Thursday, February 19, 2009

NO AVIÃO >> Ana Coutinho

Escrito no ar e postado da Crônica do dia

Eu estava sentada na minha poltrona, absolutamente entretida na minha leitura, quando a comissária avisou que as luzes da cabine seriam reduzidas para decolagem. Pronto, um instante depois e eu não conseguia saber o que acontecera com o personagem do romance que eu tinha em mãos. Decidi então acender a luzinha individual, essa que fica acima de nossas cabeças, no teto do avião. Acontece que, quando olhei para cima, tive uma surpresa. A minha luzinha não estava lá. Havia uma luzinha exatamente sobre as poltronas da frente e havia luzinhas na linha exata das poltronas de trás. Onde estariam as minhas? Uma rápida pesquisa me fez notar que, talvez — e apenas talvez — aquelas da frente poderiam ser as minhas, e as de trás, seriam na verdade, dos detrás dos detrás. Enfim, inclinei-me cuidadosamente para acender a luz da poltrona da frente — porque achei que poderia ser a minha — e, assim que a lampadinha iluminou tudo abaixo dela, a moça que estava sentada na poltrona correspondente remexeu-se, teve um espasmo e acordou subitamente, olhando para mim como se eu tivesse feito a coisa mais absurda do mundo. Virou-se e lançou-me um olhar assassino, sem a menor cerimônia e com tanto ódio que eu cheguei a sentir-me tranquilizada por não ser permitido embarcar com objetos cortantes. O olhar maldoso da mulher foi tão assustador que desliguei a luzinha imediatamente, e ainda fingi que estava só me espreguiçando. Cocei a cabeça, desajeitada, simulando um bocejo, e ela voltou ao seu lugar, como se acalmada pelo meu pavor. Resignada, mas não vencida, pensei que quem sabe a luzinha de trás seria a minha. Mas abaixo dela dormia um senhor de bigodes, que sempre é uma coisa que deixa a gente meio desconfortável, de maneira que não tive coragem de tentar aquela de trás e fiquei lá, meio que me inclinando, forçando a vista, mas nada. Eu tinha pego várias daquelas balas de caramelo que as aeromoças oferecem e era só o que me restava. Comê-las uma atrás da outra, ansiosa para que o tempo passasse. Observei mais uma vez a moça da frente. Ela não precisava ter sido tão rude comigo, devia ser uma chata daquelas. Senti vontade de jogar um das balas duras na cabeça dela. Eu faria discretamente, ela tomaria um susto e quando se virasse para me flagrar, eu estaria com os olhos fechados, dormindo o sono dos anjos. Pensei, bolei tudo, mas não tive coragem, sempre fui meio ruim de mira, vai que acertava, sei lá, o piloto... Pensei também em chamar a aeromoça, só que, vocês sabem, a tripulação tem obrigação de desaparecer na hora da decolagem... Ao meu redor, todos dormiam, o que aumentou a minha irritação por ser a única a sentir-se com as mãos atadas, nas luzes apagadas, e absolutamente acordada. Foi quando, de repente, mexi a única coisa que podia, que eram os meus pés, e senti que a salvação viria. Ali, enroscada nos meus pés, estava a alça da bolsa da chatonilda, a da poltrona da frente, que, pra dormir melhor, deve ter deixado seus pertences no chão, sem imaginar que eles andariam com o avião acelerando. Sem nem pensar direito, comecei a puxá-la delicadamente para mim, até tê-la completamente sob a minha visão. A bolsa era dessas sem zíper, de forma que eu podia ver o que havia dentro. Uma agenda, uma caneta, uma carteira... a luz de repente não me fazia falta, eu via tudo e logo concluí que a chata devia ter TOC, tão organizada e metódica que era. Eu desconfiara desde o início. No entanto, constatar uma doença não me afeiçoou a mulher. Ao contrário, sentia-me tão ansiosa ali que resolvi fazer algo de útil. Jogar os meus papéis de balas, aquele monte de lixo, dentro do lixo mais próximo, que estava logo ali, a bolsa organizada da neurótica. Juntei todos dentro de uma mão e pronto, larguei dentro da bolsa, muito discretamente. Também pensei em escrever um bilhete: “Eu sou a luz sobre a sua cabeça, sua tonta!” Mas não tinha tempo, tampouco habilidade. Acabei por dar uma balançadinha na Louis Vitton Standcenter dela, para que os papéis fossem bem até o fundo. Quando devolvi a bolsa ao seu lugar, empurrando-a delicadamente com os meus pés, senti uma alegria e uma excitação renovadas. Foi em um instante, quando o avião decolava, que notei como pode ser bom ter 30 anos, mas sentir-se com o vigor e a astúcia de uma criança de 8.

8 comments:

Amor amor said...

Hahaha, que sensação maravilhosa mesmo! Que bom se tivéssemos oportunidades de fazer uma coisa astuta com os chatonildos que aparecem na nossa frente. E aqui pra nós: chatonildo mesmo foi o cara que projetou o avião com luzinhas tão espaçadas, hehehe...

Beijocas doces cristalizadas!!! ;o>

Mariana said...

hahahaha totalmente excelente!! vou começar a juntar os papéis...mas antes vou começar a chupar balas...beijo

Anonymous said...

Gostar de ser crianças às vezes. Aqueles acessos de risadas sobre coisas que só nós mesmos entendemos: como pequenos segredos, que fazem bem à alma e alivia-nos do stress desta vida tão louca!
Bjocas.
Betsy

Re said...

Haha..adorei...queria ter coragem de fazer coisa assim, nessas hrs sou tao certinha e boba...Bjs

Debora Bottcher said...

Esse texto é muito bom... Vc é muito levada, já falei, né?

Beijo.

Juli said...

aaaaaaaaaaaaaaahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha! e chatonilda é a melhor palavra já inventada.

Mari said...

Hilário amiga!!!
Não pude conter o meu riso...hahahaha
Bem feito para a chatonilda!
Beijos,
Mari

gg said...

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