Tuesday, July 1, 2008

Grandeza

Ele era um desses lindos-de-morrer que todo mundo se apaixona. Eu, que estava numa fase de ser diferente, não tinha me apaixonado e talvez por isso o bonitão é que estava meio caído por mim. Tínhamos saído uma vez, duas no máximo, nos conhecíamos muito pouco quando fomos juntos a um churrasco de uns amigos em comum, numa cidade perto daqui.
Ele me buscou de caminhonete, uma caminhonete enorme que eu tive até medo de não saber entrar direito, tropeçar, bater a cabeça, ou qualquer coisa assim. Aquelas vergonhas de primeiro encontro... Pegamos a estrada juntos, e chegamos lá num esquema apenas-bons-amigos que era uma mentira enorme. Não demorou muito, talvez uma hora, quando aconteceu uma bobagem que, junto a tantas outras bobagens, pode ter mudado nossa história para sempre...
O rapaz estava jogando futebol, enquanto eu comia uma picanha sentada no murinho, entre a mulherada. De repente ouvimos um grito, um urro talvez. Quando me virei vi o meu “amigo” caído no chão, pé sangrando, e uma pequena multidão ao redor dele. Foi um acidente, desses sem maiores danos. Acontece que o moço perdeu um micro pedaço do pé, porque cortou em alguma coisa da grama quando ia dar um chute. A cena era mesmo lastimável. Uma pequena tampa de pele saia do pé dele, e eu senti uma pontada no estômago que não sabia se era pela cena, ou pelo rosto dele contraído de dor... Alguém pega uma gaze, alguém pega água oxigenada, traz esparadrapo, segura aqui, calma aí, ai, sssshhhh, dá licença, e pronto, o menino estava de pé, como um saci. Ele não conseguia encostar o pé em nada, muito menos no acelerador do carro e, não teve outro jeito, eu teria de dirigir a caminhonete de volta a São Paulo... Eu, que mal conseguia entrar no tal carro, assumi o volante como se sempre estivesse tido ali. Tentei bancar a corajosa, natural, tranqüila, queria que ele pensasse que eu tinha uma daquelas, que era como dar banana pra macaco, mas não era. O menino teve de me ajudar em várias circunstâncias. E, em uma delas, alguma coisa aconteceu dentro de mim... Estávamos quase chegando a São Paulo, eu tinha de fazer uma curva à direita pra entrar na Av. Pacaembu mas ninguém me dava passagem. Eu tentava entrar, e os carros teimavam em me interromper passando velozmente pela minha direita. Enquanto eu olhava para o espelhinho, numa força danada pra entrar sem bater o carro do cara, ele me olhou e disse: “Pode ir...” Eu fiquei sem-graça e expliquei: “Mas, olha, está cheio de carros, ninguém está deixando” ao que o bonitão sorriu: “Mas você é grande, pode entrar aí, vai, segue, vai que você é grande...”
Era óbvio que ele estava falando da caminhonete. Claro, eu dirigia um quase caminhão como se dirigisse meu Palio, sem perceber que nela eu era maior, poderia entrar que os outros parariam por mim e, ao ouvi-lo dizer: “Pode ir que você é grande” fui tomada por um sentimento tão cheio de grandeza e poder, que poderia estar a pé, e os carros parariam por mim. Achei subitamente que eu era mesmo grande. Não o carro. Eu é que era grande, eu poderia seguir para onde quer que fosse, porque era grande e nada iria me impedir...
Aquele menino lindo-de-morrer, virou meu marido e, muito disso, foi por ter me feito sentir gigante quando eu me achava pequena.
Ainda hoje, quando me sinto insegura, desconfortável, ou até inferiorizada, lembro-me daquele mocinho, apenas um moleque era o meu amor naquela época, mas, tão sabiamente (ou intuitivamente?) já conduzia a companheira dele pelas mãos, incentivando, empurrando para frente, apoiando.
No nosso casamento, vira e mexe discutimos, temos as nossas diferenças, mudamos tanto, todos os dias sempre um pouco mais. No entanto, em qualquer situação, sempre que preciso, recorro àquela voz de menino, àquele rapazote firme que me dizia sorrindo: “Pode ir. Pode ir que você é grande” e, de repente, os obstáculos todos caem por terra. Não há carros que me impeçam. Não há medos que me interrompam. Eu não preciso esperar que os outros me dêem passagem, eu posso seguir adiante, no meu caminho, porque sou grande o bastante e isso aprendi em uma tarde de domingo, com um homem que tinha uma tampa de pele solta em seu pé. Ele me apoiou e eu me apaixonei. E a vida não é simples assim?

8 comments:

Juli said...

ai, que bom que ce ta escrevendo!!
saudadona!
de firenze.
ce sabe do blog de viagem?
aqui: www.umbrais.blogspot.com

fernandasouza said...

Que hisória fofa :)

Agora já sei de onde tu é... Não possso nem imaginar o que seja dirigir em Sampa!! :o

Débora. said...

adorei o blog.
de verdade, adoro esses texto qe expressão sentimentos, e adoro blogs pessoais.
:)

Camilla Tebet said...

Querida, é sim! eu acho que é simples assim. Quem pode dizer que não!
Beijos pra vc.

Carol Barcellos said...

Tão bom quando é simples assim...amei sua história!!! Parabéns aos dois, por continuarem a ser grandes juntos, em todos os momentos!!!

Beijos doces cristalizados!!! :o*

Anonymous said...

Que lindo! Adorei!

Mariana said...

Simples assim :)

Bruna Gregolin, brunagregolim@hotmail.com said...

Nossa, lindo mesmo. Tu escreves muito bem!

Modernista, estilo Vinicius. Correta e cheia de emoção.

Lembro de ti, apareceste no Globo Repórter!

Beijos carinhosos. Bruna