que isso se tratava. A tontura de um amor que, de encanto e leveza, passou a ser solidez e força. Um amor que, sim, deixou de ser uma brisa doce. Mas hoje, é tempo firme, resiste a temporais, resiste ao chumbo pesado do dia a dia e – melhor – com um pouco de esforço, um pouco mesmo talvez uma panelada de brigadeiro, talvez um perfume novo, quem sabe uma roupa diferente, qualquer coisa boba, pode tornar o chumbo pesado do dia a dia, mais divertido também, mais leve, menos penoso e mais encantador. E não é assim que é a vida? E não é isso que vale? Um ou dois momentos especiais no dia, na semana, noites e noites gargalhando, uma dança boba na sala, ou uma madrugada que se refaz, quando é possível rever o outro e lembrar-se - com amor - o que nos fez ser hoje quem somos, e o que nos faz hoje, querer ainda mais ser outro junto desse novo homem, ou junto desse velho conhecido que, de uma forma ou de outra, é quem te faz feliz.
Thursday, July 12, 2007
Direto do túnel do tempo
Se hoje não escrevo, já o fiz tanto...
Pra isso que as pessoas estocam comida, não? Pra usar qdo falta... aliás, estoquei outras dessas crônicas aqui
Minha inspiração em 27/07/2004
Do amor e do susto
Marcia encontrou Rodolfo em um dia tão nublado e feio que parecia impossível ter pessoas boas debaixo de nuvens espessas como aquelas...
Mas eles se encontraram. Entre pilhas de papel, uma impressora, um bebedouro, os telefones que não paravam de tocar. Não se notaram de imediato, ela o achou estranho com esse nome cheio de “os”, e ele a achou neurótica porque espirrava sem parar.
Vez ou outra se esbarravam nos corredores... Uma vez, um dia não tão escuro, eles se notaram. Talvez porque ele estivesse com os olhos molhados, talvez porque ela sentisse suas pernas cansadas... Eles se notaram e se abrigaram.
Imediatamente, alguma coisa dela pulou pra dentro dele e vice-versa. Algo estranho mesmo, como se fossem pulgas saltitando de um para o outro, em segundos. Mas não era. Era uma certa identificação, uma empatia, uma afinidade maior do que afinidade, um querer bem, um querer mais, qualquer coisa assim, sem nome, sem explicação...
Andaram pra longe, tendo estado tão perto. Eram as mesas e os computadores que dividiam aqueles dois. Entre os óculos eles se viam, e se falavam sem mover os lábios. Marcaram um cinema, quase que sem se falar, debateram o filme em profundo silêncio, sabiam o que havia acontecido ali, naquele espaço vazio entre eles, sem que falassem ou sem que se tocassem.
Viveram nos dias frios que se seguiram o tempo mais quente entre todos os tempos. Amaram-se, riram, conheceram-se e amaram-se de novo, dia após dias, mês após mês. No ambiente frio em que se viam, as luzes pareciam terem se acendido. Entre papéis e telefones e barulho que os outros viviam, eles fingiam que viviam, e que participavam, acordados em um outro mundo, um mundo de flores e cheiros, que só os apaixonados conheciam.
Ah, tudo aconteceu com beleza e ternura, mas não importa agora...
O que importa, nesta narrativa, foi o nada que veio em seguida. O tempo leve e alegre que dividiram juntos, não tem tanto peso quando a dureza da separação que se impuseram em seguida...
Foi numa noite comum, quando dividiam uma pizza, que Rodolfo olhou longamente pela janela da pizzaria, respirou fundo e ela notou: Ele havia fugido. Tentou pegar na sua mão, antes que ele fosse de todo, mas não deu tempo. Aquela mão ali, que retribuiu ao aperto da sua, não era mais dele, mas de outro que entrou naquele corpo vazio tão logo seu amor havia ido embora.
Não, não se trata de uma possessão diabólica e muito menos santa. Trata-se de seres-humanos assustados, um homem enorme que se porta como um menino, uma voz grave que se calou diante do pavor de ver-se, novamente, enredado pelas teias do amor, essa doçura que tantas vezes já lhe embriagara levando-o a uma dor que lhe consumiram os ossos, sem que ele tivesse escapado a tempo...
Ele fugiu, mas fisicamente manteve-se ali, pedindo mais um pedaço de pizza. Sorrindo sem-graça para Márcia que se calou, rosto branco de pavor diante do homem novo e distante que se apresentava ali, perguntando se podia pedir a conta...
Pediram. Pagaram juntos, como sempre, mas não era mais como sempre.
Ai não, ele esta fugindo, Márcia pensava quando olhava o novo homem ali, dirigindo doce e terno como sempre. Mas não era mais como sempre.
Ele havia fugido e - que pena - fisicamente tinha ficado.
Rodolfo sentia tanto pavor das cordas quentes do amor que não as suportara e, sem saber bem, saíra quando estava quase tomado...
Márcia tentou achar que estava enganada. Beijou-lhe seu melhor beijo e disse até amanhã com sua melhor entonação. Mas não tinha jeito. Ele havia fugido.
Os próximos dias foram uma sucessão de encontros e desencontros. Perseguições e sustos, perdas e surpresas, correria e cansaço.
Ela queria sair ele queria ficar, ela queria beijar, ele queria dormir... Ela queria tentar, insistentemente tentar e ele queria fugir, assustadoramente fugir....
Pois foi quando se consumou um dia o que ela já sabia: “Não sei o que houve, vamos dar um tempo, esperar, parar...” ela ouvia sabendo de antemão cada palavra do outro. Não respondeu nada.
Queria gritar, queria lhe sacodir pra trazer de volta o outro, o forte, o que se entregava, o menino que havia vivido ali, no corpo adulto já com marcas e mágoas demais para continuar...
Márcia não conseguiu. Dentro de si, dizia tudo o que queria: “Mas escuta, eu amo você, eu te faço rir, eu te faço calmo, eu faço feliz, eu te faço seguro, eu sei, eu te faço bem... Ei, olhe pra mim, eu te faço chá noite se você tiver gripe, eu te faço massagem quando você se cansar, eu te faço carinho e eu não te faço nada quando você quer silêncio...Ai, ai, olha aqui Rodolfo, Rô, sou eu a Má, sua linda que você chamava assim, que você morria de rir, que você queria ver toda hora, que você abraçava forte e esquentava no frio...” Ah ela falou tudo por dentro, gritou por dentro, mas na hora de sair uma palavra, respondeu que tudo bem, que entendia, que concordava. Respondeu o que uma outra responderia, porque ali, com o rosto branco de pavor, a pele gelada de susto, já não era ela que falava. Da mesma forma que os olhos opacos que a olhavam, os pés cansados que partiram, não era mais do homem que ela conhecera...
Despediram-se os dois, sem saber que já haviam se perdido há tempos. Quando sentiram medo, quando se lembraram, quando sentiram fraqueza... Deram adeus, sem saber que já o haviam feito, que já o haviam dito, no silêncio, nas entrelinhas, nas ausências... há tanto tempo, quando sequer se conhecia, quando sequer sonhavam um com o outro, quando temeram, quando choraram, quando um amor negado foi o frio arrebatador que congelou um deles até lhe doer os ossos.
Se perderam, se despediram, e Rodolfo seguiu vivendo uma vida morna, porque ela sim, era mais segura que o calor aconchegante do amor incerto.
Pra isso que as pessoas estocam comida, não? Pra usar qdo falta... aliás, estoquei outras dessas crônicas aqui
Minha inspiração em 27/07/2004
Do amor e do susto
Marcia encontrou Rodolfo em um dia tão nublado e feio que parecia impossível ter pessoas boas debaixo de nuvens espessas como aquelas...
Mas eles se encontraram. Entre pilhas de papel, uma impressora, um bebedouro, os telefones que não paravam de tocar. Não se notaram de imediato, ela o achou estranho com esse nome cheio de “os”, e ele a achou neurótica porque espirrava sem parar.
Vez ou outra se esbarravam nos corredores... Uma vez, um dia não tão escuro, eles se notaram. Talvez porque ele estivesse com os olhos molhados, talvez porque ela sentisse suas pernas cansadas... Eles se notaram e se abrigaram.
Imediatamente, alguma coisa dela pulou pra dentro dele e vice-versa. Algo estranho mesmo, como se fossem pulgas saltitando de um para o outro, em segundos. Mas não era. Era uma certa identificação, uma empatia, uma afinidade maior do que afinidade, um querer bem, um querer mais, qualquer coisa assim, sem nome, sem explicação...
Andaram pra longe, tendo estado tão perto. Eram as mesas e os computadores que dividiam aqueles dois. Entre os óculos eles se viam, e se falavam sem mover os lábios. Marcaram um cinema, quase que sem se falar, debateram o filme em profundo silêncio, sabiam o que havia acontecido ali, naquele espaço vazio entre eles, sem que falassem ou sem que se tocassem.
Viveram nos dias frios que se seguiram o tempo mais quente entre todos os tempos. Amaram-se, riram, conheceram-se e amaram-se de novo, dia após dias, mês após mês. No ambiente frio em que se viam, as luzes pareciam terem se acendido. Entre papéis e telefones e barulho que os outros viviam, eles fingiam que viviam, e que participavam, acordados em um outro mundo, um mundo de flores e cheiros, que só os apaixonados conheciam.
Ah, tudo aconteceu com beleza e ternura, mas não importa agora...
O que importa, nesta narrativa, foi o nada que veio em seguida. O tempo leve e alegre que dividiram juntos, não tem tanto peso quando a dureza da separação que se impuseram em seguida...
Foi numa noite comum, quando dividiam uma pizza, que Rodolfo olhou longamente pela janela da pizzaria, respirou fundo e ela notou: Ele havia fugido. Tentou pegar na sua mão, antes que ele fosse de todo, mas não deu tempo. Aquela mão ali, que retribuiu ao aperto da sua, não era mais dele, mas de outro que entrou naquele corpo vazio tão logo seu amor havia ido embora.
Não, não se trata de uma possessão diabólica e muito menos santa. Trata-se de seres-humanos assustados, um homem enorme que se porta como um menino, uma voz grave que se calou diante do pavor de ver-se, novamente, enredado pelas teias do amor, essa doçura que tantas vezes já lhe embriagara levando-o a uma dor que lhe consumiram os ossos, sem que ele tivesse escapado a tempo...
Ele fugiu, mas fisicamente manteve-se ali, pedindo mais um pedaço de pizza. Sorrindo sem-graça para Márcia que se calou, rosto branco de pavor diante do homem novo e distante que se apresentava ali, perguntando se podia pedir a conta...
Pediram. Pagaram juntos, como sempre, mas não era mais como sempre.
Ai não, ele esta fugindo, Márcia pensava quando olhava o novo homem ali, dirigindo doce e terno como sempre. Mas não era mais como sempre.
Ele havia fugido e - que pena - fisicamente tinha ficado.
Rodolfo sentia tanto pavor das cordas quentes do amor que não as suportara e, sem saber bem, saíra quando estava quase tomado...
Márcia tentou achar que estava enganada. Beijou-lhe seu melhor beijo e disse até amanhã com sua melhor entonação. Mas não tinha jeito. Ele havia fugido.
Os próximos dias foram uma sucessão de encontros e desencontros. Perseguições e sustos, perdas e surpresas, correria e cansaço.
Ela queria sair ele queria ficar, ela queria beijar, ele queria dormir... Ela queria tentar, insistentemente tentar e ele queria fugir, assustadoramente fugir....
Pois foi quando se consumou um dia o que ela já sabia: “Não sei o que houve, vamos dar um tempo, esperar, parar...” ela ouvia sabendo de antemão cada palavra do outro. Não respondeu nada.
Queria gritar, queria lhe sacodir pra trazer de volta o outro, o forte, o que se entregava, o menino que havia vivido ali, no corpo adulto já com marcas e mágoas demais para continuar...
Márcia não conseguiu. Dentro de si, dizia tudo o que queria: “Mas escuta, eu amo você, eu te faço rir, eu te faço calmo, eu faço feliz, eu te faço seguro, eu sei, eu te faço bem... Ei, olhe pra mim, eu te faço chá noite se você tiver gripe, eu te faço massagem quando você se cansar, eu te faço carinho e eu não te faço nada quando você quer silêncio...Ai, ai, olha aqui Rodolfo, Rô, sou eu a Má, sua linda que você chamava assim, que você morria de rir, que você queria ver toda hora, que você abraçava forte e esquentava no frio...” Ah ela falou tudo por dentro, gritou por dentro, mas na hora de sair uma palavra, respondeu que tudo bem, que entendia, que concordava. Respondeu o que uma outra responderia, porque ali, com o rosto branco de pavor, a pele gelada de susto, já não era ela que falava. Da mesma forma que os olhos opacos que a olhavam, os pés cansados que partiram, não era mais do homem que ela conhecera...
Despediram-se os dois, sem saber que já haviam se perdido há tempos. Quando sentiram medo, quando se lembraram, quando sentiram fraqueza... Deram adeus, sem saber que já o haviam feito, que já o haviam dito, no silêncio, nas entrelinhas, nas ausências... há tanto tempo, quando sequer se conhecia, quando sequer sonhavam um com o outro, quando temeram, quando choraram, quando um amor negado foi o frio arrebatador que congelou um deles até lhe doer os ossos.
Se perderam, se despediram, e Rodolfo seguiu vivendo uma vida morna, porque ela sim, era mais segura que o calor aconchegante do amor incerto.
Wednesday, June 20, 2007
Para você que é meu, para você que é quase eu.
Você meu amor, é meu grande desamor. Você é minha raiva mais odiosa, meu melhor grito e meu mais calmo sussurro.
Você meu bem, é meu professor mais preguiçoso, meu cobrador mais dedicado, meu amor mais querido.
Vôcê tem sido minha paz e meu recanto, um teco de esperança outro teco de cansaço. Você e minha preguiça, meu silêncio quando acabam as palavras, e minha enorme tagarelice quando elas não bastam.
Você é a paciência que eu não tenho, a dedicação que eu preciso, a paz que a ONU quer no mundo (que eles nào te achem).
Você é meu pijama mais confortável, meu lençol mais cheiroso e, as vezes, é meu sutiã mais apertado.
Você é meu descanso, meu grito de alívio, minha bomba atômica, e, vez ou outra, minha Hiroshima, Nagazaki.
Você é meu porre, minha ressaca, minha euforia e minha tarja preta.
Você é meu óculos de grau, minha direção hidráulica, meu corretivo, meu melhor kleenex.
Você é meu caminho e minha perdição. É meu guia e minha contra-mão.
Você é minha maior teimosia, meu melhor acerto, meu grande prêmio, minha mega-sena-acumulada. Minha solução e meu problema.
Você é meu ver e meu cegar, meu brilho nos olhos e meu calo nos pés.
Você é quem me faz feliz, é quem me enche a alma e me esvazia a cabeça. Você é minha música bossa nova, meu sambinha de domingo, minha caipirinha, minha cocaína e meu copo d’agua quando estou no deserto.
Você é minha dança, minha musculação. Meus braços são mais firmes, meu corpo está mais forte – do lado do avesso, inclusive.
Porque você é minha academia, meu cinema, meu farol verde e –ai – meu trânsito das 6 da tarde.
Você, meu querido, é minha grande sorte, meu melhor achado, minha pepita de ouro escondida entre a lama, meu milhão que não está na conta, meu tesouro e meu pior jargão.
Você é meu grande amigo, o inimigo dos meus inimigos, o companheiro da minha solidão, a luz que se acende na escuridão
Você é meu refúgio, meu cativeiro, minha caverna aquecida, meu cobertor e, poucas vezes, meu refrigerador.
Você, danado, é meu observador e meu observatório, minha tocaia, meu detetive, meu alvo e minha mira.
É você, seu chato, meu grande companheiro, meu mais ferrenho crítico, meu mais amoroso admirador...
Ah você. Meu bem, meu médico, meu administrador, meu vilão e meu herói, meu valente guerreiro, meu bravo companheiro, seja então esse, sempre esse, desse jeitinho assim, meu grande amor.
Wednesday, June 13, 2007
Novela da vida real
E ontem foi dia dos namorados.
Depois que se casa, muda, esse tal dia. Não é mais dia de se arrumar, se pintar, usar o melhor decote e jantar fora. Não, não há mais sentido em passar perfurme e caprichar na lingerie e nem há sentido no pequeno tremor que se pode sentir enquanto a namorada espera o namorado no térreo do seu edíficio. Em pé, roupa asseada, vida pronta de um casal que se basta no dia 12 de junho. Nada mais importa, no mundo.
Depois que se casa, dá-se atenção às filas, aos preços, ao trabalho que dá se pintar, se arrumar, se perfurmar. Algumas vezes, depois que se casa, dá-se atenção à dor no pé que causam os saltos, ao trabalho que dá pra tirar um rímel e para ficar o tempo todo murchando a barriga...
Ah o dia dos namorados passa a ser calmo e tranquilo, sem o tremor dos adolescentes, mas ainda com certa graça e alegria se nos lembrarmos de comemorar.
Eu, casada, enevelhecida e preguiçosa, arrumei a mesa, enchi de velas ao lados dos pratos, escolhi o meu melhor jogo americano e dei uma ajeitada na sala.
Temperei os filés, aqueci um pouco o queijo brie, fiz uns aperetivos, mas quando eu fui abrir o vinho me deu uma preguiça. Achei um Yakult na geladeira e devorei-o antes. Deixei o vinho pra lá. Enquanto a comida assava, fui trocar de roupa. Roupa arrumada? Ou roupa sexy? Aquela camisola rendada que nunca usei, quem sabe? Ai, hoje nào. Que ridículo tirar o frango do forno de camisola rendada, perigoso até me queimar, atrapalhar tudo sei lá. Então uso esse sapato novo, com esse salto lindo e aquela blusa de brilhinhos?? Ai vai dar uma dó lavar essa blusa, que tem que ser na mão, não pode por na máquina de jeito nenhum. E outra, não tem sentido machucar os pés pra andrar de salto fino dentro da própria casa. O pijama velho, no armário, piscou pra mim. Não, não, nào! O mínimo que eu posso fazer pelo meu casamento é vestir um jeans. E o máximo que consigo fazer dentro da minha casa é combiná-los com Havainas. E assim foi feito, antes que o frango queimasse. Ele chegou. Trouxe flores, um cartão lindo e nos beijamos. Não longamente que o “timer” do frango apitou. Corre, vê se o frango ficou bom. Lavo bem as mãos pra tirar o cheiro do tempero. Ai que água fria, está bom assim... Comida na mesa, a tv ainda estava ligada e eu queria ver o último bloco daquele programa. Só mais um pouco. Comemos em silêncio eu virando a cabeça pra assitir ao debate feminino no canal feminino. Acabou o programa, desligamos. Luzes apagadas né? Mal nos víamos na penumbra das velas, isso não tem sentido... Liga a luz vai. Olhamos olho no olho, tentando ser românticos, sorrimos como Brad e Angelina, suspiramos e viramos estátuas enquanto o letreiro começou a passar, dedicando o filme ao.... Nào. Mas quase. Lembramos da bebida. Hummm um vinhozinho, disse ele romântico. Claro, eu respondi docemente. Mas, complementei, nem gostamos de vinho, vai? Tem aquela bebida de açaí na geladeira, delícia hein?? Saí da mesa, pega a bebida traz pra mesa e, esquecemos os copos. Ele dá uma golada na garrada. Eu, humana, não aguentei a tentação e me deixei levar pelos prazeres da carne: Dei outra golada. Na boca da garrafa também. Calmà, nào era de 1 litro, era sei lá, de 500ml, achei que tudo bem...Pra que pegar copo...pensei acreditando que aquilo era supernormal.
E foi assim, bebendo açai na garrafa, com as luzes acesas apesar das velas, de havaianas e tomando cuidado pra não derramar nada no jogo americano que tivemos nosso jantar de frango delicioso e recheado, no dia dos namorados. Mas, claro, até a hora da novela só. Que era bem o dia que o Daniel ia desmascarar a Thaís!! Vamos ligar a tv, vai? Eu pedi sabendo que ele gostaria da ideía. E então, antes de passarmos pro sofá, ainda vesti meu velho e confortável pijama de moleton cinza, escovei os dentes, pus meu aparelho móvel e minha plaquinha de resina anti-mordida e assistmos as artimanhas do Daniel e da Virgínia abraçados no sofá.
Não sei se é romântico, não sei se é o certo, não sei se é o errado, mas sei que a vida assim, larga e confortável, pode não parecer bela como na Contigo! mas, vamos combinar, é boa a beça hein?...
Depois que se casa, muda, esse tal dia. Não é mais dia de se arrumar, se pintar, usar o melhor decote e jantar fora. Não, não há mais sentido em passar perfurme e caprichar na lingerie e nem há sentido no pequeno tremor que se pode sentir enquanto a namorada espera o namorado no térreo do seu edíficio. Em pé, roupa asseada, vida pronta de um casal que se basta no dia 12 de junho. Nada mais importa, no mundo.
Depois que se casa, dá-se atenção às filas, aos preços, ao trabalho que dá se pintar, se arrumar, se perfurmar. Algumas vezes, depois que se casa, dá-se atenção à dor no pé que causam os saltos, ao trabalho que dá pra tirar um rímel e para ficar o tempo todo murchando a barriga...
Ah o dia dos namorados passa a ser calmo e tranquilo, sem o tremor dos adolescentes, mas ainda com certa graça e alegria se nos lembrarmos de comemorar.
Eu, casada, enevelhecida e preguiçosa, arrumei a mesa, enchi de velas ao lados dos pratos, escolhi o meu melhor jogo americano e dei uma ajeitada na sala.
Temperei os filés, aqueci um pouco o queijo brie, fiz uns aperetivos, mas quando eu fui abrir o vinho me deu uma preguiça. Achei um Yakult na geladeira e devorei-o antes. Deixei o vinho pra lá. Enquanto a comida assava, fui trocar de roupa. Roupa arrumada? Ou roupa sexy? Aquela camisola rendada que nunca usei, quem sabe? Ai, hoje nào. Que ridículo tirar o frango do forno de camisola rendada, perigoso até me queimar, atrapalhar tudo sei lá. Então uso esse sapato novo, com esse salto lindo e aquela blusa de brilhinhos?? Ai vai dar uma dó lavar essa blusa, que tem que ser na mão, não pode por na máquina de jeito nenhum. E outra, não tem sentido machucar os pés pra andrar de salto fino dentro da própria casa. O pijama velho, no armário, piscou pra mim. Não, não, nào! O mínimo que eu posso fazer pelo meu casamento é vestir um jeans. E o máximo que consigo fazer dentro da minha casa é combiná-los com Havainas. E assim foi feito, antes que o frango queimasse. Ele chegou. Trouxe flores, um cartão lindo e nos beijamos. Não longamente que o “timer” do frango apitou. Corre, vê se o frango ficou bom. Lavo bem as mãos pra tirar o cheiro do tempero. Ai que água fria, está bom assim... Comida na mesa, a tv ainda estava ligada e eu queria ver o último bloco daquele programa. Só mais um pouco. Comemos em silêncio eu virando a cabeça pra assitir ao debate feminino no canal feminino. Acabou o programa, desligamos. Luzes apagadas né? Mal nos víamos na penumbra das velas, isso não tem sentido... Liga a luz vai. Olhamos olho no olho, tentando ser românticos, sorrimos como Brad e Angelina, suspiramos e viramos estátuas enquanto o letreiro começou a passar, dedicando o filme ao.... Nào. Mas quase. Lembramos da bebida. Hummm um vinhozinho, disse ele romântico. Claro, eu respondi docemente. Mas, complementei, nem gostamos de vinho, vai? Tem aquela bebida de açaí na geladeira, delícia hein?? Saí da mesa, pega a bebida traz pra mesa e, esquecemos os copos. Ele dá uma golada na garrada. Eu, humana, não aguentei a tentação e me deixei levar pelos prazeres da carne: Dei outra golada. Na boca da garrafa também. Calmà, nào era de 1 litro, era sei lá, de 500ml, achei que tudo bem...Pra que pegar copo...pensei acreditando que aquilo era supernormal.
E foi assim, bebendo açai na garrafa, com as luzes acesas apesar das velas, de havaianas e tomando cuidado pra não derramar nada no jogo americano que tivemos nosso jantar de frango delicioso e recheado, no dia dos namorados. Mas, claro, até a hora da novela só. Que era bem o dia que o Daniel ia desmascarar a Thaís!! Vamos ligar a tv, vai? Eu pedi sabendo que ele gostaria da ideía. E então, antes de passarmos pro sofá, ainda vesti meu velho e confortável pijama de moleton cinza, escovei os dentes, pus meu aparelho móvel e minha plaquinha de resina anti-mordida e assistmos as artimanhas do Daniel e da Virgínia abraçados no sofá.
Não sei se é romântico, não sei se é o certo, não sei se é o errado, mas sei que a vida assim, larga e confortável, pode não parecer bela como na Contigo! mas, vamos combinar, é boa a beça hein?...
Thursday, April 12, 2007
E foi de Clarice Lispector, que me lembrei enquanto escrevia o post anterior:
"Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz..."
A íntengra desse texto tão tocante e tào imperdível, eu achei aqui.
"Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz..."
A íntengra desse texto tão tocante e tào imperdível, eu achei aqui.
Tuesday, April 3, 2007
Thursday, February 22, 2007
Pisca-Pisca (original)
- A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais.[...] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.- E depois que morre? - perguntou o Visconde.- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?
[Monteiro Lobato - Memórias de Emília]
[Monteiro Lobato - Memórias de Emília]
Pisca-pisca
“A vida é um pisca-pisca”, já dizia Monteiro Lobato...
E eu tenho mesmo sentido assim. Que a vida é isso: Piscar e piscar e piscar.. A vida é um eterno abrir e fechar de olhos. Um acordar e dormir sem fim. A vida é isso, dormir, acordar, fazer coisas, dormir, acordar e fazer coisas.
Tenho achado tudo tão repetitivo... Tào repetitivo dormir e acordar e daí as atividades.
Consertar o encanamento, arrumar a tv, dirigir até o trabalho. Reclamar, checar e-mails, enviar e-mails, fazer xixi, almoçar, lavar as mãos, dirigir de volta pra casa, beber água, dormir... A vida é isso mesmo. Uma enorme rotina até pra quem não tem rotina.
Sempre há algo a ser feito. Olhar o vazamento, tirar a mancha da calca, lavar uma toalha pregar um botão. Sempre há o piscar de olhos, dormir, acordar, dormir acordar. E todo o resto. Arrumar a cama, ligar o computador, desligar o computador, instalar o windows, depois desinstalar, achar um caminho, reclamar do trânsito, se perder na cidade, se achar depois, xingar um pouco. Sentir frio, sentir calor, por casaco, tirar casaco, espirrar, coçar o nariz, se cansar, arrumar as coisas, limpar os óculos, perder um papel, perder uma roupa, perder uma receita, procurar a receita, nunca encontrar, pedir uma receita pro médico, buscar a receita, buscar OMO, Veja, ou Assim. Um eterno pisca-pisca! Pelo menos pra nós, que vivemos aqui, nesse mundo. Tem que dirigir, tem que fugir do rodízio, tem que olhar pro chão pra não pisar no cocô, tem que parar no farol vermelho, tem que comprar ingresso pro cinema, tem que achar vaga pra estacionar, tem que ver se ninguém bateu no seu carro, tem que atender o zelador, tem que ouvir a gritaria dos vizinhos, tem que pagar os impostos, todos... o IPVA, IPTU, o licenciamento, o seguro obrigatório, e as contas...todas também. Tem que pedir uma segunda via, tem que pegar fila, tem que preencher um formulário, tem sempre uma pecinha que está faltando pra pregar alguma coisa em casa. Tem que achar as coisas que se perdem sozinhas, tantas delas..achar o ticket do estacionamento, achar a chave de casa, achar a última moeda e torcer pra que seja de 1 real.... Tem que suspirar, respirar, inspirar, expirar...
Ai como cansa a vida, esse pisca-pisca sem fim. É a roupa de cama que já tinha que ter sido trocada, os travesseiros que estão no lugar errado, os cabelos que caem todos, a depilação pra ser feita, a NET que tem que vir instalar alguma coisa, ou o Santander querendo vender um cartão de crédito, ou aquela ligação que precisamos retornar... Não acaba nunca, o pisca-pisca, é sem fim, sempre dormir e acordar e dormir e acordar de novo, pra sempre, eternamente, até um dia...um dia só, onde não haverá um pisca-pisca. Não haverá mais o incansável dormir e acordar. Um dia. Dormir.
E eu tenho mesmo sentido assim. Que a vida é isso: Piscar e piscar e piscar.. A vida é um eterno abrir e fechar de olhos. Um acordar e dormir sem fim. A vida é isso, dormir, acordar, fazer coisas, dormir, acordar e fazer coisas.
Tenho achado tudo tão repetitivo... Tào repetitivo dormir e acordar e daí as atividades.
Consertar o encanamento, arrumar a tv, dirigir até o trabalho. Reclamar, checar e-mails, enviar e-mails, fazer xixi, almoçar, lavar as mãos, dirigir de volta pra casa, beber água, dormir... A vida é isso mesmo. Uma enorme rotina até pra quem não tem rotina.
Sempre há algo a ser feito. Olhar o vazamento, tirar a mancha da calca, lavar uma toalha pregar um botão. Sempre há o piscar de olhos, dormir, acordar, dormir acordar. E todo o resto. Arrumar a cama, ligar o computador, desligar o computador, instalar o windows, depois desinstalar, achar um caminho, reclamar do trânsito, se perder na cidade, se achar depois, xingar um pouco. Sentir frio, sentir calor, por casaco, tirar casaco, espirrar, coçar o nariz, se cansar, arrumar as coisas, limpar os óculos, perder um papel, perder uma roupa, perder uma receita, procurar a receita, nunca encontrar, pedir uma receita pro médico, buscar a receita, buscar OMO, Veja, ou Assim. Um eterno pisca-pisca! Pelo menos pra nós, que vivemos aqui, nesse mundo. Tem que dirigir, tem que fugir do rodízio, tem que olhar pro chão pra não pisar no cocô, tem que parar no farol vermelho, tem que comprar ingresso pro cinema, tem que achar vaga pra estacionar, tem que ver se ninguém bateu no seu carro, tem que atender o zelador, tem que ouvir a gritaria dos vizinhos, tem que pagar os impostos, todos... o IPVA, IPTU, o licenciamento, o seguro obrigatório, e as contas...todas também. Tem que pedir uma segunda via, tem que pegar fila, tem que preencher um formulário, tem sempre uma pecinha que está faltando pra pregar alguma coisa em casa. Tem que achar as coisas que se perdem sozinhas, tantas delas..achar o ticket do estacionamento, achar a chave de casa, achar a última moeda e torcer pra que seja de 1 real.... Tem que suspirar, respirar, inspirar, expirar...
Ai como cansa a vida, esse pisca-pisca sem fim. É a roupa de cama que já tinha que ter sido trocada, os travesseiros que estão no lugar errado, os cabelos que caem todos, a depilação pra ser feita, a NET que tem que vir instalar alguma coisa, ou o Santander querendo vender um cartão de crédito, ou aquela ligação que precisamos retornar... Não acaba nunca, o pisca-pisca, é sem fim, sempre dormir e acordar e dormir e acordar de novo, pra sempre, eternamente, até um dia...um dia só, onde não haverá um pisca-pisca. Não haverá mais o incansável dormir e acordar. Um dia. Dormir.
Wednesday, January 10, 2007
A mulher (do post anterior) e Fernando Pessoa
Poema em linha reta
(Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
(Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


