Saturday, April 4, 2009

Diferenças

Mal posso acreditar que já faz 5 anos que escrevi isso. Eu existia, há 5 anos?

14/12/2003
Tenho diferenças entre mim e mim mesma...
Meu pé esquerdo é mais esparramado que o direito,
Meu peito direito é menor do que o esquerdo,
Já entre as mãos há diferentes habilidades:
Com a esquerda eu escrevo, com a direita arremesso.
A sombrancelha direita tem mais pelo, a esquerda, porém, é mais longa.
Quando sorrio nasce uma covinha do lado esquerdo, enquanto o outro permanece inteiro e cheio.
Quando choro é só um olho que derrama lágrimas. O outro fica fingindo que chora enquanto vê o mundo claro.
Quando sinto cheiro é pelo lado direito, que o esquerdo anda sempre entupido.
Tenho diferenças entre mim e mim mesma.
Como se aqui morassem duas,
A da esquerda é mais gorda, a da direita mais seca,
Um lado com muitos pelos, outro, com muitas falhas,
Uma parte esparramada a outra espremida.
Alguém que respira, alguém que sufoca.
Ninguém sabe, ninguém nota que as duas, teimosas, crescem para lados diferentes, enxergam as coisas de forma distintas e sofrem ou alegram-se sozinhas, cada uma do seu lado, cada uma do seu jeito.
As duas fazem as diferenças que tenho de mim, comigo mesma.
Por culpa delas sou assim, contraditória. Grande e pequena, cheia e vazia.
Por culpa delas não sou nada, sou tudo, muito e pouco, céu e inferno, barulho e silêncio.
Quem, com pés diferentes, não tropeça?
Quem com mãos opostas, consegue segurar firme?
Nem eu, que conheço as duas e traço o caminho, sigo o rumo, passo a vida tentando apresentá-las uma a outra, suas metades, esperando que digam: “Olá, muito prazer, somos vizinhas, quer entrar?”
Mas não. Ora sou uma, ora outra. Ora acho isso, ora isso é uma tontice. Ora avanço, ora recuo. Não sou sempre eu. Sou eu e, do outro lado, aqui, em algum lugar, eu mesma.

2 comments:

C. S. Muhammad said...

Então seus textos já eram tão bons há 5 anos(ou mais)? Estas duas podem até ser teimosas, mas se entendem bem na hora de colocar palavras juntinhas.

Amor amor said...

Olha só que beleza de texto seus leitores estavam perdendo. Olha, acho a Martha Medeiros demais. Mas, gostaria de mais uma página na Revista O Globo, e tinha que ser sua. Poderiam tirar os horóscopos, a propagandas desnecessárias, e colocar ali as palavras que realmente alimentariam a mente do leitor. Aquelas que nos provocam um sorriso qdo são ruminadas. Num dia e numa hora qualquer, sem esperar, a gente lembra e sorri, pq estas são palavras que ficam, e nunca ocupam espaço demais a ponto de não sobrar para o próximo texto!
Parabéns mais uma vez!!!

Beijinhos doces cristalizados, e um excelente fim de semana!!! ;o*