Wednesday, September 3, 2008

Mulheres e suas bagunças



Eu não quis parecer esnobe. E esse foi o meu problema.
Começou quando fui à podóloga. Ela insiste em não pintar o pé. Faz tudo e não pinta. Acho esquisitíssimo isso. Me lembra um pouco sabe o que né? Que faz tudo e não beija. Onde já se viu isso? Coisa mais estranha, enfia o alicate, tira a pele, sai pus, desinflama, lixa, tira a cutícula, desencrava uns nacos enormes de unha e, na hora de pintar, que seria simples, vem com essa: “Ahhh, pintar eu não pinto não...” Como se você estivesse pedindo pra amputar o seu pé. Tudo bem, obrigada, não há de ser nada, obrigada.
Daí, dia seguinte, fui aqui na manicure do trabalho e pedi se ela poderia só pintar o meu pé. Como eu nunca pedi pra fazer o pé lá, e sempre faço a mão, achei que soaria esnobe dizer que só faço com podóloga, mas ela, a Nete, serviria para pintar, e então menti. Menti dizendo que não faço o pé, só pinto mesmo, arrematei minha mentira inocente com um sorriso tranqüilo. Ah, mas pra que? Mentiras inocentes podem ser perigosíssimas... Ela disse que tudo bem, claro, mas enquanto puxava o carrinho com os esmaltes, começou um processo de me converter, que, vou te contar, nem os mais bravos evangélicos conhecem:
- Ah, mas porque você não faz o pé? Ficaria tão bom... – Ela começou de levinho.
- Mas tá ruim? Eu mesma dou um jeito nele, as vezes. - Menti na cara dura.
- Logo se vê viu?. Ta cheio de pele – Ela debochou do meu pé feito com podóloga por uma bagatela de 50 paus... Mantive a mentira:
- Não, não pode ser, eu empurro a cutícula, tiro a pele um pouquinho.
- Não tudo bem, mas se fizesse aqui, com a gente, ficaria mais bonito, imagine, um pé bonito como o seu.... E eu sou boa em fazer pé viu? Nossa, adoro!
- É mesmo, mas não gosta de fazer mão, não?
- Gosto, mas, olha, aqui tem uma pelinha – Ela pegou o pauzinho e começou a empurrar qualquer coisa que deveria ser a cutícula –
- Então, mas nem precisa empurrar cutícula não, viu? É só pintar. Também tô meio com pressa... - Tentei interrompê-la
- Não, mas só estou empurrando aqui um pouquinho, pra melhorar. Você vai ver, já dá outra cara...
- Sei... – Eu me ajeittei na cadeira, incomodada.
- Mas você nunca fez o pé, nunquinha?
- Não, eu já fiz, claro! Só que me machucaram, minha unha é meio difícil... – Arrisquei um pedaço de verdade, dizem que só a verdade liberta.
- Ahhhh, eu sabia. Tem manicure que, olha, traumatiza a cliente! Não sabe mexer, não mexe né? Eu mesma não cutuco... Faço sem mexer. Ainda mais quando a cliente diz que não quer, pronto, não quer não quer, né não?
- Ô. – Eu comecei a pensar em fugir...
- Só um minutinho, tá? - Ela saiu e, voltou, em segundos, toda faceira segurando um alicate, um sorriso bem discreto no canto da boca.
- Nete, onde é que você vai com esse alicate?
- Não, é só uma pelinha aqui. Tem uma pontinha, chega tá entrando na pele, precisa tirar viu? Senão vai é te machucar...
- Nete, é uma pele ou uma unha? Eu não gosto que mexa na unha, sabe, eu queria mesmo que só pintasse – Eu estava decidida a fugir... Mas precisaria levar os sapatos na mão enquanto corresse...
- Não, vou te explicar, olha – ela dizia enquanto mirava o alicate pro meu dedão, ajeitando os óculos – É uma pelinha. Só um tequinho aqui...Mais um pouquinho, olha lá, aqui... Nossa, mas tem pele hein? - Eu estava me irritando e respondi, ríspida:
- Nete, eu sou inteira de pele. Sou feita de pelinha, meu corpo é todo revestido de pele, vamos deixar as peles aí vai, somos mesmo assim cheeeeeios de pele, os humanos são feitos disso, é normal....
- Tá bom, tá bom. Acabei já. – Ela largou o alicate emburrada e voltou ao pauzinho, mas agora, estava com raiva, empurrava a cutícula imaginária com força, machucando meu pé phyyyno de podóloga. Eu estava tão arrependida que achei até bonita a unha sem esmalte.
- Olha Nete, acho que vou marcar outra hora e volto com calma, é que tenho uma reunião agora... Acabei de lembrar. – Arrisquei uma saída, mas Nete sequer me respondeu. Ela estava obcecada em tirar qualquer pele do meu pé e furiosa por não poder usar a sua arma. Resolvi me calar, segurar firme no braço da poltrona em que eu me encontrava, já prostrada, refém daquela mulher, ela poderia pedir que eu latisse, que eu chorasse, ou que eu fingisse de morta, tanto faz. Eu estava com tanto medo da manicure, que tinha me tornado sua escrava. E então, assim, fui torturada por uns 15 minutos, ali, na mão da Nete. Quando ela terminou, respirou fundo e eu levantei rápido, notei que minhas mãos estavam suando e disse apenas:
- Nete querida, obrigada, a mão vai ficar pra outro dia viu? – ela me olhou, sorridente, e respondeu:
- Claro meu bem, daí fazemos o pezinho inteiro também.
Juro que vi uma faísca nos olhos dela, quando acelerei com o que sobrara de meus pés, para longe dali.

3 comments:

Carol Barcellos said...

Querida, não tenha medo de ser metida, não. Diga logo: Faço o pé somente com minha podóloga. Até economizo seu trabalho aqui. É só pintar, ta meu bem?
E se ela disser que seu pé tá feio, faça vc o olhar-faísca, e diga baixinho: Não está, não; tá liiindo... ;oP
Agora, se a coisa complicar, é melhor mudar de manicure, hahaha...

Beijinhos doces cristalizados!!! :o*

P.S. Deixei uma lembrancinha pra vc lá na Rosa, espero que goste! Quando puder, visite meu segundo blog!

Anonymous said...

Conheci seu blog hoje e adorei seu jeitinho de escrever. Sincero, simples e claro foi me dando logo um friozinho na barriga enquanto desenvolvia a leitura.
Parabéns. Voltarei sempre.Um abraço. Laélia Maria

Juli said...

ta bom, eu morri de dar risada... mas voce podia ter me poupado da coisa toda da pele porque agora eu só fico pensando em toda a gente feita de pele e isso está me dando uma aflicao desgracada!