Saturday, April 26, 2008

Pede pra sair


Era um dia de sol, quando, há mais 4 anos, fui fazer a última entrevista para uma vaga dos sonhos, numa empresa também dos sonhos.
Lembro-me com nitidez da minha tensão, um misto de alegria e ansiedade me invadiram quando avistei o grande prédio envidraçado. Eu dirigia com pressa o meu palio vermelho e logo que achei um estacionamento, entrei. Quando fui encostar o carro, já dentro da garagem, ouvi uma pancada. O manobrista que vinha na minha direção, levou as mãos à cabeça e soltou um daqueles “viiiiixi”, que confirmou o que eu previra: a pancada era do meu carro, batendo na mureta baixa que eu não tinha notado.
Antes que ele dissesse qualquer coisa eu desci do carro e falei: “Moço, não fala nada, não quero nem ver essa batida! Arrume o carro pra mim, por favor, que eu vou ali ter uma notícia boa e já volto!”. Saí em disparada pela rua, ajeitando o cabelo, a roupa e a vida.
Não levou nenhuma hora dentro do prédio e eu voltava com um papel na mão. A proposta de emprego que eu tanto queria, um salário bom, e a empresa dos meus sonhos, tudo ali, naquela folha de papel que eu levava nas mãos, com a minha assinatura validando o stress, a ansiedade, os perrengues e os foras de uma carreira ainda curta, mas que agora, enfim, iria de fato criar asas.. Eu era o retrato de uma enorme alegria e empolgação. A batida no carro não tinha a menor importância e o manobrista, certamente, nunca viu alguém tão feliz, logo após amassar o seu carro novo.
Hoje, o sol também estava quente quando passei na frente daquele mesmo estacionamento e me dirigi ao outro, na rua ao lado, exclusivo para de funcionários no qual parei tantos e tantos dias nesses 4 anos e meio. Dessa vez, eu também carregava um papel que também continha a minha assintaura. Dessa vez eu assinava algumas frustrações, muitas conversas inúteis e, sobretudo, parágrafos e parágrafos de coragem. Dessa vez, o papel era minha carta de demissão.
Talvez pelo tempo, talvez pela luz que cegava meus olhos, mas quando desci do carro e atravessei a porta de vidro, senti um gelo no estômago. O primeiro desde que eu tomara a decisão. Respirei fundo, passei meu velho crachá na catraca e chamei o elevador.
Quando me vi ali diante do meu chefe que, curiosamente foi o mesmo que me contratou, as palavras que eu tinha decorado, todas fugiram de minha boca. Por um instante fiquei muda e assisti aos meus próprios passos ali. Naquele mesmo escritório.
Em outros dias, em outros tempos. Entrando em um projeto, saindo de um projeto, aceitando um cargo diferente, participando de uma reunião chata, prendendo os lábios para não chorar depois de um feed-back honesto, mordendo as bochchas para não sorrir depois de outro feed-back, também honesto, falando alto, para todos, que eu iria me casar, que iria viajar, que iria me mudar, que iria arrancar um dente, que iria fazer uma cirurgia, que iria comprar uma bolsa, almoçar, ou começar um regime. O que quer que tenha sido, essas lembranças invadiram a minha memória em um momento nada apropriado. Precisei concentrar-me para voltar ao momento e, fazendo força para não demonstrar tremor na voz, comecei o meu discurso.
Foi uma conversa difícil. Eu não saí sorridente e saltitante. Meu carro estava inteiro quando voltei ao estacionamento mas isso também não fazia a menor diferença.
Eu sempre digo que a vida muda mas, naquela manha ensolarada, descobri que estava errada. A vida não muda nada. Nem um tico. Somos nós que, quando queremos, mudamos. Somos nós que andamos de uma ponta a outra, mesmo se nossos pés estão calejados. Somos nós que crescemos, tentamos, acertamos e erramos, mesmo quando se sente o corpo paralisado.
Eu não sou boa nisso. Nunca me considerei uma pessoa muito corajosa. Morei mais de 20 anos no mesmo lugar e estudei toda a minha vida num único lugar também. Fazer uma rota alternativa para fugir do trânsito já é um transtorno. Não sou boa com rotas alternativas. Não sou boa em sair da rota usual, mas a vida - que fica parada por anos a fio - nos dá, todos os dias, a chance de mudar. Nos mostra estradas diferentes, caminhos diversos, uma gama enorme de possibilidades que só não vemos se fecharmos os olhos com força. Naquele dia de sol, eu troquei meu caminho. Precisei de uma dose extra de coragem, de um impulso forte para me levantar do sofá confortável no qual eu poderia passar a minha vida inteira deitada.
Foi um passo difíçil de dar. Tão difícil que, agora, as horas passadas, ainda pesa em meu coração o seu impacto.
Não sei se tomei a decisão certa. Talvez eu nunca saiba. Mas fazer uma escolha, ainda que errada, me pareceu um caminho melhor do que deixar, mais uma vez, que o tempo decidisse – sozinho - por mim.

4 comments:

Mariana said...

É sério?! Querida, totalmente apoiada na frase que etrmina por concluir a decisão acertada: antes um caminho qualquer que a estagnação onde outros decidem onde vc vai estudar ou morar. A vida está nas suas mãos agora né? A gente tem 30 :)
Um beijo e boa sorte

Re said...

Amiga, nunca me identifiquei tanto com um post, como me identifiquei com o seu. Estou exatamente no mesmo lugar que vc, com a diferença que ainda nao entreguei a carta..me sinto estagnada, querendo mudar, mas falta só empurrao. Sucesso no que vc for fazer e te digo, mudanças sao sempre pra melhor.

Joyci Dias said...

Olá..tudo bem?
Me lembro da primeira vez que vi o seu blog..foi quando ele passou no fantástico, corri e acessei, amei a idéia, mas nem deixei nenhuma marquinha por aqui, porque achei que todos fossem deixar..mas hoje, estava a procura de um blog interessante e pensei neste aqui..
adorei o texto
e concordo plenamente com a mensagem que ele tráz..seria um prazer enorme ter um comentário seu em meu blog..
beeijos
Um ótimo feriado ;*

Debora Bottcher said...

Ana, querida,
Não sabia dessa sua decisão... Que distância ingrata essa da correria dos dias... Bom... Agora vc está livre pra almoçar sem pressa nem pressão. Venha me ver, quem sabe passar a tarde aqui - tem tanta coisa pra fazer! :)))) E sim, antes que eu me esqueça: não ando a 'fazer sala' pra ninguém - essa semana, então, tenho uma feira e mil coisas a organizar! -, mas te abro uma alegre exceção. :)
E que lhe venham, tanto e mais, só coisas boas, viu? Certamente, vc tomou a melhor decisão dentro do seu possível agora.
Um beijo enorme.