Sunday, September 28, 2008

Auto-engano

Faz algum tempo já. Na verdade muito tempo.
Tínhamos vivido uma curta e tórrida história de amor, na qual eu tinha sofrido tanto, tanto, que me despedaçara em muitos pequenos cacos ao final de tudo aquilo. Talvez por isso eu tenha decidido fortemente que esqueceria esse homem e aquela história. Consegui. Demorou muito, mas ele passou e ficou na minha memória como alguns nuances, uns vultos, umas imagens esfumaçadas, esfareladas, nada de muito concreto.
Foi numa livraria, anos depois, que nos reencontramos atingidos pelo destino ou por uma incrível casualidade. Ficamos ali, naquela situação meio sem graça, de quanto tempo, como vai você, o que tem feito, tem visto fulano, sabe de sicrano, nossa, faz tempo mesmo né, e eu vim aqui hoje só pra trocar um livro, é eu tava procurando um, pois é, então tá, a gente se fala, bom te ver e, quando ele ia indo embora, nem sei bem o que me deu que o chamei pelo nome, uma última chamada, apenas pra fazer uma pergunta. Uma pergunta da qual dependeria a minha sanidade, já tão desafiada por aquele e outros amores incuráveis. O rapaz se virou, eu me aproximei e disse, simplesmente: “Eu inventei?”. Houve um instante de silêncio, ele não entendeu claro, e eu tentei me explicar: “Eu inventei tudo, ou aconteceu mesmo? Aconteceu alguma coisa entre nós, ou eu inventei?”. O moço, que me conhecia bem, sorriu e respondeu que sim. Que tinha sido verdade, ao menos que ele soubesse aconteceram várias coisas entre nós, provavelmente eu não tinha inventado não... Eu agradeci, dei um riso nervoso e respirei aliviada em seguida. Nos despedimos, mas, antes de ir embora, foi a vez dele me chamar então, para mostrar a sua estranheza e perguntar: “Sério? Você achou mesmo que poderia ter inventado tudo aquilo?” Fiquei sem graça. Dei-me conta do absurdo que tinha sido essa minha questão e me apeguei à última chance que tinha de parecer normal, mentindo que não. Disse que tinha brincado, que claro que eu sabia que tinha acontecido, imagine. O rapaz riu pela última vez e foi embora, sumindo devagar entre uma pequena multidão, enquanto eu me refazia de uma verdade dolorosa, tão dolorosa que eu tinha tentado apagá-la.
Hoje, relembrando essa história, penso que muitas são as vezes em que confundo imaginação com realidade. Tenho essa, e outras histórias que preferiria não ter vivido de fato. São acontecimentos tão inacreditavelmente lindos e dolorosos, que parecem não ser muito verossímeis na vida real. Eu passo meses, talvez anos, fazendo muita força para torná-los ainda mais improváveis, para fazê-los uma história de faz-de-conta, uma história de bonecos, uma da carochinha ou qualquer coisa assim. Uma história que, não tendo acontecido, não tem obrigações. Não precisa ser tratada em terapia, não precisa ser desculpada, entendida, ou nem mesmo encerrada. É um filme como outros tantos, é a Meg Ryan, a Julia Roberts, ou qualquer uma delas. Um acontecimento distante não tem o direito de doer, não pode estar assim tão próximo, a ponto de me atingir.
Agora, com o recipiente para histórias a serem esquecidas já lotado, me pergunto se há mesmo essa escapatória..
Somos aquilo que vivemos e estamos aprisionados a cada palavra dita, a cada gesto que arriscamos, a cada escolha mal feita? Acho que sim. Podemos escolher de novo, tentar diferente, mas o que está feito está ali, e, ainda que você empurre bem pro fundo a roupa suja, um dia, numa livraria, ela te pega de calças curtas, te dá um bofetão talvez, mas te faz enxergar que, além de doídas e equivocadas, talvez essas bobagens todas que você fez, possam te tornar alguém melhor, mais forte e menos burro. Se você acreditar que elas podem mesmo, ter acontecido, claro.

6 comments:

Juliêta Barbosa said...

Olá! Foi passando no blog do Fabricio que te encontrei. Ao visitar o teu me deparei com Auto-engano. Puxa, é a minha História, tão bem retratada por ti. Adorei! Vou continuar aparecendo por aqui. Parabéns, teu blog é uma delícia.

_+*A Elite in Paris*+_ said...

Somos bilhoes de pessoas na terra, mas é incrivel que uma paixao avassaladora consiga fazernos a todas o mesmo efeito :(

Gostei da tua maneira de escrever :)

Beijo meu ♥,

A Elite

Juli said...

o nosso amor a gente inventa pra se distrair mas depois a gente pensa que ele nunca existiu...

eu voltei, não estou inventando.

Giovana said...

Oi Ana, Kika,
Seu blog está entre os meus favoritos há bastante tempo e eu sempre passo por aqui pra conferir suas crônicas que eu realmente adoro. Mas hoje me deparando com esse texto e com um outro que vc escreveu sobre os sapatos eu não consegui resisti em deixar meu comentário, aliás dois comentários:
1- Sobre o "Auto engano": eu também já vivi uma história linda e dolorosa que me fez perguntar pra pessoa exatamente o que você perguntou.
2- Sobre o "Do que eu também não entendo": eu também já esperei meu ex marido ir tomar banho pra correr na garagem e pegar as compras que eu tinha feito.
Simplesmente amo o que você escreve. Aquele seu texto sobre como você e seu marido começaram o namoro é simplesmente perfeito.
Nunca nos deixe orfãs de você.
Um bjo no seu coração
Com carinho
Gi

Gabi said...

=)

minha história é parecida!
beijos

Carol Barcellos said...

Realmente, muitas das histórias que vivemos com intensidade, depois de muito tempo, parecem que não aconteceram de verdade. Mas, eu sempre prefiro acreditar que elas aconteceram, e que não precisavam ter virado apenas história...

Beijinhos doces cristalizados!!! ;o*