Saturday, May 24, 2008

Sozinha no Rio



Estava passando “O Salvador da Pátria” na época. Segundo a internet isso foi em 1989 e, portanto, eu tinha aproximadamente 10 anos quando o fato se deu.
Aconteceu que meu pai estava trabalhando no Rio de Janeiro por alguns dias, e minha mãe perguntou se eu gostaria de ir ficar com ele. Eu adorei a idéia e, adorei ainda mais, quando disseram que eu iria de avião, sozinha.
O plano era simples, minha mãe me levava ao aeroporto em São Paulo, uma aeroomoça cuidaria de mim até o Rio, onde meu pai estaria me esperando assim que o avião chegasse. Teria sido simples se meu pai fosse uma pessoa simples.
No dia anterior eu já estava ansiosa. Lembro que dormi mal, ou nem dormi e, de manhã, já estava vestindo a boneca que escolhi para levar comigo. Era uma boneca que eu chamava de Luciana. Ela tinha longos cabelos loiros, usava um chapéu branco e vestia um vestido xadrez azul, que combinava com os olhos da mesma cor. Eu invejava a beleza da Luciana e queria tê-la perto de mim, como se a boneca pudesse me passar um pouco da sua graça e estilo.
Foi então que, agarrada à Luciana, encontrei a aeromoça, que se agachou para falar comigo, e pendurou no meu pescoço um enorme crachá que devia ter meu nome, endereço, ou qualquer coisa do tipo. Me despedi da minha mãe, a moça me deu a mão e eu segui com ela pelo corredor que dava acesso à aeronave. Eu a moça e Luciana. Meu coração estava aos pulos, era um mundo novo que se abria ali, naquele corredor livre, apenas nós 3 andando por ele, como se eu pudesse viver assim, com uma desconhecida e uma boneca, o mundo era apenas nosso e eu sentia um misto de ansiedade e medo por perceber, em um instante que eu existia apesar da minha mãe, dos meus 4 irmãos, dos meus novos sobrinhos e de todo o aparato que me cercara durante meus longos 10 anos de idade.
O avião começou a subir e estava absolutamente encantada com as nuvens abaixo de meus olhos, um céu azul que se descobria para mim. O medo estava sendo substiuído por alegria.
Quando me foi servida a comida eu tive, talvez pela primeira vez, o privilégio e a obrigação da escolha. Ninguém escolheria por mim. Eu deveria decidir sozinha o que comer e, enquanto comia, abraçada a minha amiga Luciana, pensei, do alto do céu, que a solidão talvez fosse boa. As nuvens diante de mim, o oceano, toda uma cidade estava nos meus pes, quando eu notei que poderia ser sozinha, que poderia fazer minhas próprias escolhas, você pode ter apenas uma amiga, ela poder ser inanimada e, ainda assim, a vida continuava a existir e eu poderia ser dona da minha.
O avião pousou e a moça me pegou de novo pela mão, eu já não era mais uma menina assustada. Ali, andando com ela e com a Luciana eu me sentia uma adulta, uma mulher emancipada, dona do meu nariz, sentia-me tão cheia de orgulho e alegria, que não consegui me abalar quando percebi que, ao contrário do esperado, meu pai não estava me esperando no aeroporto.
A moça falou qualquer coisa para outra funcionária da compania, as duas se olharam sem graça, quando a aeromoça se agachou mais uma vez e disse sem-jeito: “Olha, seu pai ainda não chegou, mas ele não vai demorar. Você vai esperar com essa outra moça está bem? Eu consenti com a cabeça, e fui levada àquele balcão de atendimento onde as pessoas fazem check-in. Eu estava do lado de dentro do balcão, com os funcionários da Varig, quando um rapaz me indicou uma cadeira. Não era uma cadeira normal como as outras todas. Era uma cadeira alta, bem alta, ele teve que me erguer do chão para que eu pudesse sentar lá, e balançar meus pequenos pés acima de todas as cabeças dos adultos, que estavam de repente muito abaixo de mim. A cadeira, hoje eu vejo, era na verdade uma vitrine. Eu estava exposta no aeroporto, bem no alto, para que todos pudessem me ver. Eu era uma criança perdida, achada em algum lugar e precisaria ficar bem a vista para ser encontrada. Dali, do alto, notei que as pessoas me olhavam com pena. Algumas perguntaram para as atendentes qualquer coisa a meu respeito e elas explicavam que eu estava esperando meu pai. Os adultos me lançavam aquele olhar de pena e de solidariedade, sentindo-se talvez, apavorados por mim. Eu, no entanto, ainda vivia a experiência da solidão com segurança e alegria. Percebia que não deveria estar tão tranquila, mas simplesmente não conseguia deixar de estar bem, não sentia nenhum temor. Talvez eu até tenha feita uma cara de desespero, apenas para me adequar à situação, porque a verdade é que eu estava absolutamente tranquila, segura e feliz. Sabia, dentro do meu coração, que ele viria. Meu pai logo chegaria ali, me pegaria em seu colo, estaria preocupado e eu teria uma história de aventura para contar a todos os meus amigos. Mais uma vez, alguém pediu o nome completo do meu pai, e eu ouvi o som desse nome ecoar por todo aeroporto: “Senhor Dirceu Maciel, sua filha, Ana Carolina, o espera no balcào de atendimento da Varig”. A frase era repetida por muitas vezes, o que me faz pensar que fiquei um bom tempo ali, admirando a vida acontecer sob meus olhos. Eu gostava de ouvir o nome do meu pai sendo ecoado por aquele lugar, o nome que eu havia dito, o nome que, ela só soube porque eu falei. Se eu tivesse dito João da Silva, ela estaria repetindo João da Silva, e eu poderia até rir dela, que ninguém saberia que eu, eu decidira falar uma mentira ou uma verdade, não por medo, nem por receio, nem por angústia, mas porque eu sabia fazer escolhas.
Quase me senti triste, quando, enfim, assisti a careca do meu pai se aproximando ao longe. Como eu previra, ele estava apressado, talvez até preocupado, e me pegou no colo com todo carinho, enquanto se desculpava com as meninas da Varig.
Saímos do aeroporto de mãos dadas: eu, Luciana e meu pai. Quando senti a onda de calor, já na rua, ao lado dele, não soube se o calor vinha de fora ou de dentro de mim.
Foi no Rio de Janeiro que eu senti, pela primera vez na vida, que era uma mulher e que tinha, ao meu lado, um homem de verdade, desses que nos deixam esprando horas, fazem pouco caso da gente, mas, que nos amam loucamente e, por isso, sempre aparecem, apressados, esbaforidos, nos pegam no colo e nos levam pela mão, para nos mostrar que, lá fora, existe mesmo um mundo enorme aos nossos pés.

5 comments:

Carol Barcellos said...

Ah, não sei porque vc deletou esse texto. Eu me lembro de ter lido, e reli porque é sempre um prazer ler um texto tão delicado e nostálgico como esse. Ainda bem que vc postou novamente!

Beijinhos doces cristalizados!!! :o*

P.S. Depois vá visitar meu segundo blog: Um quarto dos sonhos. Deixei uma brincadeirinha lá pra vc!

Marco said...

Gostei daqui! Não sei, mas me identifiquei com alguma coisa... Isso sem contar no Calvin e no Chico Buarque.

Voltarei mais vezes.

bjo

João Seibert said...
This comment has been removed by the author.
João Seibert said...

Aff a 2º postagem que eu leio sua e fico abismado como tem a sabedoria de transcrever uma história que parecia boba numa história boa de ser lida.
Parabéns mesmo!!
Acho meu estilo de contar histórias parecido com o seu sabe + ainda não cheguei a seu nivel.

Bjo qdo puder passa no meu e da uma lida ok!

Pequena said...

Impressionante! Beijos.