Tuesday, January 15, 2008

Purpurina e hipóteses


Quando eu era criança, queria ser professora. Depois, adolescente, quis ser astronauta e, já grande, quando entrei na faculdade de Psicologia, decidi que um dia seria psicóloga da NASA e, claro, teria de viajar para o espaço as vezes, em caso de um astronauta muito, muito bom ter questionamentos seríssimos e não abrir mão de sua sessão semanal nos 40 dias dele no espaço o que, obviamente, me obrigaria a acompanhá-lo até a lua e me tornaria um pouco astronauta sem que eu tivesse que mudar de faculdade.
Acontece que não deu muito certo isso e eu me tornei consultora de RH. Embora alguns clientes já tenham me proporcionado viagens inter-galácticas, (com maior frequência até, do que se eu tivesse de fato trabalhando na NASA), as vezes penso se foi a decisão mais acertada. Essas vezes são, na realidade, todas as vezes em que vejo alguém com profissão diferente da minha exercê-la com certo gosto e paixão.
O caso começou a piorar na época do Pan. Eu assistia pela TV aquelas meninas ginastas correndo, saltando a barra como se fossem plumas dançando no ar e, hipnotizada, dizia para mim mesma: Taí. Eu poderia ser uma ginasta. Eu, que nunca consegui dar um estrela, não ouso arriscar uma cambalhota, e fui incapaz até de fazer jazz, acreditava, olhando para as meninas, que eu seria melhor do que elas. Me imaginava sorridente, de coque no cabelo, um pouco de purpurina no rosto, correndo, dançando no ar e pousando lindamente no colchonete azul, braços esticados, sorriso branco, os aplausos ecoando no estádio. Talvez eu precisasse emagrecer um pouco, mas já sei fazer coques lindos e sou boa com purpurina também. Em que outra profissão eu teria de passar purpurina no canto dos olhos? Nenhuma! E eu levo tanto jeito com essa coisa de brilhos que achei que só poderia ser um sinal, estava aí a minha vida. Essa fase durou todo o pan, que eu assistia da minha cama, com um balde de M&M ao lado, uma ou outra bolinha caindo debaixo do travesseiro, sujando tudo, nada parecido com a graça e leveza das ginastas voadorar que pairavam no ar.
Mas quando acabou o Pa e eu fui visitar uma amiga na maternidade, outro fato se deu. Quando a enfermeira entrou no quarto, empurrando a caminha de acrílico com uma mini-pessoa lá dentro, tudo ficou claro! Olhei pra enfermeira e me veio a resposta: Quero ser pediatra! Claro, porque enfermeira não tem vantagem nenhuma, se é pra ser peão continuo consultora, mas já que vou mudar vou ser chefe de enfermeira, isso sim faz muito mais sentido. Eu sempre levei jeito com criança, sou paciente, gosto de branco, pronto. Tudo resolvido. Até que uma amiga me pede dicas para uma festa de casamento e, nossa, como eu nunca pensei nisso antes, sou ótima com dicas de casamento, daria uma excelente organizadora de festas de casamento, claro! Não preciso fazer outra faculdade, a minha está de bom tamanho, e só vou saber de noivas, vestidos, alegrias, risos, docinhos, forminhas, flores, fotos, penteados, convites, véus, unhas, purpurina (de novo), o que mais podia querer?
Mas a vida me chamou de volta com um e-mail aborrecido sobre uma planilha no excel e então me dei conta que talvez não possa ser mais do que sou hoje, mesmo sabendo que o que sou, não é lá grande coisa. Na hipótese tudo fica tão fácil e encantador. Imaginei, de rèpente que, talvez, alguém me assista e ache que é fácil ser eu, que gostaria de estar no meu lugar, que seria uma ótima consultora, até melhor do que eu, o que nem é tão difícil assim... Fato é que, diante do tempo que me resta, vou desistir de ser todas as outras profissões e pegar o que elas ttem de melhor. Amanhã mesmo vou vestir uma calça branca, sapatilha, e, no canto dos olhos, purpurina. Quem sabe arremato com um coque e assim, de uma forma ou de outra, chego na lua e pronto. Resolvo o problema. De lá, depois, penso no que vou fazer.

4 comments:

Fernanda Souza said...

Pois eu fui professora e agora jornalista... também já quis ser médica, hoje quero ser artista! ah tínhamos que ter muitas vidas e uma sem ser nada só para aproveitar com outras coisas :)

Mari Monici said...

Sou a favor tb..um pouco de tudo...o maridao ha de adorar a ginast, e as amigas lunaticas precisam de vc pra ir ao espaço...um pouco de cada com intervalos pro café, o que acha?

Mari said...

Oi querida!!!
Olha com toda a propriedade do mundo acho que vc seria uma ótima organizadora de casamento:-)
Aliás virtudes não te faltam, né???
Lindo texto!
Super Beijos,
Mari

Carol Barcellos said...

Enquanto vc quer outra profissão, tem gente imaginando como deve ser bom ter a sua, assim é a vida. Mas, com certeza, nunca é fácil ser a gente. Por isso, a purpurina é tão útil, às vezes, traz um brilho diferente às nossas doces rotinas.
Uma chuva de pétalas de cristal!!!