21/04/2004
Querido amigo,
Hoje faz um ano que nós terminamos. Nós terminamos um com o outro mas eu, senti-me terminar comigo mesma, com meus sonhos. Senti-me ruir, desmanchar, virar pó diante do vazio que minha vida estaria se tornando.
Lembro-me, como se fosse ontem, da sensação doída que tive quando desci daquele carro. Aos prantos entrei no elevador, aos prantos fechei a porta do meu quarto e, com mais lágrimas do que meu rosto podia suportar, rezei baixinho pedindo a Deus que Ele fizesse um ano se passar, para que eu abrisse os olhos e tivesse diante de mim 21 de abril de 2004, porque achava que talvez, apenas talvez, doesse um pouco menos quando não estivesse mais ali, aquele dia, aquele sol, aquele quarto, aquele cheiro, todo aquele vazio enorme, como se eu estivesse cega e só enxergasse branco....
Ah meu bem, quanta dor caberia dentro de mim ainda, e eu não sabia.
Como foram sofridas as horas que se passaram, as semanas, os meses. Lentos, arrastados, doentes.
Por tantas vezes eu achei que o tal do um ano não passaria nunca. Parecia que não cessaria a dor, não importando se amanhecia ou se anoitecia, se era primavera ou verão. Dentro de mim, um longo inverno surgiu.
Mas hoje, nem sei bem como explicar, passou.
Hoje sinto-me respirar de novo, e vejo a vida acontecendo junto com meus dias, não sou mais mera expectadora, faço parte das escolhas e das omissões de meu tempo.
Tenho, cada dia um pouco mais, certeza da decisão que tomei, firmeza no caminho que escolhi e uma certa alegria por ter feito assim.
Parece que passou o amor, ou, sei lá, aquilo a que eu chamava de amor... passou a angústia e a saudade, aquele incômodo de dor que permeava meus dias, quando eu nunca sabia se você voltaria, ou para onde iria. Hoje, percebo que você não cabe mais nos meus planos, mesmo que eu não os conheça tão bem. Você não cabe, nunca coube, na minha rotina, no meu dia-a-dia, nas minhas bobagens e nem nas minhas grandezas. Hoje, só hoje, enxergo que éramos diferentes, e que não nos encaixaríamos. Como esses jogos de criança, o Lego ou qualquer coisa assim. Você é a peça redonda e eu o buraco quadrado. Estávamos sempre a nos quebrar, a nos forçar, a nos mutilar porque queríamos o encaixe perfeito, queríamos ser a peça certa um para o outro, e por mais que nos iludíssemos que estava acontecendo, era mentira. Não seríamos nunca. A não ser que nos abandonássemos, ou nos espatifássemos em pequenos pedaços. Aí não seríamos nós, não seria eu, a menina sonhadora, não seria você, o cara independente.
E não, não estava disposta a esse amor a qualquer custo. Até porque, olhando hoje com olhos sãos, não era tanta coisa assim que você me oferecia. Não era tão grande a recompensa.
Eu tive meus erros e meus acertos, mas arrependo-me. Não me arrependo dos erros, ao contrário, deveria ter errado mais para que acabássemos antes. Arrependo-me, querido, de ter-lhe dedicado tanto dos meus dias, do meu tempo, dos meus sonhos mais doces. Arrependo-me de ter te oferecido o meu melhor em bandeja de ouro, ainda sabendo que não receberia um copo d’água sequer...
É, os arrependimentos e as mágoas que não se esvairam de todo. Por isso sei, não passou tudo. Foi-se embora o amor e a dor, mas ficou também a estranheza. Ah essa estranheza que só sentem os ex-amantes, os amores do passado, aqueles que amaram tanto a um outro e esse outro, que antes era sonho, hoje, tem de dividir espaço na ala dos mortais, dos chatos, talvez...
É querido, eu vivo com você, a estranheza. Porque não houve quem eu amasse tanto, não tinha havido ninguém a quem eu me entregasse tanto e, apesar de saber o que te faz tremer, te cumprimento com dois beijinhos, como o estranho ao lado. Sinto-me eu a estranha diante de tamanha contradição. Hoje, sei sobre você tudo. E ao mesmo tempo, não sei nada. Dividi com você, tudo. E agora, nego um gole do refrigerante porque fico com vergonha.
Essa estranheza me acompanha cada vez que ouço aí dizer que viram você. Com o novo amor ou sem, não importa. As perguntas permanecem: Para onde foram nossas noites? Em que lugar do tempo ficou guardado nossos corpos cansados, nossos segredos trocados, nossas pernas embaraçadas, os sussurrus, as lágrimas, ah... as incontáveis lágrimas que molharam seu ombro... o que houve com elas? O que houve comigo? O que houve conosco?
A estranheza caminha comigo, lado a lado, mas não me dói...
Me ensina apenas que a vida é assim, que os momentos são sempre efêmeros e estão indo embora por entre os dedos, o tempo todo. Logo que existem, deixam de existir...
Querido amigo, hoje faz um ano que enchi meus olhos d’água, senti meu corpo tremer de medo e meu coração explodir em dor....hoje, faz um ano que tomei a decisão certa.
Sei que você mudou. Notei que seus cabelos diminuiram, seu sorriso iluminou-se um pouco mais, seu corpo emagreceu e engordou e emagreceu de novo. Ouvi dizer que você mudou de emprego, comprou uma camisa, ficou gripado, tratou o canal....
Eu também mudei. De emprego, de casa, de roupa, de blog. Engordei, arranquei 3 dentes, troquei de carro, cortei o cabelo, tive sinosite, tomei uma ou duas multas e chorei no trabalho. Mas você não soube....eu achei que saberíamos tudo um do outro. Mas não sabemos mais...
E a falta que sinto não é de notícas suas. É, as vezes, de notícias minhas, de lembranças minhas, de sonhos meus, que foram atropelados aí nesse caminho por onde andei ao seu lado.
Mas não importa agora.
Um ano se passou e meu coração se encanta de novo com a vida. Com o tanto de gente que há no mundo, com as tentativas que tive, com as cores todas que existem, e com cada dia que amanhece diante de mim...
Você teve um papel importante, e te agradeço por tê-lo feito como pôde. Mal, muitas vezes. Mas eficiente para me mostrar que deve haver um bem, em algum lugar, de algum outro jeito.
Obrigada querido, por ter sido meu primeiro amor, meu grande amigo, meu fiel amante, meu desleixado companheiro, meu carrasco, e minha cura.
O tempo faz coisas. Tem feito e tem refeito.
Me derrubou e me ergueu. Agora, de pé, sinto-me tão forte que não temo mais.
Que ele, o tempo, funcione em você assim também, sendo fogo brando e sendo incêndio, com a força e com a calma com que fez comigo.
É o que desejo, sinceramente,
Ana