Wednesday, February 20, 2008

Recebamos a crise

Foi numa noite, há alguns meses atrás. Acordei no meio da madrugada, e, rolando na cama, repassei meu dia seguinte. Pensei no que iria fazer, no que tenho feito, pensei no que queria de fato fazer e notei que pouco tinha a ver com as atividades que faria ao nascer do sol. Achei triste, lembrei dos meus sonhos de infância, olhei pra mim mesma por um instante e, de repente, sem nenhuma explicação prévia, me pus a chorar. Antes que eu me assustasse comigo mesma, percebi: Era ela, a crise dos 30 que estava instalada.
Ah, a crise. Eu devo ter passado pela crise da adolescência e talvez alguma outra, mas acho que a crise dos 30 é a primeira que você nota, é a primeira que você tem consciência e recebe, não de braços abertos, eu diria, mas recebe e enxerga de longe, a olhos nus a tal crise. Recebe no corpo que de repente, um dia, você nota que está diferente. Algo caindo, outra coisa espalhando, algumas linhas novas, uma bochecha diferente. É ela. A crise. É um jeito de ela telefonar dizendo que vem. Daí depois, - ou antes, dependendo da pessoa - tem a crise reflexiva. Há quem tenha menos a reflexiva e mais a física, ou vice-versa. Eu, sofro das duas. A reflexiva vem assim, no meio da noite, sorrateira, ou depois de um dia de trabalho quando você não continua digitando tudo como sempre e, ao invés disso, entre uma tecla e outra, você para e, num instante, faz a pergunta que desencadeará todas as outras: Pra que estou fazendo isso? É simples, bobo, em uma outra fase, você responderia que está fazendo isso porque é o seu trabalho e pronto. Mas agora, com a crise aí, a coisa não é mais tão simples. Agora você se mantém perguntando: “Pra que estou aqui, ralando de trabalhar, se está esse baita sol lá fora?”ou, “pra que estou aqui, preocupada com as calorias dessa geléia, se mesmo que eu beba só água por anos a fio, meu corpo insiste em não voltar atrás, por pura birra? E, a partir daí, a coisa só piora. Você nota que não fez exatamente o que queria fazer, não foi exatamente como queria ser e não se sente nada, nada, como esperava se sentir. Não, não é nem um surto depressivo, porque não é tão grave assim e isso é que torna o problema ainda mais grave. O fato de ele não ser grave o suficiente. Você não pode chamar os paramédicos, não pode pedir demissão, não pode se separar, ou se casar, ou não pode se descolar de você mesma, por alguns segundos que seja, não, não pode. Tem de continuar aí, vivendo. Fazendo o que você não sabe bem porque foi fazer, sendo quem você não tem bem certeza de ser, e vivendo como se pode. Ai, que chatice. A crise dos 30 é isso, uma chatice, porque não temos mais o ímpeto adolescente de mudar tudo e, ao mesmo tempo, não temos ainda a comodice da velhice de acharmos que tudo bem estar assim.
Ficamos, portanto, um pouco paralisadas, com muita preguiça de tudo, até da própria preguiça... Um pouco confusas, sem sabermos se mini-saia ainda rola, se corretivo passou a ser obrigatório pra todo mundo, se botox é mesmo o fim da picada, se pessoas de 20 anos estão de fato lotando todos os espaços vazios do mundo e como é que ninguém notou que a Madonna forjou a certidão de nascimento dela, e, agora, vai aparecer dizendo que está prestes a completar 50 anos... Sei... Além da Luiza Brunet, é claro, que quer acabar com a gente... Como ela consegue ser ela mesma, aliás? De certo ela é uma chata. As mais chatas nem tem crise, nem sabem o valor de uma boa crise, bem no meio da vida.
É..quem sabe ela não seja um presente. Quem sabe a crise não seja exclusividade das mulheres mais pensantes, as que se observam, as que observam o mundo e se alimentam dele ? Deve haver, junto com a crise, um ou outro presente. Deve haver junto com esse corpo novo que se desenha em mim, uma ou outra virtude que desabroche nova aqui, tinindo, direta do forno pra construir então, quem eu serei, não só aos 30, mas aos 40, aos 50... E daí, quando inventarem a crise dos 100, estarei mais esperta, mais viva e perspicaz, com alguma virtude, quem sabe duas, novinhas em folha, tinindo, saindo quentinhas do forno das crises, que – dizem – há certas vantagens em envelhecer...

4 comments:

Anonymous said...

Oi,Kika
realmente existem algumas coisas interessantes no "envelhecer" e vc só vai acreditar nisso quando chegar lá.
Primeiro muitas preocupações passam a não ter + sentido, falamos o que pensamos com propriedade e ao mesmo tempo com certa delicadeza e acredite, é muito bom a segurança que só a idade tras.
" Deus deu a cada um de nós a vida. É para cada um tomar conta da sua." Vc vai assimilar bem isso, só com a idade + avançada. Bjs Célia

Mari Monici said...

Olha amiga....coloquei nossa conversa que me pareceu futil la no blog..mas é futil nada...não creio que possam existir incompreensões para esta nossa crise...é tão obvio! Um armagedon e todo mundo segue vivendo. Valha-me! Estou buscando inspiração pra este assunto..estamos no nosso inferno astral não? beijo na beira dos 30!

Carol Barcellos said...

Puxa, faltam dois anos pra eu entrar nessa crise. Nem preciso postar nada, é só colocar um link pra cá, vc disse tudo: estar entre o ímpeto da juventude para querer mudar e o comodismo da velhice para querer deixar tudo como está.
Gostei demais do texto! Vou imprimir e guardar pra colar na minha agenda em 2010, porque apesar de saber que vou ter crise, quero estar viva pra sentir essa experiência!

Beijocas e muitas pétalas de cristal!!! :o*

Anonymous said...

Olá Kika, tudo bom?

Estou fazendo uma matéria sobre a crise dos 30 anos e gostaria de conversar com você sobre suas experiências. Por favor, entre em contato comigo pelo email naila.okita@corp.terra.com.br que podemos marcar um horário por telefone, pode ser?

Obrigada!
Naila