Friday, December 21, 2007

Persista

Ouvi ontem na TV. Um jovem ator agradecia um ator experiente, por ter-lhe dado o melhor conselho que ele recebera em toda a vida. O conselho era, basicamente, persista.
Sim, persista. O ator consagrado, dono do conselho, era Tom Hanks que, de fato, devia saber o que falava.
O conselho, bobinho e facinho, serviu para mim. Serve para você, para uma amiga sua, para todos nós. A partir do momento em que nascemos, do primeiro instante até morrermos, é isso tudo o que precisamos faze: Persistir.
Um mini-bebê que acaba de nascer persiste para aprender a se alimentar no seio da mãe. Ou persiste para aprender a chupar uma mamadeira. Mais tarde, persistimos na escola, persistimos para entender as letras e o mundo, que ainda se descortina devagar diante de nós. Quando por fim achamos que conhecemos algo da vida, ela - a vida - nos dará um amor bandido, e aí a persistência, que já era enorme, ganha elasticidade e chega a tamanhos antes desconhecidos. Persistimos pelo primeiro amor. Desistimos dele, não porque deixamos de persistir. Desistimos desse amor porque persistimos por nós mesmos, pela nossa sobrevivência, pela vida que, ainda na adolescência, só mostra uma fresta do grande quando que está por vir.
Persistimos na profissão. Desistimos da profissão, porque persistimos também na nossa sobrevivência. Persistimos para ganhar o nosso sustento e persistimos sempre, até quando desistimos. Porque a desistência, por si só, não existe. Cada vez que desistimos de algo ou de alguém, é porque existe por trás uma persistência, uma teimosia por qualquer tesouro encantado que, esse sim, merece a nossa força e nossa dedicação.
Você se casa, e vive dias de absoluta persistência. Persistir num casamento é tarefa árdua, mas é lição obrigatória, não tem como faltar na aula. Uns persistem mais, outros menos. Mas é preciso persistir para se manter casado. Dia e noite, é preciso persistir sem cessar para manter vivo o que nos liga, o que nos emociona, o que nos atrai. Ah, mas e os que desistem? E os desertores, que abandonam a caminhada, deixam de persistir? Não, talvez sejam eles os que mais persistam. E persistem num sonho, numa crença, numa centelha de luz que se acende a cada noite insone, a cada vazio, a cada pequeno silêncio na mesa de jantar. É em nome dessa centelha de luz, que eles decidem persistir nos seus sonhos e crenças, e aí então, por isso, desistem. Sim, até quando desistimos, estamos persistindo...
E quando você tem filhos, faz o que? Persiste! Noites a fio vendo as crianças dormir, medindo febre, buscando na balada. O que é isso senão persistência?
Talvez por isso, em alguns momentos, a vida pareça por demais pesada. Mesmo com saúde, com alguém ao lado, com pão e leite na mesa, mesmo assim é preciso persistir. Persistir em algo e desistir de outra coisa. Escolher e persistir na escolha é aprendizado de toda uma vida, ensinamento que temos desde muito crianças mas que não nos damos conta.
E quem não queria simplesmente parar de persistir? Não necessáriamente desistir mas ficar ali, estagnada entre a persistência e a desistência. Por um segundo, por uma fração de tempo, nos descolaríamos da vida e descansaríamos um pouco. Mas não. Não é possível. Ou você persiste e puxa o ar ou persiste e solta o ar, assim é a vida.
Depois envelhece e envelhecer é a coroação da persistência. Manter o passo quando as pernas não têm mais agilidade e quando a memória não é mais confiável, é uma persistência desmedida, maior do que toda aquela, já tão gasta no decorrer de uma vida longa.
Um dia, no entanto, deixa-se de persistir. Sim, um minuto, quem sabe um segundo ou menos, e, nesse pequeno instante, em que de fato não persistimos em nada, a vida começa a acabar. Desistimos em nome de nada, desistimos por desistir, sem que haja por trás o tal tesouro encantado. Os olhos, talvez, fiquem embaçados para ver o baú reluzente, sonhar um sonho novo, tentar mais uma tentativa. As mãos não podem esticar nem se quer alguns centímetros, nada mais a buscar, nada mais a fazer, nada, absolutamente nada pelo que persistir... Aí então começamos a morrer e, talvez (eu não tenho certeza, mas talvez) essa desistência precise de certa força. Talvez seja preciso persistir na desistência porque, sim, é preciso persistir – e muito – para morrer.

3 comments:

Carol Barcellos said...

O texto é muito bom! Persistir é sempre importante mesmo. Só discordo na parte do desistir significar persistir de um modo geral. Nem sempre... Muitos desistem por parar de persistir, mesmo, por parar de ver a luz, antes, muito antes do aceitável.

Beijocas!!!

Mariana said...

é..acho que a coisa mais persistente no mundo é a morte..ela nunca desisti..nao tem como..tarefas a cumprir....
um beijo cheio de vida amiga, vida, que tb persiste

Anonymous said...

Obrigado por intiresnuyu iformatsiyu