Thursday, June 11, 2009

Papel bolha

Na cônica do dia...

Acontece todo inverno. Os lábios ressecam, viram pelinhas duras e irresistíveis, tal qual papel-bolha. Quem consegue não estourar?
Eu passo inverno com a boca machucada, solta uma pelinha e sinto um misto de alegria e tristeza. Vai doer, mas vou puxar. Seguro devagar com meus dentes e, sem que ninguém note, arranco. “Ai” falo para mim mesma, para que fui fazer isso? Por estupidez, de certo. E é assim na vida, não é?
Quantas dores causamos a nós mesmos, em nome de um possível benefício?
É assim no amor. Principalmente no cruel e frio amor não correspondido.
Uma amiga de quem gosto muito vive essa dor. Sabe que não vale a pena, sabe que ele é um canalha, um cafajeste, mas dá-se sempre a chance de mais uma saída, mais uma tentada, um último telefonema. Sabe que vai doer. Talvez ele nem apareça, mas arruma-se toda e encanta-se com a imagem apaixonada no espelho. Os minutos ao lado de seu amor são doces e breves, um encanto, sempre seguido de uma dor. Ela vive um instante infinito de calma alegria quando está nos braços de seu príncipe, para, em seguida, ver o tempo bom já finito, e sofrer tal qual no inverno congelante, onde não há cobertas que cheguem. O amor não correspondido é o mais terrível dos frios, um inverno longo e gelado de onde, parece, nunca poderemos sair. Ela sofre, chora, por que fui fazer isso? Pergunta-se, diante do coração sangrando. Por que fui acreditar, por que fui me arrumar, por que gastei todo esse dinheiro com roupas, por que toda essa maquiagem, por que o perfume novo, porque a esperança, por que, por quem, por que? Ela maltrata-se e vê-se agora, estúpida diante do espelho. Burra como só uma mulher apaixonada pode ser. Burra como só uma ansiosa diante da pelinha solta no lábio...
Depois disso, sempre jura que vai evitar. Olha o telefone tocando e joga consigo própria: “Não vou atender, não vou atender”, diz firme, como se passasse manteiga de cacau na boca. Em seguida, quando ele liga de novo, já é o lábio seco, a pelinha, tentadora, muito perto dos dentes. Ela hesita: “se tocar mais uma vez, é porque é para eu atender, se tocar só mais essa vez, mais a próxima, é o destino se tocar de novo.... Alõ!” ela diz, já com o coração aos pulos. É a dor do amor. Mas, que duro é um amor de desencanto, um amor de sofrimento, um amor de mentira. Ela delicia-se com a voz dele, com os elogios, com as brincadeiras, mas sabe que, em seguida, estará sangrando arrependida.
Porque fazemos isso? Porque roemos unha, porque fumamos, porque nos entupimos de doce, porque diabos arrancando essa maldita pelinha toda vez, porque mordemos a língua, a boca, sempre naquele lugar já machucado, porque morremos de amor, sempre com aquele sonho, já tão cansado?
Talvez, porque sejamos otimistas. Mais do que qualquer animal, somos insistentemente tolos. Ainda bem que há manteiga de cacau e, ainda bem que há edredons... Cedo ou tarde, daremos valor ao que pode, em algum momento, nos curar...

3 comments:

Amor amor said...

Aninha, querida, "odeiooooo" quando vc escreve tudo o que eu sinto, e parece que estou me vendo diante do espelho, e me chamando de idiota, hahaha...
Você continua brilhante!

Beijocas doces cristalizadas!!! ;o)

C. S. Muhammad said...

Realmente brilhante! Amo MUITO seus textos e a forma como escreve.
Beijos

Ju** said...

Lindo!
Pra mim somos todos masoquistas...rs
Bjs