Wednesday, September 9, 2009

Do baú

Escrevi esse texto em 2005 e o achei aqui, perdido no meu computador, hoje.
Mal posso acreditar que mudei tao pouco em 4 anos...


Patinação

Levei meus sobrinhos para patinar, no último final de semana. Entramos, os 3, animados no ringue de patinação, mas logo vi que a coisa não era apenas divertida.
Eu, pessoalmente, comecei com aquele medo de todo mundo. Dei algumas voltas na pista segurando na barra. Não tinha tanta graça. Olhei as pessoas se arriscarem longe do apoio e ri com as que se estrepavam no chão molhado. Elas também riam. As vezes. Houveram as que choraram, as que ficaram sem jeito. Todas levantaram. Algumas desistiram. De qualquer forma elas tinham tentado.
De repente me dei conta de que o legal era tentar. Queria ficar com a calça molhada, encher-me de coragem e ir rumo ao meio da pista. Mas eu sentia medo. Sentia medo de cair e não levantar mais. Sentia medo de todo mundo rir. Sentia medo de doer meu bumbum, de dar mau-jeito na coluna. Sentia medo de cair, e voltava pra barra... sem perceber que poderia passar a minha vida inteira assim.
Quem é que não conhece alguém que vive a vida, sempre se segurando na barra? Sempre querendo o estável, o seguro, o previsível. Alguém que nunca está sem guarda chuva, não anda com os pés descalços, não fica sem um trocado no bolso, não troca nunca, o certo pelo duvidoso.
O meio da pista de patinação era o duvidoso. A barra, era o certo. Mas qual é a graça de viver sempre na barra? Era muito mais fácil.
É tão difícil nos jogarmos no sonho, nos atirarmos rumo ao risco, de peito aberto, sabendo que o chão está logo ali, nos atraindo para um tombo fenomenal...
Puxa vida, quanto tempo tenho até entender que não há nada demais em molhar minha calça? Cair não é tão grave assim, pensei num instante. Até os que desistiram e saíram da pista aos prantos, ganhavam a minha admiração. Só os covardes é que saiam de roupas secas. Só os covarde não dão mau-jeito na coluna.
Na vida afora, esses covardes não me inspiram, não me alimentam, não me animam.
Na vida afora, tenho sido um desses covardes.
Desejei, por um instante, ser brava e forte como uma criança, que, enorme, consegue tentar por uma deslizada só. Desejei ser uma gordona, que sai na video-cassetada, porque achou que ia dar certo. Desejei ser uma tonta, uma anta, dessas que a gente vê na TV e comenta: “É óbvio que não ia dar certo, que tonta!” pois bem, só os tolos tentam e, ainda que raro, acho que são os tontos que aprendem a patinar....

2 comments:

Nane Cabral said...

Olá, cheguei ao seu blog através do Rainhas do lar e gostei bastante dos seus textos. Bjinho, Nane vovoqueensinou.blogspot.com

C. S. Muhammad said...

Ana, já senti isso tudo na pele uma vez. Que bom que passou e sobrou este texto bem escrito para contar.