Sunday, May 4, 2008

Da loucura do mundo

Saí aqui com essa daí.

"O mundo está louco." Foi durante um almoço, que, de repente, meu colega de trabalho soltou essa pérola, tão comum, quase corriqueira. Ninguém deu muita bola pra ele e a conversa continou normal. Antes de dar outra garfada na salada, no entanto, ele murmurou mais uma vez: “Louco. O mundo está louco...”

Embora ninguém tenha notado a frase solta do meu conhecido, eu me ausentei daquela conversa banal por alguns segundos e me ative ao que ele dissera. O mundo está louco. Louco de pedra. Maluco, absurdo. O mundo, meus amigos, pirou. Isso me pareceu, de repente, a coisa mais sensata que ouvi nos últimos meses. A coisa mais sensata entre todas. Por um instante, me senti acolhida e compreendida por aquele colega de trabalho, cujo nome eu nem me lembro bem. Mas ele me compreendia. O mundo está louco.

Eu tentei dizer isso para o meu marido, alguns dias antes, mas ele não concordou. Estávamos no trânsito que pegamos quando voltamos do nosso trabalho e, depois de uma hora dentro do carro, quando ainda não estávamos nem na metade do caminho, eu murmurei: “Está tudo errado”. Ele não entendeu. Tentei explicar que não poderia ser certo ter uma multidão ali, aprisionada entre os carros, todos absolutamente parados, por mais de uma hora, passivos, sem que ninguém se rebelasse. Sem que ninguém saísse do carro aos berros, sem que ninguém subisse no capô, sem que ninguém, nenhum carro ao lado, estivesse se descabelando.

Meu marido achou que a louca era eu e iniciamos uma disucssão. Antes de chegarmos na metade da discussão, eu me pus a chorar... Chorei porque me senti, subitamente, incompreendida. Como poderia ser normal passar tanto da vida ali, entre os carros? Como não pedimos demissão, como não largamos tudo, como não vamos morar em uma casinha de sapê, na beira de qualquer rio? Ou então, que seja, como não vamos morar em uma árvore, na selva, como éramos antes, porque talvez fôssemos mais sentatos quando éramos gorilas?

Não, claro que não, porque isso é ser louca. A resposta estava clara, eu era louca porque eu, chorando pelas horas que perco no trânsito, sou a fora da curva, a estranha, a maluca, claro. O normal é aumentar o som, cantarolar, tavez xingar com os vidros fechados, nem sei. Nem tenho como saber, porque eu sou pirada, meus amigos. Louquinha. De pedra.

Depois aconteceu de novo, um dia desses, quando uma amiga me confidenciou que pôs botox. Na testa. Disse que é uma agulha fina, lá, direto na testa. E incha, dói, fica vermelho, roxo, nem lembro. Parei de ouvir em algum momento da conversa e refleti que minha amiga, tão querida pobrezinha, enlouquecera. Claro, só uma pessoa louca poderia se mutilar assim e, ainda por cima, pagar uma fortuna por isso. Minha amiga é jovem, linda, rica, mas é louca, a coitada. Eu não soube como dizer isso a ela, mas, em seguida, quando o restante das amigas começou a contar das plásticas, das agulhas, dos cortes, eu fiquei sem-graça e notei, mais uma vez, que eu era a louca.

Meu Deus, eu sou absolutamente louca. Sou louca de aturar a minha barriga molenga sem fazer nada contra isso. Sempre achei que barriga normal era barriga assim, meio salientezinha, como a natureza a fizera, oras. A natureza não produz barrigas chapadas, não. São os exercícios, os pesos, os remédios, as tesouras que as fazem. A natureza faz aquela barriguinha que, com o tempo, vai ficando curva, mole, barriga das loucas essa, né? Sim. Essa é a barriga das loucas, portanto, soy jo. Sou louca de comer um balde de M&M, sou louca de permitir, absolutamente passiva, que meus peitos caiam desenfreadamente. Sou louca, mais uma vez confirmei isso.

E depois ainda teve o caso da menina que os pais mataram - ou sei lá se mataram. Depois os loucos que ficam na frente do prédio deles, jogando pedras. Ah! não, louca sou eu que ainda penso que, quem sabe, os pais podem afinal não ter matado a própria filha.

E tem o padre que voou pendurado à balões, tem os políticos, tem o cara que teve filhos com a própria filha (foi isso mesmo?), tem os roubos, as mentiras, as traições, as crianças fazendo malabarismo nos sinais, meu Deus, como eu me sentia sozinha às vezes, até aquele momento. Até aquele momento em que um quase desconhecido trouxe a mim a frase que era um bálsamo. Era isso: o mundo está louco. Eu não, eu não. Eu estou livre, eu sou normal. Estou por fora, sou gordinha, enrugada, velha, estressada, mas, ai, ufa, sou normal. O mundo, esse sim, está louco. Piradão. Mundo-louco. Eu-normal.

Alguém aí me acompanha?

5 comments:

Lunna Montez'zinny said...

Sinceramente, eu acho bem mais lúcido pensar mesmo que o mundo está louco e todos nós somos sãos. Ponto final. Os outros que enlouqueceram, sobraram nós, as pessoas normais que não entendem as coisas que seguem acontecendo.
Abraços meus e desejos de uma linda semana a sua alma.

Re said...

Sim, o mundo está louco e assim como vc tb gostaria de fugir pra qq outro lugar, antes que seja contaminada por essa insanidade generalizada!!

Cris said...

Ana, estas reflexões suas não são diferentes das minhas. Aqui em casa também temos longas discussões sobre a "loucura" do mundo atual. Mas, ao contrário, o meu namorido é mais louco do que eu (rs) ele se submete menos, aceita menos, não entra no "jogo" das competições por carro mais novo, salário mais alto, cargo de mais poder, etc. Eu ainda tento compreender a loucura do trânsito, tento justificar a doidera das mulheres em ficarem lindas e magras como bonecas, entre outros absurdos.

Uma música que tenho cantado sempre em minha mente é: o mundo está ao contrário e ninguém reparou... que bom que tem gente "normal" que está vendo isto também, que bom.

Você viu o filme "O diabo veste Prada"? Outro dia eu o recomendei a uma pessoa querida, que vive tendo que bater metas no trabalho para gannhar bolsa da Victor Hugo, carteira do sei lá o que, perfume de sei lá onde. Mas acho que ela ainda não entendeu e acha que eu que sou a louca, a errada, por dar aula para crianças, receber um mísero salário que dá até vergonha de contar, perder quase três horas dentro de um ônibus diariamente, me descabelar para escrever artigos e capítulos de livros que não me darão dinheiro algum, estudar feito maluca inglês, francês e nunca ter tempo de malhar, ir ao salão, etc.

Estamos no mesmo barco, querida.

Beijos

Camilla Tebet said...

Adorei seu post. Li, reli e pensei. Sabe o que conclui: não importa quem está louco. POrque na verdade hoje loucura é calculada por essa coisa de maioria. Se a maioria faz e concorda, é normal. Se a maioria não gosta, não pega, discorda, é anormal. E assim se ditam regras de mercado, marketing, psiquiatria e tudo mais. Então talvez a maioria seja louca ou normal, não sei. Devemos é tomar cuidado para não sermos contaminados com considerações da maioria que não nos agradam o coração, que não nos dão a paz do dia a dia. Se ficar umas horas no trânsito te faz sentir mal, pronto, pra ti é loucura... Pra mim também.. e de tão louca, me trato porque não sei viver como todos vivem. Viu? Cada um com sua loucura.
Beijos e parabens pelo post.

Camilla Tebet said...

Adorei seu post. Li, reli e pensei. Sabe o que conclui: não importa quem está louco. POrque na verdade hoje loucura é calculada por essa coisa de maioria. Se a maioria faz e concorda, é normal. Se a maioria não gosta, não pega, discorda, é anormal. E assim se ditam regras de mercado, marketing, psiquiatria e tudo mais. Então talvez a maioria seja louca ou normal, não sei. Devemos é tomar cuidado para não sermos contaminados com considerações da maioria que não nos agradam o coração, que não nos dão a paz do dia a dia. Se ficar umas horas no trânsito te faz sentir mal, pronto, pra ti é loucura... Pra mim também.. e de tão louca, me trato porque não sei viver como todos vivem. Viu? Cada um com sua loucura.
Beijos e parabens pelo post.